Minha cabeça latejava naquela manhã, e, por mais que eu tentasse, não conseguia me lembrar de muita coisa da noite anterior.
Ao me virar na cama, avistei meu celular sobre a cômoda, ao lado de alguns comprimidos e um copo d'água. Junto deles, havia um bilhete que dizia:
"Bom dia, está liberada para ir pra casa. Ontem foi muito bom, obrigada por seguir o plano. Tome esses remédios caso a ressaca te visite. - Izabela."
Li o recado com um sorriso. Havia algo na forma como Izabela se preocupava comigo que me fazia sentir um estranho conforto.
Ainda ensonada, permaneci na cama por mais alguns minutos antes de finalmente levantar, tomar um banho e vestir roupas limpas para voltar para casa.
Assim que entrei, deparei-me com uma cena que me fez arquear as sobrancelhas.
- Mas o quê...? - Cruzei os braços, observando minha mãe vestida com uma das minhas roupas enquanto se maquiava em frente ao espelho. - Hm, dia especial?
Ela virou-se rapidamente, com uma expressão surpresa e, em seguida, me abraçou com força.
- Filha! Meu Deus, ainda bem que você chegou. - Sua voz parecia aliviada, e o abraço, há tanto tempo ausente, trouxe uma sensação de calor que eu não sabia que precisava.
- Estou bem, mãe. E você? - Respondi com um sorriso, acariciando de leve seu rosto antes de começar a tirar meus brincos em frente à penteadeira.
Antes que ela pudesse responder, meu celular tocou, e atendi prontamente.
- Oi, amiga. - Era Ana, mas sua voz tremia, o que logo me deixou em alerta.
- Oi, Ana. Está tudo bem? - Perguntei, preocupada.
- Eu não consigo, Sam... Não consigo. Por favor, me ajuda. - Sua voz quebrou em meio a soluços. - Estou no campus, vendo os calouros se enturmarem, felizes... Eu não consigo.
Meu coração apertou.
- Calma, meu bem. Respira. Estou indo pra aí, tá bom? Aguenta firme.
Ana sempre foi como uma irmã para mim. Compartilhávamos tudo, até mesmo os pesos que carregávamos. Sua maior batalha era com a fobia social, um transtorno que a fazia temer interações cotidianas, resultando em ansiedade, constrangimento e, muitas vezes, pânico.
Desci rapidamente do ônibus e avistei o campus da universidade. Lá estava ela, sentada ao lado de fora, encolhida em si mesma.
- Ei, meu bem... - Me aproximei, sentando ao seu lado e a envolvendo em um abraço. - Estou aqui, tá?
Ela chorava com o rosto escondido no meu ombro, e sua respiração era irregular. Era evidente o quanto aquilo a afetava.
- Quero ser psicóloga por isso. Quero ajudar pessoas com coisas assim, que as paralisam. - Disse, secando o rosto com as mãos trêmulas.
- E você vai, meu amor. Tenho certeza. Já sou muito orgulhosa de você. - Sorri, segurando suas mãos. - Vamos à direção da faculdade? Devem ter algum terapeuta ou assistente social que pode te ajudar. E, se você não conseguir, eu venho te buscar.
Beijei sua testa, e ela apertou minha mão com um pequeno sorriso.
- Você tem sido minha família, sabia? Coisa que eu nunca tive. Obrigada por tudo.
Os pais de Ana eram divorciados e sua família, extremamente desunida. Saber que eu era um apoio para ela aquecia meu coração.
- Vai dar tudo certo. Estou com você.
Acompanhei-a até a direção, certificando-me de que estaria em segurança antes de me despedir. Quando já estava me afastando, uma voz inesperada me parou.
- Andando sozinha? - Me assustei ao ver Izabela parada ao lado de fora, me observando com aquele sorriso enigmático.
- Ei, calma!
- O que você está fazendo aqui? Pensei que tivesse me liberado.
- Liberei você da minha casa, não do plano. - Respondeu, com o tom de sempre. - Hoje temos uma reunião de negócios na K&As, o grupo onde tenho investido. É importante que você se mantenha comportada. Nada de bebidas, entendeu?
Revirei os olhos enquanto estendia a mão.
— Vai me levar às compras?
Izabela bufou, assentindo e abrindo a porta do carro.
— Por favor.
____
No provador
Eu sorri maliciosa.
— Achei sexy. — Pisquei, desfilando na frente dela, que me observava sentada no puff do provador.
— Claro que achou. — Ela revirou os olhos, mas logo franziu o cenho. — Não dá pra ser um pouco mais longo?
Olhei para ela de cima a baixo, sorrindo ao balançar a cabeça.
— Pobrezinha, acha que vai controlar o tamanho da minha roupa?
Caminhei até ela, inclinando-me para que nossos rostos ficassem a poucos centímetros de distância.
— Experimenta tentar, e esse vestido aqui vai ser pouco perto do que eu posso usar essa noite. — Sorri provocativa, afastando-me. — Agora, vamos aos sapatos!
Brincar com a sanidade dela era incrivelmente divertido. Izabela sempre se achava no controle, mas no fundo precisava de mim. Então, era bom que me tratasse bem.
Após as compras, um encontro inesperado aconteceu com meu melhor amigo, Murilo, mas a noite prometia ser só nossa.
O lugar era deslumbrante: homens e mulheres impecavelmente vestidos, com cada detalhe refletindo riqueza. Meu braço estava entrelaçado ao de Izabela enquanto caminhávamos em silêncio pelo prédio. No elevador, percebi seu olhar fixo em mim.
— Estou bonita? — perguntei, quebrando o silêncio.
— O quê? — Ela tentou se fazer de desentendida.
— Perguntei se estou bonita. Você está me olhando tanto que achei que fosse isso que pensava. — Soltei um riso nasal, provocando.
— Você está completamente insuportável hoje, Samantha. — Ela bufou, claramente irritada.
Cheguei mais perto, fixando meus olhos nos dela.
— Estou? Bom, ao que parece, você vai ter que aturar.
Quando o elevador se abriu, saímos às pressas.
A reunião estava tediosa, repleta de termos técnicos e burocracia. Inclinei-me para Izabela, que estava ao meu lado.
— Quando sairmos daqui, quero um hambúrguer com muita batata.
Para minha surpresa, ela riu.
— É, eu também.
Ao final do evento, estávamos brindando com champagne quando uma voz familiar ecoou.
— Izabela! Que bom te ver, meus parabéns pelo triunfo. - Paloma Lacerda, bem ali na minha frente.
Assim que meus olhos encontraram os de Paloma naquela noite, um pequeno filme passou pela minha cabeça, lembrando como nos conhecemos.
Foi em uma daquelas festas exclusivas e luxuosas onde todo mundo parece estar sempre fingindo algo. Eu estava lá como acompanhante de um empresário rico, um sujeito cheio de si que achava que podia comprar qualquer coisa — e, bem, em certa medida, ele podia. Paloma estava no mesmo barco, acompanhando outro magnata com o sorriso calculado e a postura impecável de quem sabe como jogar o jogo.
Nossos olhares se cruzaram pela primeira vez enquanto nossos “acompanhados” discutiam algum negócio entediante. Ela segurava uma taça de vinho tinto com uma elegância natural, mas havia algo em seus olhos que dizia que estava tão entediada quanto eu. Bastou um sorriso de canto meu e um erguer de sobrancelhas dela para que, minutos depois, estivéssemos lado a lado no bar.
— Parece que estamos no mesmo trabalho hoje, não é? — ela disse, sua voz baixa e com uma pontinha de sarcasmo.
— Trabalho? — soltei uma risada. — Isso aqui é sobrevivência.
Ela riu, e aquele som me fisgou. Passamos o restante da noite conversando e rindo, falando sobre os absurdos do nosso papel ali. Alguns drinks depois, nossos acompanhantes haviam sumido no meio da multidão, e só conseguíamos focar uma na outra. Foi no banheiro da festa, entre risadas abafadas e murmúrios, que nos beijamos pela primeira vez.
O resto da noite foi um borrão de desejo e curiosidade. Não voltei para casa sozinha, mas também não esperava mais nada além daquela experiência. Era carnal, espontâneo, um momento que existia por si só, sem promessas ou intenções maiores.
E agora, meses depois, Paloma estava ali, olhando para mim com aquele mesmo sorriso que mexeu comigo naquela noite. Mas dessa vez era diferente. Eu estava com Izabela, mesmo que num papel igualmente performático. O passado parecia querer me puxar de volta, mas não podia permitir.
— Obrigada. — Ouvi Izabela dizer, assim que voltei a realidade, a maior sorriu e me apresentou. — Essa é Samantha, minha namorada.
O espanto no rosto de Paloma era evidente enquanto me encarava fixamente.
— Samantha... — Ela sorriu, embora sem graça. — Que surpresa agradável.
Assenti educadamente.
— Igualmente. Licença, preciso ir ao banheiro.
No banheiro, enquanto tentava processar a situação, ouvi o som de saltos ecoando. Paloma apareceu, olhando-me pelo espelho.
— Parece que o banheiro é o nosso lugar, não é? — disse, aproximando-se. — Tenho pensado tanto em você...
Antes que eu pudesse reagir, ela roçou o nariz em meu pescoço, deixando-me atônita.
— Paloma... — tentei recuar.
— O que foi? Vai me dizer que está apaixonada por Izabela? — Ela sorriu, provocativa. — Eu não tenho ciúmes... só um momento.
Quando percebi, estávamos nos beijando na pia do banheiro. Apesar de tudo, só conseguia pensar em sair dali.
— Samantha? — A voz de Izabela ecoou na porta. Assim que nos viu, saiu correndo.
— Droga! — murmurei, pegando minha bolsa e correndo atrás dela.
— Eu só te pedi uma coisa: não estragar tudo! Se ela descobrir que não somos namoradas de verdade, minha imagem vai pro ralo! — Izabela estava visivelmente irritada.
— Calma, Izabela. Ela só acha que você foi traída, nada mais.
— Vamos embora! — Ela praticamente ordenou.
No carro, o silêncio dominava até que Izabela quebrou o clima.
— Gosta de qual tipo de hambúrguer?
Percebi que estávamos indo para um drive-thru e sorri.
— Você realmente me trouxe...
Ela pediu hambúrgueres com batatas e refrigerantes. Quando estacionou em frente à praia, entregou-me o lanche.
— Gostou?
— Desculpe, o quê? — perguntei, confusa, enquanto mastigava.
— Gostou de ficar com ela? A Paloma...
Engoli seco, surpresa com a pergunta.
— Na verdade, sim. Já ficamos antes, mas é tudo muito carnal. Não me apaixonaria por ela.
— Entendi. E por mim? — O tom dela mudou, e um frio percorreu minha espinha.
— E-eu... Por que está perguntando isso?
— Ouvi Paloma dizer que sabia que você não estava apaixonada por mim. Fiquei curiosa... sou tão ruim assim?
Os olhos dela brilhavam à luz da lua, deixando-me desconcertada.
— Não! Você é linda e muito atraente. Eu me apaixonaria por você, com certeza.
Ela sorriu de canto e mudou de assunto.
— Vamos para casa.
Ao chegarmos, Izabela fez questão de me acompanhar até o portão.
— Está entregue. Espero que não tenha sido tão ruim ficar comigo.
Ri, sincera.
— Embora você me irrite, sua companhia é agradável.
Antes que eu entrasse, senti suas mãos em minha cintura e seus lábios no meu pescoço. O beijo foi intenso, e me deixou completamente entregue.
Quando ela se afastou, parecia confusa.
— É melhor eu ir agora. Te mando mensagem.
Ela saiu, e eu fiquei ali, atordoada. Entrei em casa, tomei um banho e joguei-me na cama, sorrindo ao encarar o teto.
— Izabela... quem diria? — murmurei, mordendo o lábio, ainda pensando no toque e nos beijos dela. Aquilo foi mais intenso do que eu imaginava.
Continua...
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Atualizado até capítulo 35
Comments
Cleidiane Silva dos Santos
amando 😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍
2025-01-14
0
Daniele Cleffsdasilva
É isso aí Sam, autora continua pfv adorei o cap 🥰🥰🥰🥰🥰🥰🥰🥰🥰🥰🥰
2023-11-28
2
Ana Faneco
Autora esperando ansiosa os próximos capítulos não demora por favor
2023-11-26
1