Por onde o vento corre.

...Rio de Janeiro|Favela da Rocinha, 2015....

A favela é um bagulho sinistro. O crime se instala aqui dentro com a promessa de deixar melhor, ajudar a comunidade, os cria, as mães, solo e tal, mais, na verdade, as coisas aqui não são desse jeito. Se a favela tivesse melhorando, eu não teria que tá trampando até tarde da noite e recebendo uma merreca.

Minha coroa diz que não é culpa deles. E acho que não é mesmo, só que eles também não facilitam. Parece que a única saída é entrando no movimento deles, e já até me ofereceram. Mas eu sempre negava, esse desgosto eu não dou pra minha mãe.

Pelo menos era o que achava até precisar do dinheiro. A mãe não tava dando conta de manter a casa, não quando o arrombado pegava todo o dinheiro e gastava em aposta e droga. Já tinha uma besteira há muito tempo com ele se fosse pela minha mãe. O filho da puta pode fazer alguma coisa por minha causa e pior ainda se ele morrer a dívida que ele tem na boca passa toda pra gente.

Era só um corre, nada mais que isso. Eu ia fazer o trabalho, entregar a encomenda, receber a grana e vazar.

— Se liga hein muleque, né pra fiar de marola não porra. — O Borracha, o traficante que mora do lado da minha casa, é quem tinha falado comigo. Eles precisavam de alguém pra pegar uma encomenda do lado de fora da favela porque tinha um bando de policial fardado na entrada da Rocinha. 

— Tá, eu já entendi, passa logo a mochila pra cá.

Ele passou e não fiquei me amolando muito. Andei depressa pro beco da “quinta” pra encontrar com Samuel. Chamei ele pra me ajudar, mas só no básico. Quando eu voltar pra dentro da favela com o malote ela vai tá me esperando aqui dentro e ele leva pro borracha. Pega o dinheiro e divide pra nois dois.

Ele já tava me esperando com a farda da escola na mão. Eu ia trocar a minha roupa por uma farda, assim ninguém ia desconfiar quando me visse com uma mochila. 

— Iaê mano. — Ele diz e me entrega o fardamento.

Leva menos de 10 segundos. Quando termino corro pra saída da favela. Eu só preciso pegar a mercadoria, colocar na mochila e voltar pra dentro. Era uma merda, mas a grana era boa.

Segui um grupo de moleques que tavão com a mesma farda que eu e que por sorte também iam sair da favela. Com certeza iam pra praça onde tinha a pista de skate.

Quando pisei pro lado de fora, os cu azul param o pessoal pra fazer um revistamento. E como só tinha livro na mochila, pra não levantar suspeita, segui calmo esperando chegar minha vez. Os cara de farda já foram logo na ignorância. Eles não tinham pena de neguinho.

— Mãos pra cima vagabundo. — Levantei e tirei a mochila. Mas levei um empurrão de graça no capô do carro. — Abre as pernas, caralho.

Fiz o que ele mandou e senti a mão dele passando por tudo. Depois disso ele me liberou, andei de normal até certo ponto e, só depois de virar o canto, comecei a correr. Eu tinha que voltar junto com essa mesma galera que eu vim, assim eu passava despercebido no meio deles.

— Qual é muleque se apressa porra! — Um cara alto grita de uma janela. Boné preto, roupa preta. Eu acho que eu conhecia ele, mas não lembro direito.

— Tem cu azul pra tudo quanto é lado, não coloca muita coisa não, porra. — Aviso. Se a bolsa ficar cheia demais vão acabar percebendo.

Quando ele termina o trabalho eu fecho a mochila e não espero ele dizer mais nada. Corro pra ponte. Era perto, não era muito longe. Só dois cantos e eu já tava lá de novo. Mas o grupo de moleque filho da puta, não.

Caralho, vai se fuder! 

Fiquei na espreita atrás de um poste que ficava de frente pra um muro. Já ia escurecer, se eu desse sorte podia conseguir dar fuga neles. Mas as chances deles me pegarem eram…

— Henrique? — A voz fina não me assustou, mas me deixou em alerta. — Tá fazendo o que aí? 

Lilli.

Ela tava linda, me fez até esquecer do puta problema que eu me meti.

— Nada, eu tava só vendo o movimento. E tu?

Ela levantou uma sobrancelha desconfiada. A gente não se via desde semana passada quando eu dei um beijo na bochecha dela. Se o pai dela soubesse, mandava me matar, ele já não vai com a minha cara. Mas ela tava crescendo. Quatorze anos já e, além disso, era só três anos de diferença.

Ela me olhou de cima a baixo e ficou encarando a mochila. Lilliana era esperta pra caralho, essa pirralha quando crescer não vai dar o que preste. Só faltava ela saber disso. 

— O que tem nessa bolsa, Henrique? E porque você tá com a farda do Samuel.

Pirralha esperta.

— Peguei emprestada.

— Pra quê?

— Ah, Liliana! Não fode cara. Eu tô com pre…

E de repente uma ideia surgiu na minha cabeça. Era errado, eu não podia usar ela pra isso, mas se eu não entrasse na boca com essa mercadoria daqui a uma hora eu tava fudido.

— Escuta é… Aí. — Fiz cara de dor, passando a mão na costa e ela arregalou o olho— Tá pesado… Aí, aí. Pega aqui pra mim. 

— Se você não tá conseguindo carregar, quem dirá eu né Henrique!

— Qual é pow ajuda aí, bota na tua costa, depois eu pego. É só pra eu descansar…

Ela revira o olho e me ajuda a pegar a mochila mesmo assim. De primeira ela ficou toda torta carregando, eu me acabei de sorrir e ganhei um murro nas costas que me deixou quieto.

Falei pra ela que precisava comprar um biscoito rapidinho e que ela podia ir na frente. Eles não iam parar ela. Branquinha, olho verde, roupa de marca e filha da Daiana. Eles sabiam quem era ela e do pai dela.

Dito e feito.

Liliiana passou, sorrindo e dando tchauzinho pros fardado. Esperei mais uns minutos e andei na direção deles e graças a Deus quem me revistou foi outro policial. 

A branquinha já tava esperando na rua da entrada. Mas a bolsa já tava na mão dela. Devia tá pesada essa porra. Peguei dela antes que alguém visse e olhei pra ela.

— Machucou a costa? — Perguntei e me segurei ora não passar a mão no ombro dela.

— Um pouquinho. — Responde— O que tem aí?

— Sei lá, só peguei pra um amigo e vou lá deixar pra ele. — Olhei em volta e só agora notei que não vi a mãe dela. — Tu tá sozinha?

— Não, minha mãe tá na casa da vó. Eu tava indo lá na pracinha do Skate quando vi você.

— E tava indo fazer o quê lá?

— Ué, o que a gente faz numa pracinha. — Responde de qualquer jeito. — Vai levar pro seu amigo agora?

— Eu…

— Qual é cara tá moscando aqui? — Samuel chegou correndo do outro lado da rua e pegou a mochila da minha mão.— Iaí branquinha?

— Iaí. — Lilliana responde.

— Cheguei ainda agora. — Ajudei ela a colocar na costa e olhei pra ele. — Amanhã nois acerta.

Falei e ele saiu com a mercadoria na costa. Deu certo. Eu podia tá na viatura agora só por causa dessa merda, mas deu certo. Amanhã tem a grana e essa é a primeira e última vez.

Olhei pra Lilliana e deixei um sorriso escapar.

— Bora, eu te levo até na casa da tua avó

___________

— Pronto, tá entregue.

Falei quando ela subiu em cima da calçada, eu ia soltar a minha mão porque achei que ela não quisesse segurar, mas ela apertou firme, balançando. Ela tava com vergonha?

— Valeu por hoje… Se não tivesse chegado a tempo, não ia conseguir jantar com a minha avó.

Ela sorri sem graça e só depois solta a minha. Sinto vontade de segurar a dela de novo, mas eu tenho que parar de ficar fazendo isso, quando eu tô perto dela parece que eu não tenho controle e começo a fazer um bando de coisa estranha.

— De boa, tá no caminho do meu barraco também e eu não ia te deixar vir sozinha né? 

Ela sorri e eu pensei que fosse responder alguma coisa, mas foi rápido quando ela desceu um degrau da calçada, se aproximou e só senti o hálito quente na minha bochecha antes dela beijar o local. Ela não tinha uma intenção ruim nem nada, dava pra ver pelo jeito dela. 

Mesmo assim, alguma coisa lá embaixo acordou e eu arregalei os olhos. Puta merda.

— O que f…

A porta se abriu a mãe dela saiu pra fora se assustando quando viu a gente.

— Quê que cês dois tão fazendo aqui fora hein?

Não tinha como negar que elas duas não eram mãe e filha. Tinham o mesmo jeitinho. Tia Daiana olhou pra mim sorrindo.

— Iaí meu filho, como vão às coisas? Não quer entrar pra jantar com a gente?

— É, entra pra jantar. — Lilliana concorda.

— Ah não, valeu tia. Tenho que voltar… —Ainda tava tentando acalmar os nervos lá embaixo.

— Que nada, entra aí. Preparei um franguinho gostoso pra gente.

Antes que eu respondesse ela me puxa pra dentro e minutos depois eu já tava dentro da casa. A mesa tava posta. Eram só elas três. Daiana tava na pia lavando uns copos enquanto conversava comigo. Lilliana tinha ido atrás de algumas.

— Fazia um tempinho que eu não te via junto com eles, brincando no campinho. Geralmente é só a Lilliana, a Carla, a Bia e o Biel. Nem o Samuca eu vi mais. 

— Tá mó correria, tia. Sabe como é, tem que se virar.

Ela me olhou de um jeito calmo, com um sorriso mó daora. Aquele sorriso que mãe dá pra gente

— Se precisar de ajuda, sabe que pode contar comigo né? — Eu segurei os copos e coloquei em cima da mesa. — Tua mãe é minha amiga e os filhos dela também são. Sem contar… Que a Lilli não para de falar de ti. Vocês tão…

— Que isso tia, nois é amigo. Deixa de ideia.

— Tá querendo me enganar é? Da escola que tu estuda eu sou professora, meu filho. — Ela tava sorrindo, mas depois ficou séria e eu já sabia do que ela ia falar. — Eu vejo o jeito que tu olha pra ela. E eu sei que tu é bom menino, mas tu tá numa fase mais avançada que ela. É mais velho. Ela tá nova ainda, vocês dois tem muito pela frente. Eu não vou proibir, até porque o problema não é eu, tu sabe como é as coisas com o pai dela. — Daiana se sentou na mesa de frente pra mim e começou a colocar o arroz no meu prato. — Talvez no futuro… Mas enquanto isso, quero que cuide dela por mim, tá certo?

— Qual é tia, tá falando como se fosse morrer.

Ela ficou sem graça por um tempo e pensei até que tinha dito alguma coisa errada. Depois ela sorrio

— Quero tá vivíssima pro casamento de vocês.

Me engasguei com a comida e foi nessa hora que Liliana chegou na cozinha com a mão cheia de pano.

— Ô mãe, achei os panos. A vovó disse que… —Ela olhou pra mim de um jeito estranho. — Ué, pegou sol? Tá vermelho por quê?

Passei a mão no rosto mais rápido que bala e Daiana gargalhou

— Que vermelho o que, tá de caô garota?.

Foi rápido quando a velha… Digo, a vó dela chegou na cozinha e todo mundo ficou sentado na mesa jogando conversa fora e sorrindo. É só uma cozinha, uma mesa e uma janela aberta por onde o vento corre, mas me faz sentir um negócio estranho. 

Liliana olhou pra mim sorrindo e meu coração deu um pulo no peito achando que ela fosse dizer alguma coisa importante, mas na verdade…

— Nem tenta pegar a parte da coxa, ela é minha.

Demorei pra entender até que ela apontou pro frango frito. E não teve como segurar a gargalhada. Era uma coisa boba, mas parece que quando a gente tá perto de alguém que a gente gosta tudo vira graça.

Eu ainda vou casar com essa mina.

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Comments

Pedro Miguel

Pedro Miguel

Demaiiíis Autora

2025-03-10

0

Joyce Fagundes

Joyce Fagundes

Da uma vontade de chorar nessas partes 😢

2024-09-19

1

Elisiane Oliveira

Elisiane Oliveira

ainda tenho esperança q ala tá viva

2024-09-12

1

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