O Jogo Revelado

O silêncio do corredor era quase opressor enquanto eu caminhava, cada passo um lembrete de que algo fundamental havia mudado. A noção de que eu sabia o que estava por vir, que o destino estava em minhas mãos, me inundava com uma mistura de ansiedade e determinação. Já não era mais o vilão que simplesmente aguardava sua queda, passivo diante dos acontecimentos. Agora, com cada segundo que passava, eu me via como um jogador, consciente das peças que compunham o tabuleiro.

A sensação de poder era inebriante, mas também havia um risco em cada movimento. Eu sabia exatamente o que aconteceria se seguisse o caminho original. O herói sobreviveria à tentativa de assassinato, o Duque consolida seu poder, e eu seria o vilão derrotado, odiado e esquecido. Mas e se… e se eu pudesse mudar esse resultado?

Meus pensamentos fervilhavam com planos, estratégias. Sabia que, para alterar o curso dos eventos, precisava agir de forma sutil, testar os limites sem alertar os outros de imediato. O que aconteceria se eu interferisse? Seria possível desviar o destino, ou estaria apenas atrasando o inevitável?

O som distante de passos apressados me tirou de meus devaneios. O primeiro teste do meu novo papel estava chegando. Era a criada do Duque, indo em direção ao quarto do herói, onde ele estava sendo levado inconsciente. Eu sabia que ela era leal ao Duque, que suas ações estavam sempre de acordo com os planos daquele manipulador de poder. Ela entregaria o herói ao destino que, ironicamente, o salvaria. Era aqui que eu poderia interferir pela primeira vez.

Escondido na penumbra do corredor, esperei que ela passasse por mim. Seu rosto estava pálido, seus olhos arregalados. Ela não sabia, mas estava levando o herói ao início de sua jornada gloriosa. A ironia de tudo aquilo me fazia quase rir. No entanto, eu não podia ser impetuoso. Precisava jogar com cautela.

Com um movimento rápido, silencioso como uma sombra, me aproximei por trás e a parei, segurando firmemente seu braço. Ela se virou, assustada, com os olhos arregalados de surpresa. "O que está fazendo?", sussurrou, sua voz cheia de pavor.

"Você não pode levá-lo até lá", disse, sem pestanejar. "Ele precisa ir para outro lugar. O Duque não pode saber." Era um risco enorme, mas esse era o tipo de movimento que definiria tudo.

Ela hesitou, seus lábios tremendo. Sabia que não tinha poder diante da palavra do vilão. "Mas... mas o Duque..." gaguejou, claramente aterrorizada com a possibilidade de desobedecer.

"Não questione", repliquei, meus olhos fixos nos dela. "Diga que fui eu quem ordenou. Se você seguir o plano original, a sua vida será tão desgraçada quanto a minha." Minha voz estava fria, carregada de uma certeza inabalável. Estava jogando com a mente dela, com seus medos, plantando a semente da dúvida. Se eu pudesse controlar essa primeira peça, o tabuleiro começaria a se inclinar a meu favor.

Ela hesitou por mais um momento, depois, finalmente, assentiu. "Como desejar, meu senhor", disse com a voz trêmula. Sem mais palavras, a criada desviou o caminho e seguiu na direção oposta, carregando o herói para um lugar onde o Duque jamais o encontraria.

Suspirei profundamente, o primeiro teste havia sido superado. Mas aquilo era apenas o começo. Sabia que, embora tivesse conseguido manipular um pequeno evento, as consequências desse ato reverberam por todo o reino. O destino é como uma teia, e ao puxar um fio, todos os outros se movimentam, ameaçando desfazer a estrutura.

Ainda assim, havia uma estranha satisfação em saber que o jogo estava em minhas mãos agora. Cada movimento precisava ser calculado, cada palavra, um passo em direção à minha liberdade do papel que me foi imposto. Eu não seria mais o vilão previsível, não aquele destinado à ruína. O herói havia sido salvo, mas isso significava que a trama inteira havia sido deslocada.

Enquanto eu me afastava do corredor escuro, a gravidade da minha decisão começou a pesar sobre mim. O Duque notaria a ausência do herói? Certamente. E o que ele faria quando descobrisse que eu havia alterado o plano? Uma onda de dúvida percorreu meu corpo. Ao interferir, eu não estava apenas mexendo no destino do herói, mas no equilíbrio de poder que mantinha o reino estável. A cada decisão que eu tomava, mais distorcido o futuro se tornava.

Minha mente fervilhava com as possibilidades, e era como se cada pensamento me puxasse em direções opostas. Ao mudar um pequeno detalhe, as implicações eram imensuráveis. Era um jogo perigoso, mas agora, pela primeira vez, eu estava preparado para jogar até o fim.

Ao virar o corredor, notei a silhueta de outra figura conhecida. O Duque. Ele estava ali, em pé, imóvel, com os olhos fixos em mim com uma expressão indecifrável. O que ele sabia? O que ele desconfiava? Este não era o fim do jogo. Apenas o início de uma longa partida, e eu precisaria estar mais atento do que nunca.

“Vossa Graça,” murmurei, forçando um sorriso frio. O próximo movimento seria dele, mas a diferença agora era clara: eu não estava mais apenas reagindo. Eu estava a jogar.

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