Barulhos Estranhos

O silêncio era espesso como névoa. A televisão ainda piscava na sala, mas eu mal ouvia o que passava na tela. Tudo que dominava meus pensamentos naquele momento era o som. Pequeno, quase imperceptível, mas estranho o suficiente para me deixar em alerta. Ele vinha da cozinha. No início, pensei que poderia ser apenas Max fuçando em algo ou se movimentando em busca de comida. Isso seria comum, nada para me preocupar. Mas havia algo naquele som – era diferente, sutil demais para ser apenas um cachorro mexendo nas coisas.

Levantei-me do sofá com a sensação crescente de que algo estava errado. Conforme me aproximei do corredor que levava à cozinha, o som ficou mais claro. Não era apenas um barulho de passos ou algo arrastando. Era uma mistura de batidas suaves e algo que parecia… arranhar. Meus instintos me disseram para parar, mas minha curiosidade me levou adiante. Max ainda não havia voltado, e eu o chamei pelo nome, esperando que ele surgisse, abanando o rabo como de costume. Nada. O silêncio após o barulho era ainda mais perturbador.

A cozinha estava escura, com apenas a luz fraca da lua atravessando a janela e projetando sombras pelas paredes. Parecia fria, quase hostil. De imediato, não vi Max, e meu coração acelerou. “Max?”, chamei novamente, a voz mais tensa desta vez. Ouvi algo se mover perto do canto, mas não consegui ver o que era. Meus pés estavam congelados no chão, meu corpo dividia-se entre o impulso de avançar e a vontade de recuar para o sofá, para a segurança que a sala parecia oferecer.

De repente, uma figura emergiu das sombras. Max. Meu coração, que estava acelerado, desacelerou por um momento. Lá estava ele, meu fiel companheiro, parado ao lado da mesa, como se não tivesse ouvido meus chamados. Mas algo estava errado. Muito errado. Meu corpo reagiu antes mesmo de minha mente processar o que estava vendo. Ele não estava nas quatro patas como um cachorro normal. Ele estava ereto, sobre duas pernas.

Por um instante, não consegui entender o que meus olhos captavam. A imagem parecia uma ilusão, uma distorção da realidade. Max estava ali, mas não era o Max que eu conhecia. Seus olhos estavam fixos em mim, frios, quase vazios. O jeito como ele se movia, como ele me olhava, tudo me fez gelar até os ossos. Não havia qualquer resquício da alegria ou energia que sempre o acompanhavam. Ao invés disso, ele estava parado, rígido, como se estivesse observando, estudando. E então, antes que pudesse reagir, um sorriso se formou em seu focinho.

Aquele sorriso. Não era um sorriso de cachorro. Não era natural.

Cada parte do meu corpo gritava para eu fugir, mas fiquei ali paralisado, encarando-o, tentando encontrar alguma explicação racional. Talvez fosse apenas o meu cansaço pregando uma peça em mim. Talvez Max estivesse tentando me mostrar algo, mas meus olhos estavam turvos pela adrenalina. No entanto, aquele sorriso estranho permaneceu, e quanto mais eu olhava, mais distorcido parecia. Então, num ímpeto de instinto, tirei meu celular do bolso e tirei uma foto. Não sei por que fiz isso. Talvez quisesse uma prova do que estava vendo, algo para me lembrar de que aquilo realmente aconteceu.

A luz do flash iluminou brevemente a cozinha, revelando o olhar vazio e fixo de Max – ou o que parecia ser ele – olhando diretamente para mim. Aquilo foi o suficiente para me fazer correr. Sem pensar, sem questionar, eu saí da cozinha e disparei em direção à porta da frente. O som das batidas e arranhões pareceu ecoar novamente atrás de mim enquanto minha respiração se tornava cada vez mais pesada. Corri como se minha vida dependesse disso, e talvez dependesse mesmo.

Naquele momento, a realidade do que eu tinha visto se misturava com o medo. Eu sabia que aquela criatura, aquela coisa que se parecia com meu cachorro, não era Max. Não poderia ser. Mas o que era? Minhas pernas me levaram até a casa do meu amigo, onde eu finalmente me tranquei e tentei entender o que havia acabado de acontecer. Eu estava seguro, mas minha mente não estava em paz. A imagem de Max em duas patas, me encarando com aquele sorriso distorcido, não saía da minha cabeça.

O que eu tinha acabado de ver não fazia sentido, e ainda assim, era real. Eu estava sozinho com essa verdade horrível e sem respostas. Tudo o que eu sabia era que a criatura na cozinha não era meu cachorro. O Max que eu conhecia estava desaparecido, e, naquele momento, eu não sabia se algum dia voltaria a vê-lo.

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