— Como pode ser? Oh, divino, é um milagre genuíno! — O homem se aproximou de Lana, seus olhos transbordando de incredulidade e uma chama de esperança. — Como você se sente?
— Olá, Senhor Sanchez. Estou bem, obrigada. Mas, por favor, poderia me esclarecer o que está acontecendo? Jane optou por não me informar.
— Bem... Você passou por um...— o senhor Sanchez começou a explicar, mas sua voz foi submersa pelo aparecimento súbito de um batalhão de médicos adentrando o quarto.
Ao testemunharem Lana sentada e dialogando, os médicos ficaram tomados pela incredulidade, momentaneamente paralisados diante da cena inesperada.
— Preparem a máquina de ressonância... Chamem o melhor neurologista do país imediatamente!" ordenou o líder da equipe médica, sua voz ecoando com uma urgência evidente.
Um frenesi se apoderou do ambiente, com médicos se aglomerando para examinar Lana e testemunhar com seus próprios olhos o "milagre" que se desdobrava diante deles. Inúmeras perguntas foram lançadas à jovem, mas ela permanecia em silêncio, incapaz de responder.
Lana foi submetida a uma extensa bateria de exames, desde os mais simples até os mais complexos, enquanto a agitação no hospital continuava a crescer. Finalmente, o clima de expectativa atingiu seu ápice com a chegada do Dr. Rui Freire, um neurologista de renome nacional.
Ao entrar no quarto, o médico realizou uma série de testes na jovem, examinou minuciosamente todos os resultados e então dirigiu-se a Lana com uma expressão séria.
— Bom dia, Senhorita Montes! Você consegue se recordar de algo antes do que aconteceu? — indagou ele.
— Primeiramente, eu não faço ideia do que aconteceu, segundo, estou completamente perdida. Ninguém me dá uma explicação. — respondeu Lana, indignada, enquanto uma mistura de frustração e confusão se refletia em seus olhos.
— Ah... — o Dr. Rui suspirou, compreendendo a frustração de Lana. — Acredito que todos estavam temerosos de que você reagisse mal ao ouvir a história completa. No entanto, com base nos seus exames, tudo parece normal agora, então não vejo problema em lhe contar o que ocorreu.
— Então, por favor, o que aconteceu? — perguntou Lana, ansiando por respostas.
— Segundo os relatos, aproximadamente 10 minutos após a entrega do dispositivo de realidade virtual, o carteiro retornou à sua residência, percebendo que havia esquecido de entregar outra correspondência. Ao bater no portão, não obteve resposta, exceto por um grito vindo de dentro da casa. Preocupado, ele imediatamente acionou a polícia. Quando as autoridades chegaram, encontraram você desacordada, com faíscas e fumaça emanando dos seus óculos. Acredita-se que um curto-circuito tenha ocorrido, resultando em uma descarga elétrica significativa no seu cérebro, causando danos graves.
Lana estava incrédula com o que ouvia. Não conseguia recordar-se de ter gritado, de sentir dor, ou mesmo de qualquer aspecto daquele evento. A única coisa que permanecia nítida em sua mente era a sensação de estar aprisionada dentro de um jogo.
— Isso é absurdo, eu estava jogando! Isso é uma brincadeira? — perguntou Lana, perplexa.
— Lana... hoje, os aparelhos seriam desligados, você estava... — os olhos de Jane se encheram de lágrimas e sua voz começou a falhar. — ... hoje, iriam desligar seus aparelhos. Deram um diagnóstico de morte cerebral... — as lágrimas que antes estavam contidas nos olhos de Jane agora corriam livremente pelo seu rosto.
Lana ficou pálida, uma onda de náusea a assaltou.
— Morte? Como assim? Eu estou viva, só não conseguia sair do jogo... então esse tempo todo... isso não pode ser real... É óbvio que eu estava jogando, não me lembro de ter gritado ou sentido qualquer dor.
Todos os presentes naquele quarto de hospital se entreolharam preocupados, imaginando se Lana estava sofrendo de sequelas cerebrais que a levavam a delirar e inventar eventos que nunca ocorreram.
— Deve ter sido apenas um sonho! — respondeu o médico.
— Aquilo foi real... mesmo sendo apenas um jogo, aqueles personagens eram reais... — retrucou Lana.
— Como eram os personagens? Você conseguia sentir algo? — o médico perguntou, fazendo Jane franzir a testa, perplexa com a situação.
"Não é possível que ele esteja levando isso a sério. Lana deve estar confusa, talvez tenha lido algum romance antes do jogo e sua mente esteja criando ilusões! Coitada da minha amiga! Esse médico é um charlatão!" — Jane pensou consigo mesma, lançando um olhar furioso para o médico.
— Só havia um personagem, era um homem... — ao tentar recordar sua aparência, uma leve dor despontou em sua cabeça. Ela havia acabado de sair do jogo, mas simplesmente não conseguia visualizar o rosto daquele homem que esteve ao seu lado o tempo todo. — ...eu não consigo lembrar.
— Humm, talvez se você ver a capa desse "jogo", você possa recordar! — sugeriu o médico.
— Boa ideia! Tenho certeza de que, ao vê-lo, vou me lembrar.
— Senhorita Sanchez, você tem algum folheto do jogo? — o médico virou-se para Jane e perguntou.
Apesar da hesitação, Jane correu até a bolsa de trabalho de seu pai e pegou um folheto de divulgação do jogo. Na capa, havia um conjunto de sete personagens femininos e sete personagens masculinos, com um gato laranja como guia e, ao fundo, alguns personagens secundários que seriam importantes para a história, como vilões e NPCs de ajuda.
— Consegue reconhecer algum? — perguntou o médico.
— Apenas o gato! Tem certeza de que não há nenhum outro personagem? — indagou Lana, franzindo a testa.
— Não! — respondeu Jane com convicção. — Esses são os únicos que podemos escolher para jogar. São apenas esses personagens que você pode controlar. O restante são personagens de apoio.
— Não entendo... então, por que eu me tornei uma planta e depois uma bola? — Lana indagou, parecendo confusa.
Os olhos de Jane se encheram de lágrimas. Ela sentia um profundo remorso por ter deixado sua amiga jogar sozinha naquele dia. Apesar de não ter culpa de a rede elétrica ter falhado naquela ocasião, fazendo com que o computador de Lana transferisse toda a carga para os óculos de realidade virtual, se Carlos não tivesse chegado a tempo, o estrago poderia ter sido muito maior.
O médico expressou com delicadeza: —Talvez a senhorita esteja explorando os recantos da sua mente, afinal, é sabido que você tem uma predileção por se deixar levar pela imaginação. É possível que seu cérebro tenha criado essas experiências.
Lana, com um brilho de incredulidade nos olhos, respondeu: — Mas foi tão real! Eu podia até saborear as sensações...
— Está bem, senhorita! Agora descanse. Você recebeu uma descarga elétrica muito intensa e precisa de repouso. É um verdadeiro milagre que tenha acordado!
Com essas palavras, o médico e Jane deixaram o quarto, deixando Lana entregue ao merecido descanso e perdida em mais profundos pensamentos.
Após meses de internação, Lana acabou recebendo uma compensação da empresa do pai de Jane, visto que o defeito ocorreu no óculos e não na rede elétrica como todos imaginavam. O mistério sobre como tal falha aconteceu permaneceu sem explicação. Para evitar processos legais, ofereceram uma generosa quantia em dinheiro e propuseram um acordo de confidencialidade a Lana, que prontamente aceitou. Com esse montante, ela poderia realizar seu sonho de cursar Letras na faculdade, almejando se tornar professora e escritora. Seu desejo era incentivar a leitura, pois assim teria mais companhia em seus "devaneios" literários.
**********************
Anos após o uso inicial dos óculos de realidade virtual, algo dentro de Lana ainda ansiava por rever o homem que afirmava ser seu pai. Mesmo sem lembrar seu rosto, uma angústia profunda a assombrava. Lana não recordava como era ter um pai e uma mãe, pois perdera ambos quando tinha apenas dois anos de idade. Assim, aquela experiência foi a primeira vez que sentiu o calor do carinho paterno genuíno. Essa chama interior, mesmo que obscurecida pela passagem do tempo, continuava a arder, alimentando sua busca por uma conexão perdida há tanto tempo.
Depois de muita insistência, Jane concordou em deixá-la usar os óculos novamente, mas apenas na condição de estar acompanhada. Ao conectar-se novamente ao jogo, Lana percebeu que não foi teleportada para o mesmo lugar que antes. O gato Leo parecia muito mais robótico e as opções de personagens haviam mudado drasticamente. Agora, Lana só podia escolher entre uma das sete heroínas ou heróis predestinados, uma mudança que a deixou perplexa e ansiosa pelo que viria a seguir.
O homem que Lana ansiava encontrar não apareceu, e a garota passou horas tentando localizá-lo, mas em vão. Com o tempo, Lana descobriu que todos os "heróis" e "heroínas" tinham histórias um tanto trágicas, que poderiam levá-los a se tornarem possíveis vilões. Foi nesse momento que ela compreendeu a razão pela qual precisava "conquistar" o coração de algum deles.
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Atualizado até capítulo 86
Comments
YuukiGnovel
Pois é, é tipo aquelas histórias que as pessoas levam um tiro na cabeça e sobrevive
2024-09-21
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