...Rocinha, 2021...
...1 mês e 5 dias desde a morte de Lilliana....
Depois de Bernardo ter saído da boca aquele dia. Eu fiquei lá a noite toda olhando o documento assinado. Dormi na cadeira, com dúvida e quando acordei a dúvida ainda tava lá.
Ele tocou num ponto importante. Não pensei que tivesse que me preocupar onde ela teria sido enterrada porque, provavelmente, ia me faltar coragem de ir até lá. Então resolvi primeiro os assuntos da boca e deixei Bernardo cuidando do caso da autópsia.
Gustavo tava com Samuel, resolvendo a questão do DNA da criança. Não vejo Bianca desde aquele dia, eu não tenho parado hora nenhuma. Tinha muito trampo pra ser feito. Arnaldo foi pro caixão e o acordo foi com ele.
Eu preciso comprar a minha mercadoria. Mas pra isso eu precisava de grana, de investimento. Mas o pau no cu do Play Boy tava barrando minhas encomendas. Ele é quem tá gerenciando o garimpo. Não sei como um dono de quebrada consegue ser tão urro ao ponto de negar venda. Venda essa que ele ganharia dinheiro também.
Mas isso vai acabar. Aquele garimpo vai ser meu, ele é, meu. Era comigo que o antigo dono tinha contrato e tô pouco me fudendo se tiver que bular o caralho a quatro de regra. Eu vou ter aquele garimpo e Play Boy vai pagar cada gota de sangue que tirou dela.
Mais pra isso, eu preciso do meu braço esquerdo. O lado bom em estratégia, que sabia administrar uma ideia melhor que ninguém. Mais que, ultimamente, tava deixado de lado.
Bati na porta três vezes. E só ouvi silêncio. A rua também não tinha muita gente, Gabriel tinha escolhido o lado mais calmo da favela pra morar. É a cara dele fazer isso.
— Alemão?
A voz era de uma mulher mais velha, me virei e vi dona Ana na cadeira de rodas nova. Me aproximei dela que já tava sorrindo e estendendo a mão pra mim.
— Iaí dona Ana, tudo firmeza?
— Agora tá tudo sim. — Abriu um sorriso. — Queria te agradecer pela ajuda na cadeira de rodas, meu filho. Tá sendo tão bom não ficar na cama o dia todo.
— Que isso dona, a gente é firmeza. Tamo aqui pra isso. Como a senhora tá, tudo certinho?
— Tá, sim, meu filho, eu tô podendo até trabalhar agora. O Juninho também tá felizão com os remédios que o tu ajudou comprar.
— Qualquer coisa chama os cara, avisa e a gente tenta desembolar, tá certo?
— Deus te abençoe viu meu filho? O pessoal da quinta rua tava sentido tua falta andando por lá, aí a gente ficou sabendo da Lilli e entendeu… Ela era uma boa menina. Lembro de vocês brincando.
— Ah, é… — Por alguns segundos esqueci do que ia falar. — Mais tamo junto aí tia.
Ela sorri e vai embora falando alguma coisa que eu não entendo. A porta atrás de mim se abre e eu quase levo um susto com a cara de cu que Gabriel tá.
— Porra, 10 da manhã, e tu tá acordando agora? — Perguntei quando ele me deu espaço pra entrar.
— Vai se fuder caralho, fala logo o que tu quer.
Mau-humor da porra.
A casa de Gabriel também era simples. Tinha o básico e era bem organizada, bem limpa, nada fora do lugar e, apesar de poder pagar alguém pra fazer o serviço, é ele mesmo quem arruma e faz a comida.
— Quero que tu saia dessa porra de fundo de poço que tu te meteu. — Disse me sentando em uma das cadeiras da mesa. — Tamo precisando do dinheiro da mercadoria.
— É claro que tão. Tu fez o cacete de um acordo que eu avisei que ia dar merda.
— Não fode. Tinha dado certo se o Playboy não fosse um arrombado do caralho.
Ele sibila com a boca, balançando a cabeça. Mas levantou e foi até a geladeira, quando ele virou vi uma jarra na mão dele com um líquido laranja dentro. Ele me serviu e quando cheirei o copo fiz uma careta.
— Porra. — Bebo um gole e me arrependo na mesma hora— Suco? Não tem whisky não? — Gabriel me ignora e pega o computador na ponta da mesa.
— Se tá precisando de grana é só voltar a fazer os corre de antes. — Ele clica em algumas teclas, não sei o que tá fazendo, mas tem que ser alguma coisa que preste. — Samuel não tá reportando os bagulho pro sheik?
— Não. — Gabriel arregalou tanto o olho que pensei que fosse sair da cabeça dele. — Tá de sacanagem? E quem mandou ele fazer essa porra?
— Eu.
Respondi simplesmente. Antes do acordo eu tinha um grupo de superiores. Meu morro era parte de uma das duas facções que dominam o Rio de Janeiro. Não é novidade, pra ninguém, que o crime organizado tá crescendo no Brasil. Tem notícia por tudo quanto é canto sobre isso. Todo que passa essas porra de facção se tornam um tipo de fortalecimento, principalmente pra quem tem grupo pequeno de assalto. Pra quem quer ter uma base no meio do crime.
Mas tudo tem um preço.
O Rio e São Paulo são os dois eixos mais poderosos do crime. Tem gente que diz que as facções tão quase virando uma máfia, de tão organizada que são. E não é mentira. Mas a culpa não é do malandro que cria a facção, é do Governo, que sempre acha uma forma de oprimir nego de favela.
Tu não precisa roubar pra ser bandido. Basta morar em periferia ou ser negro. Os direitos humanos pra quem cresce na zona favelada é do tamanho de uma vara de madeira.
Não sabia disso tudo quando era moleque. Eu crucificava marmanjo de vinte e poucos anos que ao invés de trabalhar, tava vagabundando na rua. Mas quando se cresce, não é só a altura que muda, é mentalidade também.
Eu tinha aliado a Rocinha com uma dessas facções. O CR, comando regional. No começo tava dando certo, a cúpula era justa e comandava direto da cadeia. Eu recebia as ordens, a mercadoria e 30% dos lucros ficavam comigo, o resto ia pra eles. Aí não tem condição, era pouco e quanto mais tempo passava, mais lucro eu queria.
Há um mês, ainda fazia questão de fazer a vistoria correta. Mas mandei o Samuel parar de reportar. Eles devem tá puto porque eu saí da sintonia, o que significa que eu tenho mais um problema pra resolver. Mas ainda tenho tempo até eles agirem.
— Sem facção aliada tu não consegue.
— Não. — Neguei com a cabeça pra ele. — Tu sabe como é o proceder dessas coisas. Tem que ficar reportando até quando uma mosca morre. Eu tenho cara de quem obedece bandido que tá na cadeia?
— O negócio não é só obedecer. É a base que a facção dá em troca. Como que tu vai conseguir malote se o garimpo foi barrado pelo Playboy?
— Tem os portos clandestinos em Santa Catarina, as rotas marinhas.
— Que tão sob o comando da Irmandade. Tudo já tem território Henrique. Porra. Tinha que pensar nisso antes de fazer uma merda dessa.
Bebi mais um gole do suco e me arrependi de novo. Gabriel não sabe fazer suco.
— Eu vim aqui atrás de uma solução e não saber do que eu sei, Gabriel.
Ele colocou a mão na testa, suspirou e depois olhou pra mim.
— Preciso do Bernardo. — Pediu.
— Não rola. Ele tá ocupado com outro trampo.
Eu podia contar pra ele sobre do que se tratava esse outro trampo. Mas não falei. Passei a mesma ordem pra Bernardo, se fazer tudo no sigilo.
— Que trampo?
— Ele tá desenrolado umas queixas aí. — Levantei o copo pra beber o suco, mas parei no meio do caminho lembrando do gosto. — Coisa o ex trabalho dele. Usa o saco de pancada.
Gabriel concordou com a cabeça e eu olhei pra ele, estranhando ele ter que aceitar Gustavo no lugar de Bernardo tão fácil assim.
— Não vai dizer nada? — Perguntei.
— Perguntar o quê?
— Até uns meses atrás tu não gostava da ideia se ter ele aqui com a gente. Tu chamou ele de X9.
Gabriel se levantou e colocou a jarra de suco novamente na geladeira. Eu só acompanhei tudo que ele fazia. Tem coisa aí.
— Não sei ainda. Mais não acho que foi ele. Na época ele só tinha se infiltrado aqui pra proteger ela também.
— E?
— E que não faz sentido taxar o moleque de X9 se as informações que ele tava passando era pra Bernardo que não tinha interesse nenhum na gente. A prova disso é que ele tá aqui ainda. — Gabriel olhou pra mim quando fechou a geladeira. — E se Márcio tivesse recebendo ordem daqui de dentro? De alguém que conhece essa favela?
— Bateu a cabeça? Quem que ia entrar na minha…
— Não, não Henrique. Porra, pensa. — Ele andou rápido até a mesa e se sentou de frente pra mim. — Quem trai nunca é um inimigo. Não precisa alguém entrar aqui dentro se…
— Já for alguém daqui de dentro. — Completei o raciocínio dele e encarei a mesa e senti minha cabeça doer. Puta merda.
— Vou arranjar a questão do trampo e…
— Eu não quero só o trampo. — Falei sério. — Eu quero mandar um recado pro PlayBoy e pros cagueta.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 42
Comments
Lismara De jesus Souza
gente para e pensa , sera que num fui juliana ? foi ela que apresentou a outra mulher a samuel , e sera que num foi atraves dela que bia soube ?
2024-11-02
0
Lucimara Aparecida
caramba inimigo tá mais perto do que se pensa abre olho Henrique
2024-10-20
1
Leydiane Cristina Aprinio Gonçaves
p*** m**** hein quem traiu o Henrique trabalha lado a lado com ele será que foi algum dos amigos dele que dizia ser amigos não estou falando do Samuel e nem do Gabriel falo de outros que diziam ser amigos e que na realidade não era amigo coisa nenhuma
2024-09-10
1