Capitulo 13

Mu observava Atalia com curiosidade.

"Não sei o que pensar sobre as habilidades dela. Não sinto nenhuma magia nela, e ao mesmo tempo só ela pode me ver e materializar! Preciso de mais informações. A seguirei para todos os lugares até que descubra o que de fato está acontecendo!" — o esqueleto refletia consigo mesmo, enquanto Atalia ria satisfeita.

           *********

— Retorne ao reino dos mortos! — a menina debatia com Mu.

"— Já expliquei que você não me invocou!" — ele respondia indignado.

— Como assim? Sou a única capaz de te ver, ouvir e tocar. É óbvio que te invoquei. — Atalia murmurava.

"— Aff!" — Mu suspirou. "— A verdade é que você não me invocou, aliás..." — ele dizia quando Mathias se aproximou de Atalia.

 — Querida, sei que você adora usar a imaginação, mas ultimamente tem mencionado muito sobre mortos e esqueletos, o que tem deixado as outras crianças assustadas... — o homem olhou para Atalia com ternura. — ... Que tal brincar com outras coisas imaginárias por um tempo?

Atalia encarou Mathias, cujo olhar ainda irradiava compaixão, uma expressão que ela conhecia muito bem. Era o tipo de olhar que havia enfrentado inúmeras vezes durante sua infância e juventude em sua vida anterior. Um olhar que a fazia sentir-se inferior, como se sua vida difícil a tornasse merecedora de pena aos olhos dos outros.

— É que... — a menina começou, mas ao olhar nos olhos de Mathias, ela percebeu que contar sua versão da história não faria diferença. Afinal, ninguém mais via Mu. Ela olhou ao redor, notando a presença de Rudy ao lado de sua mãe, observando a situação. — ... tudo bem!

— Muito obrigado, querida! — Mathias sorriu, aliviado. — Venha, vamos comer algo!

Atalia seguiu em silêncio, sentou-se à mesa e comeu sem dizer mais nada. Ao terminar a refeição, dirigiu-se ao seu quarto, ainda calada. Porém, antes que pudesse subir as escadas completamente, ela pode ouvir um trecho da conversa entre os adultos.

— Querido, você não deveria ter dito nada. Ela é apenas uma criança! — Hanna repreendeu o marido.

— Eu sei, querida. Nós entendemos, mas as outras pessoas não entendem. E se um dia ela não tiver mais nenhum de nós? Você sabe que Lilian e Lucius não vão...

— Fale mais baixo, ela pode ouvir! — interrompeu Hanna, preocupada com a possibilidade de Atalia escutar a conversa.

Mu ficou intrigado ao ouvir os nomes "Lucius" e "Lilian". Seriam eles os mesmo que estavam relacionados ao seu passado? Ele se questionava enquanto observava a menina subir as escadas, perdida em seus próprios pensamentos.

"Não, não pode ser... isso já faz mil anos, claro que não poderiam ser eles!" — Mu tentava convencer a si mesmo de que esses nomes não poderiam ter nenhuma relação com o seu passado. Ele tentava afastar esses pensamentos, considerando-os apenas coincidências. Afinal, o tempo decorrido era imenso, e seria improvável que humanos vivessem tanto.

Atalia subiu as escadas, soltando pequenos suspiros que ecoavam sua sensação de deslocamento, alimentando um profundo sentimento de solidão. Ao alcançar seu quarto, ela se deitou na cama e mergulhou em pensamentos sobre sua vida passada e sua amiga Jane. Uma lágrima solitária escapou de seus olhos, marcando o peso das lembranças, enquanto Mu observava em silêncio, incapaz de confortá-la além de suas próprias reflexões.

"Ela é realmente excêntrica, mas de alguma forma cativante, essa pobre criança", pensou Mu consigo mesmo, enquanto inadvertidamente passava a olhar Atalia com compaixão.

— Ei, não me olhe desse jeito também! — a menina dirigiu-se ao esqueleto, surpreendendo-o.

"— Como assim?" — indagou Mu.

— Com essa expressão de cachorro perdido!

Surpreso, Mu não havia percebido a mudança em suas expressões. Ele estava habituado a não nutrir afeto por ninguém, mas nos últimos dias, sem se dar conta, começou a sentir algum tipo de ligação com Atalia.

"— Coff, Coff. — Mu pigarreou. — Não sei do que está falando! Eu não possuo sentimentos!" — Ele respondeu, tentando recuperar sua compostura habitual com uma pose de superioridade.

Toc.. Toc

O som da batida de Rudy à porta interrompeu a conversa.

— Parece que está melhor, já até está falando sozinha novamente! — o menino brincou, tentando descontrair o clima.

— Pode sair, não estou com disposição para suas gracinhas, Rudy! — resmungou Atalia, imaginando que o menino estava ali para incomodá-la como de costume.

O menino empurrou a porta e adentrou o quarto, mantendo o olhar fixo no chão como se estivesse envergonhado. Depois de um momento, ele finalmente falou:

— Eu não vim brigar com você... eu queria saber como você estava... — disse Rudy, surpreendendo Atalia. Ela nunca imaginaria que aquele pequeno pestinha teria um lado gentil.

— Já se apaixonou por mim? — Atalia brincou, provocando o menino, que corou instantaneamente, criando uma expressão de constrangimento em seu rosto.

— N... Não... Claro que não! Você é ... — Rudy gaguejou, incapaz de terminar a frase diante da sua própria timidez.

Atalia sorriu diante das expressões do menino, divertida ao perceber como conseguia mexer com ele. Ela também sabia como irritá-lo, e aquilo era sempre uma fonte de diversão.

— É brincadeira! Agora já me sinto melhor, obrigada, Rudy! — ela respondeu com um sorriso, aliviando a tensão do momento.

As risadas ecoavam pelo quarto enquanto as duas crianças compartilhavam conversas despreocupadas sobre os mais variados assuntos. Atalia, com suas brincadeiras e palhaçadas, conseguia arrancar sorrisos genuínos de Rudy, que aos poucos se mostrava mais receptivo do que nunca desde que a menina havia chegado àquela casa. Era um momento de leveza e conexão, onde as preocupações pareciam desaparecer diante da amizade que começava a florescer entre eles.

Mu observava atentamente as duas pequenas figuras, enquanto dialogavam tranquilamente antes de caírem no sono ali mesmo. Com um gesto carinhoso, ele cobriu as crianças e, com a mão suavemente pousada na cabeça de Atalia, murmurou para si mesmo:

"— A vida é tão simples para vocês dois, não é mesmo?"

Um sorriso sincero iluminou seu rosto, pois, mesmo sendo um esqueleto, encontrava na inocência e na amizade daquelas crianças uma beleza que o tocava profundamente.

Mu se viu surpreendido pela própria ação. Desde quando ele, um esqueleto, estava cobrindo crianças? E mais intrigante ainda, ele havia tocado na menina. Um turbilhão de pensamentos invadiu sua mente enquanto tentava reproduzir o gesto, mas suas mãos já não respondiam mais. A sensação fugaz de humanidade que experimentara se dissipou, deixando-o perplexo diante do que acabara de acontecer.

"O que está ocorrendo? Há apenas instantes, pude tocar na menina, algo que parecia totalmente impossível para mim. Será que isso significa que não depende da vontade dela? Ela está dormindo... Será que é apenas por estar próximo dela que meus poderes estão retornando?" — Refletiu Mu em pensamentos.

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