...Rio de Janeiro|Rocinha...
...1 mês e 13 dias desde a morte de Lilliana....
Era a segunda vez que eu vinha aqui. A primeira eu entrei, achei o bilhete, mas não consegui ficar e voltei pra boca, onde eu tenho dormido durante todos esses dias. Não é bom pernoitar numa cadeira, meu corpo tá travado e faz um tempo desde que usei a academia.
Bianca não tava em casa, percebi pela luz da janela do quarto dela desligada. Não sabia se a situação com Samuel foi resolvida, tinha coisa mais importante acontecendo. Como a porra da história no IML, Bernardo agora tava suspeitando de que o corpo nem chegou a entrar no caixão. Só que ele não tem liberdade pra ficar abrindo túmulo alheio.
Mesmo ela sendo irmã, ele não pode. Se fizer isso, o inquérito contra ele e Gustavo vai pegar mais peso e não vai ser fácil de retirar.
A rua tinha um pessoal fazendo churrasco e ouvindo samba, até me convidaram, mas recusei. Não tô no clima.
Girei a chave e foi meio difícil do portão destrancar, tinha uma camada de terra entre as vigas. Precisei usar uma mão pra empurrar porque a outra tinha uma bolsa com muda de roupa. Era o básico do básico, até porque eu não tava vivendo, eu apenas existia e nem isso era suficiente.
Liguei as luzes da garagem, o carro ainda tava aqui. Era um móvel de luxo que eu tinha comprado achando que ia usar e esbanjar, no começo eu fiz mesmo isso, mas depois do contrato era mais problema pra resolver do que pra se orgulhar.
Depois que ela chegou naquele dia, eu sabia o que tava comprando. E não me arrependo de ter feito aquele acordo. Faria de novo se pudesse ter a chance de ter ela aqui, comigo. Problema nenhum inválida o preço que eu pago em ter que voltar pra essa casa vazia.
Tem mais fantasma aqui do que gente viva. Eu não gosto muito de assombração. Gosto de poder bater na ameaça, e em demônio não dá pra bater.
Nem bíblia tenho aqui. Eu devia ter ido batizar a arma na igreja ao invés de ter usado na buceta del... Mais que merda que eu tô pensando?
Joguei a bolsa em cima do balcão e fiz uma promessa de que hoje eu não subiria lá em cima, aqui embaixo tem um quarto, vou usar esse. Pelo menos até eu contratar alguém pra limpar o segundo andar, trocar tudo de lugar.
Bati as mãos na parede procurando pelo interruptor. Menos de um mês e já esqueci onde fica essa droga. Quando achei foi a lâmpada da cozinha e não me estressei procurando o da sala, o brilho da televisão vai fazer o trabalho de iluminação.
O sofá tá do mesmo jeito. Tudo tá, na porra do mesmo jeito. Era pra Bianca ter mudado alguma coisa, pelo menos, mulher gosta disso, não gosta? Ou ela…
Quando a TV ligou, alguém bateu no portão.
— Alemão!
Assim que ouço a voz dele eu xingo alto pra ele escutar. Não levantei do sofá, fiquei pensando em 10 formas diferentes de matar Gustavo. Um dia desses eu explodo em cima dele.
— Vai embora, caralho! — Gritei de onde eu tava e não me importei em saber se ele escutou, ou não, mas pela resposta depois, talvez sim.
— Qual é Alemão abre aí, tenho uns papo sério aí contigo!
— Fala daí! — Rebati e apertei no controle remoto, a televisão foi direto pro aplicativo de filmes, mas as batidas no portão não pararam.
— IML.
Abri a boca pra gritar com o filho da mãe, mas dois segundos depois lembrei dessas três letras saindo da boca de Bernardo. Do que eu mandei ele investigar em sigilo e pelo pouco que Bernardo tá aqui, ele não ia contar sem necessidade pra alguém como Gustavo, mesmo os dois sendo amigos.
Levantei completamente contra a minha vontade e abri a porta. O moreno tava parado na porta, com dois pares de luva de box penduradas no ombro e um saco de pancadas vermelho apoiado na perna dele.
— Que porra é essa, caralho? — Perguntei e não segurei as luvas que ia me entregar.
— Pra desestressar. — Ele aponta pra dentro de casa com o queixo e eu deixo ele passar, mas não ajudo. Ele que trouxe, ele que se vire. — Tu não tem nenhum desses, tem?
Fecho o portão quando ele entra, entendendo que “desses” ele tá se referindo ao saco pesado.
— Agora eu tenho dois.
Gustavo franze a testa sem entender e eu passo por ele voltando pro sofá. Eu não devia tá deixando ele entrar aqui, mas não é como se ele fosse botar fogo na casa que tá dentro da favela e, que é, e será, o único lugar que ele tem pra ficar até o inquérito ser inválidado.
Gustavo e Bernardo são um caso à parte diferente dos que já lidei. E tem sujeito do movimento questionando meus comandos por causa deles dois, por isso eu fui justo. Os dois vão tá no assalto do banco, se querem ficar aqui, vão ter que provar que podem, vão ter que ganhar confiança.
Não era a minha ideia fazer isso, até porque os dois podem tomar rumo depois de um tempo. E eu sei melhor do que ninguém que ficar preso no movimento, é um poço sem fundo. Tu acha que tá escalando pra cima, quando, na verdade a lama tá sempre te puxando pra baixo.
Eles não são ruins, mas também não são bons. Eles são o que precisam ser e contando que mantenho a noção em dia, eles têm meu apoio aqui dentro.
— Onde é que eu penduro?
Mas é bem provável que só um saia vivo daqui, o outro eu vou acabar matando.
— O que tem o IML? — Faço outra pergunta ignorando a dele.
As correntes balançam atrás de mim e ele deve ter achado algum suspensório no vão do cômodo entre a sala, cozinha e a escada. A casa é espaçosa. Quando ouço batidas ocas, sei que ele conseguiu pendurar aquela coisa pesada.
— Bernardo me contou, na verdade ele teve que me contar, minha mãe é médica e tem contatos com esse pessoal que trabalha com gente morta.
Fechei a cara com a revelação. Disso eu não sabia.
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Atualizado até capítulo 42
Comments
Leydiane Cristina Aprinio Gonçaves
nem tudo você tem que saber Henrique o único que tem esse poder é Deus kkk você não investigou a vida do Gustavo e nessa investigação não tinha dados da família dele então se conforme com a realidade meu querido kkk
2024-09-21
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