Samantha
Exausta. Era assim que eu me sentia depois daquela manhã. Minha mãe e eu passamos horas arrumando o quarto dos fundos, um espaço cheio de objetos acumulados ao longo do tempo. Roupas que não usava mais, livros antigos da Ana e tralhas que não tinham mais razão de existir.
— Acho que somos acumuladoras sem perceber — disse a minha mãe, olhando para um dos caixotes.
-- Mas não aguento mais isso. Por hoje, chega. Vai tomar um banho. Eu resolvo o resto. Vou comprar o almoço. - A mais velha disse se afastando.
Acenei, um sorriso fraco nos lábios, e me levantei. Fui até o celular, que vibrava sobre a estante. Mensagens da Ana pipocavam na tela:
"Samantha, conheci um cara incrível! Chegando em casa, te conto tudo."
Eu sorri, pensando em Ana, mas o alívio durou pouco. De repente, Izabela apareceu, parada na porta da sala, sem ser convidada. Ela entrou como se fosse dona do lugar.
— Por que você está aqui? — perguntei, meu coração acelerando.
Aquele sorriso meio cínico e os olhos frios. — Eu só vim conversar.
— Conversar? Depois de tudo que aconteceu, você acha que eu quero alguma coisa com você? — resmunguei, tentando me afastar.
— Eu disse à sua mãe que sou uma amiga antiga — ela respondeu, como se fosse a coisa mais simples do mundo. — Eu não queria sumir, sabe? — Izabela começou, a voz tremendo um pouco. — Mas o que aconteceu entre a gente... eu não podia deixar acontecer. Tem coisas que eu não posso explicar agora.
— Sério? — desafiei, a raiva crescendo. — Eu não acredito em você, Izabela. Você só quer entrar na minha vida pra fazer bagunça. Confusão. Problema.
— Não é isso, Samantha — ela respondeu, os olhos dela começando a mostrar uma vulnerabilidade que eu não esperava. — Eu errei. Mas eu não queria que tudo fosse assim.
— Bom, Izabela, você não tem nada pra resolver comigo — respondi, me aproximando dela. — Se você tentar fazer alguma coisa com alguém que eu amo, vai se arrepender. Agora eu sei onde te encontrar. Um passo em falso, e a polícia também saberá, não se esqueça que você me sequestrou, com aquela maluquice toda de papel e assuntos importantes, me fazendo de marionete com seu plano esquisito e brincando de ser perigosa.
— Samantha... — ela começou, mas eu a cortei.
— Sai da minha casa. — Afirmei, com firmeza.
Eu abri a porta da sala, deixando que ela saísse na frente. Ela não disse mais nada e saiu sem olhar pra trás.
Eu fiquei ali, paralisada. Meu coração batia forte, e as lágrimas tentavam surgir, mas eu as segurei. Todo o encontro era um turbilhão de emoções. Apesar de toda a raiva e desconfiança, Izabela tinha me feito sentir algo — e eu odiava o fato de não conseguir simplesmente ignorar aquilo.
Eu me sentei no chão da sala, olhando a porta que ela havia atravessado. Era um ciclo do qual eu não sabia como sair. Mas, por agora, eu sabia apenas uma coisa: Izabela não era alguém fácil de esquecer.
SEIS SEMANAS DEPOIS
— Você acha mesmo que vai dar certo? — Ana questionou, olhando para mim com uma mistura de curiosidade e expectativa.
Eu estava pintando as unhas dela, o cheiro do esmalte rosa claro preenchendo o ar. Era um pequeno ritual, um momento de normalidade em meio ao caos que eu sentia por dentro.
— Claro! Vai ser incrível. Ele não vai resistir — respondi, tentando passar confiança.
Era o encontro de Ana com Pietro, um calouro da faculdade de Direito. Ela estava empolgada, e ver a felicidade dela me trouxe um pouco de leveza, mesmo que eu estivesse afundada em meus próprios pensamentos.
— Bom, eu preciso ir — Ana disse, olhando o relógio. — Tô atrasada.
Peguei minha bolsa e saí, observando ela ir embora. O movimento da lanchonete estava intenso, como sempre no começo do ano. Mudanças e mais mudanças em todos os lugares.
— Hm, não sei! Ele não me parece um hetero, parece comigo anos atrás, gay fingindo gostar de buceta. — Murilo comentou, preparando o pedido da mesa nove.
— Você não presta — ri, ignorando a conversa. — Quer ir lá em casa hoje? Vamos fazer uns drinks e jogar.
— Ah amiga hoje não vai rolar, vou sair com o Eduardo, acredita nisso? — Murilo começou, enquanto organizava algumas caixas no balcão.
— Quem? — perguntei, distraída.
— O irmão da Izabela.
Senti meu corpo enrijecer na hora. A menção ao nome dela foi como um soco no estômago.
— Ah. — Minha resposta saiu mais curta do que eu pretendia, mas não consegui disfarçar.
Murilo percebeu na hora e inclinou a cabeça, me encarando.
— Qual é, Samantha? — ele questionou. — Você não vai nem comentar?
— O que você quer que eu diga? — perguntei, cruzando os braços.
— Sei lá, um "que legal, Murilo, fico feliz por você"? — Ele soltou uma risada sem humor. — Mas claro que não. Porque sempre que envolve a Izabela, você trava.
— Não é isso... — comecei, mas ele me interrompeu.
— Não é isso, é? Então o que é? Só porque você e Izabela brigaram, eu não posso ser feliz? O irmão dela me faz bem, Sam. Eu não tenho culpa se me ver bem te incomoda tanto.
A acusação me pegou de surpresa.
— Não é sobre isso, Murilo. É que... — Eu hesitei, buscando as palavras certas. — Tudo o que aconteceu com ela foi pesado pra mim. Ouvir sobre o irmão dela me faz lembrar de coisas que eu não quero lembrar.
— Ah, por favor — ele rebateu, impaciente. — Você tá usando isso como desculpa. Você não quer me ver feliz, porque você mesma não tá bem.
Aquilo doeu mais do que eu gostaria de admitir.
— Isso não é verdade — sussurrei, minha voz falhando.
— Não é? Então por que você tá assim? — Ele abriu os braços, como se esperasse uma resposta. — Sabe de uma coisa? O problema aqui não sou eu, nem o irmão dela. O problema é você.
Murilo pegou as chaves no balcão e se afastou, me deixando ali, sozinha com o peso das palavras dele.
Eu queria gritar, queria discutir, mas a verdade é que ele não estava completamente errado. Eu não estava bem, e ver Murilo tão empolgado só tornava isso mais difícil.
Ainda assim, a forma como ele jogou tudo na minha cara me machucou profundamente.
Enquanto isso...
Izabela -
Eu caminhava sem rumo, o peso das últimas semanas me deixando exausta. Tudo que aconteceu entre mim e Samantha não estava nos meus planos. Na verdade, nada disso deveria ter acontecido. Eu nunca imaginei, em nenhum cenário, que eu acabaria gostando dela. Era uma dessas coisas que surgem do nada e simplesmente… acontecem.
Eu não queria estar nessa situação. Sentir algo por Samantha não fazia sentido, e eu sabia que isso apenas complicaria tudo.
— Eu não estava nos meus planos gostar de você, Sam — murmurei para o vento. — Eu só queria resolver as coisas, arrumar tudo e seguir em frente.
Eu queria que ela entendesse que, se eu agi de forma errada, não era porque eu desejava algum drama ou queria invadir a vida dela. Não era uma escolha, nem um capricho. Era um erro, um desastre inesperado, algo que eu não pude controlar.
Eu queria que ela soubesse que, no fundo, eu queria apenas a verdade. Que, apesar de todos os problemas, eu não estava tentando fazer bagunça. Só queria encontrar uma solução que não incluísse sofrimento pra nenhum dos dois.
— Eu não posso explicar tudo agora, — sussurrei, minha voz embargada. — Mas eu espero que um dia você consiga ver o que realmente aconteceu. Não foi um plano, não foi um jogo, e definitivamente não era pra ser assim.
Eu precisava deixar Samantha encontrar suas próprias respostas, mesmo que isso significasse enfrentar a dor que eu havia causado. No fundo, sabia que merecia tudo aquilo e muito mais.
Continua...
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Atualizado até capítulo 35
Comments
Maria Andrade
eita lá vem armação eles vão tentar fazer alguma coisa com a Sam, ansiosa por mais capítulo
2023-12-05
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