Fronteira.

A fronteira é um negócio que demora pra entender, as pessoas acham que ela só existe pra separar. Mas a fronteira também mistura. Gente de tudo quanto é canto. O certo e o errado, polícia e bandido. Numa guerra fudida que mata deixando estrago para os dois lados.

Todo mundo fala do que entra do Paraguai pro Brasil, mas ninguém conta o que o Brasil manda pra lá: crime, todo tipo de crime. Entre eles, o domínio de cidade. Uma invenção 100% brasileira. 

Tudo é articulado. Várias quadrilhas diferentes trabalhando juntas. Param a cidade, fazem refém, fecham a rua, paralisam as forças policiais com armamento de guerra.

Tocam o terror na porra toda.

E depois, vão atrás do dinheiro, muito dinheiro.

^^^—DNA do crime.^^^

...Rocinha, 2021...

...1 mês e 10 dias desde a morte de Lilliana....

— Paraguai.

Gabriel colocou o computador na mesa e virou a tela pra todo mundo ver. E “todo mundo” eu me refiro a Eu, Gabriel, Samuel, Bernardo e Gustavo. Foi uma decisão da porra colocar Bernardo e Gustavo aqui. Mas os cara tavam fazendo por onde, eram de confiança, até porque não tinha como eles saírem daqui de dentro.

Além disso, Bernardo tava cuidando de um assunto que, pra mim, era o mais interessante e que não me deixava dormir a noite toda. Os 5 sentados numa mesa redonda que mandei colocar na minha sala particular da boca. E em cima da madeira tinha um computador, o plano que Gabriel tinha levado mais de cinco dias pra chegar com ele aqui pronto.

Vantagens, desvantagens, começo, meio e fim. Tudo iria ser repassado aqui e agora. Óbvio que era só na teoria. Eu ainda precisava aprovar. Mas cada um aqui ia acrescentar alguma coisa.

Eu conhecia Samuel e Gabriel quando o assunto era estratégia, e, entre nós três, Gabriel era o melhor nisso, não é à toa que ele é meu braço direito. Eu tava curioso, era pra saber o que dois cabeça branca iam falar.

São ex-policiais, já entraram em conflito milhares de vezes. Bernardo tinha um cargo importante, sabia muito do certo e do errado. Gustavo parecia burro, agia como burro, mas, lá no fundo deve ter alguma coisa que preste. E eu chuto que é nas armas ou na luta corpo a corpo, julgando pelo físico dele.

Ninguém aqui era unilateral.

— Paraguai? Que diabo a gente vai fazer pro Paraguai, Gabriel? — Samuel foi o primeiro a perguntar. Tinha que ser.

— Foz do Iguaçu. Conhecem? — Gabriel ficou de pé lá, parecia que tava apresentando um trabalho. Mas a verdade é que ele tava mesmo. Ele precisa desenrolar essa ideia na mente de cada um aqui. — É um município no Paraná.

— Conheço, a PRF tem uma unidade lá, é fronteira. — Bernardo acrescentou.

— O nosso foco é na estadual. Dois carros-forte numa vez só. — Gabriel completa e vira o computador na nossa direção.

Um mapa. A divisa. A cidade a base da PRF e a rodovia estadual. Quando ele levantou o mouse, com um click, um monte de rodovia apareceu.

— Tão vendo isso aqui? — Ele perguntou e olhou Bernardo.

— Tem como entrar no Paraguai sem passar pela fronteira. — Bernardo respondeu e Gabriel sorriu, acho que agora ele vai ter alguém pra trabalhar junto com ele.

— Sim, mas não é só isso não. A fronteira manda muita coisa pra cá também, mistura muita gente. Uma aliança com o embaixador de lá, ia ser uma cartada boa. Tá bem perto da gente e outra, o Playboy não tem acesso lá. Ele não pode.

Ergui uma sobrancelha. Eu já sabia onde ele queria chegar. Gabriel quer uma base a todo custo, ele sabe que nois vamo precisar. Mas eu só faço acordo se tiver mais vantagem pra mim. É burrice? Não, é a vida do crime. Tem tubarão pra todo lado, eu me transformei em um e não foi à toa.

— Volta pro assunto do carro forte. — Mandei. — Localização exata, quanto de armamento aí ser preciso, quantos homens, van. E o principal. — Olhei pra ele antes de dar mais uma tragada no cigarro. — A grana.

— São dois carros-forte, não são? — Gustavo abriu a boca pela primeira vez. Era até estranho ver ele concentrado.

— São. — Gabriel respondeu. — São bem grandes, devem ter muita grana.

Mas o saco de pancada sacudiu a cabeça, negando o que Gabriel disse. Agora era ele que tomava a rédea.

— Carro-forte não tem a ver com o espaço. Depende da seguradora, da lei local e principalmente da transportadora.

— Diz o número. — Samuel perguntou sem paciência.

— Foz do Iguaçu é onde ficam as Cataratas do Iguaçu, é ponto turístico da cidade. Talvez uns… 8 milhões, 4 em cada carro.

— É pouco. — O restante da mesa já tinha começado a sorrir. Mas eu não. Suspirei e bebi do whisky.

— Caralho, 8 milhão é pouco, Henrique? — Samuel não tava nem aí como que a gente ia conseguir pegar a grana, assim que passa pro milhão, ele já não se importa mais com nada.

— Ele tem razão. — O saco de pancada parecia intender do assunto. Olhei pra ele. — Se vamo fazer aliança com vagabundo paraguaiano, o dinheiro tem que ser mais.

— Faz as contas. 20 milhões, menos… —Virei o rosto pra Gabriel, esperando pela estimativa.

— 50% pras mercadoria.

Gustavo não pegou nem o papel em cima da mesa, fechou o olho e quando abriu:

— 10 milhões.

Dessa vez eu sorri e olhei pra cada um sentado na mesa.

— 10 milhões pra família. É melhor que merreca né não? — Perguntei e ele concordou.

— Os carros-forte só têm 8. De onde que nós vamos tirar o restante? — Bernardo me perguntou.

— É pra isso que existe banco, né não? Nois pega a grana na hora que os carros-forte forem depositar no banco.

— Puta que pariu mano… Cê é loco porra? Perdeu a noção?

Ignorei Samuel e olhei pra Gabriel, ele parecia assustado, mas não falou nada. Ele sabe que eu não mudo de ideia, não agora. Não depois do que fizeram, não depois de mexerem com meu morro e minha mulher.

— Quanto tempo pra juntar armamento, informação e plano completo?

— Vai levar um tempo. Não tenho escuta pra esses lados…

— 1 mês, é o máximo que tu tem.

— Fechado. — Ele pegou o computador e olhou pra Bernardo e o saco de pancada. — Cola comigo, preciso de vocês dois.

Eles saíram, Samuel se levantou e, antes de passar pela porta:

— Tu tá ficando doido.

É. Eu tô.

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Comments

Pedro Miguel

Pedro Miguel

Eu.acho que ela está é viva

2025-03-14

0

Fernanda Figueiroa

Fernanda Figueiroa

gente não estou entendendo nada sobre o livro
ela está viva ou morta
pois está mais parecendo processo de justiça não anda nem desanda e não explica nada ao mesmo tempo
qual o rumo que o livro levou?

alguém sabe explicar por gentileza?

2024-09-12

1

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