A noite derramava-se suavemente sobre a terra, envolvendo Atalia em seu manto escuro. Inquieta, ela lançava-se entre os lençóis, incapaz de render-se ao sono. A sensação de ansiedade pulsava em seu peito, como uma sinfonia de borboletas agitadas.
Era difícil para Atalia acreditar na sorte que novamente lhe sorria. Em meio aos segredos do crepúsculo, ela vislumbrava um novo capítulo se desdobrando diante de seus olhos. Nesta nova jornada, tudo que almejava era o perfume do desconhecido, a promessa de aventuras entrelaçadas com os fios dourados de seus sonhos. Sonhos que, talvez, se dessem ao luxo de tecer um romance digno das páginas de suas amadas novelas.
"Transformei-me em uma heroína", — murmurava para si mesma.
"Foi em uma dessas jornadas que Jasper cruzou caminho com duas heroínas e um herói, todos eles filhos da mesma pobreza que me abraça. Eu, uma entre eles, órfã do destino que quase me fechou as portas da Academia. Mas agora... agora tudo mudará".
Enquanto sua mente vagava pelas recordações do jogo, a menina sorria suavemente. Aquele jogo era mais do que meramente um passatempo; era como uma novela desdobrando-se diante de seus olhos, repleta de tramas intricadas e mistérios envolventes aguardando serem desvendados.
E assim, envolta nas dobras do lençol, Atalia permitia-se sonhar com o inesperado, com os suspiros de um destino recém-escrito, pronto para ser desvendado.
Um delicado toque ecoou pela quietude do quarto, interrompendo o silêncio da noite como uma suave melodia.
— Atalia? — A voz de Rudy carregava um tom ansioso e familiar.
A jovem, erguendo-se levemente em sua cama, recebeu o chamado com um convite suave:
— Entra. — sua voz ressoando com uma serenidade acolhedora, como uma promessa de conforto em meio à escuridão.
Rudy adentrou o aposento, sua expressão trazendo consigo os vestígios de uma inquietação compartilhada.
— A insônia também te visita? — indagou ele, sentando-se ao lado de Atalia.
Com um brilho de expectativa nos olhos, Atalia confirmou, sua voz vibrante de emoção:
— Sim! Finalmente, minha jornada como heroína se aproxima!
Um sorriso breve dançou nos lábios de Rudy, acompanhado por um suspiro afetuoso.
— Você e sua eterna busca por heroísmo! — murmurou ele, sua voz carregada de afeto e uma leve pitada de ironia. — Estava pensando... se... se...
Mas antes que pudesse prosseguir, sua fala foi interrompida pela presteza de Atalia.
— Não se preocupe, você vai conseguir! Você tem muito talento, consegue realizar magias de fogo intermediárias sem precisar de professores ou livros. — disse a menina, dando pequenos tapinhas nas costas de Rudy, como se quisesse consolá-lo.
— Eu não estou preocupado comigo! Estava preocupado com você! — respondeu o rapaz, com melancolia no olhar. Ele sabia mais do que ninguém que era o sonho de Atalia participar daquela Academia.
Desde que os pais de Atalia partiram sem deixar rastro, mesmo sendo acolhida e cuidada por Hanna e Mathias como se fosse sua própria filha, a menina nunca ousou esperar mais do que aquilo. Embora demonstrasse afeto por todos ao seu redor, algo dentro dela a mantinha reservada, como se estivesse erguendo uma muralha de proteção ao seu redor. Os únicos momentos que a menina parecia animada era quando chamava a si mesma de heroína ou falava sozinha perdida em suas próprias fantasias.
— Comigo? — perguntou a menina, sua expressão carregada de curiosidade e confusão evidente.
— Sim! Até agora, você não demonstrou qualquer habilidade mágica. Se o senhor Maverick pedir para lançar algum feitiço básico... acho que talvez seja melhor você não ir! — solicitou o menino com preocupação sincera em sua voz.
— Por que não? Você sabe que é meu sonho... passo dias tentando vender alguma coisa para conseguir o dinheiro da nossa matrícula, não vou desistir sem nem tentar! — declarou a menina com determinação.
— Mas Lia... nem mesmo no dia da Pedra... — o menino tentava convencer a amiga, mas antes que pudesse prosseguir, suas palavras foram interrompidas por um silêncio pesado. Ele abaixou o olhar, e uma sombra de tristeza obscureceu sua expressão. Seu coração se apertou ao lembrar do diagnóstico de Atilia, uma dor que parecia ecoar em cada batida.
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"O dia da Pedra" era um evento sagrado que se desdobrava anualmente em cada recanto do reino, desde os vilarejos mais remotos até as majestosas capitais e distritos. Cavaleiros e Sacerdotes do Templo de Lystan se mobilizavam em grupos, cada um portando uma pedra sagrada que era capaz de avaliar o elemento mágico de cada indivíduo do reino.
As medições tinham início quando a criança completava seus dois anos de idade, marcando o início de sua jornada rumo ao conhecimento de seus dons mágicos. Antes do desaparecimento inexplicável de Lucius e Lilian, um desses eventos ocorreu na cidade. Naquela ocasião, Atalia acabara de completar dois anos e, ao tocar na pedra mística, sua aura permaneceu incolor, indicando que a menina não possuía qualquer afinidade com os elementos mágicos.
O acontecimento surpreendeu a todos os presentes. "Seria possível que alguém nascesse desprovido de qualquer afinidade elemental?", ecoava a pergunta que pairava no ar, envolta em um véu de perplexidade. Os pais de Atalia, embora morassem afastados do vilarejo, eram altamente estimados ali. Sempre que uma besta ameaçadora surgia, os dois agiam com uma destreza impressionante, abatendo-a sem necessidade de auxílio.
Lilian, em especial, era reverenciada como uma maga formidável. Sua magia de cura era tão poderosa quanto rara, revelando uma compatibilidade excepcional com o elemento da luz. No entanto, sua habilidade como guerreira não ficava atrás; ela dominava também o elemento fogo com maestria, revelando uma versatilidade que inspirava admiração e respeito por parte de todos que a conheciam.
Lucius, por outro lado, era um guerreiro cujas habilidades mágicas eram uma combinação peculiar de fogo e magia negra. Esta última, uma arte sombria que surgira após a Era das Almas, era notoriamente conhecida por sua incompatibilidade com outros elementos mágicos. Na maioria dos casos, qualquer indivíduo que manifestasse o dom da magia negra via seus outros potenciais mágicos serem completamente bloqueados, incapazes de se desenvolver plenamente. Lucius, no entanto, era uma exceção a essa regra.
Apenas Hanna e Mathias detinham o conhecimento desse segredo, guardando-o com zelo e discrição. A singularidade de Lucius era uma verdade que permanecia oculta aos olhos do mundo, uma verdade que poderia mudar tudo se viesse à tona.
Depois que os sacerdotes conduziram a medição do elemento de Atalia, uma tensão pairou sobre Lilian e Lucius. Eles insistiram para que a medição fosse repetida seis meses depois, na esperança de uma mudança no resultado. Inicialmente, os cavaleiros e sacerdotes hesitaram em atender ao pedido, mas logo o Templo de Lystan enviou um novo grupo para realizar os testes adicionais.
Apesar de todos os esforços e testes realizados, Atalia continuou a exibir uma ausência notável de qualquer afinidade mágica. A constatação desse fato deixou Lilian e Lucius preocupados e perplexos. Então, sem deixar rastros, eles partiram em uma jornada, buscando respostas que pareciam elusivas.
Dias se transformaram em semanas, e semanas em meses, mas nenhum sinal de retorno foi recebido. Atalia, no começo, alimentava a esperança de que seus pais estivessem em busca de uma explicação para sua condição incomum, mas com o passar do tempo, a dolorosa verdade se tornou evidente: Lilian e Lucius desapareceram sem deixar rastro, sem uma única palavra de despedida ou explicação. E assim, Atalia foi deixada para enfrentar o mistério de sua própria existência, envolta pela sombra do desconhecido.
À medida que os dias se transformavam em anos, boatos se espalhavam pelos becos e vielas do vilarejo, sussurros que ecoavam entre os moradores como folhas levadas pelo vento. Inicialmente, as murmurações giravam em torno da "menina sem elemento", um mistério que alimentava a curiosidade e especulações entre os habitantes. No entanto, com o tempo, esses murmúrios foram sendo substituídos por algo ainda mais intrigante: a "menina dos fantasmas".
Atalia, com sua presença enigmática e suas conversas solitárias, despertava rumores entre os moradores, que começaram a acreditar que ela mantinha diálogos com almas perdidas. Para eles, suas palavras solitárias e convictas não passavam de delírios de uma mente inquieta, mas o que não sabiam era que, de fato, Atalia estava a se comunicar com Mu.
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— Não se preocupe com isso, Rudy. Eu tenho um elemento! —afirmou Atalia com convicção.
Os olhos de Rudy se arregalaram em surpresa. Ele nunca testemunhara Atalia manifestar qualquer sinal de magia, muito menos de um elemento específico.
— Aff!— suspirou Atalia, percebendo a incredulidade no olhar de Rudy. — Confie em mim, amanhã irei mostrar a todos.
— Mas Lia... você fez o teste da Pedra onze vezes e em todas elas... — Rudy começou a argumentar, mas foi abruptamente interrompido pela menina.
— Aquela pedra não sabe de nada! Eu sou um elemento novo, nunca antes visto neste mundo. Sou única, a heroína principal desta história! — proclamou Atalia com uma convicção inabalável, inflamando seu espírito com uma confiança sem igual.
Um sorriso se insinuou nos lábios de Rudy, uma mistura de admiração e aceitação diante da determinação inquebrantável de sua amiga.
— Tudo bem! — concordou ele, balançando a cabeça em sinal de aprovação. Sabia que era inútil tentar dissuadir Atalia quando ela estava decidida.
"Espero que ele não faça desafios para lançamento de feitiços, mas caso isso aconteça..." — o menino pensou consigo.
Rudy sentia um nó se formar em seu estômago ao considerar a possibilidade de Atalia ser desafiada a provar sua alegada habilidade mágica. Embora desejasse ardentemente que ela não fosse submetida a tal situação, ele estava preparado para apoiá-la, independentemente do desfecho. Seu coração estava repleto de esperança e temor enquanto ele se retirava para seu quarto, consciente de que o destino estava prestes a lançar seus dados sobre o palco da vida de Atalia.
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Atualizado até capítulo 86
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