Samantha On | •
Minha cabeça fervilhava em um turbilhão de perguntas sem respostas, um verdadeiro caos interno que me impedia de pensar direito. O que eu estava fazendo? Que caminho eu estava tomando? A verdade brutal e sem adornos era que a Samantha que eu conhecia não era exatamente a pessoa mais corajosa. Eu não queria enfrentar o mundo pra buscar vingança do Mário. Reviver aquele passado torturante? Era loucura. Fugir dele? Lutar contra ele de novo? Não queria. Não tinha forças. Não queria correr os riscos — eu sabia bem o que isso significava.
Quando tentei abrir a boca pela primeira vez pra polícia, pra expor os horrores pelos quais passei — os abusos sexuais, psicológicos e outros traumas —, fui recebida com indiferença e incredulidade. Cogitaram até que eu estivesse desequilibrada mentalmente, sugerindo que meu passado recente com entorpecentes falava mais alto do que minha verdade.
Eu não queria voltar praquela armadilha de onde demorei tanto pra escapar. Não queria.
Caminhava pelas ruas com a calça do pijama surrada e a camisa de Izabela — roupas que não eram minhas, mas que me lembravam a presença dela. Procurava alguma coisa, alguma ideia, alguma luz que me ajudasse a decidir o próximo passo. O hotel estava distante agora, e eu não tinha dinheiro pra ônibus ou táxi. O céu começava a escurecer, e o frio cortava meus ossos.
Droga, droga, droga! — Resmunguei, batendo a testa repetidamente. O som do meu desespero era um sussurrar de frustração entre as sombras das ruas.
Meus pés estavam congelados. Minhas meias eram tão finas que mal conseguiam aquecer. Era o meu próprio reflexo do pouco que me restava.
___
HORAS MAIS TARDE
Izabela On | •
As horas se arrastaram. Minhas pálpebras pesavam, meu rosto inchado pelo choro incessante. A dor pulsava na minha cabeça como um tambor, um alerta constante que não deixava eu pensar em nada além daquele sofrimento.
Eu não podia fechar os olhos. Não poderia dormir tranquila enquanto Samantha estivesse em perigo. Saí do carro, sentindo o peso do dia em cada movimento. Andei pelas ruas escuras, parando em alguns lugares pra perguntar se alguém tinha visto Samantha. Meu coração estava afundado em uma mistura de esperança e medo.
O som de uma boate em uma esquina chamou minha atenção. A música pulsava alto, vibrando na calçada e atrapalhando qualquer tentativa de clareza. Aproximei-me do segurança na porta, um homem robusto que mal me olhou quando mostrei a foto no celular.
Boa noite, viu essa garota? — Gritei, minha voz quase perdida entre o som estrondoso que saía da boate.
Ele balançou a cabeça, a negação cortou meu estômago como um facada.
Voltei pro carro, os olhos cheios de uma mistura de raiva e frustração. Pensei em onde Samantha poderia estar. As possibilidades me assombravam. Meus olhos fecharam por um instante — um cochilo fugaz — até que algo me acordou abruptamente.
___
Quando abri os olhos, senti o impacto do meu rosto pesadamente colidindo com o volante. A dor explodiu no meu crânio.
Puta merda — murmurei, me espreguiçando e tentando organizar os pensamentos.
Na tela do celular, eram 11:56 da noite. O frio do lado de fora parecia piorar, e a esperança diminuía a cada minuto.
Foi então que vi. Do outro lado da rua, Samantha estava lá, sentada na calçada, cercada por dois homens desconhecidos. O meu estômago afundou instantaneamente.
SAMANTHA? — Gritei, correndo em direção a ela. Meus olhos se arregalaram ao ver o que estava diante de mim.
Ela estava diferente. Suas roupas estavam rasgadas, e o olhar em seu rosto era algo entre confuso e destroçado.
Iz... Izabel? — Ela começou a rir arrastado, um som desconexo e assustador. — Você demorou! Izabel demorou!
Estava bêbada. A vulnerabilidade dela era cruel e dolorosa de ver.
Samantha, vamos embora, por favor — Estendi minha mão.
Os homens ao lado dela me olharam com um desprezo calculista, mas eu não parei. Peguei o braço dela, tentando tirá-la dali.
Não pega ela assim, é a nossa florzinha. — O barbudo nojento falou, um sorriso perverso no rosto.
Samantha, vamos embora, agora! — Reforcei, sentindo meu coração disparar.
Ela olhou pra mim, os olhos turvados, mas um resquício de consciência parecia flutuar por um instante.
Estávamos no meu carro. O silêncio entre nós era pesado e as palavras eram quase inúteis. Coloquei o cinto nela, e a direção do meu instinto me levou de volta ao hotel. Cada quilômetro percorrido no escuro das ruas parecia um compromisso silencioso com a verdade: eu não ia deixar Samantha cair — não enquanto eu tivesse o poder de lutar por ela.
Continua..
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Atualizado até capítulo 35
Comments
Allan Ricardo Araujo
o que raio aconteceu com a Samantha será se ela foi abusada ou não?
2024-06-11
1
Maria Andrade
que neura mais louca
2024-06-08
1