Era dezembro de 2011, eu já tinha 29 anos e já era doutor em Contabilidade. Estava na casa dos meus pais, de férias na minha cidade Natal, a pequena Perdões. Uma cidade próxima à Capital de São Paulo.
Meus pais eram religiosos e sempre iam à igreja. Fui educado dessa forma, porém na faculdade eu decidi que não tinha tanto tempo para as missas. Como eu fingia muito bem, que continuava um devoto fiel, naquela noite tive que os acompanhar no primeiro dia da semana de missas do Natal.
Eu estava incomodado, pois nem lembrava as orações, mas foquei na decoração da igreja, para ser exato, no lindo presépio de Natal, no qual faltava o Menino Jesus. Que por hábito só é colocado na manjedoura no dia 25 de dezembro à meia noite. Logo vi um lindo coral cantando, parecia mais um coral de anjos. Mas ao olhar para a orquestra, meus olhos simplesmente travaram nela... A moça mais parecia um anjo em versão feminina.
A moça era perfeita, cabelos castanhos compridos acobreados, pele dourada, lábios medianos, nariz fino e olhos pequenos... Aquele corpo voluptuoso se encaixava perfeitamente no longo vestido branco que ela usava. Eu fiquei vidrado no rosto dela, tentava distinguir a cor daqueles belos olhos e as formas dos dentes naquela boca linda rosada. Foi quando senti tudo parar ao ver ela levar a flauta transversal à boca.
Uma sensação diferente me dominou, eu só conseguia a olhar e imaginar que eu a queria. Claro que como homem, senti meu sangue ferver nas veias e observei cada curva do corpo dela. Mas era diferente, eu a queria para mim... Para sempre... Ninguém percebeu que eu somente olhava aquela linda musicista. Voltei a mim e finalmente cutuquei meu pai perguntando:
-Pai, quem é a moça tocando flauta?
-Conrado!!! Preste atenção na missa!!!- disse meu pai em tom sussurrante, mas firme.
-Pai quem é a musicista com a flauta? - questionei impaciente.
-É a Allya, filha caçula do Sandro e Carmen Malva. Você estudou com a Tânia, a filha mais velha. Quieto – respondeu ele bravo.
Assenti com a cabeça e não podia acreditar que ela era irmã daquela megera indomável da Tânia. Só não entendia como nunca havia visto aquela pessoa antes, a cidade era muito pequena. Pelo que eu sabia a família dela havia se mudado de São Paulo para Perdões nos anos 2000.
Ao fim da missa, houve uma confraternização no salão de festas da igreja, cada família havia levado um prato de doce ou salgado. Eu que detestava a curiosidade dos moradores sobre minha vida pessoal... Incrivelmente decidi ficar e fazer questão de falar o quão bem sucedido eu era, um doutor.
As pessoas da cidade eram simples, acolhedoras e educadas, eu simplesmente colhi sorrisos e percebi o orgulho que tinham de mim. Naquele momento imaginei que logo a Allya estaria sabendo e dificilmente me rejeitaria.
Nos minutos seguintes somente a olhei e percebi que ela me olhou e não focou em mim, para ela eu era alguém que sequer havia despertado a curiosidade por estar ali. Em seguida chegou meu amigo Régis, estudamos juntos desde o colegial ele também foi para a faculdade federal em Campinas, mas não acompanhou o ritmo e abandonou. Após um longo abraço, criei coragem e perguntei:
-Regis, man... Quem é aquela gata ali, ajudando no balcão das bebidas?
-Gata? Só gata? A Allya! Ela é muito gostosa, isso sim! – respondeu Regis a olhando por inteiro.
Senti um ódio tremendo ao ver ele falando assim de Aylla. Senti vontade de socar a cara dele por vê-lo a olhando com cobiça. Mas voltei a mim e algo passou pela minha cabeça, eu questionei:
-Você já teve algo com ela Regis?
-Claro que sim, já a peguei de todos os jeitos... -respondeu ele suspirando.
Deu um nó na minha cabeça e tudo que eu pude sentir foi um ódio mortal de Allya. Como um ser tão lindo que parecia uma fada, um anjo... Poderia ser tão... Promíscua? Todos sabiam que o Regis era um filhinho de papai que só queria diversão com as mulheres. Naquele momento eu decidi que a queria, nem que fosse por apenas poucas horas. Mas, eu teria oque o Regis teve.
O padre era bem rígido e não permitiu bebidas alcóolicas, então após alguns sucos de uva decidi criar coragem e chegar perto dela. Aproveitei a oportunidade de Regis ao lado dela e disse:
-Boa noite Allya. Já que meu amigo não nos apresentou... Sou Conrado Abrantes.
- Boa noite Conrado. Estou feliz em o conhecer. Pelo sobrenome... deve ser parente de Simão e Marcia e João Abrantes? –disse ela suave e docemente.
Meu coração quase parou, a voz dela era música para meus ouvidos. Eu nem era romântico e imaginei ela cantando. Mas logo meu coração se encheu de soberba e raiva e a imaginei sussurrando aos meus ouvidos. Regis interrompeu meus pensamentos falando:
-Sim Allya, ele é filho do Simão e da Marcia. Sim é o irmão caçula do João.
-Prazer e bem vindo! Nos vemos amanhã? Imagino que venha até o dia da missa de Natal? – disse ou questionou Allya, nem me lembro bem.
-Talvez sim, farei o possível. –respondi educadamente, quando a vi sendo puxada para longe, a megera indomável da Tânia a afastou.
Ao ver a cara de descontentamento do Régis o questionei:
-Tem problema se eu a chamar para sair? Afinal, para ti ela foi apenas uma aventura, de acordo como falou dela.
-Tenta a sorte! – Régis riu ironicamente.
-Ela vai me amar. Tenho certeza. Ela é linda. -respondi, vendo o olhar intrigado do meu amigo sobre mim.
Aquela semana se passou e fui todos os dias às missas, conversei com o padre Benedito, até me confessei, relatei pecados que eu nem tinha. Mas não falei sobre o que eu sentia por Allya.
Eu só decidi agir e percebi que eu teria que ser como ela, agir como ela. Ela era a promíscua em manto sagrado, eu seria o lobo em pele de cordeiro.
Fonte: Figura do banco de dados Pinterest, sem menção a direitos autorais.
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Atualizado até capítulo 71
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