Anos se passaram e Atalia agora completava seu décimo segundo aniversário. A menina havia crescido de forma saudável e bela, mantendo sempre sua essência brincalhona e imaginativa. Seus cabelos azuis fluíam na altura dos ombros, como ela gostava, emoldurando seu rosto, enquanto seus olhos púrpuros brilhavam com vivacidade. Seu sorriso radiante era como um farol, iluminando tudo ao seu redor. Uma verdadeira beldade, como ela mesma costumava se chamar.
Com o passar do tempo, naquele pequeno vilarejo, todos acabaram se habituando às peculiaridades da menina. Até mesmo as outras crianças se integraram às "brincadeiras" de Atalia. Afinal, ela havia cessado de falar sozinha, mas ainda mantinha conversas com aquele gato estranho que parecia não envelhecer.
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Num certo dia, um mago que peregrinava por aquelas redondezas, avistou de longe uma cena verdadeiramente singular. Era frequente encontrar crianças ou até mesmo alguns adultos com pouca magia, resultado da falta de treinamento apropriado, mas mesmo assim eles ainda manifestavam sinais mínimos de sua essência magica. No entanto, deparar-se com alguém completamente desprovido dessa essência, era certamente algo fora do comum.
— Ei garoto, quem é aquela menina? — o mago perguntou ao se aproximar de um dos meninos da vila.
— Onde? — o menino indagou, curioso.
— Aquela! — o mago apontou na direção onde a menina estava.
— Ahh! — o menino suspirou, um tanto resignado, ao perceber sobre quem o homem perguntava. — Aquela é a Atalia, a pessoa mais esquisita que nós conhecemos.
— Esquisita porque? — o homem perguntou curioso.
— Ela fala coisas estranhas e ainda anda para todos os lados com aquele gato esquisito que parece que quer possuir sua alma. — o menino respondeu, sentindo arrepios percorrerem sua espinha ao recordar dos olhos afiados de Mu.
— De onde veio aquele gato?
— Ninguém sabe, um dia ela apareceu com ele, e isso já faz anos.
— Hm! — o mago ficou pensativo, logo virou-se para o garoto, agradecendo pelas informações.
Ainda curioso sobre Atalia, o homem se aproximou da menina. Ela estava tão concentrada em organizar suas pedras brilhantes sobre uma pequena mesa, preparando-as para possíveis compradores, que não percebeu a presença do homem.
"— Não entendo por que você faz isso, ninguém vai se interessar em comprar essas coisas sem valor!" — Mu resmungou.
— Deixa de ser negativo! Eu ainda vou conseguir vende-las! — a menina respondeu sentindo-se animada como sempre.
Na vida passada, Atalia sustentou-se durante a adolescência trabalhando como vendedora de sorvetes e em lojas de conveniência. Ao tornar-se adulta, enveredou pelo caminho do ensino e da escrita. No entanto, neste mundo, as coisas eram profundamente enraizadas na magia, e até o momento a jovem não havia sido capaz de invocar sequer uma faísca mágica. Enquanto isso, outros jovens de sua idade já dominavam habilidades básicas. Contudo, para avançar na magia, era necessário frequentar a Academia Mágica. Infelizmente, Mathias e Hanna não dispunham de recursos suficientes para isso, tampouco para enviar Rudy, quanto mais duas crianças.
Mu tentara ensinar algo para a menina, mas sua nova forma como gato o limitava apenas a aspectos teóricos. No entanto, Atalia não progredia; suas reservas mágicas permaneciam tão escassas que mal podiam ser percebidas, dificultando-lhe sentir a magia ao seu redor para que pudesse utilizá-la.
O homem, que observava curioso a menina, acabou parando em frente à pequena mesa repleta de pedras. Ele se deteve ali e observou atentamente cada uma delas, como se estivesse genuinamente interessado em adquiri-las.
— São encantadoras, não são? — Atalia falou, admirando as pedras.
— Sim, verdadeiramente magníficas. Onde as encontrou? — o homem perguntou, fascinado.
— Em minhas explorações pela natureza. — ela respondeu, sentindo-se orgulhosa de suas conquistas.
O homem se surpreendeu, acreditando nas palavras da menina, e perguntou:
— Você já é uma aventureira, mesmo sendo tão jovem?
— Claro! — ela respondeu, erguendo-se com um ar de nobreza e determinação.
"— Mentirosa! Vejam só as expressões de uma golpista!" — Mu ironizou, observando como a menina agia diante de um "cliente". Na verdade, era a primeira vez que alguém se aproximava dela para ver aquelas pedras sem valor.
Atalia apenas fingiu não ouvir. Ao longo dos anos de convívio com Mu, aprendera a lidar com sua personalidade debochada. Para não assustar um potencial cliente, sabia que precisava conter suas "loucuras" de não discutir com um "gato".
— Que interessante, foi em uma dessas aventuras que conseguiu esse animal? — o mago sorriu e apontou para Mu.
"— Quem ele está chamando de animal? Como ousa? Eu, o grande Mu..." — Mu resmungava, mas suas reclamações soavam apenas como miados aos ouvidos do homem.
Ao perceber que o gato miava como se estivesse incomodado com algo, o homem perguntou novamente, antes de Atalia responder à sua primeira pergunta.
— O que houve com ele? Está com prisão de ventre?
Os olhos de Atalia se arregalaram de surpresa e logo o riso tomou conta dela.
— HAHAHAHAAHAH! Realmente, faz tempo que ele não caga! — a menina ria alto, achando a situação divertida.
Mu olhou incrédulo para Atalia, como se não pudesse acreditar no que acabara de ouvir, enquanto o homem sugeriu remédios para solucionar o "problema".
— Sugiro que insira um supositório...
"— Agora chega, vou acabar com ele!" — Mu falou, se preparando para atacar como um felino geralmente faz, mas Atalia o segurou.
"— Me solte! Me solte!" — Mu gritava. "— Ele vai pagar por isso!"
— HAHAHAHA! Se acalme, um cliente sempre tem razão, Mu!
Atalia falava entre risos, enquanto segurava Mu em seus braços.
"— Desde a hora que o vi, soube que era um cara estranho! Nunca irei perdoá-lo por essa falta de respeito!" — Mu murmurava.
— Estranho como? — Atalia perguntou sussurrando para Mu.
"— Você não notou? Ele é um mago, e dos fortes!" — o gato respondeu, surpreendendo a menina que não pensou duas vezes antes virar-se ao homem e perguntar:
— Ei, moço, você é um mago? — Atalia perguntou abruptamente.
"— Você está verdadeiramente louca? Como ousa interrogar um mago que claramente oculta sua identidade? Arrisca-se a perder a própria vida." — Mu repreendeu a jovem, cujo gesto de indiferença aguardava apenas uma resposta.
O homem ficou atônito ao perceber que a jovem havia desvendado sua magia, mesmo ele empregando amuletos e feitiços para ocultá-la. Ainda mais surpreendente foi o fato de não detectar nenhuma aura mágica emanando da garota, enquanto ela, por sua vez, conseguia discernir a magia dentro dele.
— Como conseguiu descobrir? — Ele indagou.
— Ah, meu caro, sou uma invocadora, como poderia não saber? — Atalia respondeu, envolta em um ar de superioridade.
"— Ei, pirralha insolente, você mal consegue perceber a magia ao seu redor, como ousa tecer mentiras tão descaradas? Ele perceberá sua farsa!" —Mu expressou sua incredulidade diante da audácia de Atalia em enganar um mago tão poderoso quanto aquele diante deles.
O homem arregalou os olhos e em seguida esboçou um sorriso.
— Invocadora? Esta é a primeira vez que escuto falar sobre tal termo. O que exatamente isso significa? — O mago indagou.
"— Não posso acreditar que ele seja tão ingênuo a ponto de cair em suas artimanhas! Talvez sua magia tenha ocupado o lugar de seu cérebro!" — Mu zombou, provocando.
— Quieto! — Atalia ordenou a Mu com firmeza.
— Perdão, fiz algo de errado? — O mago perguntou, pensando que as palavras recém-ditas pela jovem fossem dirigidas a ele.
— Oh! Perdoe-me, minha fala não era dirigida a você! — A jovem respondeu.
O homem observava-a, confuso, claramente sem entender a situação.
"— Hahaha, agora você se deu mal! Ele vai achar que você é tão estranha quanto todos nós!" — Mu zombou.
Atalia pegou o gato pelos bigodes, fazendo-o soltar um miado agudo, e depois o soltou no chão.
— Ahh! — Ela suspirou e prosseguiu. — Eu tenho a capacidade de invocar criaturas!
"— JÁ EXPLIQUEI QUE NÃO FUI INVOCADO!" — Mu exclamou, ao ouvir a afirmação da jovem.
— Mas é evidente que eu te invoquei! — Atalia respondeu à provocação de Mu, virando-se para ele.
"— Claro que não, eu vim por minha própria vontade!" — Mu retrucou.
— Ah, entendi! Você simplesmente decidiu adentrar o círculo de invocação por livre e espontânea vontade!
"— Que círculo?"
— O círculo de Invocação, é óbvio!
"— Céus!" — Mu colocou uma pata pequena na cabeça, como se toda aquela conversa estivesse lhe causando uma dor de cabeça.
— Hahahaha! — o mago riu, interrompendo a conversa entre Mu e Atalia, que já haviam até mesmo esquecido da presença dele.
— Você gostaria de frequentar a Academia de Magia, jovem?
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Atualizado até capítulo 86
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