O Caminho Solitário

O céu continuava carregado, como se as nuvens cinzentas e pesadas estivessem presas entre dois mundos. Alrek caminhava pela floresta, sentindo o frio persistente no ar e o silêncio inquietante que envolvia cada passo seu. Suas botas encontravam o chão úmido, o som abafado de folhas e galhos secos sob seus pés. Ele já não sabia quanto tempo havia se passado desde que o estranho, aquele homem misterioso com o corvo, desaparecera nas sombras.

"Raven," pensou ele. O nome não havia sido dito, mas algo dentro de Alrek o empurrava para essa palavra. Algo naquele homem o perturbava profundamente. Ele sabia demais, falava em enigmas, mas parecia enxergar através dele, como se conhecesse sua essência melhor do que o próprio Alrek.

O vento soprava levemente, carregando consigo a sensação de uma presença, mas nenhum som ou visão além das árvores densas. Ao redor, a floresta não parecia natural. Não era a Midgard que ele conhecia, nem qualquer outro lugar que sua mente conseguia identificar. Os galhos das árvores se retorciam como espirais grotescas, projetando sombras que se moviam conforme ele avançava. A atmosfera, carregada de uma espécie de peso invisível, pressionava-o mais a cada passo.

Alrek parou por um instante. Sua mente girava, cheia de perguntas que se recusavam a desaparecer. Por que eu?. Ele havia cumprido seu destino. Morrer no Ragnarok deveria ter sido o fim de sua história, como sempre fora para todos os reis. O destino dos heróis era claro: morrer gloriosamente e, então, se juntar aos guerreiros no grande salão de Valhalla. Mas ele não estava em Valhalla. Ele estava perdido, sozinho, em um corpo jovem, mas com o fardo de uma vida inteira gravado em sua alma.

Ele olhou novamente para os braços. As runas ainda estavam lá, brilhando suavemente sob a luz fraca da floresta. Os símbolos não eram familiares, pelo menos não de maneira que ele pudesse compreender totalmente. Ele conhecia as runas antigas — símbolos usados para proteção e poder — mas essas eram diferentes. Elas pareciam vivas, movendo-se suavemente, como se reagissem aos seus pensamentos e emoções.

Alrek fechou os punhos, tentando ignorar o desconforto. As runas o perturbavam. Ele não havia pedido por esse poder, não havia escolhido carregar esse fardo. Qual é o propósito disso?

— Há poder nelas, você sabe. — uma voz suave, quase como um sussurro no vento, interrompeu seus pensamentos.

Alrek virou-se rapidamente, puxando a adaga de seu cinto por instinto. Seus olhos varreram a escuridão entre as árvores, mas ele não conseguia ver ninguém. O som parecia vir de todos os lados e de lugar nenhum ao mesmo tempo.

— Você está onde poucos têm a chance de estar, Alrek, — a voz continuou, carregada de uma calma perturbadora. — Entre a vida e a morte, onde os destinos são reescritos.

— Mostre-se! — Alrek rugiu, girando em todas as direções, tentando localizar a origem da voz. — Eu não sou mais uma criança perdida em histórias. Se sabe algo, diga-me!

A floresta permaneceu silenciosa por um momento. Então, um som baixo de passos ecoou entre as árvores. Dessa vez, Alrek viu. Uma figura encapuzada saiu das sombras, movendo-se suavemente como o próprio vento, até parar a alguns metros dele.

O homem estava coberto por um manto escuro, que se misturava com as sombras ao redor, quase se fundindo a elas. Ele manteve a cabeça baixa, o capuz escondendo suas feições, mas Alrek sentia o olhar fixo sobre si.

— Você tem muitas perguntas, como todos que despertam aqui. — a voz do homem era profunda, mas sem pressa. — Mas as respostas... essas, meu jovem, precisam ser buscadas. Não concedidas.

— Por que fui trazido de volta? — Alrek questionou, os punhos cerrados. Ele sentia o calor das runas em seus braços pulsando em resposta à presença do homem. — Quem fez isso comigo?

O homem sorriu levemente, mas era um sorriso vazio de respostas.

— Nem mesmo os deuses têm controle absoluto sobre o destino, — disse ele, finalmente revelando parte de seu rosto. Sua pele era pálida, como a de alguém que já havia estado entre o mundo dos vivos e o dos mortos. — Mas talvez haja algo maior em movimento. Algo que transcende o fim que você achou que conhecia.

Alrek deu um passo à frente, sem abaixar a guarda.

— Você está falando de enigmas novamente. Eu exigi respostas de outro como você, e ele desapareceu nas sombras. Não vou cair nos mesmos truques. — Alrek estreitou os olhos, avaliando o homem à sua frente. — Quem é você?

O homem suspirou levemente, e pela primeira vez, tirou o capuz, revelando completamente seu rosto. Ele parecia jovem, mas seus olhos, olhos profundos e azuis como o gelo, traziam a marca de alguém que havia vivido e visto muito mais do que sua aparência sugeria. Ele o encarou por um momento, como se estivesse ponderando o que dizer.

— Você está no início de uma jornada muito maior, Alrek, — ele disse, a voz mais grave agora. — Seu retorno não foi acidental. Mas, por enquanto, é tudo que posso dizer. Algumas verdades você terá que descobrir por si mesmo.

Alrek sentiu a frustração crescendo dentro de si. Ele estava cansado de enigmas, cansado de vozes misteriosas que o faziam sentir-se como uma peça em um jogo que não compreendia.

— Eu não pedi por isso, — ele disse, sua voz carregada de raiva contida. — Se há um propósito para mim aqui, eu exijo saber qual é.

O homem deu um passo para trás, sem deixar de encará-lo.

— Você está certo. Não pediu por isso. Mas o destino raramente consulta aqueles que o carregam. E agora, você é parte de algo muito maior. — Ele fez uma pausa, olhando para os braços de Alrek, para as runas brilhando sob a pele dele. — Essas runas... elas são antigas, mais antigas do que qualquer um de nós. Você foi marcado pelo poder delas. E esse poder, Alrek, é tanto uma bênção quanto uma maldição.

Alrek sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ele olhou para os próprios braços, observando as runas cintilarem novamente. Marcas do destino — era isso o que significavam?

— E o que eu devo fazer com isso? — ele perguntou, a raiva agora substituída por uma confusão profunda.

O homem sorriu novamente, mas desta vez, havia um toque de tristeza em seus olhos.

— Isso... é algo que você terá que descobrir. Mas saiba de uma coisa, Alrek. O ciclo que você conhecia — o ciclo de vida, morte e renascimento — foi interrompido. O Ragnarok, o fim de tudo... não terminou como você imagina. Você foi trazido de volta por uma razão, e essa razão é mais profunda do que qualquer batalha que você já lutou.

Antes que Alrek pudesse responder, o homem começou a se afastar, desaparecendo lentamente nas sombras da floresta, como se fosse parte do próprio ambiente.

— Espere! — Alrek gritou, dando um passo à frente, mas já era tarde demais. A figura já havia desaparecido, deixando-o novamente sozinho.

Alrek sentiu o peso da solidão voltar, mas desta vez, algo dentro dele mudara. As palavras do homem reverberavam em sua mente, e pela primeira vez desde que despertara, ele começou a compreender a magnitude da situação em que estava envolvido. Não era apenas sua vida em jogo. Era algo maior. Algo que envolvia os próprios alicerces do mundo.

Ele olhou para seus braços mais uma vez. As runas brilhavam suavemente sob a luz fraca do céu. Poder. Maldição. Ele não sabia o que essas palavras realmente significavam para ele, mas sabia que precisava descobrir.

Com isso em mente, ele se virou e continuou a caminhar pela floresta, sentindo que cada passo o levava para mais perto da verdade. Mesmo que essa verdade pudesse mudar tudo o que ele pensava saber.

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