. 🦅 Capítulo 14 🦅
A manhã estava fria quando a equipe de resgate retirou os corpos do rio. A névoa rastejava sobre a superfície da água como dedos espectrais tentando puxar as vítimas de volta para o fundo. O silêncio era denso, apenas interrompido pelo som ritmado da correnteza e pelo murmúrio dos agentes ao redor.
Eles receberam autorização para examinar os corpos encontrados no rio, analisando tanto as evidências quanto o local de despejo, a fim de determinar se os óbitos estavam relacionados ao caso em investigação.
A névoa pairava sobre a água, tornando a cena ainda mais macabra. O cheiro de terra úmida e decomposição impregnava o ar, enroscando-se nos pulmões como um aviso silencioso de que a morte estivera ali. A luz fraca dos postes refletia nas ondulações do rio, fazendo os corpos boiarem como sombras distorcidas.
Apollo permanecia na margem, imóvel, os olhos analisando cada detalhe com precisão. Ele já havia visto cadáveres assim antes. Demais até. Mas algo naquela cena o inquietava. O padrão das feridas, o modo como a correnteza parecia ter sido enganada - havia algo errado. Algo que não se encaixa. Não era a primeira vez que encontravam corpos nesse estado, mas algo o incomodava. Ele conseguia identificar o que fazia sentido dentro do caso e o que destoava. E ali, havia algo errado.
Marco e thaddeus se moviam em silêncio, trocando olhares carregados de desconfiança e exaustão. Nenhum deles ousava quebrar a quietude sepulcral que dominava o local. Sabiam que, por mais que quisessem, não encontrariam todas as respostas ali.
Sem trocar palavras desnecessárias, abandonaram a cena e seguiram para o necrotério. Era ali, sob a luz fria das lâmpadas fluorescentes, que a verdade começaria a emergir. Entre laudos, bisturis e a dança silenciosa da morte, Apollo saberia exatamente o que procurar. E se seu instinto estivesse certo, o jogo estava apenas começando.
Xavier chegou ao seu lado, com os olhos brilhando em inquietação.
- Dois corpos de uma vez. Não parece muita coincidência? - ele murmurou.
Apollo permaneceu calado por alguns segundos antes de se aproximar. Os corpos estavam pálidos e inchados pela exposição à água, mas as semelhanças com as vítimas anteriores eram apenas superficiais. Havia cortes precisos nos pulsos e tornozelos, diferentes dos rituais que haviam analisado antes. Além disso, as roupas das vítimas estavam intactas, sem os símbolos ou marcas que os assassinos costumavam deixar.
Marco irrompeu no local com passos firmes, segurando o tablet com força, como se cada segundo de atraso pudesse custar uma resposta crucial. Seu rosto, geralmente descontraído, estava sério, a tensão refletida no brilho intenso de seus olhos.
- As impressões digitais confirmaram a identidade - anunciou, sem rodeios, enquanto deslizava o dedo pela tela. - Dois jovens, ambos com 19 anos. Estavam desaparecidos há uma semana.
Ele pausou por um instante, tomando fôlego antes de continuar.
- O relatório ainda está em andamento, mas... olhem isso.
Com um gesto ágil, ampliou a imagem dos pulsos das vítimas.
- Os cortes não seguem o mesmo padrão das vítimas anteriores. Isso aqui... - sua voz baixou, carregada de inquietação. - Parece mais calculado. Mais... clínico
Apollo estreitou os olhos, analisando cada detalhe da cena com a precisão de um predador à espreita. Algo não se encaixava. As marcas no corpo, a disposição da vítima, a brutalidade do ataque... aquilo não pertencia ao assassino que vinham perseguindo. Pelo menos, não diretamente.
Xavier, ao seu lado, cruzou os braços, o olhar fixo no cadáver à sua frente.
- Então temos duas possibilidades - murmurou, sua voz cortando o silêncio como uma lâmina afiada. - Ou isso é um erro, um desvio da metodologia do assassino...
Apollo completou o pensamento, a expressão sombria.
- Ou temos outra pessoa se aproveitando do caos para matar.
As palavras pairaram entre eles como um presságio, carregadas de um peso sufocante. Se estavam lidando com um segundo assassino, a investigação tomaria um rumo ainda mais perigoso-e imprevisível.
O silêncio opressivo foi abruptamente quebrado pelo toque estridente de um celular. Thaddeus levou a mão ao bolso, atendendo a chamada com um olhar carregado de expectativa. Segundos depois, sua expressão se transformou. Os traços antes relaxados se enrijeceram, e seus olhos adquiriram uma gravidade incomum.
Algo estava errado. Muito errado.
Apollo e Xavier se entreolharam. O caso acabara de se tornar ainda mais sombrio.
O silêncio que se seguiu àquelas palavras foi esmagador. Apenas o zumbido distante das lâmpadas fluorescentes preenchia o espaço, acompanhando a respiração contida dos agentes.
Apollo sentiu os músculos do corpo enrijecerem. Algo dentro dele já sabia a resposta antes mesmo de formulá-la. "Venho cobrar o que me roubou." Aquilo não era um aviso. Era uma sentença.
Xavier deslizou a língua pelos dentes, o olhar afiado como uma lâmina.
- Isso não foi apenas um homicídio - murmurou. - Foi um recado.
Thaddeus assentiu lentamente, sua expressão tensa.
- O exame revelou algo peculiar na vítima - continuou. - Marcas em padrões que não condizem com o assassinato... cortes superficiais, como se alguém quisesse que encontrássemos aquilo.
Apollo passou a mão pelo rosto, tentando conter a onda de inquietação que crescia em seu peito. Se aquele não era o mesmo assassino, significava que havia mais de uma força operando nas sombras. Um estava matando para ocultar algo. O outro... por vingança.
- Esses jovens - ele disse, a voz baixa, calculista -, qual era a conexão entre eles?
Thaddeus trocou um olhar com Xavier antes de puxar o tablet e deslizar os dedos sobre a tela. Ele virou o visor para eles, revelando uma lista de nomes e fotos.
- Todos ex-alunos da mesma instituição - revelou. - O último corpo encontrado foi o de Leston Vasconcellos.
O nome atingiu Apollo como um soco. Sua mente girou de volta ao passado, a um tempo em que aquele nome significava algo.
Xavier percebeu a mudança sutil na expressão de Apollo e estreitou os olhos.
- Você o conhecia, não conhecia?
Apollo inspirou profundamente, sentindo o gosto amargo da lembrança na boca.
- Não apenas conhecia - ele respondeu, sombrio. - Se ele está nessa lista... então tem algo muito pior por trás disso.
Os três se entreolharam, cientes de que estavam prestes a mergulhar ainda mais fundo em um abismo do qual talvez não saíssem ilesos.
A descoberta transformava o caso em um labirinto ainda mais perigoso. Dois assassinos, dois propósitos distintos-mas entrelaçados de maneira sinistra.
Apollo sentiu o peso da revelação se acomodar em seus ombros. Um estava eliminando agentes, limpando rastros, silenciando possíveis ameaças. O outro, no entanto, parecia selecionar alvos sem ligação aparente com o sistema, pessoas comuns, mas a mensagem deixada no corpo da última vítima indicava que havia algo maior por trás da escolha.
Xavier quebrou o silêncio, sua voz carregada de uma frieza calculista.
- Então temos um assassino encobrindo segredos... e outro assassinando por vingança, aproveitando-se do caos para mascarar suas intenções.
Thaddeus assentiu, a tensão estampada em seu rosto.
- E o pior - acrescentou -, é que ninguém está falando sobre isso. A mídia acredita que todas as mortes fazem parte da mesma onda de crimes. Isso significa que o assassino vingativo ainda está nas sombras, operando sem levantar suspeitas.
Apollo massageou as têmporas, sentindo uma pontada latejante começar a se formar.
- Precisamos entender a ligação entre os alvos - disse ele, forçando sua mente a organizar as peças do quebra-cabeça. - Se o segundo assassino quer vingança, ele está indo atrás de pessoas específicas. Mas o que esses civis tinham em comum?
Xavier deslizou o olhar para o tablet ainda nas mãos de Thaddeus.
- Se as vítimas do primeiro assassino eram agentes - começou, pensativo -, e as vítimas do segundo eram civis... então talvez estejamos lidando com um mesmo evento, mas de lados opostos.
Apollo ergueu os olhos para ele, e por um instante, tudo pareceu fazer sentido.
- Um encobrindo o passado - murmurou - e o outro desenterrando-o.
O silêncio que caiu entre eles foi ainda mais pesado que antes. O que quer que estivesse por trás dessas mortes, era algo grande demais para ser apenas uma vingança comum.
- Thaddeus - disse Apollo, endireitando-se -, precisamos de um histórico completo de todas as vítimas civis. Quero saber onde estudaram, onde trabalharam, e principalmente... se algum deles tinha ligação com o passado de Leston Vasconcellos.
Thaddeus assentiu, já digitando no tablet.
Xavier, por sua vez, manteve-se em silêncio por alguns segundos antes de finalmente dizer:
- Seja lá o que for que encontrarmos, não vai ser bonito.
Apollo sabia que ele tinha razão. Mas naquele ponto, já não havia mais volta.
Dias depois, a cidade mergulhava em sua rotina melancólica, os sussurros da tragédia se dissipando pouco a pouco. Mas, no silêncio da madrugada, onde apenas o vento e as águas sabiam guardar segredos, um vulto se movia na escuridão. Uma homem, considerado bom, por muitos, sempre cortês, sempre correto, agora parecia outra coisa. Sua silhueta se desenhava contra a luz fraca dos postes, carregando um saco preto que se arrastava pelo chão. Sem hesitação, ele o lançou ao rio. O som do impacto ressoou na noite como um segredo afogado.
Por um instante, ele permaneceu imóvel, fixando o olhar nas águas turvas, que pareciam engolir o peso insuportável do que ele acabara de fazer. O rio, imenso e indiferente, deslizava, levando com ele mais do que apenas corpos - levava a dignidade perdida, a inocência que ele destruiu sem hesitar. Seus olhos, que outrora exalavam confiança e calor, estavam agora vazios, como poços profundos que não refletiam mais nada além de um abismo sem fim.
A noite, espessa como breu, parecia se fechar ao seu redor. Com um suspiro pesado, quase imperceptível, ele se virou. Seus passos ecoaram suavemente na margem do rio antes de desaparecerem na escuridão. Sua silhueta se dissolveu, como se nunca tivesse existido, como se o peso de sua presença tivesse sido uma ilusão passageira.
Mas ele não era o único. Não havia sido o primeiro, nem seria o último. Três, jovens vidas destroçadas, tinham sido jogados nas águas, arrastados pela correnteza, como se nada mais restasse de seus destinos.
Cada um deles, marcado pela mesma tragédia implacável. O que o impulsionava? Vingança? Um desejo insaciável por algo que ninguém poderia entender? Quem, em sã consciência, seria capaz de cometer tal crueldade contra almas tão inocentes? E mais, por que? Qual era o verdadeiro propósito por trás daquela carnificina? Uma sombra pairava, mais densa e cruel do que a noite que os engolira.
Enquanto a escuridão da noite sussurrava segredos proibidos, Apollo e o Major se refugiavam no confinamento sufocante de um pequeno escritório na base militar. O ar pesado se impregnava de tensão, cada sombra parecia esconder um perigo não revelado. Diante deles, espalhados sobre a mesa, os arquivos do assassino do adolescente - fragmentos de uma verdade obscura. O silêncio era quebrado apenas pelo farfalhar das páginas, enquanto ambos buscavam, entre os vestígios da morte, uma pista que pudesse iluminar o abismo onde estavam prestes a mergulhar.
Apollo, com seu semblante fechado, olhava para o mapa espalhado sobre a mesa, seus olhos fixos nas marcas feitas com caneta vermelha, enquanto o Major, com uma expressão de frustração, passava os dedos pela linha do tempo dos eventos.
O escritório do Major, estava impregnado com o cheiro de óleo, metal e o sutil aroma de papel envelhecido. A luz fria de uma lâmpada pendurada no teto oscilava levemente, projetando sombras que se esticavam pelas paredes de concreto, como se tentassem escapar da sala. O som distante de ferramentas e motores vindos do galpão ao lado abafava qualquer conversa, garantindo que os segredos ali trocados permanecessem ocultos, longe de ouvidos curiosos.
Uma grande mesa de metal ocupava o centro do cômodo, sua superfície desgastada coberta por relatórios, mapas e fotografias perturbadoras das vítimas. No monitor, imagens das câmeras de segurança percorriam a tela - ruas desertas, becos sombrios, locais dos crimes. Cada fragmento de informação, cada pista parecia gritar por uma conexão que ainda não podiam ver. O Major, com as mãos sobre a mesa, observava os dados, sua expressão endurecendo.
- Essa série de assassinatos... não parece um simples acaso, Apollo. Há algo aqui que não faz sentido. O padrão é claro, mas o alvo... ele sempre escolhe jovens. E o horário... - Ele parou por um momento, engolindo a frustração. - Todos os corpos são encontrados entre meia-noite e 3 da manhã. Sempre. Mas, por que esse intervalo? O que ele está esperando?
Apollo, absorto nos papéis diante dele, levantou o olhar. Seus olhos se encontraram com os do Major - azuis e implacáveis, mas ali havia algo mais, uma crescente desconfiança e uma tentativa de entender o que estava além do óbvio. Apollo era capaz de ver através dos números, dos horários, das imagens. Ele sentia as conexões onde os outros viam apenas vazio.
- O próximo será no campo - disse Apollo, suas palavras cortantes, sem hesitação. Ele traçou com os dedos uma linha no mapa, conectando os pontos com uma precisão quase sobrenatural. - O padrão nos leva até lá. Eu consigo sentir isso. O assassino... ele está tentando nos enganar, não com os lugares, mas com os horários. Sabe que ficamos cegos à noite.
O Major fixou-se no mapa, analisando cada marcação com um olhar atento, mas a cada segundo ele sentia a pressão aumentar. O relógio na parede parecia acelerar, as batidas de seus próprios pensamentos se tornando mais rápidas.
- O campo... - repetiu o Major, a voz grave, quase um sussurro. - Esse é o próximo alvo? Não tem ninguém por lá à noite, apenas as sombras do passado.
Apollo se levantou abruptamente, empurrando a cadeira para trás, os músculos tensos, prontos para a ação. Seus olhos estavam focados, mas havia uma angústia invisível que pairava sobre ele.
- O assassino está jogando com a nossa percepção. Não se trata apenas de onde ele escolhe atacar, mas do quando. Ele sabe que a cada corpo jogado entre a meia-noite e 3 da manhã, todos nós estamos distraídos, nossa atenção focada nas vítimas anteriores, nas pistas erradas. Ele escolhe o horário mais perfeito para desaparecer sem deixar vestígios. E isso... isso é mais inteligente do que qualquer um de nós imaginava.
O Major franziu a testa, absorvendo as palavras de Apollo com uma intensidade crescente. O ambiente estava carregado de tensão. Ambos sabiam que estavam à beira de uma descoberta que poderia mudar tudo. A revelação do padrão de horários, a precisão com que o assassino escolhia a hora de sua atuação, colocava-os em uma corrida contra o tempo.
Ele inspirou fundo, pegando seu casaco e colocando-o com firmeza, os dedos batendo nervosamente contra o tecido.
- Vamos lá, então - disse ele, a voz firme, mas com uma ponta de incerteza. - Precisamos interceptá-lo antes que faça outra vítima.
Apollo assentiu, o peso no peito agora quase insuportável. Não era apenas o próximo alvo que os atormentava, mas o que poderia ser descoberto naquele campo, o que os esperava no silêncio das sombras. E o que quer que fosse, ele sabia que aquele seria o momento que definiria tudo - o estopim para algo maior, mais aterrador, que talvez ainda nem soubessem o quanto estavam perto de revelar.
A noite parecia mais densa à medida que Apollo e o Major avançavam pela trilha de terra até o lago, suas botas esmagando a vegetação úmida enquanto o vento cortante os envolvia em um manto de silêncio. Não estavam sozinhos. A polícia, mobilizada secretamente para ajudar nas investigações, se espalhou ao redor da área, tomando posições em silêncio absoluto. Cada um estava em alerta, esperando que a próxima revelação viesse com a mesma calma perturbadora das noites anteriores. Mas havia algo diferente no ar, algo que os fazia se sentirem ainda mais próximos do abismo.
O campo à frente se estendia em uma quietude sinistra, onde a lua cheia brilhava com intensidade, refletindo-se nas águas escuras do lago. O ambiente, usualmente calmo e sereno, agora se transformava em um cenário de horror. O corpo, uma vez mais de um jovem rapaz, jazia às margens da água. Seus cabelos, ainda molhados, se espalhavam sobre o terreno ao redor, e sua pele pálida contrastava com as sombras que o envolviam. Era a quarta vítima, a mesma idade, a mesma aparência frágil, e o mesmo destino sombrio.
O Major foi o primeiro a se aproximar, seu olhar fixo no corpo. Apollo o seguiu, mas o que os surpreendeu não foi apenas a visão do jovem ali, mas algo mais perturbador: o sangue ainda estava quente, tingindo a água em torno do corpo com uma cor escura e vívida. O detalhe fez os estômagos de ambos se revirarem. Não havia tempo para o corpo afundar, e isso significava que o assassino tivera que sair às pressas. Ele tinha fugido tão rapidamente que não deixara mais que a marca de sua ação apressada.
Apollo se agachou ao lado do corpo, seus olhos percorrendo a cena meticulosamente. Ele percebeu a tensão no ar, a sensação de que o assassino havia deixado algo para trás, algo que poderia ser a chave para entender seus próximos movimentos. Seu olhar se fixou nas marcas de pegadas à beira do lago. Não eram profundas, mas eram claras o suficiente para serem notadas. Uma delas parecia um pouco mais forte, como se tivesse sido deixada por uma pessoa que havia corrido, e o solo ainda estava ligeiramente deslocado, revelando que alguém havia estado ali, e se apressara em escapar.
- Ele não nos deu tempo - disse o Major, em um sussurro, o tom de frustração misturado com um medo crescente. - Ele estava aqui, Apollo. E ainda assim... ainda conseguimos perder a chance de pegá-lo.
Apollo permaneceu em silêncio por um momento, observando as pegadas. Cada detalhe parecia reforçar o padrão que eles estavam começando a entender, mas que continuava a ser incerto. A jovem vítima diante deles estava morta há pouco tempo, ainda com vestígios de vida em seus ossos. A luta, ou a fuga, havia sido recente.
- Ele sabia que estávamos vindo - Apollo disse, sua voz baixa, quase como se estivesse falando consigo mesmo. Ele se levantou e se afastou um pouco do corpo, seus olhos penetrantes observando o terreno ao redor. - Ele deixou isso de propósito. As pegadas... são uma distração. Ele sabia que chegaria aqui, mas ele nos deu uma pista para jogar fora nossa atenção.
O Major se afastou do corpo, seu olhar fixo nas pegadas e no ambiente, como se estivesse tentando enxergar além do óbvio. Cada segundo parecia mais carregado de tensão, a pressão de não ter conseguido impedir mais uma morte se intensificando.
- Não é só o padrão... - o Major murmurou, como se começasse a perceber algo mais profundo. - Ele está nos estudando. Ele sabe nossas reações, nossos tempos, nossos limites.
Apollo balançou a cabeça, o olhar fixo nas sombras que se estendiam ao redor. Ele sentia que estavam muito perto de uma grande descoberta, mas, ao mesmo tempo, se distanciando dela, como se estivessem sendo conduzidos por uma linha invisível de manipulação. O assassino não estava apenas matando. Ele estava brincando com eles, orquestrando cada movimento com precisão. E, mais uma vez, Apollo sentia no fundo de sua alma que aquele ainda não era o fim.
O corpo do jovem parecia estar em paz, mas a cena ao redor, as pegadas e o sangue ainda quente, diziam o contrário. O assassino não apenas matou, ele os estava desafiando. E a cada desafio, a cada pista deixada para trás, o terror só aumentava.
- Precisamos ser mais rápidos, Major - Apollo disse, a gravidade de suas palavras pendendo no ar. - Ele está sempre um passo à frente.
As horas se estenderam como um véu sombrio, carregada de silêncios e pensamentos inquietos. O tempo arrastava-se lentamente, como se o próprio universo hesitasse em avançar. Então, pouco a pouco, as sombras começaram a ceder.
O céu, antes um abismo negro, tingiu-se de tons azulados, e os primeiros raios de sol romperam a escuridão, banhando tudo com uma luz dourada. O frio da madrugada deu lugar ao calor suave da manhã, trazendo consigo o inevitável: um novo dia havia chegado e a tensão na sala era notável.
Sobre a mesa, os arquivos estavam dispostos em uma ordem precisa, cada página manchada pelo peso de uma investigação que se arrastava por tempo demais. Quatro vítimas. Jovens, brutalmente assassinados. Até então, os padrões eram sutis, mas a conexão agora era inegável.
O Major endireitou-se à frente da equipe, os olhos firmes, a voz controlada, porém carregada de gravidade.
- A análise dos últimos dias nos levou a um ponto crucial - começou, percorrendo o olhar por cada oficial presente. - Todas as vítimas estiveram na mesma boate antes de morrerem. Não se trata de um local de descarte. Não é coincidência. Alguém dentro daquele ambiente está envolvido.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Xavier cruzou os braços, assimilando a informação. Apollo, sentado mais afastado, manteve a postura rígida, o olhar fixo nos arquivos.
- Está sugerindo que o assassino pode estar lá? - Xavier questionou.
O Major assentiu, empurrando um dos relatórios à frente da equipe.
- É possível. Mas há algo mais. As vítimas não eram apenas frequentadores casuais. Havia um nome que se repetia nos depoimentos de amigos e funcionários da boate. O anfitrião das noites temáticas.
- Você acha que ele pode ser o assassino?
Apollo perguntou.
- Ou, no mínimo, alguém com informações valiosas - retrucou o Major. - Se queremos avançar nesta investigação, precisamos infiltrar alguém. Antes que outra pessoa morra.
O peso daquelas palavras caiu sobre todos como uma pedra grande e pesada. A estratégia era clara, mas a execução exigiria precisão.
A atmosfera na sala ficou ainda mais tensa.
O Major deslizou os dedos pelo mapa estendido à sua frente e ergueu os olhos para os homens à sua volta. Sua voz saiu firme, sem margem para questionamentos:
- Precisamos de uma infiltração. E Xavier e Apollo são os candidatos ideais.
Xavier manteve a postura ereta, mas seus olhos afiaram-se como lâminas.
- Explique.
- O anfitrião da boate tem preferências específicas - continuou o Major, com precisão. - Ele se interessa por casais que seguem um padrão: um homem moreno, de traços sérios, e um loiro de olhos claros. Cada uma das vítimas se encaixava nesse perfil. Vocês dois correspondem exatamente a esse critério.
Apollo, que permanecia silencioso no canto, finalmente se manifestou. Sua voz era fria, controlada.
- Você está dizendo que quer que nos tornemos o próximo alvo?
O Major sustentou seu olhar.
- Estou dizendo que essa é a melhor oportunidade para pegar esse desgraçado antes que mais um jovem acabe no necrotério.
A tensão se condensou no ambiente. Xavier apoiou as mãos sobre a mesa, o maxilar cerrado.
- Vamos entrar como um casal?
- Exato. É o único disfarce que garantirá acesso às áreas restritas. Homens sozinhos levantam suspeitas, mas pares são bem-vindos.
Apollo se recostou na cadeira.
- Isso é um erro.
- Discordo. - O Major não piscou. - É um risco calculado.
Antes que Apollo pudesse responder, Thaddeus se adiantou, sua postura rígida, mas controlada.
- Se a questão é se passar por casal, eu e Marco podemos ir. A missão exige infiltração, não precisa ser especificamente eles dois.
Ao seu lado, Marco permaneceu impassível, seu tom leve, mas sem hesitação.
- Concordo. Se a necessidade é de um disfarce convincente, nós podemos assumir essa função.
O Major os observou por um momento antes de negar com a cabeça.
- Não é apenas sobre se disfarçar. É sobre atrair o alvo certo. Já mapeamos os perfis que despertam interesse na pessoa que buscamos. Xavier e Apollo são o chamariz perfeito.
O silêncio pairou sobre a mesa. O Major finalizou com autoridade:
- Essa não é uma sugestão. É uma ordem.
Xavier fechou os olhos por um breve segundo antes de encarar Apollo.
- Parece que não temos escolha.
Apollo sustentou seu olhar, sem demonstrar emoção.
- Nunca tivemos.
O Major deu um passo para trás, sinalizando o encerramento da discussão.
- A missão começa agora. Preparem-se.
Continua...
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Atualizado até capítulo 26
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