Não é muito, mas é um amigo

— Tu não foi deserdado? — Perguntei ainda focado na televisão. Gustavo saiu do batalhão, qualquer pai em sã consciência ficaria puto. Mas de repente a mãe dele tá no meio de uma merda que eu mandei Bernardo resolver sozinho.

— O ponto não é esse. — Ele pausa pra respirar, já tá cansado. — Dá pra tu se levantar e vir aqui conversar direito caramba?

Paro de movimentar os dedos no controle quando entendo o que tá acontecendo. 

Eles descobriram alguma coisa. Alguma coisa muito ruim pra Bernardo ter vindo até aqui junto com a porra de um saco de pancada pra me “desestressar”.

Olhei pra trás. Ele tava indo até a geladeira e puxou uma Brahma enlatada.

— Quer uma? — Estendeu a lata em minha direção.

— Onde tá o corpo dela. — Não foi uma pergunta, e ele sabe disso. Mesmo assim, puxou mais uma latinha e ao invés de me entregar, ele deixou em cima de um dos degraus da escada perto de onde ele armou o saco pesado. E jogou um par de luvas pretas na minha direção.

Esperto.

Ele sabe o que acontece. Mas duvido muito que, dependendo do que seja, ele consiga me controlar, nem eu consigo. Levantei e antes de chegar perto dele, já tinha começado a colocar as luvas.

— Sabe como funciona? — Pergunta.

— Se essa coisa pendurada não for o suficiente eu tenho a tua cara sobrando. — Respondo e ele sorri de lado.

— É, mais ou menos, a diferença é que eu sei bater. 

Eu começo, do lado oposto ao dele e dou os primeiros golpes. Intercalando, ele segue os mesmos movimentos. Eu não devia ter parado com as aulas de boxe. Mas ainda lembrava do suficiente.

— Bernardo falou comigo a uns dias, ele sabia que a minha mãe tinha esses contatos. — Ele entorta a cabeça pro lado. — Se é que pode chamar isso de contato, mas pelo menos consegui descobrir o que fizeram com ela. 

“O que fizeram com ela” Coloquei mais força no punho e o saco quase bateu nele. Não deviam fazer caralho nenhum com ela, porra é um corpo sem vida, só tem que enterrar. O que caralho iam querer com um…

A não ser que…

Segurei o saco quando ele veio de volta pra mim e encarei ele. O tipo de olhar que fala por si só, ou ele me responde logo direto ou eu vou arrebentar com ele. E depois dou um jeito de esconder o corpo.

Mas então eu paro quando ele fica em silêncio.

— Ela tá… — A ideia passa pela minha cabeça, como uma linha fina e tem 99% de chance de rebentar. Engulo em seco antes de terminar a frase. — Viva?

Era estranho perguntar, eu sei. Mas lá no fundo, eu queria que sim. Era uma sensação doida, parece que tudo não passou de um mal entendido e que ela vai entrar pela porta a qualquer hora. Eu não consigo aceita. Eu não quero aceitar.

Gustavo olha pra baixo, bebe um pouco da cerveja e volta a bater no saco.

— Continua batendo, ou eu não respondo. — O saco pendurado voltou pra mim e assim fiz. Ele tem chance disso realmente funcionar. — Ela tava viva quando saiu daqui.

Paro de bater, mas sem notar, volto com os movimentos. Foco, se eu parar, é pior. Então utilizei os chutes algumas vezes, a pressão sanguínea não diminui, mas a tensão na minha cabeça, sim, ao ponto de eu voltar a prestar atenção em Gustavo.

— O tiro, pelo que vi, foi de raspão. Mas… — Ele se afastou do saco, mas voltou a socar em minha direção. Eu já tava cansado, mas não me importei. — Ela tinha levado tiros em outros lugares.

Eu sei. Eu a vi. Eu escutei os gritos dela. Ele continua:

— Além das merdas que os desgraçados tinham feito com…

Mas a minha paciência já tinha ido embora e se ele continuasse falando nem essa porra de saco ia livrar ele de mim.

— Desembucha Gustavo!

— Ela não tava morta, podiam ter salvado ela, Alemão. Mas ninguém salvou. Ela ficou dias em cima de uma maca pra autópsia, não resistiu e o corpo foi cremado do mesmo jeito que o da mãe e do pai.

Bati com mais força e dessa vez a colisão fez barulho. 

— Como?! — Perguntei sem fôlego. — Como ela ficou lá viva e ninguém viu…

— Provavelmente porque queriam se livrar dela tanto quanto do pai. — Gustavo olhou pra mim e pela luz, uma penumbra ficou formada na área dos olhos. — Mas eu não disse que ninguém viu ela. Ninguém salvou ela, mas alguém sabia que ela tava viva. 

Encarei ele, sabendo o que viria depois. Mas não falei nada, continuei usando o saco como um escape. Eu preciso suar pra descarregar a raiva, acabei de perceber. Além do mais, metade dessa tensão seria descontada em alguém.

— Antônio Fagundes. — Gustavo pondera o nome do homem como uma ameaça. — Ele é tipo um coveiro, sei lá. Alguém que fica responsável pelo monitoramento de corpos.

Parei de bater e olhei pra ele, tirando as luvas e jogando no chão de qualquer jeito.

— Ele era. Em 10 ele não vai existir mais.

Passei por ele pegando a lata de cerveja que me foi oferecida e depois em direção ao balcão. Tá na hora de usar essa belezinha.

— Tu ficou maluco, caralho? Vai sair matando o cara assim sem mais nem menos?

Eu ignorei ele e continuei andando em direção a Hyundai. Só notei que Gustavo tinha me seguido quando ele entrou no banco do passageiro ao lado do meu.

— Vamo buscar o Bernardo, ele já tá na entrada.

Olhei pra ele por alguns segundos antes de ligar o motor.

— E porque tu veio? — Perguntei, a minha voz não tinha tanta paciência, então liguei o carro e dei ré pra sair. Se Bernardo sabia que eu ia atrás do filho da puta, por que mandou Gustavo me dar a notícia?

— Ele queria vir, mas eu me ofereci. Ultimamente nem eu tenho reconhecido ele. — Gustavo começa assim que o carro se move e verifico se o portão fechou. — O Bernardo que eu conhecia era diferente, ele pensava antes de fazer e sempre tinha um jeito pra tudo. Ele tá tipo tu. Só que eu não sei onde ela extravasa toda essa tensão e luto acumulado. 

É. Eu sei. E eu entendo o fato do irmão dela tá assim. Foram anos empenhado em encontrar a irmã, eles não tiveram tempo de se conhecer direito. Bernardo não tem mais nada. Perdeu o emprego, pelo menos ainda tem Gustavo, não é muito, mas é um amigo.

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Comments

Lismara De jesus Souza

Lismara De jesus Souza

gustavo é fechamento 10/10 pq tudo que ele passou ai no morro , e ele não virou as costas pra ninguem , tem meu respeito e carinho

2024-11-02

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Lismara De jesus Souza

Lismara De jesus Souza

ti bunitinho a amizade deles

2024-11-02

1

Geovanna Fernandes

Geovanna Fernandes

É muito errado eu estar gostando do Gustavo nesse livro???? Kkkk

2024-09-21

1

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