Capítulo 9

Mesmo que eu quisesse conversar ainda mais com Bryant, precisava voltar para a minha casa, meu trabalho aguardava por mim. Não podia abusar da "boa vontade" de Luiz em me permitir não trabalhar na parte da manhã para me dedicar à minha faculdade.

Me despedi dele e com um beijo, fiz menção de me afastar. Ele ainda estava parcialmente bravo por eu ter escondido a minha situação, mas já não estava me acusando tanto. Tenho esperança de que um dia ele me entenda. — Preciso ir agora, Bryant. Mais tarde conversamos, pode ser?

Ele me olhou desconfiado.

— Você não vai sair daquele emprego maldito? Como assim, Nyanni?

— Eu não posso! Como vou me sustentar? Você acha mesmo que é fácil assim? — questionei, sem entender a implicância dele com o meu trabalho. Sei que não é o melhor que eu poderia ter, mas no momento é a única maneira de me sustentar. Você não me entende mesmo não é, Bryant? — indaguei, um tanto quanto decepcionada. Ele de fato acha que a vida é fácil assim?

Para ele pode até ser, mas não pra mim.

— Você pode morar comigo, Nyanni. — ele justificou. Segurou a minha mão quando eu fiz menção de sair andando, porque além de estar nervosa com essa conversa, eu também estou apreensiva e com medo de perder a hora. — Vamos dar um jeito na sua vida, você só não pode continuar vivendo naquele subúrbio. Você tem ao menos uma ideia das coisas que acontecem lá?

— Não, eu não tenho. Porque não me interessa, eu só estou em busca do meu progresso e tentando me manter viva, nada mais que isso. — rebati, soltando a minha mão de seu aperto. — Agora, por favor... Eu preciso mesmo ir embora. Mando mensagem pra você mais tarde, ou até mesmo você quem faz isso.

Ditas essas palavras, dei-lhe as costas e saí andando, o mais rápido que podia. Olhava a hora em meu relógio de pulso a todo momento, eu estou louca pra que esse dia acabe e eu possa me jogar em minha cama. Estou tão cansada, um cansaço acumulado de tantos dias que não durmo direito e ainda preciso virar a madrugada trabalhando para arcar com uma despesa que o meu próprio patrão arranjou.

• • •

A bagunça que essa lanchonete se tornou depois da multa que Luiz tomou não é nada legal. Agora tudo está muito mais complicado... Para conseguir clientes de madrugada, Luiz decidiu tornar o estabelecimento num bar. Todos os funcionários que fazem o turno da madrugada se unem para limpar tudo e reabrir para que os clientes da madrugada se acomodem.

O tanto de homem bêbado e cheio de más intenções que aparecem por aqui me assusta de maneira sobrenatural. O pior de tudo é que eu não posso simplesmente pedir que não coloquem a mão no meu corpo ou que me respeitem quando fazem algum comentário estúpido. Luiz proibiu que nós, as funcionárias, falemos qualquer coisa contra os clientes; ele ordena que fiquemos em silêncio e simplesmente aceitemos o assédio que sofremos por parte dos homens, justamente para que ele não acabe perdendo tais clientes e, consequentemente, mais dinheiro.

No meu horário de descanso, eu me dirigi aos fundos. Empurrei a porta com bastante força para que abrisse, me recostei na parede e me sentei no chão. Passando as mãos pelos cabelos, eu me perguntava a todo segundo no que a minha vida se tornou. Está sendo muito cansativo e puxado passar a madrugada toda trabalhando, e nenhum "obrigado" recebemos de Luiz. Acho que será ainda mais difícil receber um aumento por estarmos fazendo algo que está fora de nosso alcance e que não é nossa obrigação.

Meu telefone começou a tocar repentinamente e eu o peguei de meu bolso. Chequei as horas e ao notar que se passam das 00h, achei estranho estarem me ligando... Pensei no Bryant de repente, pois ele pode achar que estou em casa, fora do trabalho. Mas o número que me ligava era desconhecido.

Fiquei temerosa, obviamente. Mas pensei bem e decidi atender, até porque não perderei nada se o fizer. — Alô? — perguntei assim que deslizei meu dedo indicador sobre a tela, aceitando a ligação.

— Srta. Oliver, aqui é Apolo Hoffmann. — assim que ouvia aquela resposta, meu coração parou de bater por um segundo. — Gostaria de lhe pedir desculpas pela ligação fora de horário, mas eu só pude te ligar agora.

É um tanto quanto antiprofissional da parte dele me ligar à essa hora, mas ninguém está me vendo reclamar. Eu estava acordada e tanto faz!

— Sem problemas. — garanti, ainda tímida demais e sem entender o motivo da sua ligação. Ou melhor... Eu até sei o que o faria me ligar, e, sinceramente, é isso o que me deixa ainda mais nervosa.

Meus dedos tremem.

— Então... Estou interessado em seus serviços, senhorita. E gostaria muito que você aceitasse passar pela experiência de um mês ao meu lado para que pudéssemos assinar um contrato mais longo, caso você se dê bem por aqui. O que me diz?

Fiquei abismada com aquelas palavras. Um sorriso pintou o meu rosto... Jesus Cristo, eu simplesmente não posso acreditar! — Eu aceito, Sr. Hoffmann. — disse, sem nem pensar duas vezes. O tom animado em minha fala não consegui conter e ele notou.

— Sabia que poderíamos entrar em um consenso, Srta. Oliver. Vou mandar meu motorista lhe buscar em seu endereço, e assim que encerrarmos a ligação, me mande-o imediatamente, pois daqui há algumas horas já quero que esteja aqui, pronta. — ele explicou tudo rapidamente, mas bem formalmente.

— Entendi perfeitamente.

— Outra coisa... Enquanto você estiver passando pelo processo de análise da sua competência, vou designar um motorista para lhe buscar em seu endereço todos os dias e a levar. Tudo bem pra você? Se não estiver confortável-

— Tudo bem, senhor. Está tudo bem por mim! Não há problemas.

De fato, não há problemas. Morar neste subúrbio pra mim é péssimo? Com toda a certeza! Mas não vou me preocupar com isso no momento, até porque, ser contratada para trabalhar por mais tempo com o Sr. Hoffmann se tornou a minha prioridade máxima. Eu vou me esforçar o quanto for necessário para mostrar a ele a minha capacidade.

— Que bom que está tudo bem por você, senhorita. Caso assinemos um contrato juntos, a chave do apartamento que você morará será entregue em suas mãos. Mas não poderei fazer isso enquanto não tiver a certeza da sua competência e responsabilidade.

Mais uma vez ele explicou e eu emiti um som positivo, demonstrando estar entendendo e de acordo com absolutamente tudo o que ele está me falando. — Tudo bem, senhor. Até mais tarde! — após ele se despedir, desligou a ligação e eu não perdi tempo, voltei a guardar meu celular e corri de volta para dentro da lanchonete, agradecendo aos céus por essa oportunidade que eu achei que já tinha perdido.

Será essa a porta para que eu finalmente me veja livre desse subúrbio mal-cheiroso? Seria simplesmente o meu sonho se realizando?

Voltei ao trabalho e corri para atender às outras mesas. Chegaram um grupo de motoqueiros que não pareciam nem um pouco legais ou gentis, mas eu tive que me aproximar para recolher seus pedidos.

— Que sorriso besta é esse nos lábios, Nyanni? Encontrou uma bolada de dinheiro lá fora? — perguntou... Steve. Ele estava vestido como os outros, com uma jaqueta preta e calças da mesma cor; usava botas de borracha e aparentemente bem firmes. O homem me encarava com bastante sutileza, estava esperando a minha resposta ansiosamente.

— Não, eu só... Ah, nada. Eu só estava pensando demais. — justifiquei e ele semicerrou os olhos em minha direção, como se não acreditasse em minhas palavras. — Mas enfim, o que vocês vão querer hoje?

Por Deus. Já não mais suporto trabalhar nesta lanchonete.

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Comments

Carmem Damásio

Carmem Damásio

mais mais mais mais mais

2024-04-26

2

Ludmila Fraga

Ludmila Fraga

Pelo amor de Deus Autora . libera mais um capitulozinho. to ansiosa aqui. rsrsr

2024-04-26

1

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