Dias depois

Foram-se os dias e a escuridão do porão parecia mais densa a cada momento. A última vez que eu vi Fernanda, ela ainda mantinha um resquício de resistência, uma chama de teimosia que agora, aparentemente, tinha se apagado. Eu estava no escritório quando meu pai me ligou, a voz grave e fria, me informando que Fernanda não comia há dias, e seu corpo mostrava sinais de enfraquecimento extremo. Ela estava desidratada e febril. No fundo, algo apertou no meu peito; o ódio tinha dado lugar a uma preocupação inquieta, e eu sabia que não podia mais adiar a minha ida ao porão.

Quando entrei, a visão foi um choque. Fernanda estava deitada no colchão velho, tão frágil que parecia prestes a se despedaçar a qualquer momento. Sua pele pálida, os ossos salientes, o cheiro de comida estragada e suor... Tudo ao redor gritava negligência. Como permiti que chegasse a esse ponto?

— Por que você tem que ser tão teimosa? — Minha voz saiu embargada, carregada de frustração. — É só pedir, Fernanda, e eu te tiro daqui.

Ela não respondeu, nem sequer abriu os olhos. Ao tocá-la, percebi que sua pele queimava em febre, e a culpa me atingiu como um soco no estômago. Coloquei-a nos braços e senti o quão leve ela estava, quase sem vida. Eu sabia que precisava fazer algo, e rápido.

— Chamem um médico, agora! — gritei para os soldados ao subir as escadas, carregando-a com cuidado. A leveza do seu corpo parecia um lembrete cruel de como eu a tinha quebrado. Levei-a para o meu quarto, enchi a banheira com água morna, e, hesitante, comecei a tirar sua roupa. Não havia intenção maldosa; eu só queria limpá-la, abaixar sua febre, ajudar de alguma forma. Entrei na água com ela, mantendo minha roupa íntima, segurando-a firme enquanto passava uma esponja pelo seu corpo.

Ela gemeu e se mexeu levemente, mas não acordou. Seus lábios ressequidos e a expressão cansada me diziam que ela estava muito distante, e eu não sabia se conseguiria trazê-la de volta. Rapidamente, vesti nela uma camisa minha, deixando-a confortável e aguardando o médico chegar.

Quando o médico entrou, acompanhado por Caio, expliquei o estado dela. Ele fez uma avaliação cuidadosa e me olhou com uma seriedade que me abalou.

— Ela está desidratada, com uma infecção possível. Vou aplicar soro e antibióticos, mas ela precisa de repouso e muita água. Está muito fraca, e qualquer esforço pode ser fatal.

Observei enquanto ele aplicava a medicação e deixava instruções sobre os cuidados que ela precisaria nos próximos dias. Depois que ele saiu, fiquei ao lado da cama, observando-a respirar com dificuldade. Mesmo magra e abatida, ela ainda era incrivelmente linda. Só que agora, essa beleza parecia trágica, um reflexo do que eu tinha causado. O casamento estava marcado para dali a duas semanas, mas o que eu faria com uma noiva reduzida a uma sombra? E foi aí que percebi que, se ela morresse, eu não carregaria o peso de perder apenas uma futura esposa, mas o de perder algo em mim mesmo.

Fernanda

Os dias eram indistinguíveis uns dos outros. Presa naquele porão, perdi a noção do tempo e do meu próprio corpo. Tudo se misturava em um borrão de escuridão e dor. Não conseguia comer; a comida apodrecia, e o cheiro me embrulhava o estômago. Parecia que Luigi havia decidido me esquecer ali, para que eu apodrecesse junto com os restos ao meu redor. Mas parte de mim estava aliviada por ele estar vivo. Pelo menos, não tinha o peso da morte de alguém nas minhas mãos.

Eu estava tão fraca que mal conseguia mover a cabeça. Quando ouvi vozes, não soube dizer se eram reais ou fruto da minha febre. Senti braços me envolvendo, a pressão quente de um corpo contra o meu. Depois, a sensação da água fria me tocando e tirando parte do calor abrasador. Por um breve momento, me senti segura e deixei o peso do meu corpo afundar, abandonando qualquer resistência. Talvez fosse a primeira vez, em todo esse inferno, que eu estava permitindo descansar.

Quando acordei, estava em um quarto diferente. O cheiro de lençóis limpos e o toque suave de uma cama substituíam o horror do porão. Olhei em volta e vi Luigi sentado próximo, a expressão no rosto dele... Parecia arrependimento, um remorso que eu jamais esperaria ver ali. Por mais que quisesse odiá-lo com todas as forças, havia algo naqueles olhos que me fez hesitar. Eu não sabia se tinha forças para manter o ódio. Estava exausta demais para qualquer coisa.

— Você está acordada... — ele murmurou, aproximando-se lentamente. — Precisa se cuidar agora, Fernanda. Você não pode desistir.

Por um instante, a raiva e a humilhação foram substituídas pela dor amarga do arrependimento. Não só o meu, mas o dele também.

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Comments

Márcia Jungken

Márcia Jungken

Fernanda pagou caro por ser mimada e teimosa, mas Luigi foi cruel por conta da sua ignorância quase matou ela de fome e sede 🙄🙄🙄🙄

2025-03-10

0

Arlete Fernandes

Arlete Fernandes

Não sei o que algumas leitoras pensam ou esperam quando lêem estórias da máfia!

2025-03-07

0

MRSLinsprincesadoReiJesus

MRSLinsprincesadoReiJesus

Essa tem a Síndrome de Estocolmo 😠 que horror 🥺
Eu queria entender pq a maioria das autoras gostam de protagonista com Síndrome de Estocolmo 😠🤨😡

2025-02-07

4

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