...12 de fevereiro, 2021....
...1 mês e dois dias da morte de Lilliana...
Eu não morri.
Para o meu azar, continuo vivo e essa a primeira coisa que passa pela minha cabeça quando, mesmo sem abrir os olhos, sinto minha respiração fraca. Não tem muito barulho, acho que não consigo ouvir mais do que passos indo de um lado para o outro.
Meu corpo não me obedece quando tento mexer os dedos da mão esquerda. Parece que tem mais de uma tonelada em cima de mim.
Caralho.
A sensação de quando cheira o pó em cima da mesa usando uma merda de cartucho fino, é a quase a mesma de quando se escolhe continuar do lado de uma pessoa sabendo que um dos dois vai morrer. Tem risco. A pupila do olho dilata e te faz ver coisa que não existe, a merda de uma vida que nunca vai acontecer.
Quando a porta bateu, eu abri a minha visão. A luz da janela aberta quase me cega e soltei um xingamento alto, mas não ouvi minha própria voz.
Vai se fuder. Essa porra de skank bate mais do que cocaína. Parece que morri ontem, mas me voltaram pra esse inferno de novo.
Cobrir os olhos com a mão. Levantei tentando me sentar no sofá, mas nem com apoio consigo me equilibrar e tombei com o corpo pra frente em cima da mesa derrubando tudo.
— Porra Henrique, qual é parcero. — Alguém segura meu braço e me ajuda a sentar de novo. — Desse jeito tu vai acabar soltando os pontos.
Samuel é o único que tem ficado aqui ultimamente. É o único que tem ficado perto, mesmo quando eu derrubo a casa toda e mesmo tendo uma mulher grávida pra cuidar. Mas que se foda, não pedi a ajuda dele, tá aqui porque quer.
— Me solta caralho!
Puxo meu braço e tento me colocar de pé. Agora de olhos abertos consigo ver a zona que tá a sala. A mesa com pó espelhado, garrafa de cerveja, whisky e vodca espalhadas pelo chão. Um cinzeiro quebrado com maço de cigarro e malote em cima.
Tem embalagem de comida no chão, roupa jogada e um calor dos infernos.
— Cara, tu tem que dar um jeito nisso. — Samuel diz, mas nem viro pra olhar a cara dele. — Já faz um mês, Henrique. Tu tem uma quebrada pra cuidar iss…
— Sai.
Minha voz é firme. Me viro na direção da mesa e pego a garrafa com um resto de vodca, despejo em copo e a intenção era levar o copo até a porra da minha boca, mas Samuel tira ele de mim antes disso.
— Puta que pariu Samuel! Tá tirando com a minha cara Porra!?
Grito e já perdi a paciência faz tempo. Só o fato de ter acordado me deixa com raiva.
— Tô! Tô tirando com a tua cara e vou tirar toda vez que eu ver tu tentando se matar todo dia, porra! — Ele joga o copo em cima da mesa e me encara. — Faz um mês que tu tá nesse buraco, apodrecendo. Tu acha que os cara não tão percebendo? Essa desculpa de merda de que tu ainda tá se recuperando dos tiros não cola mais. Eles vão tomar o caralho desse morro.
Eu sei disso. Eu sei de tudo.
Depois da invasão eu fiquei em cama por mais de uma semana até conseguir me levantar. Ainda tem ponto sarando e alguns tão se abrindo de novo porque, se drogar até esquecer de tudo não é uma forma muito boa de cuidar de um ferimento de bala.
Mas é a melhor forma de esquecer que ela morreu bem na minha frente.
Olhei pra Samuel, sem remorso algum. Se não fosse por ele começar o tiroteio, a ideia de Bernardo teria dado certo.
— Vai. Se. Foder.
Pego o copo de cima da mesa, bebo o líquido quente que desce rasgando minha garganta por dentro e me sento no sofá.
Samuel xinga e sai da sala batendo a porta. Ignoro ele e todo o resto deitando as costas no sofá. Eu não vejo ninguém a mais de um mês. Nem Bianca.
Bianca.
A última vez que ela tentou falar comigo eu gritei e mandei ela embora debaixo de xingamento. Ela não vai querer me ver tão cedo nem a pau. Gabriel, nunca veio. Não sei se ele tá bem, Samuel só disse que ele tava na merda. Todo mundo tava.
Mas eles ainda seguiam. Gabriel vai pra boca fazer o trabalho dele, Bianca tem uma criança dentro dela, Gustavo e Bernardo ainda tão aqui na favela e pelo que eu soube tão direto ajudando Samuel.
Mas eu?
Eu tô aqui, numa casa que não é a minha porque não aguentei ficar na antiga e ter que olhar pra cada canto e lembrar dela. Mandei Samuel arrumar um barraco e me meti dentro sem hora pra sair. Era até arrumado, mas todo dia eu quebro um móvel diferente. Os únicos que restaram foram a mesa e o sofá.
Um mês.
Sete dias por semana e toda noite eu tenho me drogado com qualquer merda que eles mandam. É sempre a mesma rotina, acordar, beber e quando a bebida não dá conta, o pó é a única saída. Eu não lembro qual foi a última vez que olhei pela janela e vi o sol ou o céu. Eu não sei como tá lá fora.
Numa coisa Samuel tá certo, eu tô apodrecendo aqui dentro.
Bebo mais um gole e já nem sei se isso aqui é mesmo vodca. Meu olho se fecha de tão azedo, mas se abre rapidamente quando a memória de um cabelo castanho aparece.
— Alemão?
Três batidas me fazem olhar na direção da porta. Eu não reconheço a voz mesmo ela sendo familiar.
Talvez eu quebre outra coisa ao invés da mesa hoje. Levanto do sofá, ainda tonto e antes que eu chegue na maçaneta o filho da puta do outro lado diz:
— É Bernardo, só quero conversar. Posso entrar?
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Atualizado até capítulo 42
Comments
Maria Moraes
eu gosto das reviravoltas
que a história dá ainda mais quando
a mulher volta poderosa
ai que tudo
2024-11-02
1
Ana Paula Oliveira
não acredito que ela morreu ela só sofreu a vida toda e ainda morreu
2024-09-21
1
Leydiane Cristina Aprinio Gonçaves
nossa o Henrique está se destruindo em vida tá na hora de seguir em frente Henrique
não é porque a Lili já não está mais entre nós que você tem que se destruir em vida pois você ainda está vivo você tem uma chance ainda para ser feliz ao lado da sua irmã Bianca e dos seus amigos bola para frente nem tudo está perdido Henrique
se drogar e beber até cair não resolverá a sua dor de ter perdido a Liliana para a morte ok levanta a cabeça e vai cuidar do seu morro antes que outro venha e resolva tomar conta do seu morro por você
2024-09-07
3