O Guardião e a Nova Ordem

O brilho suave e dourado do horizonte se intensificava lentamente, preenchendo o ar com uma tranquilidade que Alrek jamais havia sentido antes. Ele agora era parte do próprio tecido do ciclo, sentia cada fluxo de energia, cada vida que se iniciava e cada morte que se cumpria. Mas, diferentemente de antes, o ciclo não era mais uma prisão, um destino imutável que forçava almas a repetirem seus fracassos. Alrek havia conseguido o impossível: o ciclo agora era uma escolha.

A mulher que o acompanhara durante toda sua jornada permaneceu ao seu lado. Sua presença era suave, quase etérea, e embora ela não tivesse passado pelo mesmo processo que ele, Alrek sabia que ela entendia o peso de sua nova existência.

— Você está diferente, — ela disse, com um sorriso melancólico. — Mais sereno... mas distante.

Alrek olhou para ela, e por um momento sentiu uma pontada de tristeza. Ele já não era o homem que ela havia conhecido. Havia um abismo entre eles agora, uma divisão invisível criada pela transcendência de sua humanidade. Ele não era mais um guerreiro lutando por respostas. Ele era o próprio guardião do ciclo, uma força silenciosa que moldava o destino.

— Eu me tornei parte do ciclo, — Alrek respondeu, sua voz soando calma, mas carregada de um poder subjacente. — Mas ainda posso sentir o mundo ao meu redor, as escolhas que cada alma faz, as vidas que continuam.

A mulher assentiu, compreendendo o que ele dizia, mas ainda carregando uma certa tristeza nos olhos.

— E quanto a nós? — ela perguntou, hesitante. — Você mudou o ciclo, você nos libertou da repetição eterna... mas onde isso nos deixa?

Alrek ficou em silêncio por um momento. Ele sabia que aquela era a pergunta mais difícil. Seu novo papel como guardião o colocava em uma posição única, uma figura entre a vida e a morte, entre o humano e o divino. Ele sentia uma conexão com a mulher, algo que permanecia, apesar de sua transformação. Mas ele também sabia que seu caminho agora era diferente.

— Eu não posso mais ser o homem que você conheceu, — ele disse, sua voz baixa. — Minha existência agora está ligada ao equilíbrio do ciclo. Eu vigio, mas não interfiro diretamente. Eu mantenho a harmonia, garantindo que o caos e a ordem permaneçam em equilíbrio.

Ela olhou para ele, seu rosto sereno, mas com uma sombra de aceitação.

— Eu entendo, — ela disse suavemente. — Mas você ainda está aqui, de alguma forma. E isso é o suficiente.

Alrek sentiu o calor de suas palavras, mas também sabia que sua conexão com o mundo físico estava diminuindo a cada momento. O novo ciclo que ele havia criado permitia escolhas e liberdade, mas sua própria escolha o havia afastado das coisas que o tornavam humano.

O novo ciclo, ele pensou, olhando para o céu que começava a clarear.

Agora, ele podia sentir a vida fluindo pelos mundos, podia ver os reinos dos deuses, dos homens e das criaturas antigas coexistindo. Ele sentia as mudanças sutis nas escolhas que cada ser fazia, decisões que agora não estavam mais presas ao destino pré-determinado. O ciclo estava fluindo de uma maneira diferente, permitindo que o livre-arbítrio guiasse os destinos, ao invés de ser apenas uma repetição infinita de fracassos.

Mas nem todos aceitariam essa nova ordem tão facilmente.

Enquanto Alrek contemplava o novo ciclo que havia criado, ele sentiu uma perturbação. Uma presença, poderosa e furiosa, estava se aproximando. Era uma força que não aceitava mudanças, uma entidade que prosperava na repetição e no controle do destino. Os antigos deuses, aqueles que tinham se beneficiado do ciclo anterior, agora sentiam a ameaça de sua nova criação.

De repente, o céu à distância começou a se agitar. Nuvens escuras se formaram rapidamente, e uma figura imensa apareceu entre elas, descendo sobre o horizonte com um trovão. Alrek reconheceu a figura imediatamente — Fenrir, o lobo gigante, que uma vez rugira nos campos de batalha de Midgard durante o Ragnarok. Mas este não era o mesmo Fenrir que ele conhecera. Havia algo diferente nele, algo mais feroz e destrutivo.

— O ciclo não pode ser mudado, — a voz gutural de Fenrir ecoou pelo ar, como um trovão que rasgava o céu. — Você desafiou as forças primordiais, Alrek. E agora pagará o preço.

Alrek sentiu as runas em seu corpo reagirem à presença do lobo, pulsando com uma energia renovada. Ele sabia que Fenrir representava o antigo ciclo, a força destrutiva que queria manter a repetição de caos e morte. O lobo, uma criatura que simbolizava o fim, não aceitaria a nova ordem que Alrek havia trazido ao mundo.

— O ciclo anterior terminou, Fenrir, — Alrek disse calmamente, sua voz ecoando com uma autoridade nova. — Agora, o destino está nas mãos de cada um. Você não tem mais poder sobre o futuro.

Fenrir rosnou, seus olhos brilhando com uma fúria primitiva.

— O destino é inevitável! O caos é eterno! Eu sou a força que destrói o que você criou, e não permitirei que este ciclo continue.

Alrek sabia que não havia outra escolha. Fenrir, sendo uma manifestação do caos e do destino imutável, não poderia coexistir com o novo ciclo de escolhas e liberdade. Ele representava uma ameaça à própria estrutura que Alrek havia criado. O equilíbrio que ele lutara para estabelecer estava sendo desafiado, e agora, o guardião do ciclo precisava agir.

— Você não faz mais parte desta ordem, — Alrek disse, sua voz firme como o vento cortante. — O tempo de sua influência acabou.

Com um rugido que sacudiu os céus, Fenrir avançou, sua forma imensa e destruidora cortando o ar em direção a Alrek. Mas Alrek não era mais o guerreiro mortal que havia enfrentado monstros no campo de batalha. Ele agora era o guardião do ciclo, uma entidade conectada à própria essência do universo.

As runas em seus braços brilharam intensamente, e ele estendeu a mão, criando uma barreira invisível entre ele e o lobo. A energia do novo ciclo fluiu através de Alrek, e, ao tocar Fenrir, a força do caos foi repelida. O lobo foi lançado para trás, seu corpo colidindo com o chão com um estrondo.

— Você não pode me derrotar, Alrek! — Fenrir rugiu, levantando-se novamente, sua fúria incontrolável. — Eu sou o fim de tudo!

— Você era, — Alrek respondeu, sua voz calma, mas poderosa. — Mas o mundo mudou. O ciclo mudou. E agora, você não é mais necessário.

Com um gesto suave, Alrek canalizou o poder das runas e do ciclo renovado, e uma onda de luz o cercou, avançando em direção ao lobo. A energia do novo ciclo envolveu Fenrir, não como uma força destrutiva, mas como uma teia de equilíbrio, restringindo seus movimentos, acalmando sua fúria.

Fenrir lutou contra a força, mas, aos poucos, sua resistência diminuiu. O caos que ele representava estava sendo dissolvido pela nova ordem de Alrek. O lobo, outrora símbolo de destruição e fim, estava agora sendo absorvido pelo novo ciclo, transformado em parte de um equilíbrio maior.

Com um último rugido de frustração, Fenrir desapareceu na luz, seu corpo desvanecendo-se enquanto era integrado ao novo ciclo de Alrek.

O silêncio voltou ao horizonte, e Alrek permaneceu de pé, sentindo o peso da vitória — mas também o peso da responsabilidade que ele agora carregava. O ciclo havia sido transformado, mas não sem resistência. Haveriam outros desafios, outras forças que tentariam romper o equilíbrio que ele havia criado.

A mulher se aproximou lentamente, sua expressão calma, mas cheia de admiração.

— Você o derrotou, — ela disse suavemente. — O ciclo está seguro.

Alrek assentiu, mas sabia que a jornada estava apenas começando.

— O ciclo foi mudado, mas o equilíbrio precisa ser mantido. Eu sou o guardião agora, e devo assegurar que a ordem e o caos coexistam sem dominar um ao outro.

Ele olhou para o horizonte, onde a luz dourada continuava a se espalhar, iluminando um novo mundo.

— Este é o começo de uma nova era, — ele disse, com um misto de esperança e dever. — E eu serei seu protetor.

---

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!