Encaro Ulisses, analisando cada movimento, cada gesto, tentando ler suas expressões faciais e compreender qual proposta ele estava prestes a fazer. Sentia-me extremamente cansada e só desejava dormir, tudo o que eu queria era que esse dia terminasse logo.
— Ulisses, estou esgotada. Podemos adiar essa conversa para amanhã? Pedi, de maneira impaciente.
— Eu sei que o nosso casamento é apenas um "negócio", como você sempre faz questão de deixar claro. Mas isso não impede que possamos ter, pelo menos, uma convivência saudável. - Ele colocou a taça sobre a cômoda ao lado da cama, e eu fiz o mesmo com a minha.
Ele pareceu incomodado com o termo que eu usava para se referir ao nosso relacionamento.
— Concordo com você nisso. - Deitei-me na cama, sentindo o peso do acordo entre nós.
Ulisses sentou-se ao meu lado e continuou.
— Sei que você não está apaixonada por mim. Isso sempre foi muito evidente.
— Sim, gosto de ser transparente para evitar mal-entendidos. Falei respirando fundo e ele riu.
— Falando em deixar as coisas claras, gostaria de esclarecer algumas coisas. Precisamos manter as aparências, fingir que somos um casal apaixonado. Temos que fazer isso dar certo. Ele sugeriu.
Eu escutei atentamente, ponderando suas palavras.
— Pode esperar de mim o que foi acordado desde o início. Vou cumprir minha parte e respeitar nosso acordo. Sua família ajudará a minha família a se reerguer financeiramente e, em troca, minha avó ajudará em sua carreira política. É prático, na verdade. - Lembrei um dos termos do nosso arranjo.
Ulisses pareceu refletir por um momento e passou as mãos pelo cabelo tentando organizar alguns fios que estavam revoltos, um aparente gesto de nervosismo.
— Mesmo que este não seja um casamento convencional, ainda assim pretendo respeitá-lo como se fosse. Acredito que, com diálogo, respeito mútuo e comprometimento, talvez com o tempo possamos fazer dar certo. Ele falou me olhando profundamente e me deixando atordoada.
A dinâmica entre nós é complexa, seria mais fácil se ele pensasse da mesma forma que eu. Que isso tudo é um simples acordo de conveniência. Para mim isso é e nunca vai passar de um casamento arranjado com prazo de validade.
— Não vamos complicar mais as coisas, por favor. Vamos dormir, porque já está tarde e eu estou cansada e amanhã viajaremos cedo. Eu falei me deitando e colocando um travesseiro no meio da cama, dividindo o nosso espaço.
Ulisses nada disse, ele se levantou e pegou uma das taças que estavam em cima da cômoda e bebeu o champanhe. Ele colocou a taça vazia de volta ao lugar e depois pegou a outra e depois de beber todo o líquido, colocou a taça perto da outra.
Após isso, ele apagou a luz e saiu do quarto. Eu continuei deitada de bruços, encarando o teto. O quarto estava todo no escuro.
O ambiente estava silencioso, os acontecimentos dessa noite e dos últimos dias voltaram com força em minhas memórias.
Em meio ao silêncio, as vozes mais fortes são as que ecoam dentro de mim.
Enquanto deitada na cama, mergulhava em meus pensamentos e memórias, não pude deixar de refletir sobre a complexidade da situação em que me encontrava. O peso das expectativas, dos acordos e das convenções sociais pareciam me sufocar. A simples ideia de fingir um amor que não existe, de manter as aparências em detrimento de nossos sentimentos reais, era como carregar uma máscara que pesa cada vez mais em meu rosto.
É difícil distribuir sorrisos quando por dentro tudo está um caos, um amontoado de emoções, uma confusão completa.
Enquanto eu estava deitada na cama, os pensamentos turbulentos invadiam minha mente. Sentimentos conflitantes de culpa, tristeza e raiva se misturavam dentro de mim, formando um redemoinho de emoções incontroláveis. A imagem dela, com os olhos marejados de lágrimas, a expressão de dor e decepção em seu rosto, ecoava em minha mente como uma ferida aberta que se recusava a cicatrizar.
Eu sabia que a decisão de romper nosso relacionamento para me casar com Ulisses era uma questão de sobrevivência, uma necessidade imposta pelas circunstâncias e pelos acordos familiares. Mas a dor de causar sofrimento à pessoa que eu amava, a sensação de trair meus próprios sentimentos em nome de convenções sociais e interesses familiares, era um fardo quase insuportável de carregar.
Enquanto o silêncio do quarto me envolvia, eu me sentia perdida em um mar de arrependimentos e questionamentos. Será que eu fiz a escolha certa? Será que vale a pena sacrificar minha felicidade em troca de segurança financeira e estabilidade política? O vazio deixado por sua ausência parecia consumir meu peito, fazendo-me questionar o verdadeiro significado de amor e compromisso.
Eu fechei os olhos, deixando as lembranças e as emoções me invadirem por completo. A dor da separação, a angústia da solidão, a saudade do que poderia ter sido se as circunstâncias fossem diferentes. As lágrimas escorreram silenciosas pelo meu rosto, testemunhas mudas da batalha interna que travava em meu coração.
Em meio ao turbilhão de sentimentos contraditórios, a única certeza que permanecia era a sensação de estar presa em um labirinto de escolhas impossíveis, onde cada caminho parecia levar a um novo sabor de sofrimento. E enquanto a noite avançava e o silêncio continuava a me envolver, a pergunta persistia em minha mente, ecoando como um eco sombrio: a que preço eu estava disposta a pagar pela minha própria felicidade? A que sacrifícios eu estava disposta a fazer em nome de um futuro que não era meu?
No escuro absoluto do quarto, o silêncio era tão espesso que parecia sufocante. Minha mente, um turbilhão de memórias dolorosas e arrependimentos, revirava cada detalhe dos últimos dias com uma precisão cruel. Eu estava sozinha, afundada em um mar de emoções conflitantes e avassaladoras, enquanto o peso das minhas escolhas pairava sobre mim como uma sombra implacável.
Enquanto os segundos se arrastavam, os ponteiros do relógio deslizando lentamente, eu me encontrava imersa em um turbilhão de pensamentos angustiantes. Encarando o teto, tentei desesperadamente expulsar todas as emoções conflitantes que me invadiam e dominavam meu ser. Uma mistura avassaladora de cansaço físico e exaustão emocional me consumia.
Mesmo que me sentisse tão exausta, buscar refúgio no sono parecia uma tarefa impossível. Minha mente, em um estado de agitação constante, recusava-se a encontrar descanso. Minhas pálpebras pesavam, mas minha alma estava inquieta.
Sem perceber o passar do tempo, fui levada a um loop infinito de pensamentos e questionamentos. Justo quando estava prestes a sucumbir ao sono, a porta se abriu, interrompendo o silêncio sepulcral do quarto. Senti a pressão do colchão se afundar ao meu lado. Um aroma forte de bebida preencheu o ar, mas nenhum de nós ousou romper o silêncio com palavras. Ficamos ali, sendo apenas dois seres frágeis e desgastados, respirando em conjunto.
Não sabia dizer quanto tempo passamos naquele estado de silêncio profundo, mas uma certeza prevalecia: ele adormeceu primeiro.
Nossas respirações entrelaçadas preenchiam o vazio entre nós, criando um elo silencioso de solidão compartilhada. Enquanto ele sucumbia ao sono, fiquei ali, perdida em meus próprios pensamentos, questionando se tudo isso era tão doloroso para ele quanto é para mim. Éramos dois estranhos, sendo usados como marionetes em um jogo onde às únicas pessoas que sairão vencedores são aqueles que nos controlam e nos arrastam implacavelmente em suas artimanhas.
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Atualizado até capítulo 55
Comments
Ana Faneco
Perfeita 😻
2024-04-21
1
como sempre a sua história está perfeita 😍
2024-04-15
0
A.Maysa
nossas próprias decisões pesam muito...
2024-04-03
2