Sabrina era gentil, assim como as outras meninas. Elas eram silenciosas, precisam sussurrar ao falar. Na verdade, nós precisamos sussurrar. Catarina não gosta de barulhos, o mínimo que houver, resulta em algum castigo.
Quando ela me trouxe até o tal dormitório, não achei que era assim. É bem pior. São ao todo 8, porém, apenas 6 estavam naquela fila, as outras 2 estavam no dormitório e estas aparentam ser mais velhas. Talvez tenham a minha idade.
Elas se apresentaram, o que não durou muito levando em conta que todas receberam um nome novo por Catarina. Maria, a primeira da fila é a mais nova, eu havia chutado 10 anos, mas, na verdade, ela tem 9. A segunda, Anna, tem 12 e… A terceira, Rebeca, que ainda não está aqui no quarto, tem 13.
Saber que Rebeca tem um ano a mais do que achei que ela realmente tinha, não diminui meu horror, ela continua sendo uma criança. Tenho que me esforçar e manter minha sanidade para não vomitar no meio do dormitório das garotas.
— Eu sou Tereza, tenho 15. — A quarta da fila, cabelos lisos, havia uma franjinha também e olhinhos um tanto puxados, como amêndoas. Acredito que Tereza tinha em sua família alguma descendência indígena, ela tem traços.
— Mariana, 17. — A quinta da fila levanta a mão bem rápido, um pouco sem graça. A pele clara refletia na luz da janela entreaberta, algumas sardas no rosto e o cabelo ruivo encaracolado fazia um contraste terroso.
— Sabrina, 19. — A sexta da fila, a que me trouxe até o dormitório. Sabrina sorrir para mim e olha para as duas mais velhas, essas parecem menos dispostas a se apresentarem, cansadas. Mesmo assim, uma delas fala.
— Isabella, 21 — A garota de cabelo crespo e pele de tons escuros, ergue a mão e em seguida aponta para a outra garota, uma de cabelos escuros, lisos que vão até a extensão da costa e está dobrando algumas mudas de roupa. — E essa é a Laura, tem 20.
Laura olha de relance e posso ver os olhos e tenho certeza que aquele tom claro, se iguala a cor do mel. Ela não sorri, apenas levanta a sobrancelha.
Elas me encaram e eu dou uma rápida averiguada no quarto. As camas são todas beliches, de ferro e um pouco desgastadas, porém muito bem organizadas. O quarto não tem nada além das camas e cômodas medianas ao lado das 5 camas, há uma a mais do que o necessário para a quantidade de garotas.
Isso significa que eles não param de comprar e vender.
— Eu sou…
— A gente sabe. — Isabela responde antes que eu finalize minha frase e me entrega uma toalha com um pacote de sabonete em cima, escova na embalagem e mudas de roupas. — Tem que se lavar antes dela voltar, senão todo mundo paga.
Franzo o cenho confusa. Todos pagam por um erro unilateral? Tenho vontade de perguntar, mas Sabrina puxa meu braço e me guia até uma porta. O banheiro é dentro do quarto ao que parece.
— São 5 minutos, 8 é o limite. — Avisa.— Todas nós aprendemos a contar.
Dito isso ela sai e eu entro. Não tem janelas, a única iluminação é a lâmpada amarela pendurada em fios envelhecidos. É pequeno. Uma privada que não tem tampa, a descarga é daquela pendurada em parede e a pia está quebrada, assim como o espelho. Além disso, não tem chuveiro é apenas um balde grande que tem o tamanho da minha cintura. Está cheio de água.
Fecho a porta velha e desgastada, não há ferrolho que a prenda, nem nada. Mas não tenho tempo para isso, então apenas retiro a minha roupa e me apresso ao lado do balde.
Há uma atadura em minha perna. O tiro. Recordo.
Porém, não dói tanto como antes. Talvez meu corpo ainda esteja em alerta. Retiro com cautela, o pano ensopado de sujeira e pensei que veria um furo enorme saindo sangue, mas não... Está ferido, há um buraco roxo e uma crosta em cima, mas não sai sangue. É quase como...
— Sarou? Mas como... — Sussuro sozinha no banheiro. As garotas não precisam escutar meu desespero.
A ficha cai.
Céus, quanto tempo eu estou longe? Quanto tempo uma coisa dessas leva pra sarar? Não sarar completamente, ainda dói pra caralho mas não como antes.
Mas isso pode ser bom. Eu tenho mais chances em ter êxito quando tentar sair daqui.
Volto minha atenção para o balde e pego a água com a pequena bacia. Limpo tudo. Não é o melhor banho que tive, mas pelo menos há um sabonete e me sinto menos fedorenta. Lavei o cabelo com o próprio sabonete sem me preocupar em como ficaria, eles não me deram shampoo e Jesus... Eu apenas quero me sentir limpa.
Uso a escova com a pasta e, quando finalmente terminei, coloquei a roupa. Um vestido preto de tecido duvidoso. Não era apertado, mas também não era folgado. Era quente, no entanto. Eu estava satisfeita de pelo menos estar coberta, em comparação a roupa das outras meninas mais velhas, este vestido contém muito mais pano.
Olhei o reflexo no espelho. Eu estava mal fisicamente e estava me sentindo pior ainda psicologicamente. Esse lugar, as garotas, ELES. Todo esse ambiente é pesado para um cacete, as paredes de madeira morta, o assoalho que range toda vez que alguém dá um mísero passo, o matagal que cerca todo o território e a sensação de estar presa.
O que aconteceu com Rebeca me deixou sem ar, me tirou toda a certeza e esperança de haver salvação. Ninguém virá me buscar, não há chance alguma.
Com exceção de uma fuga.
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Atualizado até capítulo 42
Comments
Geovanna Fernandes
Mano que do dela...
2024-09-23
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Leydiane Cristina Aprinio Gonçaves
não seja burra e muito menos precipitada Liliana pois o seu erro em tentar fugir pode prejudicar as meninas sem elas merecerem você tem que pensar antes de agir planejar bem a fuga para que nada saia errado
2024-09-21
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