O jogo da verdade

                      🦅 Capítulo 18 🦅

A tensão na sala era quase palpável. O tic-tac do relógio ecoava como uma contagem regressiva para algo sombrio.

Xavier se manteve ereto, mas seus olhos denunciavam o peso do que estavam prestes a revelar.

— As marcas... — começou, com a voz grave, mas tensa — não são simbologia solta. São emblemas ritualísticos. Descobrimos uma ligação direta com uma rede de tráfico humano, provavelmente associada a uma seita.

O Major não piscou. O olhar dele era de rígido mesmo imóvel, parecia ocupar toda a sala.

— Está me dizendo que estivemos alimentando uma célula dentro da própria organização? — perguntou, com a voz fria, sem levantar o tom. Mas a autoridade que carregava exigia respostas imediatas.

— Sim, senhor — Xavier respondeu, firme, mesmo que por dentro estivesse em combustão.

O Major franziu o cenho. Seus olhos deslizaram pelos papéis com precisão cirúrgica. Ele era o tipo de homem que via mais do que estava escrito.

— Isso conecta pontos, mas também abre brechas. — Ele ergueu o olhar lentamente, como se atravessasse Xavier com os olhos. — Não há nenhum registro oficial de sequestro envolvendo Hazana. Apenas você, Capitão.

Apollo, até então calado, ergueu os olhos devagar. Sua voz, quando surgiu, era seca, controlada — uma rocha em meio ao caos.

— Confirmado, Hazana nunca foi registrada como desaparecida, tampouco houve relato formal de qualquer tipo de violação.

— Então me explique, Capitão — o Major voltou-se para ele, voz mais dura agora — como ela foi marcada?

O silêncio se espalhou como um incêndio.

Apollo permaneceu imóvel, mas seus olhos estavam atentos. Cada palavra pesava como chumbo.

— Ou ela participou... ou foi entregue. — disse por fim, com frieza. — E nenhuma das opções é aceitável.

O Major se endireitou na cadeira. O ambiente havia mudado. Agora, era uma sala de guerra.

— Se ela foi marcada dentro da organização sem que ninguém soubesse, isso significa que temos um traidor. Um infiltrado. E ele está mais perto do que gostaríamos.

Xavier desviou os olhos. Por um momento, o garoto se foi, e o soldado tomou seu lugar.

Apollo então puxou um dossiê, folheou-o com rapidez até encontrar o que buscava. Parou. Uma expressão rígida se formou.

— Tem algo aqui que negligenciei. — A voz estava ainda mais grave. — Uma movimentação incomum no GPS de Hazana, registrada três dias antes do suposto desaparecimento.

— Onde? — O Major se inclinou para frente, com os olhos fixos.

Apollo respondeu sem hesitar:

— Uma loja de couro.

Xavier franziu o cenho de imediato.

— Isso não faz sentido. Ela nunca pisaria em um lugar assim. Nem por acidente.

— Eu concordaria com você. — Apollo jogou o papel sobre a mesa, indicando o endereço com o dedo. — Mas o sinal de GPS é claro. Ela parou. Desceu do veículo. E ficou lá dentro por exatos sete minutos.

O Major esfregou o queixo, absorvendo cada palavra.

— E você ignorou essa informação por quê, Capitão?

Apollo sustentou o olhar dele com firmeza.

— Porque achei que era um erro. — Ele então apertou os olhos por um breve instante. — Ou talvez... porque tive medo do que encontraria.

O Major ficou em silêncio por alguns segundos. Então, falou com aquela voz que não admitia contestação:

— Medo é um luxo que não podemos nos permitir. A partir deste momento, essa loja se torna prioridade. Quero olhos nela. Rastros, registros, tudo.

Xavier deu um passo à frente, a voz agora mais decidida.

— Se ela entrou lá, vamos descobrir por quê. Nem que a gente derrube parede por parede.

Apollo assentiu lentamente. Já não havia hesitação em seu olhar. Apenas foco.

— Eu vou pessoalmente.

O Major os encarou por um instante, depois assentiu com um único movimento de cabeça.

— Então vão. E tragam a verdade de volta com vocês. Viva, ou morta.

---

A noite desabava como um véu de sombras quando chegaram à rua esquecida pelo tempo. O breu engolia os becos ao redor, e o silêncio era cortado apenas pelo estalo de passos firmes sobre o asfalto úmido. A loja estava ali — camuflada entre prédios sem alma, com um letreiro apagado que mais parecia um epitáfio.

Apollo empurrou a porta com um gesto seco. O sino acima tilintou com timidez, como se hesitasse em anunciar sua presença. O ar que os envolveu era denso, impregnado com o cheiro agridoce de couro e ferrugem. Um aviso silencioso.

As luzes tremeluziam no teto baixo, lançando sombras deformadas pelas paredes. Em meio às prateleiras, jaquetas pesadas, cintos largos, botas reforçadas. Mas havia mais. Muito mais.

Correntes. Algemas. Chicotes.

Não era uma loja.

Era um santuário para os desejos mais viscerais. Um templo profano onde o controle se vendia à luz trêmula das lâmpadas antigas.

Apollo sentiu os pelos da nuca se eriçarem. Cada músculo em alerta. Seus olhos varreram o local, cautelosos, até encontrarem os de Xavier. A tensão entre eles se cristalizou no ar, invisível, mas quase palpável.

Xavier murmurou:

— Isso não está certo...

Mas foi interrompido antes que pudesse afundar nas próprias conclusões. Um vulto surgiu do fundo do corredor, andando com a lentidão de quem quer ser temido.

— Posso ajudá-los? — A voz grave cortou o silêncio com precisão cirúrgica.

O homem que se aproximou tinha olhos pequenos e desconfiados, cabelo grisalho penteado para trás e luvas negras cobrindo as mãos. Seu avental de couro manchado dava-lhe ares de carniceiro.

Apollo se adiantou. Postura ereta. Olhar de aço. Ele não era apenas um homem ali — era um Capitão. E sua presença preenchia o espaço como um raio em noite seca.

— Estamos investigando o paradeiro de uma mulher. Sabemos que ela passou por esta loja. — Sua voz era controlada, mas carregada de comando. Cada palavra soava como uma ordem velada.

O homem hesitou. Mas o silêncio não teve tempo de amadurecer.

Xavier deu um passo, os olhos duros como pedra:

— Sabemos o que este lugar realmente é. E sabemos que ela esteve aqui. Pare de fingir.

O silêncio se espichou como uma corda prestes a estourar. O homem avaliou os dois. Seus lábios se curvaram num sorriso torto, quase zombeteiro.

— Vocês não são clientes, não é?

Apollo manteve-se impassível.

— E você está prestes a descobrir que também não somos o tipo de visitante que pode ignorar.

O homem arqueou uma sobrancelha, inclinando-se levemente sobre o balcão como quem guarda um segredo sórdido no fundo da garganta.

— Eu já vi essa mulher antes... — murmurou. — Mas, acreditem… vocês não vão gostar do que tenho pra contar.

Apollo sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

Porque, naquele momento, ele teve certeza absoluta.

A verdade estava muito mais próxima do que imaginavam.

O sorriso do homem se alargou, carregado de malícia, enquanto ele inclinava a cabeça levemente para o lado, observando-os como se já soubesse exatamente quem eram. Havia algo de perverso em seu olhar, como se se divertisse com a tensão que pairava no ar.

— Antes de falarmos sobre a mulher… por que não dão uma volta pela loja? — Sua voz saiu arrastada, quase um sussurro envenenado, como quem testa os limites de um jogo perigoso.

Apollo manteve o olhar fixo nele por um segundo a mais que o necessário. Estava avaliando, medindo, decidindo se valia a pena esmagar aquela ousadia com um único comando. Mas se conteve.

Xavier bufou com irritação, mas assentiu quase imperceptivelmente.

— Tanto faz. — murmurou, embora o tom traísse o desconforto imediato que se instalou assim que deram os primeiros passos pelos corredores apertados.

Foi como atravessar um labirinto de perversões cuidadosamente expostas. Cada prateleira, cada parede, cada vitrine parecia mais um altar à dominação disfarçada de requinte. Havia jaquetas penduradas como armaduras. Cintos que mais pareciam instrumentos de contenção. Máscaras delicadas de renda, tão esteticamente belas quanto perturbadoras.

Mas não parava por aí.

Apollo franziu o cenho ao ver as prateleiras adiante — nelas, brinquedos de usos óbvios, todos expostos com um zelo quase artístico. Correntes fixadas nas paredes, coleiras cravejadas, algemas acolchoadas com insígnias bordadas, chicotes com cabos em formato de caveiras douradas.

Era mais do que uma loja.

Era uma galeria de poder e controle. E Apollo odiava cada centímetro dela.

O ar parecia mais denso, quase difícil de respirar. Ele se virou com brusquidão, a mandíbula travada.

— Isso é ridículo.

O homem continuava ali, parado ao fundo como um vulto satisfeito, os olhos brilhando com escárnio. Ele cruzou os braços, relaxado, como se tudo estivesse exatamente como queria.

Apollo caminhou até ele com passos decididos, a sombra do uniforme destacando-se sob a luz trêmula. Quando falou, sua voz foi uma lâmina afiada:

— Nós não estamos aqui como um casal. — O tom era firme, autoritário, frio como aço. — E se sua intenção for continuar com esses joguinhos patéticos, eu mesmo vou fechar esse lugar por obstrução de investigação.

O homem ergueu as sobrancelhas, teatralmente impressionado.

— Investigação… — repetiu, saboreando a palavra. — Ah, claro. O capitão resolveu fazer hora extra. — Ele sorriu de lado, mas o sorriso era mais sombra do que expressão. — Tudo bem, Capitão... vamos parar com os joguinhos, então.

Ele girou nos calcanhares e andou em direção a uma porta parcialmente entreaberta nos fundos da loja. Parou na soleira e olhou por cima do ombro.

— O que vocês querem saber sobre a mulher?

Apollo e Xavier se entreolharam. O momento tinha chegado. E sabiam, instintivamente, que dali em diante não haveria mais volts.

O homem ergueu as mãos em rendição, soltando uma risada baixa.

— Foi mal pelo mal-entendido. Mas sabem como é… — Ele deu de ombros, os olhos dançando entre os dois. — Vocês combinam.

Xavier apenas estreitou os olhos, claramente segurando a vontade de revidar.

O homem então caminhou até uma porta no fundo da loja, batendo nela levemente antes de girar a maçaneta.

— Entrem. Não se preocupem com o ambiente. Vocês querem respostas, não é?

Apollo e Xavier trocaram outro olhar carregado de tensão.

Ao mesmo tempo, deslizaram as mãos até o coldre de suas armas, os dedos firmes sobre o cabo.

— Entre primeiro. — Xavier ordenou, sua voz fria.

O homem arqueou uma sobrancelha, mas obedeceu, adentrando o cômodo.

Apollo e Xavier seguiram logo atrás, ainda em alerta…

… apenas para se depararem com um pequeno escritório.

As luzes eram baixas, e o cheiro de couro permanecia no ar, mas não havia nada de ameaçador ali. Apenas uma escrivaninha bagunçada, um sofá velho e uma parede coberta de fotografias.

Eles finalmente relaxaram — mas apenas por um segundo.

Porque, na parede, entre todas aquelas imagens, havia uma foto de Hazana.

O silêncio dentro do escritório era cortante.

Xavier caminhou até a parede cheia de fotografias, Seus dedos deslizaram sobre o papel, quase hesitantes, como se tocar aquela foto pudesse torná-la mais real.

Claro! Aqui está o trecho reescrito com mais dramaticidade, impacto e um senso forte de autoridade dos Capitães:

---

Apollo se virou com a rigidez de um trovão prestes a cair, seu olhar cortante como lâmina afiada. Cada passo ecoava com a força de quem carrega um passado de guerras e segredos. Ele encarou o homem com a frieza de um veredito final.

— Como sabia que estaríamos aqui? — rosnou, a voz grave, carregada de comando. Não era uma pergunta. Era uma sentença esperando a confissão.

O homem hesitou. Não por medo, mas como quem saboreia o caos. Um sorriso torto e envenenado surgiu em seus lábios, provocando uma chama sombria dentro de Apollo.

Sem perder tempo, Apollo puxou a arma com a precisão de quem já fez isso mil vezes. O clique do engatilhar quebrou o silêncio como um estalo de morte. Ele encostou o cano gelado contra a têmpora do homem, firme como se segurasse o destino entre os dedos.

— Se ousar mentir, essas serão suas últimas palavras.

A atmosfera se adensou como uma tempestade prestes a explodir. O ar ficou pesado, como se até os fantasmas ali segurassem a respiração. O homem ergueu as mãos devagar, olhos arregalados, mas ainda com aquele maldito sorriso no canto da boca.

— Calma... calma. Não há necessidade disso.

— Você não dita as regras aqui. — A resposta de Apollo veio afiada, firme, carregada da autoridade de quem não hesita diante da morte. — Fale.

O homem passou a língua pelos lábios, medindo as palavras como se uma sílaba errada pudesse assinar sua sentença.

— Eu não tinha certeza se viriam... — confessou, a voz finalmente vacilando. — Mas sabia que era possível.

Xavier, que até então observava com olhos de predador, deu um passo à frente. Sua presença era como uma sombra que se impõe — silenciosa, mas inegável.

— Como?

O homem soltou um riso seco, sem humor, ainda sentindo o metal frio contra a cabeça.

— Porque... — disse, pausando como quem abre a caixa de Pandora — a própria Hazana me contou.

Apollo permaneceu com o seu dedo no gatilho firme, mas os olhos afiaram como garras, examinando o rosto do homem como quem busca a verdade entre as rachaduras da mentira.

— O que diabos quer dizer com isso?

O homem o encarou de volta, sem mais sorrisos.

— Que, se alguém um dia ousasse entrar neste lugar... seria um de vocês.

Xavier trocou um olhar rápido com Apollo antes de se aproximar ainda mais do homem, seus olhos brilhando em ameaça.

— O que ela queria?

A pergunta cortou o ar como uma lâmina afiada.

O homem hesitou, tragando o silêncio como quem sabe que qualquer resposta seria um risco. Seus olhos dançaram entre os dois oficiais diante dele — sombras imponentes, fardadas de tensão e comando — antes de finalmente se render com um suspiro:

— Ela queria ajuda para desaparecer.

Apollo baixou a arma, mas o gesto não era de rendição. Era cálculo. Estratégia. Seus olhos, frios e analíticos, continuavam cravados no homem. Por dentro, no entanto, sua mente fervia.

Hazana? Pedindo ajuda para sumir?

Ela era uma sombra treinada. Discreta, meticulosa, dona de uma mente afiada como um bisturi. Se alguém sabia como evaporar do mapa, era ela. A ideia de que precisaria de terceiros... era uma mentira grotesca ou algo muito pior.

Ao lado dele, Xavier era o próprio aço prestes a romper. Seus maxilares estavam travados, os punhos cerrados como quem carregava o peso de um exército inteiro. Quando falou, sua voz soou como um trovão preso entre os dentes:

— Você está mentindo.

Ele avançou um passo, cada movimento carregado de uma autoridade militar que fazia até o ar hesitar.

Apollo reagiu instintivamente — rápido como um reflexo de guerra. Interpôs o corpo entre Xavier e o alvo, o olhar cortante:

— Xavier.

Seu tom era firme. Um alerta. Uma ordem.

Xavier parou, mas não cedeu nem um centímetro. Os olhos âmbar queimavam de fúria contida, mirando o homem como se pudesse desintegrá-lo apenas com a raiva.

— Ela nunca precisaria de ajuda pra desaparecer.

O homem manteve a pose, como se não sentisse o peso da tensão que ameaçava despedaçar as paredes.

— Mas precisou. — Respondeu com aquela calma doentia. — E pagou muito bem por isso.

Apollo sentiu o chão se mover sob seus pés. Um nó se formou em seu peito, espremendo suas costelas como um torno.

Então era verdade. Ela tentou fugir.

Mas… fugir de quê? Ou de quem?

E se realmente tentou, o que — ou quem — a impediu?

A sensação era de estar dentro de um tabuleiro onde cada peça se movia sozinha, cada pista levava a um novo enigma, cada verdade escorria pelos dedos como areia.

— Isso não faz sentido. — Ele murmurou, quase para si mesmo, afundando no vórtice da confusão.

O homem sorriu. Um sorriso torto, quase zombeteiro. E inclinou a cabeça como quem se diverte com a ignorância dos outros.

— É porque vocês ainda não entenderam a verdade.

Xavier riu. Um som seco, cortante, sem vestígio de humor.

— E por acaso você vai nos contar?

O homem cruzou os braços, os olhos escurecendo.

— Talvez… se fizerem as perguntas certas.

O sorriso desapareceu, como se nunca tivesse existido. O ar pareceu pesar. Até o silêncio ganhou uma espessura sufocante.

— Eu não sei ao certo. — disse, agora com a voz rouca, sombria, marcada por uma sombra de arrependimento. — Ela falava em fugir. Dava sinais claros de que estava sendo caçada. Mas eu não sabia por quem. Nem sabia quem ela era de verdade.

Xavier deu um passo à frente, os olhos semicerrados, perigosos.

— Então por que diabos ela precisaria de você?

O homem ergueu os ombros num gesto vago.

— Não sei. Só recebi o pagamento. Era pra receber uma informação dela… mas ela nunca apareceu.

Apollo trocou um olhar com Xavier. Havia algo nos olhos do loiro — uma desconfiança que agora se misturava a medo.

— Por quê?

O homem riu. Um som vazio, como um eco dentro de um caixão.

— Porque ela morreu antes.

Um arrepio percorreu a espinha de Apollo como uma lâmina gelada. Tudo fazia sentido… até que voltava ao caos. Um ciclo interminável de verdades incompletas.

O que Hazana sabia? Por que fugia? O que ela tentou entregar — e a quem?

Xavier bufou, carregado de desprezo e impaciência.

— Então, no fim, você não sabe de nada.

O homem apenas levantou as mãos, num gesto que fingia inocência, mas não enganava ninguém.

Diante dele, dois capitães. Dois homens treinados para farejar mentiras e esmagar resistências.

E aquele interrogatório ainda estava longe de acabar.

— Se soubesse, acham que já não teriam colocado uma bala na minha cabeça? Eu só posso contar o que presenciei.

Apollo pressionou os olhos com os dedos. A frustração latejava dentro dele.

— E o que você presenciou?

O homem olhou diretamente para Apollo e sorriu de novo, mas dessa vez havia algo diferente em sua expressão. Algo sombrio.

— Algo que vocês talvez não estejam preparados para ouvir.

O homem hesitou. O olhar fugidio e o jeito inquieto demonstravam que ele estava relutante em continuar, mas algo em sua expressão mudou. Como se tivesse chegado à conclusão de que já estava envolvido demais para voltar atrás.

— Me acompanhem.

Ele se virou, caminhando pelo corredor estreito da loja. Apollo e Xavier trocaram um olhar rápido antes de segui-lo, as mãos ainda próximas aos coldres, prontos para qualquer armadilha.

O homem os levou até uma porta discreta no fim do corredor. Ele abriu devagar, revelando um quarto simples. Nenhuma bagunça aparente. Nada suspeito à primeira vista. Apenas uma cama, um armário e um espelho de moldura antiga.

Apollo ergueu uma sobrancelha.

— E o que tem de tão importante aqui?

O homem fechou a porta atrás deles, sua expressão séria e carregada de algo que parecia remorso.

— Esse era o quarto onde um homem, sempre encapuzado, trazia Hazana.

As palavras pairaram no ar, pesadas.

— O quê? — Xavier questionou, sua voz afiada como uma lâmina.

— Durante anos… — O homem continuou, desviando o olhar. — Ele vinha até aqui com ela. Hazana sempre parecia… embriagada. No começo, achei que ela apenas bebia demais. Ele dizia que era o pai dela e que a trazia para descansar.

A náusea revirou o estômago de Apollo. Ele sentiu seu corpo enrijecer, os punhos se fechando automaticamente.

— Mas um dia — o homem continuou, apertando a mandíbula — eu entrei no quarto. Vi ele… no ato.

Xavier engoliu seco, sua respiração ficando irregular.

— Você está dizendo que…

O homem assentiu lentamente.

— Naquele dia, eu percebi que algo estava errado. Se fosse o pai dela, ele nunca faria aquilo. Então me perguntei… quem era aquele homem? Um namorado? Um estranho?

A mente de Apollo girava. O sangue rugia em seus ouvidos.

— O que Hazana disse?

O homem soltou um suspiro pesado, como se as palavras queimassem dentro dele.

— Depois de um tempo, ela tomou consciência do que estava acontecendo e me implorou. Pediu que eu fingisse que não sabia de nada… apenas para que eu colocasse câmeras no quarto.

Xavier fechou os olhos por um momento, como se estivesse tentando conter algo dentro de si.

— Você colocou?

— Sim.

Apollo respirou fundo, tentando organizar os pensamentos.

— E as gravações?

O homem balançou a cabeça, derrotado.

— Hazana levou todas com ela. Eu nunca vi o conteúdo.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Um peso invisível pairava sobre os três.

Hazana sabia. Ela tentou fugir. E, de alguma forma, sua tentativa de escapar resultou em sua morte.

Apollo e Xavier se entreolharam. Se encontrassem essas gravações… talvez finalmente tivessem suas respostas.

Após saírem da loja e caminharem em silêncio até o carro, Apollo e Xavier se sentaram, cada um imerso em seus próprios pensamentos. A atmosfera dentro do veículo estava tensa, carregada de frustração e desconfiança. Apollo olhou pela janela, observando as luzes da cidade piscando ao longe, mas sua mente não conseguia se afastar da última revelação. As palavras do homem ecoavam em sua mente: “Ela levou as gravações.”

— Então é isso — Apollo disse, quebrando o silêncio. Sua voz estava baixa, mas firme. — Tudo o que ela queria era fugir. Talvez essas gravações fossem a chave para entender o que realmente aconteceu.

Xavier manteve os olhos fixos na estrada, a mandíbula cerrada. Seu olhar estava distante, perdido em pensamentos, mas sua expressão era carregada de algo difícil de ler. O que mais ele estava escondendo?

Apollo virou a cabeça para ele, observando-o atentamente. Algo não fazia sentido. Ele sabia que a relação entre Xavier e Hazana, apesar de tumultuada, ainda tinha lacunas. Algo estava faltando.

— Como pode você, que é irmão dela, não saber de nenhum lugar onde ela gostava de passar o tempo? — Apollo perguntou, sua voz desafiadora.

Xavier desviou o olhar, como se estivesse tentando controlar as emoções que ameaçavam transbordar. A pergunta de Apollo o atingiu como uma flecha certeira. Ele sabia que Apollo o estava desafiando.

— Eu não sou o melhor para falar sobre isso — Xavier murmurou, a voz tensa. Ele passou uma mão pelos cabelos, seu rosto endurecendo. — Hazana… ela não era fácil de entender. Tinha seus lugares secretos, coisas que fazia longe dos olhos da família.

Apollo se aproximou um pouco mais, seu tom mais incisivo.

— Mas como você não saberia? Você foi criado junto com ela! Não me venha com essa história de que você não sabia de nada. Tem algo que está sendo escondido.

Xavier lançou-lhe um olhar rápido, e a tensão entre eles quase se materializou no ar. Ele respirou fundo, como se estivesse preparando-se para dizer algo, mas se conteve, os lábios apertados. Apollo podia ver a raiva lutando para sair, mas Xavier estava tentando controlar o que sentia.

— Não estou escondendo nada. — A resposta de Xavier foi rápida, mas carregada de frustração. — Hazana… ela era difícil de acompanhar. E tinha seus próprios segredos, seus próprios lugares onde se refugiava. Eu só descobri algumas coisas depois, mas ela sempre teve uma maneira de se distanciar.

Apollo, embora ainda desconfiado, ficou em silêncio por um momento. Ele observou Xavier por alguns segundos, como se estivesse tentando entender o que estava sendo dito, mas algo não se encaixava.

— Então você realmente não sabe onde ela costumava ir? Nada que possa nos ajudar? — Apollo insistiu, a inquietação visível em sua expressão.

Xavier balançou a cabeça com um suspiro pesado, seus dedos apertando o volante como se fosse sua única maneira de controlar a frustração.

— Não. Ela era… complicada, Apollo. Não era fácil entender a cabeça dela. Eu fui cego para muitas coisas, sim. Ela… estava se afastando de todos nós. Eu percebi tarde demais. E agora… agora estou tentando juntar as peças, como você.

A resposta foi mais sincera, mas ainda havia algo que não fazia sentido. Apollo podia perceber a angústia na voz de Xavier, o peso das palavras não ditas, mas também sabia que não poderia confiar totalmente. No fundo, algo ainda o incomodava.

Apollo olhou para Xavier com uma expressão dura.

— Você está me dizendo que ela só foi embora, fugiu, e ninguém sabia de nada? Isso é difícil de acreditar, Xavier. Ela estava em perigo, e você não viu nada? Não viu os sinais?

Xavier fechou os olhos por um momento, sua expressão tornando-se sombria.

— Não, Apollo. Eu vi os sinais. Mas às vezes, a gente não quer ver o que está bem na nossa frente. E quando eu finalmente percebi o que estava acontecendo, foi tarde demais.

Eles ficaram em silêncio novamente, o carro agora percorrendo a estrada sem pressa. As palavras pairavam no ar, sem respostas concretas, e Apollo sentia um peso crescente em seu peito. Ele não sabia mais o que pensar. O que havia realmente acontecido com Hazana? E como ele poderia continuar tentando desvendar esse labirinto de mentiras e segredos?

Por enquanto, ele não tinha respostas. Mas sabia que não poderia parar até que a verdade fosse revelada.

Continua...

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