Lágrimas de Gelo

Lágrimas de Gelo

Prólogo

O que aconteceu primeiro? O estrondo? O clarão? Não... houve algo antes. Um pressentimento. Uma dissonância. E então, o caos.

Sob a sombra de um canto reservado da área VIP, ela observava. Mulher pequena de estatura, mas imponente em presença. Os cabelos ondulados caíam sobre os ombros, emoldurando um rosto onde dois olhos âmbar brilhavam como brasas sob a iluminação trêmula do ambiente.

Lá embaixo, a boate fervilhava. O calor dos corpos misturava-se ao cheiro de álcool e suor, enquanto grupos de pessoas se moviam como um mar inquieto, suas vozes se entrelaçando em um eco caótico. A música, alta e dissonante, cortava o ar como uma lâmina cega - os músicos amadores no palco pareciam incapazes de compreender a harmonia que seus próprios instrumentos deveriam transmitir.

Mas ninguém parecia notar.

Na pista, corpos se moviam como se fossem um só, entregues ao êxtase do momento. Risadas explodiam, brindes ecoavam. O mundo poderia desmoronar, e ainda assim, eles dançariam sobre os escombros.

Todos... exceto ela.

Ela percebia. Ela sentia.

A música ecoava pelo salão, e isso era um tormento. Cada nota desafinada lhe arranhava os ouvidos como unhas em um quadro-negro. O vocalista errava o tom sem a menor cerimônia, e a guitarra, descompassada, soava como um lamento desafortunado.

Ainda assim, ninguém parecia se importar. O álcool e a euforia anestesiavam qualquer senso crítico.

Ela suspirou, sentindo-se deslocada. Seria apenas ela a notar aquele desastre sonoro? Seus ouvidos seletivos eram um fardo em um lugar onde a única melodia que importava era a do prazer instantâneo. Por um instante, desejou poder se entregar àquela despreocupação. Mas, ao ouvir um novo deslize grotesco da banda, cerrou os dentes. Não, definitivamente, não podia.

Então, veio o clarão.

No instante em que um feixe de luz neon atravessou seus olhos, algo mais capturou sua atenção - um pequeno objeto esférico rolando pelo chão. refletindo as luzes em sua superfície metálica. cada batida contra o piso acelerando a inquietação dentro dela.

O movimento no salão parecia não atingir sua concentração. Seus olhos estavam fixos na esfera metálica, que rolava com uma calma inquietante, como se o destino estivesse jogando o que restava de uma escolha para ela. O brilho da luz refletida na esfera parecia como um farol, atraindo seu olhar de forma hipnótica, como se ela soubesse que algo estava prestes a acontecer. Uma leve tremulação passou por seu rosto, um gesto que poderia ser confundido com nervosismo, mas quem a observasse com mais atenção perceberia algo mais: a suavidade no modo como sua mão apertava o punho contra a roupa, como se tentando prender algo que queria escapar.

No fundo de seus olhos, algo se ocultava, uma escuridão familiar, como se ela tivesse sido ensinada a carregar uma culpa que não era sua. O que restava de sua vida, de seus sonhos, tudo se esvaía junto com a metálica esfera, sem que ninguém soubesse que, em seu peito, o peso de um acordo sombrio estava prestes a cobrar seu preço. as dívidas... e... Salvatore, que jamais soubera o quanto ela estava disposta a sacrificar por um fio de esperança, que logo se desvaneceria.

Quando a esfera parou, quase roçando a ponta de sua bota de couro pelica, seu corpo reagiu antes que sua mente pudesse acompanhar. Ela se levantou num ímpeto. Mas... tarde demais.

Click.

O som seco e metálico rasgou o ar. No instante seguinte, um brilho devorou tudo. A pressão da explosão atingiu seu peito como um soco invisível, atirando-a para trás. O calor queimou sua pele antes que sua mente conseguisse processar o que estava acontecendo.

Então, o chão se abriu em desespero e poeira.

O impacto da explosão foi brutal. Uma luz incandescente devorou o espaço, seguido pelo estrondo ensurdecedor. O grande salão girou em confusão e desespero. Gritos ecoaram. Sangue quente respingava no chão frio da pista de dança.

E então, o horror.

No meio da multidão aterrorizada, uma perna - dilacerada, retorcida - foi lançada ao chão, como um troféu grotesco do que acabara de acontecer. O cheiro de carne queimada e pólvora se misturavam ao perfume barato impregnado no ar. Pessoas entraram em colapso, alguns desmaiando, outros vomitando diante da cena.

Mas... não aqueles olhos.

No epicentro do caos, entre gritos e o cheiro de sangue, uma figura permanecia imóvel. Os olhos, amarelados, não vacilaram. Não se arregalaram diante do terror, não se desviram da carnificina.

Eles estavam fixos, absorvendo cada detalhe, cada fragmento de destruição.

Era como se, naquele instante, a destruição tivesse sido planejada. Como se aquele horror fosse apenas o que se esperava, como se, de alguma forma, tivesse sido antecipado.

Será que ela estava lá para ver o fim... ou para garantir que o começo tivesse sido cumprido?

Quando as sirenes romperam o pavor, trazendo consigo o peso da realidade, a boate já não era um templo de diversão. Tornou-se palco de uma investigação sombria. Repórteres, policiais, peritos. Um mar de gente com uma única pergunta nos lábios: Quem fez isso?

A resposta começou a tomar forma entre relatos desencontrados e testemunhas em choque. As descrições apontavam para um homem baixo, trajando um casaco camuflado de tom azulado. Mas havia algo mais. Um detalhe impossível de ignorar.

Cinco pessoas daquela associação usavam vestimentas idênticas. Mas apenas uma tinha a altura exata.

Coincidência? Ou um jogo calculado?

Do lado de fora, um dos peritos, incapaz de encarar os restos mortais da vítima, virou-se para um colega e murmurou, quase sem voz:

- Existe alguém capaz de enganar essa mulher?

Hazana.

Um nome que inspirava respeito. Temido por criminosos, invejado por detetives. Seu intelecto a tornava lendária. Sua frieza, inabalável. Ela escapou de armadilhas antes. Ela deveria ter escapado desta.

Mas não escapou.

Agora, Hazana foi a vítima.

E a pergunta que ecoava na mente de todos, enquanto o sangue secava sob as luzes piscantes da boate era:

Quem foi o responsável?

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