Atalia foi tomada por uma surpresa encantadora, seus olhos cintilando ao fitar o homem por um breve momento, mas logo desviou o olhar, um sorriso tímido pairando em seus lábios enquanto respondia com uma ponta de tristeza:
— Não... não posso.
— Por quê? — indagou o homem, sua curiosidade aguçada.
— Não disponho dos recursos para custear a matrícula...
— Hm! — suspirou o homem, mergulhado em pensamentos. — E que tal esta ideia: se me apresentar as crianças mais talentosas da vila, e elas verdadeiramente demonstrarem seu potencial, eu arcarei com as inscrições de todos vocês!
Os olhos de Atalia se alargaram, e em um piscar de olhos, sua melancolia deu lugar a um sorriso radiante. Sem hesitar, a menina recordou-se de Rudy, que ajudava Hanna na pequena horta atrás da casa - era dali que tiravam o sustento principal da família -, enquanto Mathias se embrenhava na floresta em busca de caça para o jantar.
— Espere aqui! Há alguém que eu quero lhe apresentar! — respondeu Atalia, cheia de animação, correndo em direção à sua casa.
— Ei, e as suas coisas? — perguntou o homem, percebendo que Atalia havia deixado as pedrinhas para trás, sobre a pequena mesa.
— O senhor pode tomar conta delas por um momento? Será rápido. — disse a menina, antes de desaparecer da vista do homem.
Mu, que desta vez não havia seguido Atalia e ficado para trás, subiu na pequena mesa e virou-se para o homem, lançando um olhar desafiador.
— Ei, você! Você consegue me entender, não é mesmo? — indagou Mu ao mago.
— Então você percebeu? — respondeu o mago.
— No início não, mas logo fui me acostumando com sua aura e pude perceber que não é alguém ordinário.
— Hmm! Acho que fui descoberto! — disse o mago, com um sorriso nos lábios.
— O que você pretende com aquela menina? Já viu que ela não tem magia alguma e ainda a chamou para a Academia de Magia. Seja lá o que estiver tramando, não vou permitir! — exclamou Mu, firme e determinado.
— Aff! — Suspirou o homem. — Não pretendo nada, só fiquei curioso. De fato, ela parece não possuir magia, mas não acha estranho que ela possa conversar com bestas mágicas? — o mago perguntou de forma honesta.
Mu fitou o mago diante dele; genuinamente, parecia não haver malícia em suas intenções. De fato, ele estava impulsionado pela pura curiosidade e instinto, assim como Mu próprio estivera no passado.
— Realmente, ela pode falar comigo antes de qualquer outra pessoa! — Mu respondeu, recordando-se do momento em que conheceu a jovem.
Quando Mu estava em sua forma espectral, ninguém podia vê-lo, tocá-lo ou ouvi-lo, nem mesmo os magos mais poderosos em todo o mundo. Ele vagou por anos por toda a terra, e nenhum ser foi capaz de se comunicar com ele, exceto aquela pequena pestinha. Sem que ele percebesse, uma expressão de paz o envolveu.
O mago, ao notar a aura suave que agora emanava de Mu, sorriu e prosseguiu com suas indagações:
— Percebe como essa garota é peculiar? Primeiro, não é possível detectar magia nela; segundo, ela consegue se comunicar com bestas mágicas, algo que somente magos em nível avançado são capazes de fazer, pois é necessário sintonizar-se na mesma frequência mágica que a besta... e você... — o homem olhou atentamente para Mu e continuou —... você é diferente de todas as que já vi. Apesar de sua forma diminuta, é possível perceber o quão poderoso você é, mas parece estar com parte de seus poderes selados.
Apesar de já ter percebido que aquele homem à sua frente era um mago muito poderoso, Mu reconheceu o quão talentoso ele era por conseguir ler sua aura mágica.
— Quem é você, afinal? Como conseguiu ler minha aura? — perguntou Mu, sentindo-se inquieto. Ele estava apreensivo de que o homem descobrisse quem ele realmente era e o matasse. Afinal, agora ele podia morrer, pois estava verdadeiramente ligado a um corpo e não possuía seus poderes reais.
— Pergunto o mesmo sobre você! Nesse continente, você é o único capaz de sentir meus poderes, mesmo eu carregando tantos artefatos para bloquear completamente minha aura. — respondeu o mago.
— Sou um ar... — Mu começou a responder, mas suas palavras foram abafadas pelos gritos de Atalia, que havia acabado de virar a esquina trazendo consigo Rudy e Hanna.
— Senhor Mago, Senhor Mago! — Atalia gritava, chamando a atenção de Mu e do mago para ela.
— Depois conversamos sobre isso! Ainda não confio em você! — Mu falou para o mago e logo voltou a agir como um gato comum.
Atalia corria com um sorriso que iluminava cada canto de seu rosto, parecendo não sentir nem mesmo o cansaço depois de tanto esforço, enquanto Rudy e Hanna, ofegantes, tentavam acompanhá-la.
— O senhor disse que, se eu pudesse mostrar talentos reais, pagaria nossas inscrições. Pois bem, aqui está! — a menina falou, apontando para Rudy, que ainda parecia não compreender completamente a situação.
— Vamos, Rudy, mostre para ele do que é capaz! — Atalia solicitou, incentivando-o.
Hanna, também confusa com a situação, logo se colocou à frente do filho e de Atalia, como se estivesse protegendo-os.
— Desculpe-me, mas antes que meu filho faça qualquer coisa, necessito que se apresente! — Hanna exclamou, com firmeza.
— Oh! Claro! Perdoe-me pelos meus maus modos! — o mago respondeu, fazendo uma reverência perfeita.
— Me chamo Jasper Maverick, sou o recrutador oficial da Academia Mágica do reino de Fiore! — o mago declarou, com elegância.
Hanna e Rudy logo se curvaram em sinal de respeito; estavam diante de um nobre, e mais ainda, de alguém dotado de um cargo tão importante. Enquanto isso, Atalia permanecia de pé, encarando o homem como se estivesse incrédula.
Quando Jasper revelou sua identidade, Atalia foi tomada por memórias de sua vida passada. Após o acidente com o óculos de realidade virtual, ela havia passado horas imersa no jogo "Minha Pequena Grande História", em busca de Leo e Lucius. Em uma dessas tentativas, ela se inscreveu na Academia Mágica de Fiore, e lá estava Jasper Maverick, um dos NPCs que participava ativamente da história. Ele tinha interações com todas as heroínas e heróis, pois era o recrutador e um excelente apoiador psicológico e mágico.
— Ei, tonta, abaixe a cabeça! — Rudy falou, empurrando suavemente a cabeça de Atalia para baixo, para que ela pudesse se curvar.
— Hahaha! — Jasper sorriu ao presenciar a cena. Atalia era realmente alguém muito singular.
— É um enorme privilégio conhecê-lo, Senhor Maverick! Peço humildemente que perdoe a Atalia; ela tende a ser muito sonhadora e animada. Não sei o que ela disse sobre meu filho Rudy para que o senhor alimentasse expectativas. Apesar de ele se destacar entre os jovens de sua idade, não tenho total certeza de que ele possa alcançar suas expectativas. — Hanna falou, mantendo a cabeça curvada.
Naquela época, mesmo que a nobreza não pudesse punir diretamente um plebeu sem motivos, desrespeitá-los poderia resultar em punições, especialmente vindo de alguém que detinha um título tão importante.
— Fique tranquila, senhora! Ela não me desrespeitou; na verdade, fui eu quem pediu que ela trouxesse jovens talentosos para que eu pudesse avaliá-los. Este ano será o primeiro em que viajo em busca de talentos. Estava cansado de ver pessoas comuns, sem competência, entrarem na academia, enquanto os verdadeiros talentos são desperdiçados por falta de recursos. Por isso, estou oferecendo bolsas para o próximo ano.
Um brilho de animação tomou conta dos olhos de Rudy e Atalia. Sabiam que, se pudessem demonstrar alguma habilidade, seus sonhos de treinar na Academia Mágica poderiam finalmente se concretizar.
— Para ser justo — anunciou o mago —, peço que avisem a todas as crianças da vila que amanhã, às três da tarde, farei um teste com todas. Aquelas capazes de passar não precisarão pagar a matrícula.
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Atualizado até capítulo 86
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