Abri a porta com mais raiva do que acordei e me deparei com um cara totalmente desconhecido. Bernardo raspou o cabelo, estava mais magro do que da última vez que vi ele, além das olheiras em baixo dos olhos. Parecia abalado. Ele tava na merda mesmo.
— Só quero conversar, tenho uma parada importante pra te falar.
— Vaza.
Sou rápido em responder quando seguro a porta pra ser fechada de novo, mas Bernardo coloca o pé entre as vias.
— Abriu a porta só pra me mandar embora?
— Abri a porta pra ver tua cara pior que a minha. Agora sai, não tô com cabeça pra trocar ideia.
Sem aviso, ele empurra a porta e entra de uma vez dentro da casa, me pegando desprevenido. Se eu não tivesse me equilibrado, eu teria caído para trás.
— Qual é, porra! Perdeu a noç…
A mão dele segura o colarinho da minha camisa com força, me puxando pra frente sem deixar espaço pra reação. Bernardo me encara como se a vida dele dependesse disso.
— Escuta aqui, seu desgraçado! Tu acha que vou ficar aqui te olhando, tu se esconder nessa merda de barraco enquanto todo mundo tá dando cara a tapa? — Ele sacode a camisa e meu corpo vai junto. — Caralho, Henrique acorda! Não foi só tu que perdeu ela. Eu perdi uma irmã que passei a vida toda procurando e, quando finalmente tinha encontrado...
Ele para de falar quando o ar impede as palavras de saírem. Mas, na verdade, acho que não é o ar. É a falta de coragem pra terminar.
Sei disso porque eu também não consigo dizer o nome dela em voz alta, nem aceitar o que aconteceu. Mas, no momento em que meu organismo entra em contato com a droga, Samuel disse que eu chamo por ela todas as noites. É como ficar preso no purgatório e a sentença é lembrar do que perdi sem a chance de ter de volta.
Arranquei a mão dele da gola da camisa e afastei o corpo dele do meu. Bernardo não perdeu só a irmã, perdeu o cargo na corporação. Ele e o saco de pancadas.
Pego um copo, coloco um pouco do whisky que Samuel trouxe hoje cedo e ofereço pra ele com a mão estendida.
— Pega.
Antes de segurar o copo, ele volta pro batente, abrindo a porta, dando espaço pra mais alguém passar. Gustavo entra e, se não fosse meu cansaço, eu jogaria a garrafa de whisky bem na cabeça dele.
— Que porra é essa?! É casa da mãe Joana agora?
O saco de pancadas ergue as mãos pra cima, se rendendo, com medo. Acho que ele lembra da última vez que entrou em um lugar sem ser convidado.
— Calma aê Alemão! Eu quero sair daqui vivo ainda, vim na paz.
Bernardo fecha a porta e notei quando ele passou a chave, se certificando de que tava trancada.
— Eu não gosto de ficar perdendo tempo com coisa óbvia, mas o Gustavo tá aqui porque eu, ou melhor, a gente precisa dele.
— É, mas a casa é minha, não tua.
Respondo sem olhar pro saco de pancada. Só de olhar pra esse moleque dá vontade de vomitar. Bernardo me ignora e tira do bolso um celular velho.
— Samuel não quer que eu te mostre, mas eu tô pouco me fudendo pro que ele acha. Ninguém aqui é obrigado a viver com medo de dizer qualquer coisa e tu explodir o mundo. — Em menos de dois segundos, ele entrega o celular na minha mão e volta a olhar pra mim. — Consegui as filmagens da casa onde o Alberto levou a… A Lilliana.
O nome dela sai baixo e meu corpo se retorce com a forma que ele falou das câmeras.
— Conseguiu como?
— As imagens ficam armazenadas por 30 dias e Gustavo tinha acesso aos arquivos porque, antes do dia 10 deste mês, ele ainda não tinha sido dispensado, só quando as investigações terminaram.
— E tu viu o que tinha aqui?
Pergunto, segurando o celular com o arquivo pausado em minha mão. Bernardo não responde, ao invés dele, Gustavo se aproxima.
— Ninguém assistiu. Só contei pra eles o que um dos policiais me disse que tinha acontecido.
Engulo o medo seco e, pior do que o álcool ácido, desce rasgando até a ponta do meu estômago. Eu nunca, nunca em toda vida de merda que tive, fiquei tanto tempo assim. Nem quando minha mãe morreu.
Eu nem sei mais o que porcaria eu tô fazendo. Não lembro do que fiz ontem, não sei nem mais que merda de pessoa eu me tornei.
Pra onde olho, é ela que eu vejo.
Por onde eu ando, é ela que eu vejo.
Tudo que eu escuto durante fudidos 30 dias seguidos é a voz dela gritando meu nome.
E a última coisa que ouvi antes de desmaiar.
*Ela tá morta. Ela pegou um tiro na cabeça. Ela tá mort***a**.
— ...Henrique? — Bernardo me chama.
Mais que porra.
— Vaza, os dois. — Disparo, seco e sem nenhuma intenção de parecer educado.
— Mas a…
Bernardo tenta argumentar, mas a minha cabeça tá pra explodir e eu não quero fazer nada enquanto eu não tiver certeza do que essas câmeras filmaram.
— O celular vai ficar comigo.
— Mais que porra! Eu venho trazer o caralho de uma informação e tu faz isso, filho da puta?! Tá achando que é o quê?
O loiro tenta avançar, mas Gustavo segura ele.
— Bora, cara, já deu aqui.
— Vai tomar no cu, Gustavo! ME SOLTA, CARALHO! — Ele tenta sair a força de perto do saco de pancada, mas Bernardo tá fraco, assim como eu, parece que ele não come direito há dias. E ao invés de raiva, eu sinto pena. Mas o ódio naquele par de olhos azuis fala mais alto que a fraqueza. — Que porra de homem tu é, hein?! Se escondeu igual um animal na toca enquanto quem matou ela tá ostentando solto por aí. Tão querendo tomar o teu morro porque tu cavou a própria cova sem nem morrer! Tu não é mais o Alemão porra nenhuma, é só um moleque que faz merda e deixa pros outros limpar.
Acendo o cigarro que tava em cima da mesa, baforo a fumaça em direção à janela fechada.
— Tira ele daqui.
Sem esperar, Gustavo começa a arrastar o loiro pra fora. Esse discurso todo, Samuel, vem repetindo no ouvido desde que entrei nessa casa. Pego a garrafa de vidro com uma mistura dentro que eu não faço a mínima ideia do que seja e levo ela até minha boca.
— Foi culpa tua. — Eu paro antes de derramar a bebida e olho pra Bernardo.— Se tu não tivesse aceitado a porra do acordo, ela estaria viva ainda.
Era mais ele ter me dado outro tiro.
— Eu sei. — Respondo, baixo.
— Filho da puta.
A porta se fecha e eu fico sozinho no cômodo. Tudo fechado, abafado, sem corrente de ar passando. Eles têm razão, me escondi aqui dentro porque tive medo de sair.
Se eu pudesse voltar no passado, eu teria mandado ela embora como tinha planejado. Mas agora é tarde. A casa tá vazia. Eu. Eu tô vazio por dentro.
Olho pro celular em cima da mesa. Bebo uma, duas, três vezes, na décima parei de conferir e peguei o celular ligando pra Samuel.
— Henrrique?
— Manda a visão pros cara. Quero todo mundo do movimento colando lá na boca, agora.
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Atualizado até capítulo 42
Comments
Pedro Miguel
Eu acho que ela não morreu
2025-03-06
0
Lismara De jesus Souza
ela morreu msm ? acredito que n
2024-11-02
1
Leydiane Cristina Aprinio Gonçaves
vai resolver problemas chapado Henrique aí não cara não vai sair nada de bom disso aí não viu
2024-09-07
1