Sebastian
O dia começa cedo, como de costume. O sol mal surge no horizonte e eu já estou de pé, preparando-me para mais um dia de reuniões intermináveis com os sócios desse lado da terra.
Esses encontros são essenciais para discutir os projetos que meu pai, o alfa da matilha, deixou sob a minha responsabilidade. Cada reunião é uma oportunidade de mostrar a minha competência, mas também um aviso constante da pressão que carrego nos meus ombros.
Provar que o meu valor não é apenas uma questão de orgulho, mas de dever para com a matilha.
As horas passam em um borrão de apresentações e negociações. Vi cada slide, cada gráfico e cada palavra ser cuidadosamente calculada para me impressionar e convencer-me. Os rostos dos sócios humanos, tem expressões de interesse quando imponho as minhas opiniões e o ceticismo reina ao nosso redor. A sala de reuniões tem janelas enormes de vidro esfumado com uma vista panorâmica da cidade, parecia uma prisão de luxo a qual sou obrigado a estar durante algumas horas.
Finalmente, a última reunião do dia termina e sinto um alívio imediato ao sair daquele sufoco, como se um peso tivesse sido tirado dos meus ombros. O ar frio de São Paulo envolve-me, uma brisa gelada que corta através do meu casaco, mas estou ao menos já estou bem acostumado com o clima. Sempre que estou desse lado o frio é um velho conhecido.
Caminho pelas ruas movimentadas, tentando clarear a mente até me ver perto de uma escola de artes onde encontro um grupo de estudantes saindo animado do lugar. A energia deles é contagiante, e por um momento, me pego sorrindo ao me imaginar em seu meio. É então que, de repente, uma garota esbarra em mim, quase caindo. Instintivamente, estendo as mãos e a seguro pela cintura antes que ela atinja o chão.
Os olhos verdes esmeraldas encontram os meus e sinto uma vibração vir do seu corpo para mim como uma corrente elétrica. É uma sensação intensa e imediata, algo que nunca experimentei antes. Meu lobo interior desperta, também reconhecendo algo profundo e é como se fosse um chamado ancestral. É como se nossas almas se conectassem em um nível que ultrapassava o físico daquele momento.
Os olhos dela arregalam, e por um instante imagino que ela sentiu o mesmo reconhecimento. A ligação dos companheiros é inconfundível, é uma conexão que vai além das palavras. Ouço o seu coração batendo acelerado, e acredito que ela sente o mesmo. Aquele é um vínculo que une os nossos destinos em um contrato silencioso de proteção e lealdade.
Mas tudo se vai quando ela pisca me analisando sem entender o motivo de ainda estar em minhas mãos e vejo o questionamento surgir em suas íris.
— Moça! Vai com calma — digo, ajudando-a a se equilibrar em uma forma de quebrar aquele contato. Ela olha-me ainda confusa, e por um instante, os nossos olhares se conectam. Pelo menos para mim.
— Eu sinto muito, realmente preciso me atentar, estava muito desesperada — ela responde, tentando recuperar o fôlego. Seu rosto está corado, e há algo nela que me intriga.
Abro um meio sorriso, sentindo o vento frio balançar os meus cabelos.
— Só tome cuidado para não se machucar — falo com uma voz doce, embora meu timbre seja naturalmente grave. Há algo na presença dela que me faz querer segurá-la para sempre.
— Maya, eu vou matar você! — ouço uma voz feminina ao longe, e vejo a garota fechar os olhos, ela sussurra um palavrão que me faz rir internamente. Preciso fingir que não tenho uma audição incrível e quando volta a me olhar, não sei o que devo fazer.
— Obrigada por me salvar — ela diz baixinho antes de se virar para uma garota de pele marrom clara e cabelos longos que se aproxima rapidamente. Ainda escuto a risada suave da garota, mas o olhar furioso da sua amiga faz-me perceber que ela está encrencada.
Observo a garota de olhos verdes e cabelos vermelhos desgrenhados ser arrastada para longe de mim, e aquele elo se vai com as pisadas fortes dos pés da amiga briguenta dela. Sinto uma pontada de perda, como se algo precioso tivesse sido arrancado de mim.
— Você está pálido. — Dimitry gruda a bochecha na minha, e eu pulo para o lado, lançando-lhe uma Carranca.
— Qual seu problema? — rosno enquanto o rapaz de cabelos brancos ri. Aquele babaca sempre teve um jeito de aparecer nos momentos mais inoportunos.
— Relaxa, cara. Só estou brincando — ele diz, ainda rindo. — Mas sério, o que aconteceu? Você parece que viu um fantasma.
— Nada que te interesse — respondo, tentando afastar a sensação estranha que ainda persiste.
— Ah! vamos lá, Sebas. Você sabe que pode me contar qualquer coisa — ele insiste, mas eu apenas balanço a cabeça.
— Não tenho certeza do que aconteceu. — Deixo escapar como um sussurro, mas sei que ele ouviu. Dificilmente não ouviria. Suspiro. — A garota que entrou no prédio... é possível termos uma companheira humana?
Dimitry para de rir e me olha com seriedade, os seus olhos cinzas fixam nos meus como se ele tivesse tentando ler a minha expressão.
— Uma companheira humana? — Ele repete, como se estivesse tentando processar a ideia. — Nunca ouvi falar de algo assim, mas… — Ele faz uma pausa, pensativo. — Acho que não é impossível. As ligações de companheiros são misteriosas e poderosas. Quem sabe como funcionam exatamente?
— É que foi tão… intenso — admito, ainda tentando entender o que senti. — Quando os nossos olhos se encontraram, foi como se algo dentro de mim, gritasse por ela. Nunca senti nada parecido.
Dimitry coloca uma mão no meu ombro e o seu toque é firme e reconfortante.
— Talvez você deva falar com os anciãos ou seus pais sobre isso. Eles podem ter respostas. E se ela realmente for sua companheira, você precisará encontrá-la novamente. Não pode deixar isso passar.
Assinto, sabendo que ele está certo. A ideia de ter uma companheira humana é desconcertante, mas a conexão que senti não pode ser ignorada.
— Vou procurar meu pai — falo, decidido. — Mas primeiro, preciso encontrá-la novamente. Saber mais sobre ela, pois não parece que ela sentiu a mesma coisa que eu.
Dimitry me observa atentamente, seu olhar cheio de preocupação.
— Isso faz sentido. Se ela não sentiu a mesma coisa, talvez precise de tempo para perceber a ligação. Você tem que ser cuidadoso, Sebas. Não vai querer assustá-la.
— Eu sei — respondo, suspirando. — Mas como vou encontrá-la novamente? São Paulo é uma cidade enorme.
— Bem, sabe onde ela está agora. — Dimitry aponta para a escola de artes, um prédio grande com janelas de vidro que refletem a luz do dia nublado. — Podemos começar por aí.
— Como assim "podemos"? — pergunto, levantando uma sobrancelha.
— O que? Tá achando que vou perder sua primeira caçada? — Ele se agita, já começando a andar em direção à escola com seus passos rápidos e decididos.
— Não fale assim. Ela não é um cervo — o repreendo, tentando acompanhar seu ritmo
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Atualizado até capítulo 56
Comments
Juliana Do Vale
legal, mas ele não vão ter um lobo interior falando com ele?
2024-11-17
1
Valda Martins
Muito bom
2024-09-30
2
Maria Luísa de Almeida franca Almeida franca
Acho que a loba dela foi selada por magia
2024-09-14
3