Capítulo 14

Após dias de tentativas frustradas de tocar a menina novamente, Mu finalmente se deu por vencido, convencido de que aquele momento fora apenas um evento esporádico e inexplicável. 

Enquanto isso, a relação entre Atalia e Rudy se fortalecia. Embora continuassem a se provocar como sempre, era evidente que uma amizade sincera estava florescendo entre os dois. 

                             *************   

Rudy, repousando à sombra de uma árvore com Atalia, quebrou o silêncio com uma pergunta curiosa:

— Ei, Lia, há mesmo um ser invisível aqui?

Atalia lançou um olhar sério para Rudy, compartilhando suas experiências.

— Sim, Rudy. Eu juro que ele está aqui. Posso vê-lo, ouvi-lo e até tocá-lo. Mas por alguma razão, vocês não conseguem fazer o mesmo! — respondeu ela com sinceridade, tentando transmitir a realidade do que estava experimentando.

Rudy finalmente acreditou nas palavras de Atalia, um suspiro escapou de seus lábios.

— As pessoas pensam que você é louca, você sabe disso, certo?

— Eu sei, mas não vou fingir ser alguém que não sou.

— Não estou falando pra você mudar, mas talvez, se você tentar falar menos sozinha... 

— Eu não estou falando sozinha... quer dizer... às vezes parece que estou, mas é com o Mu que estou falando.

— Se ao menos ele fosse visível para mais alguém... — o menino murmurou baixinho.

Atalia olhou para Mu, que nunca deixou de acompanhá-la para onde quer que ela fosse, e ele apenas deu de ombros, demonstrando que também não sabia por que outros não podiam vê-lo.

                                                               ***********

Ao término de mais um dia, Atalia traçava o caminho de regresso ao lar, tendo percorrido os campos solitários em busca de pequenos tesouros e curiosidades que a natureza gentilmente lhe oferecia. Foi então que, em sua peregrinação, deparou-se com um felino alaranjado a cruzar seu caminho.

O pobre felino exibia uma ferida dolorosa em seu ventre, como evidência de um encontro desafortunado com alguma criatura selvagem. Não era uma surpresa, considerando a proximidade das terras habitadas por pequenas feras, não suficientemente formidáveis para um adulto, mas certamente uma ameaça para uma criança desavisada. No entanto, esses animais mantinham uma prudente distância das habitações humanas, preferindo os recônditos seguros da floresta.

— A pobrezinho...! —  Atalia murmurou com compaixão enquanto acolhia o gato em seus braços.

"— Essas marcas de garra... acho que foi outro gato selvagem!" — Mu comentou ao observar as marcas de garras no corpo do animal.

— Irei leva-lo para casa. Quem sabe, com cuidados atentos, ele possa sobreviver!

"— Não valerá a pena, ele não resistirá por muito tempo. Suas feridas são graves demais!"

— Não dê ouvidos a ele, esse pobre insensato não compreende o poder da esperança. Você vai se reerguer, não é mesmo? — Atalia consolou o gatinho com ternura, ignorando os comentários desanimadores de Mu.

"— Aff!" — Mu resmungou, resignado. "— Não se apegue a coisas que se desfarão facilmente!" — advertiu o esqueleto à menina.

Atalia compartilhou suas reflexões com um tom melancólico.

— Mesmo que as despedidas sejam rápidas... a essência da vida reside em abraçar cada instante com fervor. É preferível amar e perder do que jamais ter conhecido o calor de um afeto! —  murmurou ela, enquanto avançava penosamente, enfrentando os desafios da caminhada enquanto carregava o gato, cujo peso era desproporcional aos seus delicados braços.

Mu contemplou a menina com surpresa, vendo além da sua aparência infantil, percebendo uma sabedoria que transcende a sua tenra idade. Uma centelha de humanidade pareceu reavivar-se dentro dele, como se uma lembrança há muito adormecida emergisse à superfície de sua consciência.

"Axel querido!", ecoou a voz melancólica de uma mulher nas memórias de Mu, deixando-o momentaneamente petrificado.

Ao recobrar a consciência, ele notou que Atalia havia interrompido sua caminhada, delicadamente colocando o pequeno animal no chão e começando a escavar uma pequena cova à beira da estrada.

"— Eu sabia que ele não sobreviveria!" — comentou Mu ao se aproximar da menina.

Atalia não respondeu às palavras de Mu, concentrando-se em cavar o buraco com suas pequenas mãos.

Mu se abaixou ao lado dela, suspirando profundamente. Por um breve instante, pensou em como poderia ajudar a pequena menina. No entanto, logo em seguida, voltou à sua própria realidade.

"O que estou pensando? Desde quando me tornei assim?" — refletiu consigo mesmo. "Um dia, eu vou tomar o corpo desta menina e finalmente quebrar o selo que me aprisiona, recuperando minha forma original", ponderou, alimentando seus sombrios desejos.

Enquanto isso, alguns minutos se passaram, e as mãos da menina estavam agora marcadas por pequenos ferimentos, fruto do árduo trabalho de cavar. Ela finalmente concluiu a escavação, criando uma sepultura adequada para o corpo do felino.

Cansada e quase sem forças, Atalia tentou mover o corpo para a pequena cova, mas encontrou dificuldades nessa tarefa simples.

— Mu, por favor, me ajude! — ela pediu.

"— Por que eu deveria te ajudar? Deixe-o apodrecer à superfície. É perda de tempo gastar energia com algo assim." — respondeu Mu.

— Mu... você... você é um idiota! Não quero mais você como meu servo! Desapareça da minha frente!" — a menina respondeu com aspereza e raiva, uma lágrima de frustração escapando de seus olhos. Antes, ela nunca teria chorado por algo tão trivial, mas presa no corpo de uma criança, muitas vezes se via dominada por impulsos infantis, como colecionar aquelas pedrinhas.

Mu observou com surpresa, pois era a primeira vez que via tanta raiva nos olhos da menina. Mesmo quando os meninos a provocavam ou quando Rudy fazia suas brincadeiras de mau gosto, ela nunca demonstrara tamanha desaprovação e frustração como naquele momento.

"—Aff!" — ele suspirou. "—Mesmo que eu quisesse te ajudar, não posso. Veja!" — Mu tentou tocar no corpo do felino para demonstrar que suas mãos ultrapassavam qualquer superfície sólida. De repente, ele sentiu seu corpo enfraquecer, uma sensação de ser selado novamente o invadiu.

— Mu.. seu corpo! — ela exclamou ao notar a transparência cada vez mais intensa em Mu.

— AHH! — ele gritou, e logo seu corpo desapareceu diante dos olhos da menina.

— Mu! Mu! — Atalia gritava, chamando por seu amigo, mas não obtinha resposta.

Minutos se arrastaram, deixando Atalia agora sozinha. Um remorso começou a se instalar na menina, convencida de que Mu se fora por causa de suas palavras impulsivas.

— Eu... eu falei sem pensar... não queria que você fosse embora... agora... agora vou ficar sozinha de novo... — ela murmurou, lágrimas escorrendo de seus olhos.

Absolutamente convencida de que jamais o encontraria novamente e com os olhos úmidos de lágrimas, Atalia depositou o gato na pequena cova. No entanto, ao iniciar o processo de enterramento, uma voz inesperada ecoou.

— Ei! Você perdeu o juízo? Por que está me cobrindo de terra? — o gato falou, deixando Atalia perplexa.

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