À medida que os dias se transformavam em semanas, e as semanas em meses, eu mergulhava cada vez mais nas primeiras descobertas como mãe. As noites em claro se tornaram companheiras fiéis, enquanto eu tentava interpretar as razões por trás do choro incessante de Aurora. Era um desafio constante entender o que ela precisava e como confortá-la, mas eu estava determinada a aprender e a dar o meu melhor.
Entretanto, o clima dentro de casa estava cada vez mais tenso. Eu podia sentir os olhares do Ulisses transbordando um conflito interno. Por diversas vezes, o peguei observando Aurora à distância, em silêncio. Houve momentos em que eu pensei que o sangue falaria mais alto e que ele finalmente se aproximaria de sua própria filha, mas isso nunca aconteceu. Ulisses era covarde demais para enfrentar a realidade ou simplesmente não tinha interesse em se envolver com a vida que ajudou a criar. Eu não sabia ao certo qual era a verdade, mas o desinteresse dele me machucava profundamente.
Apesar das dificuldades e do clima pesado, havia momentos em que eu encarava o rosto da pequena Aurora e tudo parecia fazer sentido. Seus olhinhos brilhavam com uma inocência cativante, e sua risada fazia com que todo o cansaço desaparecesse instantaneamente. Esses momentos eram pequenas janelas de felicidade em meio ao caos.
Eu compartilhava esses momentos com Diego, meu irmão, que continuava sendo meu porto seguro. Ele estava sempre ao meu lado, disposto a ajudar e a me apoiar, mesmo diante das adversidades. Seu amor incondicional por Aurora tocava meu coração e me lembrava que existem pessoas que realmente se importam conosco, independentemente das circunstâncias.
Enquanto eu me dedicava inteiramente ao cuidado de Aurora, tentando ser a melhor mãe que eu podia ser, uma certeza se firmava em mim: o amor de uma mãe é capaz de superar qualquer obstáculo. Por mais difícil que fosse lidar com a falta de apoio de Ulisses e o clima tenso dentro de casa, o amor que eu sentia pela minha filha era inabalável.
Cada sorriso, cada toque suave da sua mãozinha, cada conquista do seu desenvolvimento... tudo me enchia de orgulho e fazia com que eu soubesse que tudo valia a pena. Aurora representava a esperança de um futuro melhor, um futuro em que ela cresceria rodeada de amor e apoio ainda que esse amor e apoio talvez não viesse dessa casa .
Enquanto eu enfrentava as primeiras dificuldades como mãe e tentava equilibrar todas as responsabilidades, eu não podia deixar de pensar em Eva. Seu rosto invadia minha mente nos momentos mais inesperados. Eu ainda sentia sua falta, mesmo que não soubesse mais nada sobre ela. A ausência dela em minha vida era uma ferida que ainda não havia cicatrizado completamente.
Sempre que a solidão parecia me sufocar, eu me refugiava nas músicas que Eva me apresentou. Elas me confortavam e me faziam sentir próxima dela, mesmo que apenas em pensamento.
E havia momentos em que a saudade batia muito forte, sentia falta das suas piadas ruins, sentia falta de ficar acordada até tarde conversando sobre coisas banais, tipo o filme ruim que ela me convenceu a ver e, apesar de ter odiado, eu disse que adorei porque era o seu filme favorito. E em dias assim, que eu acordava muito nostálgica, o colar em meu pescoço servia como uma lembrança constante do vínculo que tivemos. E ainda que a nossa relação e o nosso amor não fossem eternos, pelo menos eram memoráveis.
Meus devaneios foram interrompidos pela aproximação do Diego, que entrava no meu quarto trazendo a minha filha em seus braços. Meu irmão sussurrava algumas palavras que não pude escutar, mas era como se estivesse confiando um segredo a ele.
— Adivinha, mamãe, quem está com fome? — meu irmão questionou, fazendo uma voz incrivelmente fofa e manhosa. A pequena em seus braços sorria, manhosa, com as caras e bocas que o tio estava fazendo.
Eu estendi os meus braços para acolher a minha filha.
— Aqui está o seu pequeno dragãozinho faminto. — Diego falou, entregando a minha filha.
— Ela não é um dragãozinho, ela é a minha princesinha. — Eu respondi, repreendendo o meu irmão, que apenas sorriu ladino enquanto me acomodava melhor na cama para amamentar a minha filha. — Não dê ouvidos ao que o seu tio idiota fala, você é a minha princesinha. Mesmo que tenha uma fome de dragão, ainda assim você é a minha princesinha. — Eu acariciava o rostinho da minha pequena, que, apesar de me olhar com atenção, não estava entendendo nada.
Meu irmão sorriu com a minha fala e, aos poucos, o seu sorriso foi diminuindo e a sua expressão se tornou pensativa. Acho que isso é um mal de família, tanto eu quanto Diego não temos controle sobre os nossos pensamentos. Às vezes estamos presentes fisicamente, mas os nossos pensamentos vagam longe.
— Ela está cada dia mais parecida com você. — Diego finalmente voltou dos seus próprios delírios.
— Diz isso por ela ter herdado a minha beleza ou por ela ter herdado um buraco negro no estômago? — Eu questionei, com um sorriso no rosto. Meu irmão deu de ombros.
— Acredito que seja um pouco dos dois. — Ele respondeu, enquanto eu observava Aurora adormecer em meus braços.
É incrível como um ser tão frágil e delicado pode encontrar conforto e segurança em uma pessoa tão insegura.
— Luiza? — Meu irmão me chamou, e eu o encarei. Aos poucos, ele se aproximou, sentou ao meu lado e fez um leve carinho no rostinho da Aurora. — Apesar de adorar vocês duas e querer muito ficar ao seu lado...
— Eu sei, Diego. Acredite, eu sei... Você já fez muito por nós duas e eu agradeço de verdade por tudo que faz por nós duas. Mas eu entendo que você precisa ir, sei que o tempo não espera ninguém e a sua vida é lá. — Eu falei, e o meu irmão baixou a cabeça.
— Eu não queria deixar vocês duas aqui sozinhas, desprotegidas. E eu queria tanto que vocês fossem comigo.
— Acredite, irmão, eu também queria ir. Mas agora não posso, pelo menos não neste momento. E não se preocupe, você já fez muito pela gente. — Eu falei, e o meu irmão negou prontamente.
— Não fiz nada demais. E também sei que você faria o mesmo por mim. Você sempre foi a melhor irmã mais velha do mundo, mesmo sendo bem menor que eu. — Diego falou, arrancando uma risada de mim.
— A melhor irmã do mundo soa um pouquinho exagerado, e nós dois sabemos que tenho mais defeitos do que qualidades.
— E é justamente isso que nos aproxima, é isso que faz a nossa relação excelente. Somos duas pessoas reais, com medos e anseios, que vivem cometendo erros. Quer dizer, você erra bem mais que eu, mas tudo bem, né, eu te perdoo. — Diego falou, em tom brincalhão.
— Você vai quando? — Perguntei, sentindo um gostinho amargo. Sei que sem o meu irmão aqui, as coisas voltarão a ficar difícil.
— Depois de amanhã. — Ele respondeu, me encarando como se esperasse algo.
— Posso te pedir um favor? — Questionei, e o meu irmão assentiu. — Se por acaso ela ou a mãe dela precisarem de alguma coisa, ajuda elas. Cuida delas por mim. — Eu falei, e o meu irmão sorriu.
— Pode deixar. Se a mãe dela precisar de algo, eu providencio. Mas a Eva vai ser mais difícil. — Diego falou, e eu o encarei, fazendo uma pergunta muda. — A Eva foi fazer intercâmbio no Canadá.
— Nossa, pensei que ela tivesse desistido dessa ideia. — Eu falei, e meu irmão me encarou.
— Ela tinha, você sabe que não queria ficar longe de você, mas as coisas mudaram. — Diego falou, e eu apenas concordei. Infelizmente, ele tinha razão, as coisas mudaram e a adaptação se fez necessária. É normal que a Eva faça novos planos, trace novas rotas, busque novos ares, encontre novas pessoas e faça novas descobertas.
— Espero que ela consiga aproveitar ao máximo toda essa experiência e que se divirta. Ela merece. — Eu falei, e o meu irmão sorriu concordando.
Quando eu falo isso, eu digo de coração, quero que ela seja feliz, que aproveite ao máximo cada experiência, conheça novas pessoas e viva intensamente.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 55
Comments
Bea Andrade
Esse reencotro ta demorado
2024-04-25
3
Allan Ricardo Araujo
contando as horas pra essa volta delas
2024-04-15
0
Maria Andrade
Luiza, quando e pra ser não tem jeito, vcs em breve vão se encontrar
2024-04-14
1