No outro dia acordei deitada no chão do meu quarto, havia estufamento, cacos de vidro espalhados por quase todo ambiente.
Me levantei com uma enorme enxaqueca. Olhei para a foto da minha família, que estava no chão, em seguida peguei e a coloquei em seu devido lugar… Em cima do meu criado mudo.
Olhei pela janela e vi o céu nublado, ainda chovia muito lá fora. E fazia um frio gigantesco e esmagador.
Fui ao banheiro para tomar um banho, afinal fazia várias horas que tinha tomado o último. Ajustei o chuveiro para água quente. Me coloquei debaixo da deliciosa e reconfortante água quente.
Enquanto me banhava nas memórias do que tinha acontecido ontem, além do sentimento de incredulidade, não paravam de me atormentar. Chegou um ponto que, na minha imaginação, começou a brincar comigo.
“Uma horrível brincadeira de mal gosto”
Olhei para cima, em direção ao chuveiro e por um segundo, a peça tinha sumido e se transformado em um cano de uma arma a qual estava saindo balas. Com medo, me baixei para me proteger… Só depois de alguns minutos eu pude perceber que era tudo mentira, uma fantasia criada pela minha mente.
Fora do banheiro, organizei meu quarto. Fui até a gaveta inferior do meu criado mudo e peguei algumas sacolas de lixo, nessas sacolas coloquei tudo que tinha destruído.
Eu não queria que minha mãe visse o que tinha feito, não queria que ela visse o quanto estava sofrendo, o tamanho da minha raiva. Por que poderia atrair sua atenção para mim e o que mais que é ficar sozinha com minha dor, sozinha com meu próprio luto.
Assim que terminei, coloquei um retrato qualquer no buraco que tinha feito na parede, afinal se escondê-lo.
Depois segui para o guarda-roupa. Precisava de roupas pretas para simbolizar o luto, o que não seria nenhum problema, afinal meu guarda roupa estava abarrotado dessas peças.
Eu sempre gostei da cor preta, sempre achei que ela combinava comigo com meu espírito tímido. A variedade era grande, calças comuns, jeans, shorts, blusas, peças íntimas… Preto é minha cor favorita.
“Só não imaginava que um dia teria que vestir essa cor, para um fim tão triste”
Retiro do guarda roupa um vestido de renda, roupas íntimas e um casaco para o frio… Eu acho que não preciso dizer a cor… Não é mesmo?
Assim que terminei de me vestir, escuto a porta batendo.
— Anna?! O café está pronto… Precisa se apressar, está quase na hora de ir a casa funerária! — Escuto a voz da minha mãe um pouco abafada através da porta.
Escuto os passos dela se afastando do meu quarto. Me olho no espelho, para ver se tudo estava em ordem… Porém tinha algo, algo que não estava certo.
“Minha mãe disse à casa funerária, mas como não tínhamos dinheiro para isso foi decidido que o funeral seria aqui em casa… O que mudou?”
Foi com essa pergunta em mente que sai do quarto.
Quando coloquei meus pés na sala, vi minha mãe, usando roupas escuras assim como as minhas. Ela estava no telefone, conversando com alguém.
Eu queria fazer a pergunta, mas resolvi deixar para outro momento.
Resolvi seguir para cozinha, assim que coloquei meus pés nela vi minha refeição em cima da mesa. Porém, tinha algo mais… Não era nada novo, na verdade era algo que já tinha dentro da casa, mas que para mim aumentava ainda mais a sensação de vazio em minha alma.
Caminho até a mesa e passo meus dedos delicadamente sobre a superfície de madeira, até chegar um uma cadeira central… Era a cadeira onde o papai costumava jantar.
“Eu não posso tomar meu café aqui”
Peguei minha refeição e fui para um lugar qualquer, onde pudesse me alimentar… Resolvi por algum motivo fazer meu café no sótão que ficava no andar de cima.
Assim que entrei no ambiente, liguei a luz e fechei a porta atrás de mim. Olhei para o ambiente empoeirado, cheio de tranqueiras e coisas velhas.
Foi então que percebi que escolher o sótão para fazer uma refeição era algo aleatório demais.
“Ou será que não?”.
O sótão por algum motivo, era o lugar onde o papai menos frequentava, ele raramente ia a esse lugar.
Talvez seja por isso que tenha escolhido esse lugar de maneira inconsciente. No fundo eu estava querendo fugir da realidade, a ficha ainda não tinha caído para mim. Mas a cada vez que olhava para um canto da casa eu via ele e ao mesmo tempo não. Era difícil olhar para um lugar e não ver… Não ver mais aquela pessoa.
Olhei em volta do ambiente à procura de algum lugar onde pudesse sentar e comer. Foi então que vi um conjunto de mesa e cadeiras, era perfeito.
Caminho pelo ambiente estreito, rumo à mesa. Foi quando esbarrei em uma caixa de papelão, a qual caiu no chão.
Continuei meu caminho, coloquei minha refeição em cima da mesa. Estava pronta para comer… Foi quando olhei para a caixa e vi uma foto do papai, a qual nunca tinha visto antes.
Abandonei minha refeição e fui até a caixa. Peguei a foto que estava em um porta retrato, nela vi meu pai e outro homem que tinha uma certa semelhança com ele, ambos estavam usando cinturões de campeão.
Ao virar a foto vi algo escrito… “Lembrança do campeonato Rio. Irmãos Dragão Andy e Richard”
Meus olhos ficaram arregalados, afinal meu pai nunca tinha contado que tinha um irmão.
Deixei a foto de lado e comecei a mexer na caixa de papelão, na procura de respostas. Mas tudo que encontrei foi algumas medalhas velhas e um símbolo Japonês em um pano.
— O que está fazendo aqui?! — fala uma voz em tom ríspido.
Olho para cima e vejo minha mãe, ela não parecia nada contente. Eu podia ver em seus olhos o sentimento de raiva, mas ao mesmo tempo medo…
“Raiva eu entendo… Mas medo? Do que ela está com medo?!”
Sem mais nem menos ela puxa a fotografia do meu pai com seu irmão.
— Onde encontrou isso?!
— Eu esbarrei em uma caixa mamãe, quando fui colocar no lugar acabei encontrando essa foto.
Minha mãe olha com ódio para a foto, em seguida o joga em uma pilha de sucata.
— Venha, vamos descer… Está na hora.
— Espere… Mãe… O papai tem um irmão?
Ao ouvir essas palavras, pude ver minha mãe um pouco nervosa.
— De onde você tirou essa besteira garota?!
— Da foto, estava escrito o nome dele, o do papai. Eles estavam no Rio… Eu vi a data… Foi no mesmo ano que vocês se conheceram!
— Vamos deixar isso Anna… Está bem?! — Falou ela de forma fria.
— Ele vem para o enterro?
— Eu disse para deixar isso de lado!!! — gritou ela furiosa, fiquei assustada ao ver o ódio estampado em sua cara.
— Me desculpe…
— Me desculpe filha… — Ela fica pensativa — Seu pai e eu… Nunca falamos dele para você… Porque… É doloroso. Andy… Ele morreu alguns meses depois de bater essa foto…
— Eu entendo… — Respondi cabisbaixa.
— Agora vamos, temos que ir a casa funerária — fala ela em um tom mais calmo.
— Posso perguntar só mais uma coisa?
Ao ouvir isso, minha mãe puxa a respiração profundamente. Era visível que aquele assunto do meu tio tinha mexido com ela e que ela não ouvir mais questionamentos sobre o assunto.
— Fala — falou de forma seca.
— Não tínhamos dinheiro para casa funerária, como conseguiu que o velório do meu pai acontecesse em uma?
Posso ver o alívio de minha mãe em seus olhos ao ouvir esse assunto e não mais questionamentos sobre meu misterioso tio.
— Anna, lembra as pessoas que a gente trabalhou no Brasil antes de vir para cá? Eles pagaram tudo… Se seu pai vai ter um funeral digno é graças a eles.
— Agora entendi.
— Agora vamos, estamos bastante atrasadas — Falou ela enquanto olhava para o relógio.
Saímos do sótão, mas o que tinha acontecido ali não tinha ficado para trás. Eu continuava curiosa sobre meu tio misterioso, além do mais porque meu pai e minha mãe nunca falaram dele.
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Atualizado até capítulo 91
Comments
Marcia Cristina Carneiro
será que esse tio tá morto mesmo 2/01/25/
2025-01-02
0
ARMINDA
🤔🤔🤔🤔🤔🤔🤔🤔 TO IGUAL ANABELE MUITO CURIOSA.
2024-03-23
7