Três dias se passaram desde que deixei minha casa às pressas, buscando refúgio na casa do meu amigo. Durante todo esse tempo, a imagem de Max em pé, sobre duas patas, com aquele olhar fixo e aquele sorriso macabro, não saiu da minha mente. Cada vez que fechava os olhos, lá estava ele, imponente, observando-me com uma calma aterradora, como se estivesse esperando o momento certo para atacar. Mas, enquanto o tempo passava, uma outra questão começou a crescer dentro de mim: onde estava o verdadeiro Max? O Max que eu conhecia, meu melhor amigo, meu companheiro de todas as horas? A ausência dele, mais do que qualquer outra coisa, foi o que começou a corroer minha sanidade.
Na primeira noite longe de casa, mal consegui dormir. A cada barulho ou sombra na casa do meu amigo, eu me sentia novamente naquela cozinha, diante da criatura que tomou a forma do meu cachorro. Não era só o medo do que vi, mas a incerteza do que poderia acontecer a seguir. Era como se eu estivesse sendo observado o tempo todo, como se a criatura pudesse aparecer a qualquer momento e concluir o que começou. Mesmo nos braços da segurança oferecida pela casa do meu amigo, eu não conseguia escapar daquela sensação sufocante de que algo estava profundamente errado.
Meu amigo, claro, tentava entender o que havia acontecido, mas como eu poderia explicar algo tão bizarro? "Eu vi meu cachorro em pé, sobre duas patas, me olhando como se fosse... humano", eu disse, e, como esperado, ele olhou para mim como se eu estivesse enlouquecendo. "Cara, talvez você tenha visto errado. Devia estar cansado. Max é só um cachorro, não tem como ele ter feito isso", ele disse, com um tom que tentava ser reconfortante, mas que apenas aumentava minha frustração. Eu sabia o que havia visto. Eu sabia que aquilo não era Max.
Ainda assim, o medo e a dúvida começaram a tomar conta de mim. E se tudo isso fosse uma ilusão da minha mente? E se, de alguma forma, eu estivesse alucinando? A ideia me aterrorizava quase tanto quanto a própria criatura. Mas havia uma prova. A foto que tirei. Aquela foto seria minha âncora à realidade, minha forma de provar que o que eu vi não foi fruto da minha imaginação.
Na segunda noite, tomei coragem e decidi verificar a foto no meu celular. Precisava vê-la, precisava confirmar para mim mesmo que aquilo realmente aconteceu. Minhas mãos tremiam enquanto desbloqueava o aparelho e deslizava pela galeria. Meu coração disparou enquanto a imagem carregava. Lá estava. Max, ou o que parecia ser ele, em pé, no meio da cozinha, me olhando. Mas a foto, de alguma forma, não capturava o terror que eu senti naquele momento. Era uma imagem simples, com pouca luz, e, no papel, poderia parecer apenas um cachorro em uma pose estranha. Não havia o olhar frio e sem vida, nem o sorriso distorcido que eu lembrava. No entanto, algo na imagem ainda era profundamente perturbador. A sombra ao redor da criatura parecia densa, quase como se estivesse se movendo.
Eu sabia que precisava voltar para casa. Não podia continuar fugindo para sempre. Se eu quisesse respostas, precisaria encarar a realidade do que estava acontecendo. Na terceira manhã, decidi que era hora de voltar. Meus pais já haviam ligado algumas vezes, preocupados por eu ter passado tanto tempo fora, e me senti na obrigação de explicar a situação, mesmo que de forma vaga. Disse a eles que algo estranho aconteceu com Max e que eu precisava de tempo para processar. Claro, não entrei em detalhes. Sabia que, se contasse a verdade, eles provavelmente me achariam louco. De qualquer forma, estava decidido a enfrentar o que quer que fosse.
Quando finalmente voltei para casa, a sensação de desconforto era palpável. A casa parecia diferente, quase como se estivesse mais escura, mesmo com a luz do dia entrando pelas janelas. Max não veio me receber na porta como sempre fazia. O silêncio era opressor. Procurei por ele em todos os cômodos, mas não havia sinal de meu cachorro. Nada. Nem ao menos vestígios de que ele havia estado ali durante minha ausência. Senti um vazio esmagador. Onde ele estava? O que tinha acontecido com ele desde aquele momento horrível na cozinha?
Desci até o quintal, ainda chamando por seu nome, mas a única resposta que recebi foi o sussurro do vento entre as árvores. Meus pais ainda não haviam voltado, e o silêncio da casa só piorava a situação. Foi então que ouvi passos atrás de mim. Meu coração deu um salto e virei-me imediatamente. Max corria em minha direção, abanando o rabo como sempre fazia. Um alívio temporário invadiu meu corpo, mas uma sensação inquietante logo tomou conta de mim. Olhei para ele, para seus olhos, e o reconheci. Ele parecia ser o Max de sempre. Mas, ao mesmo tempo, algo não estava certo. Havia algo em seu olhar que não consegui decifrar.
Olhei ao redor, tentando entender o que poderia estar acontecendo, quando vi algo que me paralisou. No chão, a poucos metros de mim, jazia um corpo. Era o corpo de Max. Ou melhor, o que restava dele. Sem cabeça. Sem patas. Apenas uma carcaça despedaçada. Meus olhos saltaram de horror enquanto eu tentava processar o que estava diante de mim. Como aquilo era possível? Se Max estava morto no chão, o que era aquela criatura que agora se aproximava de mim, parecendo idêntico a ele?
Aquele não era meu cachorro.
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Atualizado até capítulo 41
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