...Rocinha, 2021....
...1 mês e 6 dias desde a morte de Lilliana....
Peguei a chave do bolso e enfiei na fechadura do portão. Girei duas vezes pra esquerda duas vezes, o portão abriu e eu engoli em seco.
A frente da minha casa tava a mesma coisa. Mas quando eu olhei, era estranho. Não era mais minha casa.
Lugar nenhum me tem agora.
Bianca devia tá dormindo já que tudo era silêncio. Era dia, mas as janelas fechadas faziam parecer que dentro da casa era noite.
— Bianca?
Me virei pra porta que ainda tava aberta e vi Juliana entrando. Eu nunca tinha ficado no mesmo lugar que ela. Essa deve ser a segunda vez, a primeira ela tava com Bia na festa da favela. Nem sei se cheguei a bater um papo com ela.
— Tá querendo o quê aqui? — Perguntei sem enrolação. Ela sorriu, mas logo mudou a expressão de culpa.
— Ah, eu… A Bia. — Ela tava gaguejando demais. Isso é medo? — Eu soube do que aconteceu e vim ver se ela tava de boa.
Ergui uma sobrancelha pra ela. Ela não tava sabendo do que tinha acontecido? Bianca era amiga dela e a outra vagabunda também. Não tinha como ela não saber.
— Tu não tava sabendo?—Perguntei encarando ela, mas a desgraçada desviou o olhar.
— Não, eu tava tão ocupada no salão que… Acabei esquecendo, sabe como é essas coisas né?
Ela sorriu e fechou a porta atrás dela, caminhando na minha direção.
— Eu mandei castrar o filho da puta do Pascoal, e eu tô ligado que ele é teu namorado. — Esfriei o tom de voz pra falar —Se tu fizer alguma coisa com a minha irmã eu juro por Deus que tu vai te arrepender.
— O quê? — Juliana coloca a mão na boca e abafa uma risada. — Tá brincando? A Bia é minha parceira pô... Eu só vim ver se ela tava bem e dar os pêsames pela Lilli. — Sorriu, deixando os dentes aparecerem. — E… falando nisso. Se precisar de mim também…
Eu podia não conhecer direito o rosto e a emoção que passava por ele. Mas eu sabia a voz que uma puta oferecida fazia quando queria dar buceta. Foi rápido quando ela parou na minha frente e em 2 segundos a unha dela tava passando pelo meu pescoço.
Puxei o braço dela com tudo e não me importei se coloquei força pra machucar. Ela soltou um grito, choramingando pelo susto e pela queimação da dor.
— Porra! Tu tá…
— Escuta aqui sua puta de esquina do caralho. — Aproximei ela é olhei bem no olho. — É última vez que tu me toca com essa mão imunda, eu não te dei a porra da liberdade. Tu me respeita. Eu tô na tua cola vagabunda, acha que eu não sei que essa história de filho do Samuel tem dedo teu? Essa tua cara não me engana.
Mal terminei de falar e ela já tinha caído no choro. Desgraçada do caralho.
— Me sol…
— Fala se tu entendeu porra! — Sacudi ela mais uma vez.
— Eu entendi, eu entendi…
Soltei e não notei que tinha colocado tanta força. Ela caiu no chão chorando e ouvi passos de alguém correndo atrás de mim.
— Que merda é essa, Henrique! — Bianca passa correndo por mim e vai até a amiga caída no chão. — Tá ferida? Tá doendo?
— Tá tudo bem…
Juliana começa a chorar de novo e eu tenho vontade de arrancar meu olho, por ver essa cena.
— Era pra deixar ela aí, no chão. Teve sorte de eu não ter afogado ela dentro do rio, lá que o é lugar de piranha.
Falei indo até a cozinha e Bianca me olhou com um fogo do caralho no olho.
— Porquê fez isso com ela? Tá ficando maluco Henrique?! Se é pra ficar batendo nos outros sem motivo, é melhor voltar pra aquele ninho de rato que tu tava vivendo.
— Deixa Bia, eu vou embora.
Elas duas saíram de dentro de casa e eu não fiz o mínimo pra impedir. Se eu olhasse de novo pra cara daquela desgraçada era capaz de eu matar ela.
Só então, quando me virei de frente pro balcão, me toquei onde eu realmente tava. Na cozinha. Perto do balcão
A quina do mármore me lembrava dela em cima, se segurando. Calor, um monte de roupa espalhada no chão. A pela lisa, suada, encostando na minha. Um sorriso e… Eu preciso de ar. Porra.
Mas quando dei o primeiro passo, vi uma caixa.
Uma caixa em cima do armário. Ela não tinha guardado isso? Peguei o pacote com cuidado e quando abri só estava a calcinha que tinha comprado e a minha arma. A dela não.
Fechei o embrulho e subi pela escada.
Nunca pensei que alguém pudesse se matar subindo a merda de uma escada até ter que subir em uma escada e sentir a porra do meu coração parar de vez em quando.
Mais que se foda, eu já tava morto mesmo.
Não esperei muito e entrei no quarto. Tava do mesmo jeito que a um mês atrás. Bianca não entrou aqui, sei disso pela cama bagunçada e a blusa branca de Lilliana jogada no chão. Fui eu que joguei lá.
Até o cheiro do quarto me deixava tonto.
Andei até a cômoda e coloquei a caixa lá em cima. Tava cheio de coisa, uma bagunça. Mas no canto, de todo tipo de coisa espalhado, um papel amarelado embaixo de uma caneta, tirou minha atenção.
Olhei direito e vi um texto escrito. Isso é um bilhete?
Tirei a caneta de cima e aproximei pra ler direito. Sentei na cama, sem poder ficar em pé quando vi que a letra delicada era a dela. E entendi o que era.
Ela tinha deixado um bilhete antes de sair. Ainda bem que sentei na cama pra ler, perdi a força nos joelhos.
Li cada linha, cada ponto. O coração desenhado no final fez o meu doer. O pedido do bolo… Era aniversário dela. A última vez que passamos juntos foi quando eu ainda era moleque.
“Voltarei antes de você acordar.” Ela não voltou. Ela foi estuprada, torturada e morta sem fazer nada pra ninguém. Sem merecer.
A porta se abriu, alguém entrou, mas não vi porque minha mão tava apoiada no meu rosto, escondendo o choro.
Senti Bianca massagear o meu cabelo com cuidado.
— Shhh… Vai ficar tudo bem. — Sussurrou fraco e me abraçou em seguida. Eu afundei meu rosto e tudo caiu.
— Eu quero ela.
Eu não tinha voz, não tinha nada. Não sabia se ela tinha escutado, mas o abraço dela ficou mais forte. Era como voltar pra um tempo onde eu era só uma criança. Pro tempo onde eu não era nada e tinha mais do que tenho hoje.
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Atualizado até capítulo 42
Comments
Neusa Rosa
Claro q tá pra o play tá comando o garimpo
2024-12-16
0
Pedro Miguel
Poxa Autora
2025-03-11
0
Elisiane Oliveira
eu acho q bleybo tá com ela
2024-09-12
2