Maya
Trabalhar em uma livraria no centro de São Paulo tem sido uma experiência interessante. Entre as prateleiras cheias de livros e o cheiro reconfortante de papel, encontro um pouco de paz no meio do caos da cidade. No início estava aqui para pagar meus estudos e o aluguel que divido com Heyde. Era injusto deixá-la arcar com tudo já que ela sempre me apoia em tudo. Mas com o tempo eu passei a gostar do trabalho e até tomei o hábito da leitura.
Hoje, a livraria está relativamente tranquila. Estou organizando uma nova remessa de livros quando a porta se abre, e um homem entra. Ele parece estar na casa dos vinte e poucos anos, com um olhar alegre e uma expressão curiosa nos olhos. Ele se aproxima do balcão onde estou organizando os panfletos que um corretor deixou ali e sorri para mim.
— Olá, posso ajudar em algo? — pergunto, sorrindo de volta.
— Sim, estou procurando alguns livros sobre jornalismo investigativo ou alguma ficção baseada nesse tema — ele responde de forma amigável.
— Não faço ideia de como te ajudar. Quem recomenda os livros é o Gonçalves, mas podemos procurar no sistema. — Minha sinceridade faz o rapaz rir e eu o acompanho.
Digito “jornalismo” no sistema de busca da loja e espero enquanto ele processa. Ele observa a tela com interesse, e eu aproveito para puxar a conversa.
— Então, porque o interesse pelo tema?
— Ah! É que acabei de me formar em jornalismo e estou em busca de algo bom para impressionar os locais para onde estou mandando currículo. Acredito que se tiver teorias interessantes sobre algum livro, pode me ajudar e sei la... talvez impulsionar a minha carreira.
— Você não deveria estar correndo atrás de umas fofocas ou coisas assim? — pergunto e o computador apta mostrando-me uma lista de opções de livros. — Olha só! Temos uma seção dedicada ao jornalismo no segundo andar. Posso te mostrar onde fica.
Ele parece se animar com a notícia e afirma para minhas palavras. Caminhamos juntos até a seção de jornalismo, e ele começa a examinar os livros nas prateleiras.
— Sobre a fofoca — inicia sem tirar os olhos da sua procura. — Não sei se leriam algo assim de alguém tão novo no ramo. Principalmente se as provas que eu conseguir não forem boas. Seria ótimo ter um furo de reportagem na minha primeira publicação, mas convenhamos que isso não vai acontecer.
Dou de ombros, pois eu não entendo nada daquele assunto, mas ele está convicto disso, quem sou eu para contrariar.
— Mesmo assim, seria bacana imaginar. Não? — pergunto.
— Claro que seria — ele responde e trás seus olhos até mim para mostrar o brilho que minha sugestão lhe deu. — Quero encontrar uma história que realmente faça a diferença e que ninguém consiga dormir no dia seguinte de tão impactante.
— Isso é muito bizarro — digo, genuinamente impressionada. — Mas seria muito interessante também.
Ele sorri, parecendo um pouco envergonhado pelo elogio, embora não seja nada parecido com um. O rapaz se ergue e me olha intrigado.
— Acho que ainda não sei o seu nome — fala ele e só então me dou conta de que não coloquei o crachá.
— Sou a Maya — estico a mão na sua direção. — E você?
— Prazer, Maya. — Ele apertar minha mão com firmeza. — Sou o George.
— Bem, acho que vou levar este livro — diz ele finalmente, após se inclinar na minha direção e segurar um exemplar de "Jornalismo Investigativo: Técnicas e Estratégias" que estava atrás de mim.
— Ótima escolha — digo, tentando recuperar o fôlego que perdi devido aquela aproximação.
A campainha da loja soa no primeiro andar e uma voz conhecida interrompe o olhar de George preso no meu. Os seus olhos castanhos analisam por cima do guarda-corpo e quando também faço isso, vejo Sebastian ao lado do meu caixa.
Ele está com as suas madeixas soltas e vestido de forma sofisticada. A intensidade do seu olhar encontra o meu rosto e me desestabiliza mesmo que estejamos longe, mas ele não parece feliz em me ver tão próxima de George e percebo que ainda seguro a mão do rapaz desde a apresentação. Solto e deixo um pigarro escapar.
— Com licença, George — digo, tentando manter a compostura. — Preciso atender um cliente.
— Claro — ele responde, com um sorriso. — Já desço para pagar pelo livro.
Desço as escadas rapidamente, sentindo o coração bater mais rápido a cada passo. Quando chego ao caixa, Sebastian está lá, me observando com uma expressão que mistura curiosidade e algo mais que não consigo decifrar.
— Oi, moço — digo, tentando soar casual. — O que te traz aqui? Não é comum encontrar a mesma pessoa em lugares completamente diferentes, sabia?
Ele fica inquieto, o seu olhar alterna entre mim e o homem no segundo andar que já voltou a procurar por mais algo que lhe pareça interessante. Deixo um pigarro escapar, fazendo os olhos azuis se fixarem nos meus.
— Por acaso, você está me seguindo, Sebastian? — Ele morde o lábio tão sensual que sinto cada fibra do meu corpo se derreter.
— O que diria se eu falasse que, sim.
— Eu ficaria com medo — brinco e ele coloca as mãos nos bolsos.
— Então não estou. — Meu sorriso quase se desmancha, mas sempre que ele me olha sinto as minhas bochechas esquentarem.
Sebastian quebra nosso contato quando George desce até o balcão e coloca suas escolhas ali em cima para que eu possa registrar.
— Vou levar esses quatro — diz o quase jornalista, e por um mísero segundo posso ouvir um rosnado sair dos lábios do grandalhão de olhos azuis. Franzo a testa para mim mesma por achar que ouvi isso e suspiro, pegando os livros para guardar na sacola de papel.
— Claro — digo, tentando manter a calma enquanto registro os livros. — São ótimas escolhas.
George sorri para mim, mas posso sentir a tensão no ar. Sebastian está parado ao lado, observando cada movimento com uma intensidade que me deixa nervosa. Nem sei porque estou assim.
— Aqui estão — falo, entregando a sacola para George. — Espero que goste dos livros.
— Tenho certeza que sim — ele responde, pegando a sacola. — Obrigado, Maya. Foi um prazer conhecê-la.
— O prazer foi todo meu, jornalista — deixo minha maneira de falar completamente descontraída e Sebastian agora rosna para mim. Solto um pigarro. — Boa sorte com sua carreira.
George acena e se dirige à porta, mas não sem antes lançar um último olhar curioso para Sebastian. Quando ele finalmente sai, sinto um alívio imediato, mas também uma curiosidade crescente sobre a reação de Sebastian.
— Você rosnou — afirmo, voltando-me para ele. — Duas vezes.
— Não rosnei, não. — Sebastian parece um pouco envergonhado, mas mantém o seu olhar firme. — Mas... não gostei da maneira como ele estava te olhando.
— Ele estava apenas sendo amigável — digo, tentando aliviar a tensão. — Mas agradeço por se preocupar. Até te daria um beijo se fosse sincero comigo e dissesse que realmente rosnou.
Ele espalma as mãos no balcão e se inclina completamente na minha direção, chegando o seu rosto bem próximo ao meu. Sinto todas as minhas batidas se atrapalhando dentro do meu peito enquanto vejo as íris dele dobrarem de tamanho.
— Não me provoque, Maya. Estou tentando ser paciente aqui.
Sua confissão me quebra e posso sentir minhas pernas quase se tornarem líquidas de tanto que tremem.
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Atualizado até capítulo 56
Comments
Isabel Garcia
minha nossa, ela não está entendendo nada e os sentimentos dando nó
2024-09-19
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