A casa

Eu devia estar viajando por alguma estrada de pedras a mais de 1 hora. Cinquenta e nove malditos segundos contados por mim. Foi a única maneira que encontrei para não ter surtos de temperatura alta e Deus, como está quente aqui dentro. 

Já deve ser dia. Mas ainda era escuro dentro da caixa onde me prenderam. Se eu fosse algum tipo de pessoa claustrofóbica, não estaria mais viva uma hora dessas. Ficaria agonizando até o meu próprio corpo resolver que seria interessante me matar.

Merda. Eu preciso sair disso. Quero um banho gelado, tirar toda essa crosta de sangue e vômito do meu corpo e dormir em uma cama macia. Sim, é disso que eu preciso, esquecer de tudo o que aconteceu e adormecer.

Os cascalhos param de arranhar o pneu. O motor cessa e sei que, pela conversa de ontem, eles, os meus vendedores, me colocariam em algum lugar provisório. Algo como um preparatório, talvez? Foi isso que escutei da conversa dos dois desgraçados antes de um deles parar de falar.

O grande portão da caminhonete ou o que agora suspeito que seja um caminhão pequeno, é aberto. Caixas são arrastadas, puxadas, jogadas e a minha é a próxima. Espero ser arrastada também e preparo minhas costas para o impacto, mas ao invés disso, a caixa é aberta e mãos nem um pouco cuidadosas me erguem. Só então notei o quão imobilizada eu estava naquela caixa, meu quadril está dormente.

— Acorda vagabunda. — Ouço a voz dele e mal tenho tempo de reagir quando ele me sacode. 

A fita cai e com dor, mal consigo abrir os olhos pela claridade. Meu corpo tá uma merda, mas o resto de energia que tenho uso para empurrá-lo. Ele se desequilibra pelo susto e sou jogada sobre o chão de metal.

— Filha de uma puta! — O homem berra. E pela minha surpresa ele não se levantou, com esse amontoado de gordura envolta dele, dificilmente vai conseguir.

Agarro com força a caixa de madeira, sentindo minhas unhas arderem pela força ao me levantar, mas ignoro a dor e levanto. Contando que eu tenha uma chance, não me importo se me ferir no processo. 

O homem continua tentando se apoiar em algo, o caminhão balança e quando a claridade para de atrapalhar minha visão, vejo o lado de fora. 

Cacete.

Só tem mato, para onde eu olho só vejo capim alto e seco. Algumas árvores, mas não tem sinal algum de casas. Com cuidado desço do automóvel e dou a volta me esgueirando pela sombra. Onde está o outro cara? 

Coloco as mãos no pequeno caminhão para ter apoio caso eu ceda. Mas meu corpo está sobre a pura influência da adrenalina, então independentemente do incômodo, eu irei sentir depois. 

Passei do último pneu para o primeiro, na parte da frente do caminhão. Eles não podem ter me trazido até um matagal, certo? A conversa de ontem a noite foi clara, eles irão me vender, não podem me machucar…

Me preparo, atrás do capô, e ergo a cabeça espiando. Uma propriedade, uma casa como aquelas de fazendo em interiores. Há carros como este em que eu estava e… pessoas. Não muitas, 4 homens e 6 mulheres. No entanto, as mulheres estão presas, sendo empurradas para dentro.

Eles estão…

— Tava tentando fugir porra! 

Mãos me agarraram por trás e puxaram meu cabelo para longe do caminhão.

— Me solta! — Tateei para frente, empurrando o sujeito, mas não era o mesmo que abriu a caixa, esse era diferente. Mais forte. Usava roupa preta e uma máscara, não dava para ver quem era. 

—Tá vendo essa casa ali sua putinha? Tá vendo? —Ele prende meu rosto entre os dedos e me força a olhar para a construção. — Vai seu teu inferno de prostituição e tu tem que tá pronta em 1 mês.

Com rapidez ele me prendeu com os braços para trás. O meu esforço era completamente inútil, mas não significa que eu iria facilitar. Ah, mas não mesmo. Debato as pernas para trás, procurando por aquele maldito ponto fraco dos homens. 

Num movimento certeiro ele me debruça sobre o capô e minhas bochechas ardem quando colidem no aço quente em decorrência do sol. Ele deita sobre mim, depositando todo o peso do corpo dele sobre o meu. O desespero me invade como uma enxurrada.

A última vez que um homem esteve sobre mim assim… Não, de novo não. 

— Escuta aqui sua desgraçada do caralho… Te comporta porra! — Meu couro cabeludo arde com a força das unhas dele. Eu grito e me debato, em busca de saída. Mesmo que ninguém vá escutar, mesmo que ninguém venha me salvar. — Pega o pano, rolha de poço filho da puta!

Eu não sei com quem ele fala, mas ouço quando alguém chega até nós. Ele dá espaço e um pano embolado é amarrado em minha boca, contendo meus gritos. Fica difícil respirar, pelo ar que gastei lutando, agora estou quase sem fôlego. Mas não posso adormecer, não posso fechar os olhos com todas essas pessoas que não conheço. 

Então eu paro. E foco em inspirar e respirar, aqui é seco, quente e o sol não parece ter piedade de quem está embaixo dele. 

Merda, onde está Henrique? Por que caralhos eu vim parar nisso? Eu estava na Rocinha. Eu lembro dos tiros, achei que o pessoal dele havia conseguido conter os policiais. Achei que eu acordaria próximo a ele, não na mesma cama, talvez, já que ambos levamos disparos, mas pelo menos embaixo do mesmo teto.

— Anda vagabunda. 

Tropeço para frente quando sou empurrada, mas eles me seguram e eu não caio de cara no chão. Começamos a caminhar em direção à residência que, vendo agora, parece ser macabra. Não tem cor, está morta. 

Não é uma construção de tijolos. As casas brasileiras normalmente tem tijolos e vigas de metais que sustentam, mesmo que não sejam pintadas, a tonalidade do cimento usado no reboco pelo menos é uma cor. Mas não nesta casa. É madeira escura. 

É velha também. Percebo quando pisamos nos degraus da sacada e o assoalho range.

Ótimo, entrei em um filme de terror.

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Comments

Shirley Freire

Shirley Freire

Autoraaa tira essa burrice de Líliana por favor já tá até estressante de ler o tanto que ela fica lezada e de vez ou outra ela é inteligente bem as vezes mesmo quase nuncaaaaa kkkkkkkkk

2025-04-03

1

Leydiane Cristina Aprinio Gonçaves

Leydiane Cristina Aprinio Gonçaves

eu acho que às vezes a Liliana a maior parte do tempo é muito burra em vez de guardar energia forças para fugir depois que já tiver livre dos cara né tiver dentro de um quarto por exemplo que seria mais fácil dela fugir não vai tentar fugir antes de entrar na casa antes de repor as energias pelo amor de Deus viu

2024-09-21

3

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