🦅 Capítulo⚔️ 6 🦅
O silêncio na sala era espesso, carregado de coisas não ditas. O Major esperava uma resposta, algo que mostrasse que aqueles dois não eram um desastre iminente prestes a explodir. Mas Apollo sabia que qualquer coisa que dissesse naquele momento soaria vazia. Ele não estava arrependido do que fez, mas estava frustrado por ter perdido o controle — e por ter dado a Xavier exatamente o que ele queria.
Xavier, por outro lado, mantinha sua expressão firme, mas por dentro ainda estava fervendo. Ele queria que Apollo sentisse um pouco do peso que ele mesmo carregava, queria que ele entendesse a dor de perder alguém e não ter nem um momento de luto respeitado. Mas ao ver Apollo ali, absorvendo tudo sem reagir como de costume, algo dentro dele se revirou. Ele esperava uma resposta ousada, um olhar desafiador — mas tudo que viu foi um silêncio pesado e um olhar distante.
O Major suspirou, cansado. Ele via potencial em ambos, mas se continuassem assim, acabariam se destruindo antes mesmo de resolverem a conspiração que os cercava.
— Vocês estão dispensados — disse, por fim, sua voz carregada de cansaço. — Mas não pensem que isso acabou. Quero um relatório detalhado sobre a missão e sobre o incidente. E se algo assim acontecer de novo, os dois estarão fora da equipe.
Xavier foi o primeiro a se retirar, sem olhar para trás. Apollo ficou mais um instante, sentindo a frustração pulsar em suas têmporas. Ele lançou um último olhar para o Major, que apenas o encarou de volta, esperando que ele dissesse algo. Mas Apollo apenas virou as costas e saiu, deixando o escritório para trás.
O corredor parecia mais longo do que nunca. Seus passos ecoavam no piso de mármore, e ele sabia que, ao virar a próxima esquina, encontraria Xavier. E, de fato, lá estava ele, encostado contra a parede, os braços cruzados, esperando.
— Essa era a sua intenção? — Apollo perguntou.
Xavier ergueu uma sobrancelha, Com um sorrisinho quase imperceptível. — O quê Exatamente?
Apollo o encarou, tentando entender o que exatamente o irritava tanto em Xavier. Talvez fosse a forma como ele nunca mostrava maturidade, ou talvez fosse o fato de que, apesar do ódio evidente entre eles, algo os mantinha presos um ao outro, como duas forças opostas sempre destinadas a colidir.
Mas naquele momento, ele não tinha energia para mais um confronto. Sem responder, apenas desviou o olhar e seguiu em frente, deixando Xavier para trás.
O jogo entre eles ainda não tinha acabado. E Apollo sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que enfrentá-lo novamente.
A casa de Apollo era todo o seu reflexo impecável: organizada, sofisticada e fria. O ambiente com móveis escuros, detalhados em tons clássicos, transmitiam uma perfeita harmonia,sem ostentação. As estantes eram bem alinhadas , os quadros bem posicionados, e a iluminação indireta criava uma atmosfera elegante. Não havia excessos ali, apenas funcionalidade e requinte.
Ao cruzar a porta, Apollo sentiu a leve fragrância de chá e madeira encerada, um aroma familiar, mas que, naquele momento, pouco ajudava a aliviar o peso que carregava. Respirou fundo, tentando afastar os pensamentos caóticos que o atormentavam desde manhã cedo. A imagem do olhar de Xavier, a voz rouca reverberando em sua mente. Algo nele era estranhamente familiar, e essa sensação o consumia de forma inquietante.
Seguiu diretamente para o banheiro. A água quente escorreu por sua pele tensa, aliviando parte da rigidez de seus músculos. No entanto, a confusão não se dissipava. O que havia em Xavier que fazia seu peito se apertar de forma tão irracional?
Ao sair do banho, vestiu-se com uma camisa escura perfeitamente alinhada ao corpo, E com uma calça social bem ajustada. Nem mesmo em sua casa ele se permitia descuidos. No salão principal, Selene já o esperava com uma xícara de chá, seus olhos atentos e preocupados.
Selene conhecia Apollo o suficiente para perceber que algo o incomodava, mas como sempre, manteve-se discreta. Quando ele segurou a porcelana entre os dedos, sentiu o calor se espalhar pelas mãos, mas sua mente continuava distante, girando em torno de perguntas sem resposta.
Foi então que percebeu o som de vozes abafadas vindo da sala de estar. Seu olhar se ergueu de imediato, a expressão se tornando rígida. O que antes era um espaço de tranquilidade agora estava impregnado por uma presença indesejada.
Ao adentrar a sala, seus olhos imediatamente encontraram a figura sentada no sofá. O tempo pareceu hesitar. Sua mãe estava ali, acompanhada de seus irmãos, como se ainda tivessem algum direito sobre aquele espaço. O peito de Apollo se contraiu. Seu olhar percorreu e analisou todo aquele cenário, e cada detalhe do comportamento daquela mulher reacendia algo dentro dele—não era raiva, não era dor. Era um cansaço profundo, o peso de uma história que ele preferia manter enterrada.
Selene, que estava a poucos passos de distância, se virou para ele com uma expressão de questionamento. Ela havia sido pega de surpresa e parecia incerta se havia tomado a decisão certa ao permitir a entrada daquelas pessoas.
— Eles alegaram ser sua família. Trouxeram uma foto antiga... então achei melhor deixá-los entrar.
Selene sentia a atmosfera pesada se instalar entre eles, e por um instante, hesitou, olhando de Apollo para a mulher sentada à sua frente. O desconforto crescia no silêncio que se seguiu.
Sua postura permaneceu firme, ombros retos, olhar controlado. Nenhuma emoção transparecia além da característica.
Ele inspirou devagar, mantendo a voz baixa, mas precisa:
— Sirva algo para eles, Selene.
O comando era direto, deixando claro que aquela situação não era de seu agrado. E então, voltou-se para a mulher que um dia chamara de mãe, mantendo o olhar fixo nela, pronto para enfrentar o teatro doloroso que ela trazia consigo.
Apollo manteve-se parado à entrada, as mãos nos bolsos da calça, observando a cena diante dele como se fosse apenas um espectador.
Sua mãe estava sentada no sofá, os ombros levemente curvados, os olhos úmidos e avermelhados. O choro era cuidadosamente dosado para ser visível o suficiente. Ela não se entregava ao desespero, não completamente. Não como alguém que de fato sentia dor, mas como alguém que queria que os outros percebessem essa dor.
Ele já vira isso antes. Muitas vezes.
O irmão de Apollo, sempre ansioso por validação, adiantou-se, com a voz carregada de súplica.
— Ela está muito triste, Apollo... — disse ele, olhando-o com um misto de culpa e esperança. — Ela quer conversar com você.
A voz trêmula, os olhos implorando, o jeito como ele se inclinava ligeiramente para frente... Tudo nele transbordava um desespero quase patético para que Apollo cedesse. Para que ele se curvasse ao papel que a família sempre tentava lhe impor.
Mas Apollo não se moveu.
Ele não disse nada, não demonstrou qualquer emoção. O silêncio foi sua resposta.
A mãe ergueu a cabeça, os lábios pressionados em uma linha fina. As lágrimas escorriam lentamente pelo rosto, traçando um caminho até a ponta do queixo. Então, ela falou, com uma doçura ensaiada, a voz embargada na medida certa:
— Apollo... Você não sabe o quanto eu te amo. Eu só... Eu só não sei como demonstrar.
Ela suspirou, a mão delicadamente pousada sobre o peito, os dedos tremendo levemente.
— Eu cometi erros. Mas eu sou sua mãe. E você sempre foi tão distante... Eu só queria que me deixasse tentar.
Ela o estudou, esperando alguma rachadura naquela máscara inexpressiva, Esperando que, talvez, uma única palavra sua pudesse arrastar uma reação, um vestígio de emoção.
Mas nada veio.
O silêncio dele era como uma parede. Uma barreira impenetrável que ela não conseguia transpor.
A irmã, que até então se mantivera calada, explodiu.
— Você nunca liga, Apollo! Sempre tão frio, tão distante! — O olhar dela brilhava com um rancor acumulado ao longo dos anos. — Ela está morrendo, e você não faz nada! Não pode nem fingir que se importa?
A respiração dela estava pesada, os punhos cerrados ao lado do corpo. Ao contrário da mãe, que manipulava as emoções como uma artista, a irmã de Apollo não disfarçava nada.
Ele a encarou, os olhos cinzentos tão inabaláveis quanto um mar congelado.
— Se ela estivesse morrendo, eu seria a última pessoa que ela gostaria de ver.
A irmã arregalou os olhos, como se tivesse levado um tapa.
— Você é um monstro, Apollo!
A acusação ecoou pelo ambiente, mas não havia surpresa, não havia dor. Ele já ouvira aquilo antes. E a verdade era que ele não se importava.
Ele sentia como se estivesse diante de meros estranhos.
— Se vieram aqui apenas para me mostrar esse teatro,esperando uma avaliação, Pois bem, eu dou um dez. — Sua voz soou firme, sem traço algum de hesitação ou emoção. — Mas saibam que não passaram no teste. Agora, já sabem onde fica a porta.
Ele inspirou profundamente, tentando ancorar-se na realidade, mas a sensação de abandono era um peso constante em seu peito.
Na sala, seus irmãos continuavam a atacá-lo com palavras afiadas, mas tudo soava distante, como um ruído abafado por uma barreira longa. Nada do que diziam podia atingi-lo de verdade – não mais. Eles não entendiam. E Apollo, cansado, já não via sentido em tentar explicar.
A voz cortante de sua irmã o puxou momentaneamente de seus pensamentos.
— Você nunca vai mudar, Apollo. Nunca vai sentir nada, não é?
Por um instante, ele a encarou. Não havia raiva em seus olhos, apenas um vazio que falava mais do que qualquer resposta. Balançou a cabeça, sem vontade de argumentar. Como explicar que sentir, para ele, era um campo minado? Que o abandono moldara sua alma de forma tão profunda que, em algum ponto, ele simplesmente aceitara ser um estrangeiro dentro da própria casa?
O passado o havia ensinado a não esperar nada. Nem compreensão, nem afeto. Apenas a si mesmo.
Lentamente, ele se virou. Havia algo de definitivo em seu gesto, um rompimento silencioso que ninguém ali parecia perceber. A sala, as acusações, as mentiras de sua mãe — tudo aquilo era um eco distante de uma vida que nunca fora sua de verdade. No fim, o exército era o único lugar onde ele sabia existir, onde sua presença não era questionada, onde podia ser apenas Apollo, sem precisar carregar o peso de quem esperavam que ele fosse.
E assim, sem olhar para trás, ele saiu a passos silenciosos, deixando apenas o eco de sua presença para trás. A irmã começou a gritar, sua voz reverberando pelo ambiente, carregada de desespero e frustração.
Mas Apollo não titubeou. As palavras dela eram ruído, insignificantes diante da barreira que ele erguera. Não porque estivesse fugindo, mas porque, no fundo, ele já tinha partido há muito tempo.
Selene, em silêncio, observou a cena com um olhar carregado de um raro pesar. Ela conhecia Apollo bem o suficiente para saber que não era apenas indiferença; era um escudo. E, ainda assim, não pôde evitar um instante de compaixão pela mãe, que assistia ao próprio filho afastar-se como se ela não significasse nada. Selene entendia a dor de perder um filho — de sentir que ele se esvai por entre os dedos, inalcançável.
Com um suspiro discreto, Selene assumiu seu papel, conduzindo-os para fora sem questionar. Havia coisas que não podiam ser ditas. Havia sentimentos que Apollo não permitiria que ninguém visse.
Ele nunca esqueceu os jantares.
Cada refeição era uma lembrança amarga, um testemunho silencioso da indiferença. Ele se sentava à mesa, um garotinho de olhos esperançosos, observando os irmãos rirem com a mãe, compartilhando segredos e toques de carinho. O cheiro da comida quente deveria trazer conforto, mas para ele, era apenas mais uma forma de ser lembrado de que não pertencia ali.
Os pratos eram servidos, as porções generosas pousavam nos pratos dos irmãos, enquanto a dele chegava sempre por último, menor, quase como uma sobra. Se ele reclamasse, recebia apenas um olhar frio e palavras de desafeto:
"Não está satisfeito? Vá comer na rua."
Mas ele comia. Comia o pouco que lhe davam, comia em silêncio, tentando se convencer de que, se ele fosse bom o bastante, se tirasse boas notas, se fosse educado, talvez um dia sua mãe olhasse para ele do jeito que olhava para os outros.
Ele tentava falar sobre a escola, sobre os troféus que ganhava nas competições. Os professores diziam que ele era brilhante, que sua mãe deveria se orgulhar. Mas ela nunca ia às reuniões, nunca o elogiava, nunca demonstrava qualquer interesse. O brilho nos olhos dela estava reservado apenas para os outros filhos.
E então veio o homem.
Apollo nunca esqueceria a primeira vez que ele se sentou à mesa com eles. Sua mãe sorria de um jeito que ele nunca tinha visto antes, os irmãos também pareciam encantados. Mas Apollo sabia. Sentiu no primeiro olhar que aquele homem lhe lançou. Um olhar que o fez perder o apetite para sempre.
Depois disso, as refeições se tornaram piores. A mãe não apenas o ignorava, como agora o repreendia por tudo.
"Você não come direito."
"Para de olhar assim."
"Não estrague a refeição de todo mundo."
O homem, por outro lado, sorria. Um sorriso que dizia mais do que qualquer ameaça verbal.
E Apollo aprendeu a se silenciar.
Ele parou de tentar. Parou de falar. Parou de esperar.
A cada jantar, ele apenas sentava, mastigava o pouco que lhe davam e engolia junto o gosto amargo da solidão. Ele ouvia os risos dos irmãos, a felicidade da mãe, e aos poucos ele aceitava que aquilo seria sempre assim.
Ele se lembrava do dia em que tudo começou, quando ainda era uma criança, com apenas sete anos de idade. Sete anos, e a casa humilde onde moravam, com paredes de madeira escura, cobertas por manchas de mofo que se espalhavam como lembranças indesejadas do tempo. O chão, simples e frio, era batido de cimento, e o único móvel que parecia digno de nota era a mesa de madeira desgastada, onde sua mãe, sempre cansada, se sentava para fazer as refeições. O aroma de arroz queimado, misturado com o cheiro de fumaça da lareira, ficava no ar como um peso constante. Mas, para Apollo, o pior estava no olhar de sua mãe, que via naquele homem adotivo a perfeição que ela tanto desejava. Para ela, ele era o ideal. Mas para Apollo, ele era um monstro disfarçado de homem.
Aquelas mãos, que pareciam tão suaves para os outros, tão gentis com sua mãe e seus irmãos, eram as mesmas que o tocavam de forma invasiva, que o manipulavam com palavras vazias e promessas falsas. Ele soubera desde o momento que aquele homem entrou em sua vida que algo estava errado. Mas o que poderia fazer? Ele era apenas uma criança, sem forças para lutar, sem ninguém a quem recorrer. Quando os gritos da mãe ecoavam pela casa, quando ela sorria ao ouvir as promessas de amor daquele homem, Apollo sentia o nó em sua garganta se apertar, mas se calava, com medo de ser ignorado, de ser culpado, de ser destruído.
Aos dezesseis anos, a dor já não podia ser contida. O medo havia dado lugar à raiva. Ele estava cansado de ser o segredo sujo da família, de se sentir enjaulado dentro de si mesmo, consumido por um terror que ninguém mais parecia perceber. Ele sabia que tinha que contar à mãe, gritar a verdade, para que o inferno em sua mente, e naquelas mãos, finalmente cessasse. Mas ele estava tão frágil, tão vulnerável. Os corredores escuros da casa, os sons abafados das portas fechadas, o vento frio que entrava pelas frestas... tudo parecia conspirar contra ele.
Então, numa tarde cinza, o momento chegou. Ele encontrou sua mãe na cozinha, ocupada com seus afazeres, seus olhos cansados e sem brilho. Apollo entrou, os pés pesados como se a terra debaixo dele fosse um fardo insuportável. Ele não sabia como começar, não sabia como contar a dor que o consumia desde a infância.
“Mãe…” sua voz saiu rouca, quase inaudível. Ela o olhou sem realmente vê-lo, como se ele fosse apenas mais uma sombra em sua rotina.
“Mãe, eu preciso falar com você sobre ele. Sobre o que ele faz comigo. Não aguento mais. Ele... ele me toca, mãe. Ele me faz coisas… coisas que nenhum pai deveria fazer.”
Aquelas palavras ficaram suspensas no ar, como se o próprio ambiente tivesse congelado. Ele viu a expressão dela mudar, mas não da maneira que ele esperava. Não havia preocupação, nem surpresa. Havia algo muito mais profundo: desprezo. O olhar dela agora estava cheio de um veneno gélido que lhe cortou a alma.
“Você está mentindo, Apollo. Você é sujo. Sujo, e nojento!”
A mãe disse com um desprezo tão visível que o peito de Apollo se contraiu, e o ar ficou ainda mais carregado, quase impossível de respirar. As palavras dela se cravaram nele como lâminas afiadas, mais dolorosas do que qualquer golpe físico. Ele esperava compreensão, algo, qualquer coisa que o fizesse acreditar que ainda tinha um refúgio nela. Mas, ao invés disso, ela o afastou como se ele fosse o vilão. Como se ele fosse a doença que contaminara a família.
“Eu não posso mais te ver assim,” ela continuou, a voz dura como o aço, e ele sentiu a distância entre eles aumentar de maneira irreparável.
"Eu não posso acreditar em você. Você destruiu tudo."
Os irmãos dele estavam lá, observando de longe, sem dizer uma palavra. Não questionaram, não tentaram entender. Eles olhavam para ele com repulsa, como se fosse Apollo o responsável por toda a dor, como se ele fosse o culpado pela desgraça que se abatia sobre todos. Eles, que sempre estiveram ao lado dele, agora o viam como um traidor, um inimigo.
A casa, que antes era um lar, agora parecia um campo de batalha. Aquele espaço que um dia deveria ter sido de amor e segurança, agora estava impregnado de rejeição e dor. Apollo sentiu seu mundo desmoronar em cima dele, enquanto seus irmãos se afastavam, fazendo com que ele se sentisse ainda mais sozinho. Ele era o vilão da própria história, o causador da queda daquela família, o responsável pela dor de sua mãe.
Ele ficou ali, imóvel, as palavras de sua mãe reverberando em sua mente.
"Você é sujo. Você é nojento."
O eco daquela frase o perseguiu, e ele soubera, naquele momento, que a confiança havia sido arrancada para sempre. Ele já não tinha mais ninguém. Nem sua mãe. Nem seus irmãos. O que restava era uma alma dilacerada, quebrada, como as paredes de sua casa, que uma vez pareceram seguras, mas agora estavam desmoronando junto com ele.
O peso daquela rejeição foi o suficiente para terminar de quebrá-lo. Mas foi também o que o fez tomar uma decisão definitiva: ele se afastou. Se alistou para o exército, uma forma de escapar daquela casa, daquela vida. Era a única coisa que ele sabia que poderia fazer. Só ali, entre as fileiras e os uniformes, ele encontrou uma espécie de ordem, uma estrutura que o ajudava a manter-se firme diante da vida. Cada dia que passava, ele se tornava mais distante, mais fechado, mais impenetrável.
Enquanto ele se perdia nas lembranças do passado, Selene fechava a porta com delicadeza, seus dedos hesitando na maçaneta por um instante. O silêncio que se seguiu não era apenas ausência de som—era um peso, uma presença Sombreada que parecia se espalhar pela casa.
Ela respirou fundo antes de seguir até a cozinha. Suas mãos se moviam automaticamente ao preparar outro chá, mas sua mente ainda estava presa na cena que acabara de presenciar.
A mãe de Apollo.
A mulher carregava nos ombros um fardo, algo que a dobrava ligeiramente para frente, tornando-a menor do que talvez já fora um dia. Seu olhar, fugidio e baixo, parecia incapaz de se fixar no filho por muito tempo. Mas havia um momento, um único instante, que permaneceu gravado na mente de Selene—o olhar dela cravado nas costas de Apollo. Não era simples pesar. Não era apenas culpa. Era algo mais profundo.
E Selene conhecia essa expressão.
Lembranças distorcidas pelo tempo eram traiçoeiras. Quando se olhava para o passado, raramente se via a verdade como ela era—via-se um reflexo, moldado por emoções, por arrependimentos tardios, por justificativas que a mente criava para tornar a dor suportável. E, talvez, era isso que a mãe de Apollo fazia agora. Olhava para o filho e via o que não quis enxergar antes.
E tarde demais.
Selene pegou a xícara e seguiu pelo corredor, seu coração inquieto.
Ao entrar na sala pessoal de Apollo, encontrou-o sentado à beira da poltrona, os cotovelos apoiados nos joelhos, os olhos perdidos em um ponto indefinido na parede. Ele estava imóvel, mas sua mente, sem dúvida, estava agitada.
Ela se aproximou, pousando o chá na mesa ao lado dele. Mas não ouve nenhuma reação.
— Você não vai perdoá-la, não é? — Sua voz soou suave, mas carregada de um significado que ia além da pergunta.
Os olhos de Apollo se ergueram lentamente para encará-la. Neutros, mas atentos.
— Às vezes, o ser humano se deixa enganar por memórias conturbadas — Selene continuou, sustentando o olhar dele. — O passado pode parecer imutável, mas a verdade é que ele se molda de acordo com quem o revisita. Sua mãe pode estar enxergando agora o que antes escolheu ignorar. E, se for esse o caso… pode ser que ela realmente esteja se sentindo culpada.
A tensão na sala se intensificou. Apollo não desviou os olhos, mas seus dedos se apertaram levemente. Selene sabia que ele sempre a ouvia, que considerava suas palavras mesmo quando não as respondia.
Mas, dessa vez, sua resposta veio sem hesitação.
— Minhas memórias não são conturbadas.
Sua voz era baixa, mas carregava um peso inquestionável.
Selene permaneceu em silêncio, esperando.
— Aquela mulher… — Apollo desviou o olhar por um instante, e, quando falou novamente, havia algo gélido em seu tom. — Nunca olhou para mim. Nem uma única vez.
A frase pairou no ar como um julgamento irrevogável.
— Então por que estaria arrependida agora?
Selene não tinha uma resposta. Porque, no fundo, sabia que algumas pessoas só percebiam o que perderam quando já não podiam mais consertar.
Ela suspirou, pegou a xícara e empurrou-a suavemente para ele.
— O chá vai esfriar.
Apollo olhou para a xícara, depois para ela. Por um momento, permaneceu quieto. Então, sem dizer nada, pegou-a.
Não era um agradecimento verbal, mas Selene sabia que, naquele instante, era o máximo que ele podia oferecer.
E, por ora, isso bastava.
Continua....
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Atualizado até capítulo 26
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