Algo estranho

Maya

Estou na livraria no segundo andar, organizando alguns exemplares na prateleira de ficção, quando o sino da porta toca, anunciando a chegada de um cliente. Olho na direção do andar de baixo e vejo o senhor Gonçalves sorrindo para mim no balcão.

— Bom dia, Maya. Como está indo o trabalho? — ele pergunta com a sua voz gentil e acolhedora.

Sua barba está por fazer e grisalha, assim como o pouco cabelo em sua cabeça e as roupas de um explorador de florestas desconhecidas ainda é sua marca registrada.

— Bom dia, senhor Gonçalves. Está tudo bem, só organizando algumas coisas por aqui. — Respondo, devolvendo o sorriso.

Ele afirma, satisfeito, e vai até o fundo para atender um cliente que já está lá há horas aproveitando uma boa leitura. Continuo meu trabalho, imersa no cheiro reconfortante de livros antigos e novos. Sempre acho que essa livraria é um lugar tranquilo, um refúgio onde posso esquecer meus problemas por um tempo.

No entanto, a minha paz é interrompida quando escuto novamente a campainha no primeiro andar e vejo Sebastian entrando pela porta quando olho na direção dele. O meu coração acelera um pouco ao vê-lo, mas há algo na sua expressão que me deixa inquieta. Ele parece preocupado, quase ansioso.

— Bom dia, rapaz! Como posso ajudar? — Gonçalves surge dos fundos com o seu ar acolhedor e Sebastian tenta mostrar gentileza na sua expressão, mas ainda vejo a inquietação.

— Sebastian, o que você está fazendo aqui? — Pergunto, tentando esconder minha surpresa enquanto desço as escadas na sua direção.

— Precisava falar com você, Maya. — Ele responde, aproximando-se. — Podemos conversar durante seu intervalo?

Olho para o relógio e percebo que meu horário de almoço está próximo. Isso me faz afirmar, ainda um pouco desconfiada.

— Claro, só um minuto. — Digo, colocando alguns livros em cima do balcão antes de me dirigir ao senhor Gonçalves. — Vou sair para o almoço agora, Daniel.

— Tudo bem, Maya. Aproveite seu intervalo. — Ele responde com seu sorriso gentil.

Saio da livraria com Sebastian, e nos sentamos no café do outro lado da rua. Ele parece nervoso, o que só aumenta minha desconfiança.

— O que está acontecendo? — Pergunto, tentando entender sua preocupação. — Você parece nervoso.

— Eu não sei o que temos — ele começa, hesitando um pouco. — Mas hoje acordei com vontade de saber mais sobre você.

— E está com essa inquietação toda por causa disso? — Pergunto, franzindo a testa.

— Não gosto de ficar no escuro — ele diz e ainda que eu tenha acreditado, quero saber onde essa conversa vai dar.

— Tá e o que você quer saber?

Ele morde o lábio inferior, pensando em como começar a nossa conversa. Não sei o que esperar, eu é quem deveria estar o enchendo de perguntas já que é ele quem vive com segredos, mas sou paciente e ele finalmente sabe o que fazer.

— Onde estão os seus pais?

Aquela pergunta me pega de supetão, pois faz anos que não falo sobre aquilo. É um assunto delicado e eu sempre evito essa parte da minha história, por isso suspiro.

— Mortos... — hesito antes de seguir. Tomo um gole grande de café e solto. — Eles morreram quando eu tinha oito anos e a mãe de Heyde me adotou na época porque elas eram muito amigas da minha mãe.

— Então você e Heyde hoje são irmãs?

— Não exatamente. A mãe dela só me adotou porque Heyde tinha acabado de fazer 18 e existe uma burocracia gigante para adotar alguém sendo tão nova, mas Heyde implorou para cuidar de mim e desde então ela cuida.

Sebastian parece absorver minhas palavras, seu olhar se suaviza um pouco.

— Entendi. — Ele diz, pensativo. — Heyde deve ser muito importante para você.

— Sim, ela é. — Respondo, sentindo uma onda de gratidão por tudo que Heyde fez por mim. — Ela sempre esteve ao meu lado, cuidando de mim como uma irmã mais velha. Elas nunca me deixaram chamar nenhuma das duas de mãe, pois diziam que minha mãe era uma mulher muito forte e querida, mas sempre me trataram como parte da família.

Sebastian afirma, mas ainda parece ter algo em mente.

— Maya, você já notou algo estranho sobre Heyde? — Ele pergunta com sua voz baixa e cautelosa.

— Estranho como? — Pergunto, sentindo uma pontada de inquietação.

— Não sei, como se ela talvez escondesse algo de você. Aquele dia que você ficou comigo, ela parecia que iria enlouquecer.

— Ah, ela é um pouco exagerada mesmo. Sempre foi, mas eu sei que é para me proteger. Ela é uns dez anos mais velha do que eu e deve sentir algum tipo de super proteção sobre mim.

Sebastian parece ponderar minhas palavras, mas ainda há uma sombra de preocupação em seus olhos.

— Entendo, mas… — Ele hesita, como se estivesse escolhendo cuidadosamente suas próximas palavras. — Você nunca notou nada de realmente estranho? Algo que não se encaixa?

— Não, nada que eu me lembre. — Respondo, tentando pensar em qualquer coisa fora do comum. — Heyde sempre foi muito protetora, mas nunca fez nada que me parecesse suspeito.

Ele suspira, parecendo um pouco frustrado. Isso me deixa ainda mais incomodada.

— Algum problema?

— Não — ele balança a cabeça tentando limpar os seus pensamentos e sorri abertamente para mim. — Tudo bem. Só queria te conhecer melhor e saber quais são as pessoas importantes para você.

Ainda sinto uma leve desconfiança, mas decido deixar passar. Talvez ele esteja apenas preocupado comigo, e isso é algo que posso aceitar, só porque achei fofo uma preocupação repentina.

Passamos o resto do almoço conversando sobre coisas mais leves, tentando afastar a tensão inicial até que dá meu horário para voltar e o dele de ir trabalhar. Quando volto para a livraria, sinto-me um pouco mais tranquila, mas ainda há uma sombra de dúvida na minha mente.

Faz poucos dias que conheço Sebastian, mas sua pergunta sobre Heyde conseguiu se instalar na minha cabeça como se fosse um parasita. Então, começo a vasculhar as minhas lembranças para tentar achar algo que ela tenha feito que me parecesse estranho. Mas nada vinha até, ao menos eu ficava aliviada por realmente não ter.

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Comments

Salome Pereira

Salome Pereira

talvez ela tenha um lobo 🐺🐺🐺

2024-12-08

1

Leydiane Cristina Aprinio Gonçaves

Leydiane Cristina Aprinio Gonçaves

espero que não demore muito para que eles descubram a verdade sobre a Maia tanto ela quanto Sebastian tem que descobrir logo que a Maia também é de sombria

2024-08-29

7

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