A rotina cansativa de Nyanni por aquele dia estava ainda começando. Vários clientes para atender, pedidos para realizar... A maioria das pessoas que pisavam naquela lanchonete, naquele dia em específico, estavam estressadas e ranzinzas; xingamentos, grosseria e falta de respeito era o que Nyanni mais tinha que lidar durante sua carga horária, sem poder ao menos parar um pouco para pensar e refletir em tudo o que precisava ouvir. Se fizesse isso, acabaria desanimando, e isso não podia acontecer. Em hipótese alguma.
Por outro lado, Marianne continuava bastante preocupada com a sua melhor amiga. A moça lotou o aparelho celular de Nyanni de mensagens, ligações e recados, estes que não foram respondidos pela falta de tempo da garota.
— Nyanni, clientes novos chegando na mesa 17! Vai lá agora! — rosnou o seu chefe, sua voz irritadiça não passou despercebida pela moça, que já estava acostumada com o temperamento de Luiz, já que o mesmo agia dessa forma na maior parte do tempo. A sua rotina cansativa em casa era o que o deixava tão estressado, principalmente o tratamento de sua esposa. Ambos já não se davam bem, por isso mesmo todo aquele mau humor.
Ao ouvir aquela ordem expressa, Nyanni simplesmente pegou o cardápio e saiu correndo na direção da mesa que acabara de ser ocupada. Assim que chegou perto o suficiente, ela não reconheceu de imediato, mas foi só ouvir aquela voz característica que suas lembranças foram atiçadas. Era o homem que a tinha chamado de "gatinha" mais cedo.
Para a surpresa de Nyanni, ele não era feio. Não! Muito pelo contrário... Mas a gengiva escurecida e os dentes com manchas também escuras no momento em que aquele homem sorriu não passou batido pelo olhar da garota. Ela notou pelo cheiro forte de cigarro que aquele homem era um fumante. Provavelmente usuário de drogas, o que não seria incomum, se levarmos em consideração o local em que se encontram. — O que temos pra hoje, amor? — questionou o desconhecido, olhando fixamente nos olhos de Nyanni, que tremeu na base de tão nervosa.
Aquela voz poderia ser reconhecida por ela há quilômetros de distância. — Aqui está o cardápio, senhor. Assim que escolher o que quer comer, virei anotar o seu pedido. — ela explicou, evitando até mesmo manter o contato visual, para não dar aquele homem esperanças falsas. Ela também não queria ser perseguida tarde da noite quando saísse do seu trabalho... Por isso sabia que tinha de ser educada e não retrucar ao ouví-lo chamá-la daqueles apelidos carinhosos que tanto a incomoda.
— Não me chame de senhor, eu só tenho 28 anos! — rebateu, severo. — Me chame de Steve. Este é o meu nome!
— Ok, Steve... Me desculpe. Posso passar depois para recolher o seu pedido? — insistiu ela, soando formal.
— Não, eu não quero escolher nada. Quero que você me traga o melhor prato, o mais pedido aqui! — disse Steve. — Eu confio no seu potencial.
Ela até tentou falar algo sobre isso, afirmar que não podia fazer aquilo, mas não se atreveria, até porque aquele desconhecido a olhou de uma maneira que demonstrou que ele não estava ali para ser contestado e sim obedecido.
E por não querer perder o emprego, Nyanni ficou em silêncio.
Se dirigiu à cozinha e anotou o pedido de Steve. Uma porção de fritas, justamente com frango empanado e um x-burguer de bacon. Era o que ela achava que o homem gostaria de comer.
Nyanni o serviu e Steve pareceu gostar muito do que lhe foi servido. A questão é que ela não conseguiu parar de pensar na forma como aquele homem a olhou, como ele parecia saber de sua vida. Até porque ele apareceu na lanchonete que ela trabalhava, mesmo sendo distante de onde ela ouviu a sua voz. Steve parecia a estar seguindo! Ela estava com muito medo do que poderia lhe acontecer.
As horas foram se arrastando, lentamente, como sempre acontece. As pernas de Nyanni doíam, assim como suas costas... Seu corpo só clamava por um alívio, enquanto seu estômago implorava por comida. Já faziam horas que ela estava sem comer, não teve tempo de parar para almoçar e tampouco seu chefe se importou. Pelo menos ele sempre demonstra estar nem aí para seus funcionários, como fez com um antigo colega de trabalho de Nyanni, que acabou desmaiando no meio do expediente justamente por não ter tido tempo para comer.
O rapaz era diabético e quase morreu pela falta de alimento. Nyanni não estava trabalhando naquele ambiente nem há 4 meses e já havia presenciado o descaso com os funcionários. Sabia que ninguém se importaria com ela caso desmaiasse também, por isso mesmo, vez ou outra, comia as sobras do que restava nos pratos dos clientes, estes que eram experts em desperdícios.
Porém, este é um segredo que Nyanni carrega consigo. Ninguém, absolutamente ninguém sabe que ela faz isso.
Logo após o término do seu expediente, ela simplesmente saiu correndo da lanchonete e se certificou de andar pela rua, onde a iluminação pública se fazia presente, e também havia algumas viaturas fazendo rondas vez ou outra. Ela sabia que era o melhor a ser feito, pegar atalhos nem pensar já que havia algum louco a perseguindo por aí.
Foi somente quando chegou e trancou tudo que pôde pegar no telefone. Ela viu as mensagens de sua amiga e as retornou, sem entender muito bem o que estava acontecendo.
Marianne viu a resposta no mesmo segundo e já ligou para a amiga, desesperada.
— Meu Deus, Nyanni! Eu fui na casa da sua tia e não te encontrei! Onde você está morando, pelo amor de Deus?! — ela perguntou, num desespero que chegava quase a ser palpável.
— Mari...
— Não, não mente pra mim! Eu sabia, sabia que havia algo errado, sabia que você estava escondendo uma informação séria de mim. Desde quando você saiu da casa da Grace? Me explica.
Suspirando, Nyanni entendeu que precisaria ser sincera com a sua amiga, já que a mesma descobriria toda a verdade de um jeito ou de outro. Ela disse que não estava conseguindo se manter com a sua tia por muito mais tempo, que sabia que não podia contar mais com ela e que não mais cabia naquele ambiente.
Marianne, do outro lado da linha, escutava tudo atentamente. — Jesus Cristo, e onde você está morando, Nyanni? Você não me disse isso. Eu preciso saber... Só me diz que você não tá-
Nyanni sabia ao que ela estava se referindo.
— Sim, eu estou aqui! E o pior, eu não sei o que fazer porque o Bryant está querendo sair comigo no fim de semana e eu não quero que ele saiba onde estou morando, como estou vivendo... Amiga, eu estou desesperada! Não estou bem com nada disso o que está me acontecendo, mas não há nada que eu possa fazer. — complementou a garota, sentindo um nó se formando em sua garganta. — Eu não posso sair daqui, Marianne. Não posso sair do meu emprego, eu sei que não está certo e eu estou correndo perigo em viver aqui, mas é a minha única opção.
— Amiga, eu não sei nem o que te dizer porque tudo isso é uma baita surpresa pra mim. Jamais imaginei que você estaria vivendo assim... — para Marianne, se imaginar dentro de uma realidade como a de Nyanni era algo quase impossível. Ela não entendia o que a garota estava passando, mas sabia que tinha que ajudá-la.
E a forma como a ajudaria ainda era uma incógnita. Mas ela daria um jeito... Sabia que tinha de dar.
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Atualizado até capítulo 71
Comments
Haylla Alves
a bom... eu pensei que o chef dela é que séria o cara de 20 anos....
2024-11-23
1
Reilta Elias
Não deixe esse Steve chegar perto dela autora por Deus.
2024-11-21
0