O som da chuva sempre trouxe uma sensação de paz que nenhuma outra coisa poderia oferecer. Não importava o quanto a vida fugisse do meu controle, deitar e ouvir as gotas batendo contra o telhado fazia o mundo parecer mais suportável. Bastava parar... e ouvir.
Naquela manhã, a chuva parecia conversar comigo. Eram nove horas quando meu celular vibrou, arrancando-me do transe.
Estendi a mão para desligar o alarme, lembrando-me da promessa feita a mim mesma: naquele sábado, eu visitaria minha mãe, Villanueva.
Falar dela é abrir um livro de memórias que, muitas vezes, preferi manter fechado.
Minha mãe me teve aos 17 anos, em Stamford, Connecticut, quando ainda era apenas uma garota perdida. Ela não sabia cuidar de si mesma, quanto mais de um bebê. Foi nessa época que a bebida entrou em sua vida e nunca mais saiu.
Meus pais se conheceram no ensino médio, e a paixão deles foi intensa, mas impulsiva. Antônio – ao menos é o nome que ela dizia ser dele – nunca foi alguém confiável. Ele prometeu muito: amor, estabilidade, até vingança contra os meus avós que a haviam expulsado de casa ao descobrirem a gravidez. Mas tudo isso era ilusão.
Lembro-me das noites de gritos, de quando ele chegava bêbado e minha mãe me trancava no quartinho dos fundos para que eu não visse nada. Mesmo assim, as brigas, os choros e o caos sempre foram impossíveis de ignorar.
Meu pai morreu quando eu tinha três anos, deixando-nos sozinhas com o peso de uma vida que minha mãe jamais conseguiu controlar.
E, de alguma forma, eu tive que crescer rápido demais.
— Você gosta de fingir que as coisas estão melhores, mas sabe que não estão — Ana, minha melhor amiga, não tinha papas na língua.
— É que... sempre que tento ajudá-la, ela reage mal — respondi, mexendo distraidamente no café em minhas mãos. — Sem contar aquele dia em que ela me chamou de hipócrita por criticar o alcoolismo dela, dizendo que eu sou acompanhante.
— E não é mentira que você pode sair desse trabalho quando quiser — Ana insistiu.
— Eu sei, mas... o dinheiro é bom, e eu não saberia fazer outra coisa. Sei que vou parar na hora certa.
Trabalhar como acompanhante me expôs a um mundo complexo. Homens e mulheres com desejos, segredos, medos. A vida que escolhi não era simples, mas havia uma estranha lógica que fazia sentido para mim.
Nada disso, porém, me preparava para o que me aguardava na casa da minha mãe.
Assim que cheguei, fui recebida por um homem alto, com a camisa desabotoada e borrões de batom no rosto.
— Se for o cobrador, diga que não estou! — gritou minha mãe, de algum lugar dentro da casa.
— Claro, mãe, porque o cobrador não desconfiaria. — Empurrei o homem para abrir caminho e entrei.
Minha mãe estava desarrumada, com os olhos vidrados e o discurso arrastado.
— Está bêbada de novo, mãe? — perguntei, já sabendo a resposta.
— Eu e Augusto estávamos começando uma festinha! — Ela sorriu, apontando para o homem que ainda estava parado na porta.
— Augusto? — repeti, tentando processar aquilo tudo.
Afastei-o com firmeza, mas ele começou a gritar.
— Ela me deve! Ela sabe o que me deve! — berrou, batendo na parede antes de sair e bater a porta.
Olhei ao redor. A pia estava cheia de louça suja, o cheiro de álcool e comida estragada impregnava o ar. Era insuportável.
Mais tarde, enquanto penteava os cabelos dela após o banho, tentei conversar.
— Você estava dopada e pelada, mãe. Por que continua se colocando nessas situações?
Ela se virou de repente, encarando-me com os olhos cheios de fúria.
— Você acha que pode me julgar? Olha para isso tudo! — apontou para a casa ao redor. — Eu sou um fracasso. Tenho nojo de mim, nojo da minha vida.
— Mãe, eu só quero te ajudar...
— EU NÃO QUERO SUA AJUDA! — gritou. — Meu corpo é a única coisa que os homens sempre quiseram de mim. Ninguém nunca me amou de verdade. Você acha que consegue mudar isso? Porque eu já desisti.
Suas palavras perfuraram minha alma como lâminas.
Levei-a para minha casa naquela noite. Não confiava em deixá-la sozinha.
Enquanto Ana escutava a história, olhava para minha mãe adormecida no sofá.
— Dopada? — ela repetiu, incrédula.
— Sim. Mas o que mais eu podia fazer? Não poderia deixar ela sozinha.
Naquele momento, a chuva lá fora parecia tão distante, como se a paz que ela sempre trouxe tivesse evaporado junto com a esperança de um dia melhor.
Continua...
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Atualizado até capítulo 35
Comments
Maria Andrade
que triste a vida das duas
2023-11-08
3
Aline Costa
atualiza mais capítulos por favor!!
2023-11-05
1