Eu não estava mais no mesmo lugar que antes.
Era algo em movimento e fazia um barulho do caramba. Senti a venda em meus olhos e se antes eu tinha certeza de que eu estava em uma merda muito grande, agora mesmo que tenho absoluta certeza.
Há duas vozes, masculinas e distintas ao longe. Eu não pareço estar em um banco ou coisa parecida, não. Estou deitada no chão sentindo todo o impacto dos buracos pelo qual essa coisa está passando por cima.
Henrique sabe onde estou? Bernardo sabe? Que dia é hoje?
— Já tamo chegando aí, porra, aquieta o facho. A estrada tá ruim, tá querendo o quê? Pra caminhonete quebrar?
Era o brasileiro de antes, mas a segunda voz que responde a ele, não tem sotaque espanhol. É brasileiro também.
— 10 minuto bituca, 10! Os cara tão tudo na cola porra.
—Tá tá, tô já chegando aí. — A voz do telefone foi completamente cortada.
Uma caminhonete. Não sei exatamente qual é essa, mas em qualquer caminhonete a parte do motorista é privada para a frente. Enquanto a de trás é vaga. Ou seja, ele não vai me ver quando eu me mexer.
Agora só me falta sentir os meus músculos, a droga deve ter me dopado de tal maneira que deixou meu corpo inerte.
É como uma pós-câimbra. Você sente os dedos, mas parece que não pertencem a você. E um realmente não me pertence mais.
Tento não me prender a lembrança da dor ao arrancarem meu dedo fora.
Então, comecei uma contagem do polegar ao mindinho da mão direita. Ultimamente minha vida era baseada na contagem. 1 me fodi, 2 me fodi de novo e 3, agora, me fodi novamente.
Não sei qual o plano desses caras e nem quem eles são, mas a certeza é que, o que quer que eles querem fazer comigo, não é nada bom. E tenho certeza de que quando fizerem, vou ter que escolher entre cometer um homicídio ou um suicídio pra salvar o resto de dignidade que ainda tenho.
Provável que seja a segunda opção. Matar alguém nessas condições é uma fantasia irreal demais para o meu cenário atual.
Certo, concentração. Dedo mindinho, o que eu ainda tenho. 1,2,3… Senti o osso latejar e em seguida, a mesma musculatura do mindinho, moveu também o… Como é a droga do nome do dedo que fica ao lado de mindinho? Seu vizinho, pai de todos?
Ah que se dane.
Xuxa se certificou de ser bem memorável quando ensinou metade da população infantil brasileira a contar os dedos com nomes estranhos.
Apenas sei que dois se mexeram. Em seguida o do meio. Os outros dois, após alguns segundos também. Ok. Uma mão presta.
Agora falta a outra. Ambas estavam juntas, mas não amarradas. O imbecil que me colocou aqui dentro definitivamente não sabe como sequestrar uma pessoa. Devido à burrice de uns, resta a inteligência para outros.
E felizmente não demorou muito para eu sentir a esquerda, e só agora sei que foi ela a ficar sem um membro. Mas tento não pensar muito tempo nisso, em outro momento eu sofro, agora eu necessito sair daqui.
Quando tive certeza de que podia tirar a venda, eu não me levantei. Era certo de que o motorista estava sozinho, mas não posso arriscar. Não sei quando vou ter as mãos livres novamente.
Preciso aproveitar a oportunidade. Eu preciso voltar para eles. Para ele.
Tentei engolir, mas minha boca estava seca, nenhuma saliva, nada. Mas não quero falar, quero me movimentar. Com cuidado posicionei, lentamente, as duas mãos, uma em cada lado do meu corpo. Não houve barulho e tomei o silêncio como uma resposta.
Levantei, passando as mãos coladas a mim, até chegar em meu pescoço e parei novamente. Meu coração estava prestes a pular e se eu não retirasse logo essa Maldita venda, ele iria parar.
Continuei até o queixo e, numa vez só, puxei o tecido largo para baixo. E mais uma vez fui surpreendida pelo grande e vazio, nada.
Ainda estava no escuro e era… Abafado? Levantei a mão direita e ela foi barrada por algo duro. Segui a grande extensão até chegar próximo a minha cabeça, dois círculos pequenos, único lugar por onde o ar passa. Uma caixa? Me colocaram em uma caixa?
Fechei um punho e dei leves batucadas no material acima da minha cabeça. Madeira, constatei pelo barulho oco e estava me preparando para olhar pelos furos, mas o motor do carro cessou e escutei meu coração em completo desespero.
Um rugido de um portão enferrujado sendo aberto foi o que ouvi em seguida. Coloquei a venda novamente e esperei.
Passos. 1,2… Ouvi caixas sendo arrastadas, então não é apenas a minha caixa que estava aqui. 3,4… E caixas, dessa vez sendo deixadas no chão, um peso parece sair de cima de mim e consigo escutar melhor. Tinha outras em cima da minha? 5… Eu sou arrastada.
— Segura aí. — A voz do brasileiro ordena.
— Demorô pra porra carai. — Um desconhecido responde.
— Coé tio, tá achando que a estrada tava cremosa? Tava osso passar naquela porra.
Sou erguida e jogada sobre o chão. Meu corpo sente o impacto e abafo um ruído de dor.
— ¿Es esa la chica Sánchez que me vas a vender?
(Essa é a garota Sanchez que tu irá me vender?) —Não é Guapo, é outro homem.
Estou sendo vendida? Que porra é essa?
— Sí, lo es. Ábrelo para que pueda ver (Sim, é. Abre aí pra ele ver) — Essa não é a voz do mesmo cara que me trouxe, é a outra, a voz que estava brigando com ele. Talvez seja ele quem comanda? Merda, não sei, minha cabeça está uma bagunça.
Então são dois brasileiro me vendendo para um estrangeiro que fala espanhol. Brasil faz fronteira com, no total, de 10 países. 7 deles têm o espanhol como idioma. Não dá pra saber de onde ele é.
— No, no quiero ver. Porque no lo aceptaré ahora. Dentro de apenas un mes. (Não, não quero ver. Até porque não irei levá-la agora. Apenas daqui a um mês.) — O cara que está comprando responde. E ouço passos pesados.
— ¿Dentro de un mes? ¿Qué carajo es esto? El trato era hoy. (Dentro de um mês?! Mas que porra é essa? o combinado foi hoje.) — O brasileiro parece ter se irritado.
— La carretera está llena de policías, es un fastidio pasarlos. En un mes me la llevarás. (A estrada está cheia de polícias, é uma porra passar por eles. Daqui um mês vocês vão levar ela para mim.) —O comprador parece não gostar muito de ter que esperar um mês, pela voz. Mas a polícia é um empecilho. Porém, não querem abrir mão de mim.
Eu tenho um mês para tentar sair disso.
— ¿Dónde te la llevaremos? (Onde levaremos ela para você?) —O brasileiro está irritado, mas precisa concordar. Isso significa que se eu fugir, eles irão pagar caro.
Ótimo, dois coelhos de uma vez.
— Sobre el río cerca de Estadual, en Foz do Iguaçu. (No rio, proximo a Estadual, em Foz do Iguaçu.)
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Atualizado até capítulo 42
Comments
Lismara De jesus Souza
foz do igualsul kkkk eles vão estar la poha kkkkkkk aeeeeeeeeeeeeee
2024-11-02
1
Amanda Larissa 💕💜
que suspense kkkk
2024-09-16
1
Cleonicee Araujo
Faz ela fugir ficar Gostosa Muda parar de ser burra e voltar cm a mentalidade melhor
2024-09-15
2