O som abafado de risos e música se misturava ao crepitar do fogo na lareira, lançando sombras tremeluzentes nas paredes de pedra do grande salão. Meus olhos se abriram lentamente, e por um breve momento, tudo parecia um borrão. O peso de algo terrível pressionava meu peito, mas a princípio eu não sabia o que era. Então, a lembrança me atingiu como uma lâmina afiada: este era o momento em que tudo desmoronaria.
Meus pensamentos estavam nebulosos, mas aos poucos as memórias começaram a emergir, como fragmentos de um pesadelo do qual eu jamais poderia escapar. Eu era o vilão. Não o herói que as pessoas amavam, não o salvador que arrancaria o reino das mãos do mal. Não. Eu era aquele que arruinaria tudo. Era o vilão cuja queda era celebrada por todos. Estava destinado a perder. Esse era o meu papel.
Tentei levantar, mas meu corpo parecia estranho, como se tivesse sido moldado por um escultor desajeitado. Meu coração batia acelerado, como se soubesse que algo estava terrivelmente errado. E estava. Algo muito errado. Lembrei-me da cena que se desenrolava nesta mesma noite. O herói, envenenado por minhas ordens, seria levado para o quarto do Duque, onde sua vida penderia por um fio. Mas ele sobreviveria, é claro. O vilão sempre fracassa no final. E eu, como o vilão, estaria ali, assistindo minha própria derrota se aproximar.
Mas dessa vez, algo estava diferente. Eu sabia. Sabia o que aconteceria. Sabia o que estava por vir, como um espectador que já assistiu ao filme várias vezes e conhece cada detalhe. Isso era novo. Eu nunca havia sentido essa clareza antes, essa terrível certeza de que eu estava condenado a repetir os mesmos erros. Como se o destino já tivesse escrito minha queda, e eu fosse apenas um peão, jogado de um lado para o outro.
Por um breve segundo, considerei a ideia de simplesmente seguir o fluxo, aceitar meu destino. Mas então, algo dentro de mim se agitou. Uma faísca de revolta. Eu não queria mais ser apenas o vilão, o fantoche cujo único propósito era servir de escada para a ascensão do herói. Eu sabia como essa história terminava. E, se eu conhecesse o final, talvez pudesse mudar o meio.
Levantei-me, os joelhos ainda trêmulos, e caminhei até a grande janela do salão. A noite estava escura, mas as luzes das tochas lançavam um brilho dourado sobre as muralhas do castelo. O herói estava lá fora, em algum lugar, prestes a ser envenenado. Eu podia sentir o peso das minhas escolhas, o fardo de saber o que viria a seguir. Mas, desta vez, não seria como antes.
Minha mente começou a trabalhar em um plano, algo que nunca antes havia me ocorrido. Se eu sabia o que aconteceria, se tinha a vantagem do conhecimento... por que seguir o roteiro? Por que permitir que as engrenagens do destino continuassem a girar como sempre? Eu poderia mudar as regras. Eu poderia reescrever essa história.
Mas, é claro, isso significava uma coisa: eu não seria mais o vilão previsível. Minhas ações iriam confundir, desorientar todos à minha volta. O herói, o Duque, até mesmo a heroína – ninguém seria capaz de prever meus movimentos. Eu não seria mais aquele que se submeteria ao destino, mas o autor de um novo enredo. E, para isso, precisaria jogar minhas cartas com astúcia e precisão.
Caminhei até a porta, meu coração martelando no peito. Havia uma inquietação no ar, como se o próprio universo estivesse segurando a respiração, esperando o meu próximo passo. Sabia que, ao tomar essa decisão, colocaria em risco tudo o que conhecia. O jogo estava prestes a mudar, e o primeiro movimento seria meu.
Abri a porta e caminhei em direção ao corredor. O som dos meus passos ecoava nas paredes, e cada passo que eu dava parecia mais pesado que o anterior. Mas, ao mesmo tempo, algo dentro de mim crescia – uma força, uma convicção. Não seria mais uma marionete no teatro do destino.
Hoje, eu começaria minha própria história.
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Atualizado até capítulo 21
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