🦅 Capítulo 17 🦅
Xavier nunca gostou de lembrar do passado. Sempre foi mais fácil seguir em frente, enterrar as lembranças ruins e fingir que nunca existiram. Mas algumas memórias não desaparecem, não importa o quanto se tente ignorá-las. Elas permanecem adormecidas, esperando um momento de fraqueza para emergir como um veneno lento, consumindo cada fibra do ser.
E naquela noite, sob a luz pálida da lua que atravessava a janela, ele se lembrou.
Se lembrou de como sua vida mudou de ponta cabeça.
Ele era apenas um menino de sete anos, pequeno e frágil, mas cheio de energia. Corria por qualquer coisa, ria com facilidade e tinha uma curiosidade sem limites. Gostava de brincar na rua com os amigos, explorando cada canto do bairro como se fosse um grande aventureiro. Mas em um dia fatídico, tudo mudou.
Lembrava-se de estar pedalando sua bicicleta quando se afastou do grupo. Queria reencontrá-los, mas acabou se perdendo. O céu começava a escurecer, e a estrada à sua frente parecia infinita. Então, ele viu a ponte, um grande arco metálico sobre a rodovia. E foi ali que tudo aconteceu.
Uma van preta surgiu de repente, parando de forma brusca ao seu redor. Seu instinto gritava que algo estava errado. Ele tentou dar a volta, mas antes que pudesse escapar, foi cercado. O medo gelou sua espinha. Seu coração batia descompassado enquanto tentava fugir, mas mãos firmes o seguraram.
Foi então que um garoto mais velho apareceu. Tinha cerca de doze anos, cabelos bagunçados e olhos intensos. Ele não hesitou. Avançou contra os homens, criando uma distração, e agarrou a mão de Xavier.
— Corre!
E eles correram. Xavier sentia seu peito arder, suas pernas fraquejarem, mas não queria soltar aquela mão. O garoto o puxava com força, guiando-o por ruas desconhecidas. Porém, ele era pequeno demais, fraco demais. Seus passos ficaram lentos, sua respiração falhou. Não conseguiu continuar.
Forçados a se esconder atrás de um canteiro de arbustos, eles tentaram silenciar a respiração ofegante. Mas não demorou para serem encontrados. Tudo depois disso virou um borrão. Apenas lembranças fragmentadas de vozes ríspidas, mãos ásperas e o frio de um lugar desconhecido.
Quando acordou, sentiu um calor ao seu redor. Alguém o segurava, protegendo-o como um escudo humano. Piscou os olhos, confuso, e encontrou o olhar do garoto mais velho.
— Sente dor em algum lugar? — ele perguntou, a voz suave, mas carregada de cansaço.
Xavier balançou a cabeça, ainda tentando entender onde estava. O quarto cheirava a mofo e era escuro, as paredes frias como gelo. O garoto suspirou aliviado e, por um breve momento, um sorriso cansado cruzou seu rosto.
— Me desculpe… — ele murmurou. — Eu tentei…
Aquelas palavras nunca saíram da cabeça de Xavier. O garoto tinha tentado protegê-lo. Mesmo sem conhecê-lo, o garoto lutou por ele. E continuaria lutando, dia após dia.
⋅•⋅⊰⋅✦⋅⊱⋅•⋅
As lembranças seguintes eram turvas, como se sua mente se recusasse a revivê-las completamente. Mas havia uma coisa que nunca esqueceu: o olhar determinado daquele garoto. Um olhar que dizia que ele faria de tudo para mantê-lo a salvo.
E agora, tantos anos depois, Xavier finalmente compreendia a verdade.
Aquele garoto… era Apollo.
⋅•⋅⊰⋅✦⋅⊱⋅•⋅
O frio da noite penetrava as paredes úmidas do porão, onde Apollo e Xavier estavam presos. A escuridão era quase absoluta, quebrada apenas por um feixe de luz vindo de uma fresta na porta. O silêncio era cortado pelo som da respiração de Xavier, encolhido contra a parede, os olhos grandes e assustados.
Mês após mês, Apollo elaborava planos de fuga. Mas todos falhavam. Não porque fossem mal pensados, mas porque Xavier era pequeno demais, frágil demais.
Sempre chorava baixinho à noite, agarrado ao próprio corpo para se aquecer. Se cansava rápido quando tentavam escapar. Era como se o peso da sobrevivência estivesse inteiro sobre Apollo.
Dessa vez, ele tinha certeza de que o plano funcionaria. Eles haviam conseguido soltar parte das cordas que os prendiam e esperaram até que o vigia caísse no sono. Com os passos silenciosos, seguiram pela casa escura, desviando dos rangidos no piso de madeira.
Mas então, Xavier tropeçou. O barulho foi suficiente para alertar os sequestradores. Em segundos, Apollo ouviu os passos pesados se aproximando. O coração disparou. Ele olhou para Xavier, que tremia, seus olhos brilhando de medo.
Apollo tomou uma decisão.
— Foi minha culpa! — gritou, antes que alguém pudesse questionar. — Eu tentei fugir sozinho!
Os sequestradores o encararam, desconfiados. Mas a mentira era convincente. Desde que chegara ali, Apollo sempre fora o mais resistente, o que nunca chorava, o que sempre olhava nos olhos dos captores sem demonstrar medo.
O castigo veio rápido. Um golpe o jogou no chão, a dor queimando suas costelas. Ele não reagiu. Outro soco. O gosto de ferro tomou sua boca. Mas ele não emitiu um som sequer.
Xavier soluçava baixinho.
Os meses seguintes foram um ciclo interminável de tentativas frustradas. Apollo observava cada detalhe do cativeiro, cada troca de turnos, cada fraqueza dos sequestradores. Mas sempre que tentavam escapar, algo dava errado. E o motivo sempre era o mesmo: Xavier. O garoto não era forte o suficiente para aguentar a jornada de fuga.
Um ano se passou. Um ano de dor, fome e medo.
E então, uma noite, o destino mudou. Sirenes romperam o silêncio. Gritos. O barulho de botas correndo. O estrondo de portas sendo arrombadas.
A polícia havia encontrado o esconderijo.
O caos se instalou. Apollo segurou Xavier pela mão, arrastando-o para longe da confusão, até que os policiais os encontraram. Braços uniformizados os envolveram, palavras de conforto foram sussurradas, mas Apollo não respondeu. Ele só ficou ali, observando enquanto Xavier era levado para um grupo de pessoas que choravam e o abraçavam com força.
Sua família.
Mas ninguém veio buscá-lo.
Apollo não se surpreendeu. Apenas respirou fundo e forçou um pequeno sorriso para Xavier.
O garoto o olhou com lágrimas nos olhos, segurando firme sua mão, relutante em soltá-la. Mas Apollo sabia que aquele não era seu lugar.
Antes que Xavier pudesse dizer qualquer coisa, os oficiais o levaram. Apollo ficou parado, observando a cena, até que uma mão firme pousou em seu ombro.
— Vamos, garoto. Vamos te levar de volta.
Apollo não respondeu. Apenas seguiu em silêncio, sabendo que, para ele, a liberdade ainda parecia muito distante.
⋅•⋅⊰⋅✦⋅⊱⋅•⋅
Xavier tamborilava os dedos sobre a mesa, os olhos fixos nas fotos espalhadas diante dele. A imagem do corpo de Hazana, da cena do crime, das evidências coletadas—tudo o levava de volta ao mesmo beco sem saída. Ele já refizera essa análise dezenas de vezes, convencido de que Apollo era culpado. Mas agora...
Agora sabia que estava errado.
"Maldição..." murmurou, passando a mão pelos cabelos, frustrado.
O passado se chocava contra ele como uma onda violenta. O homem que o salvou quando criança não poderia ter matado Hazana. O raciocínio era simples, lógico. Mas então por que era tão difícil aceitar?
Talvez porque significava admitir que, durante todo esse tempo, ele estivera perseguindo o homem errado. Que seu ódio fora jogado na direção errada.
Seu punho se fechou. Ele não era tão ingênuo para confiar cegamente, nas evidências a sua frente.
Ele sentiu uma raiva surda crescer no peito ao se lembrar das vezes em que Apollo invadira sua privacidade, lendo suas expressões, adivinhando seus pensamentos, como se estivesse sempre um passo à frente.
Ele fechou os olhos, tentando empurrar as memórias para longe, mas foi então que um detalhe passou por sua mente como um raio.
A marca.
Abriu a gaveta com brutalidade, pegando uma das fotos de evidência. Seu coração martelava contra as costelas enquanto ele arrastava o dedo sobre um detalhe na pele do cadáver de Hazana. Não era apenas um corte. Era um símbolo.
Uma marca.
A mesma que ele viu no próprio corpo quando era criança.
Engoliu em seco, sentindo o gosto da revelação.
A marca dos sequestradores.
Enquanto Xavier revirava os arquivos,
O cheiro forte de café fresco preenchia a cozinha. Apollo pousou a xícara sobre a pia, passando a mão pelo rosto ainda sonolento. Ele acordara cedo, como de costume, mas a sensação incômoda de que algo estava fora do lugar não o deixava em paz. A noite mal dormida deixava seus pensamentos nebulosos.
Saindo da cozinha, seguiu para o escritório. A porta estava entreaberta, e, ao empurrá-la, encontrou Xavier sentado à mesa, cercado por uma bagunça de papéis. Ele não pareceu notar sua presença, seus olhos estavam fixos em um dos documentos, em concentração.
— Desde quando você madruga assim? — Apollo quebrou o silêncio, encostando-se ao batente da porta com a xícara ainda em mãos.
Xavier ergueu o olhar, visivelmente tenso. Respirou fundo antes de empilhar alguns papéis de qualquer jeito e se levantar.
— Encontrei algo. — Sua voz saiu grave, mais séria do que de costume.
Apollo arqueou uma sobrancelha, esperando que ele continuasse. Xavier hesitou por um momento, como se ponderasse se deveria mesmo compartilhar aquilo, mas então soltou um suspiro e, com um gesto decidido, puxou a barra da própria camisa, revelando a pele marcada logo abaixo das costelas.
Uma cicatriz escura e intrincada estava gravada ali, algo que Apollo reconheceu instantaneamente.
Ele sentiu um arrepio na espinha.
— Essa marca... — murmurou, estreitando os olhos.
— É a mesma que Hazana tinha — Xavier completou, soltando a camisa devagar. Ele cruzou os braços, observando Apollo com expectativa.
O silêncio se prolongou entre eles. Apollo sabia. Sempre soube. Mas por algum motivo, sua mente havia trancado esse conhecimento em um canto esquecido. Como se tivesse escolhido não lembrar. Agora, porém, as peças começavam a se encaixar de maneira brutal e inevitável.
Sua mente o levou de volta a uma época distante, imagens vagas piscando diante de seus olhos. Ele se lembrou de um Xavier muito diferente do homem à sua frente. Pequeno. Frágil. Um garoto de olhos assustados e mãos magras, nada parecido com o monstro musculoso que estava agora diante dele, encarando-o como se exigisse respostas.
— Você não se lembra, não é? — Xavier perguntou, quebrando seus devaneios.
Apollo piscou algumas vezes, sentindo o gosto amargo do café em sua boca.
— Eu me lembro — respondeu, mesmo sem ter certeza de que queria.
Apollo ficou paralisado. A marca era familiar. Ele já a tinha visto antes. O estômago revirou quando as memórias, até então bloqueadas, começaram a emergir como se uma represa tivesse sido rompida. A imagem de uma criança surgiu em sua mente. Pequena. Frágil. Com olhos grandes e expressivos, um tanto assustados.
Sem perceber, ele deu um passo à frente. Seus dedos roçaram a pele quente de Xavier, sentindo a cicatriz sob sua palma.
Xavier estremeceu levemente com o toque inesperado, os olhos âmbar arregalando-se em surpresa. Não era comum Apollo tocar alguém dessa forma.
— Apollo…? — Xavier tentou falar, mas sua voz morreu quando Apollo ergueu os olhos para encará-lo.
Num impulso que nem ele próprio entendeu, Apollo segurou o rosto de Xavier com ambas as mãos, os polegares tocando sua mandíbula com firmeza.
— Eu me lembro — ele murmurou, sem desviar o olhar. — Eu sabia que aquele garoto existia, mas nunca soube o que aconteceu com ele. Não me preocupei… porque a família parecia adorá-lo.
Xavier piscou, confuso.
— Que garoto?
Apollo esboçou um sorriso fraco.
— Você.
Xavier sentiu o coração disparar, incapaz de encontrar uma resposta imediata. Pela primeira vez, Apollo não estava apenas encarando-o como um parceiro de missão ou um adversário difícil de lidar. Havia algo diferente ali, uma conexão que, talvez, sempre estivesse presente, mas que nenhum dos dois teve coragem de enxergar antes.
O silêncio pesou entre eles. O toque de Apollo sobre a cicatriz ainda queimava na pele de Xavier, não pelo contato em si, mas pelo que aquilo representava. Mas, de repente, como se um estalo cruel ressoasse em sua mente, Apollo afastou a mão, recuando como se tivesse tocado fogo. Seu olhar, antes perdido em uma névoa de memórias, se estreitou, tornando-se afiado.
Ele inspirou fundo, os ombros rígidos, a raiva e a frustração se condensando em seu peito.
— Não — murmurou, como se estivesse se convencendo de algo. Seu olhar perfurou Xavier, carregado de uma tempestade contida. — Você se tornou meu rival. Me odiou. Me perseguiu. Me acusou pela morte de Hazana sem hesitar nem por um segundo.
Xavier ficou tenso, mas não recuou. Seu maxilar se contraiu, seus punhos cerraram ao lado do corpo.
— Apollo…
— Não. Você me culpou, Xavier. Você tentou me matar. — A voz de Apollo ganhou um tom grave, cortante. Ele deu um passo à frente, obrigando Xavier a sustentar seu olhar. — Você se lembra? Porque eu me lembro de cada detalhe. Do cano da sua arma na minha cabeça. Do som da sua respiração pesada enquanto decidia se puxava ou não o gatilho. Da dor quando fui forçado a lutar por minha vida…
As palavras saíam de forma ríspida de sua boca, como algo que ele vinha segurando há muito tempo. Xavier permaneceu calado.
— E agora eu descubro que a pessoa que mais me odeia… — Apollo soltou uma risada curta, sem humor, desviando o olhar por um instante antes de encará-lo novamente. — Era o garotinho que eu salvei no passado.
O peso da revelação caiu sobre ele como uma rocha. Sua mente girava, conectando o passado ao presente de uma forma que o fazia se sentir enjoado. Ele voltou a encarar Xavier, e pela primeira vez viu não o homem à sua frente, mas a criança que ele havia segurado, protegendo-a do mundo cruel.
— Você era tão… frágil — ele murmurou, como se falasse para si mesmo. Seus olhos percorreram Xavier, analisando cada detalhe da figura que o encarava. — Como alguém assim se tornou esse poço de hostilidade?
Xavier não respondeu. Seu olhar vacilou por um instante, mas logo se fortaleceu, como se ele estivesse se segurando para não demonstrar qualquer fraqueza.
Apollo abriu a boca para dizer algo, mas então congelou. Uma memória recente o atingiu como um golpe certeiro.
Ele viu o garotinho, com olhos assustados e esperança ingênua, e logo depois viu a imagem de Xavier deitado na cama da boate, vulnerável, o corpo quente e trêmulo devido à droga que havia ingerido. Ele se lembrou de como precisou dormir com ele, de como Xavier buscou conforto inconscientemente, segurando-o como se ele fosse a única coisa segura naquele momento.
Apollo sentiu um arrepio frio percorrer sua espinha.
“Eu... com aquele menino…”
A constatação fez seu estômago revirar. A linha entre o passado e o presente se embaralhava de um jeito desconfortável, e por um momento ele se sentiu perdido.
Xavier, percebendo a mudança sutil em sua expressão, franziu a testa.
— Aconteceu algo?
Apollo não respondeu. Apenas desviou o olhar, engolindo em seco, enquanto tentava lidar com o peso sufocante da verdade que acabara de descobrir.
O silêncio no escritório era opressor. O ar carregava o peso das memórias que Apollo tentava sufocar e das verdades que se recusavam a permanecer enterradas. Seus pensamentos estavam caóticos, uma tempestade de frustração e dúvidas.
Como ele deveria agir agora? Como poderia se vingar de Xavier, sabendo que ele era o mesmo garoto que protegeu durante um ano?
Apollo pressionou os dedos contra a testa, tentando acalmar o turbilhão de emoções. Eles nunca foram exatamente próximos, mas, de alguma forma, ele gostava daquele garoto. Ainda lembrava de sua voz hesitante, de como segurava o próprio braço sempre que se sentia inseguro, de como olhava para Apollo como se ele fosse a única certeza em um mundo de incertezas.
E agora… ele se tornara Xavier. O homem que tentou matá-lo.
Seu maxilar se contraiu. A raiva fervia dentro dele, mas… se vingar? Como? Xavier já estava ali, já tinha se transformado naquilo que o mundo fez dele. O que foi feito não podia ser desfeito. O que restou do garoto… era apenas esse homem à sua frente.
O nome finalmente fazia sentido. Xavier.
Apollo soltou um suspiro pesado. Ele havia passado tanto tempo bloqueando memórias dolorosas que sequer percebeu que, no fundo, já sabia. Ele teve que dizer adeus àquela criança, mesmo sem perceber.
Quando seus olhos voltaram a Xavier, encontrou o loiro o observando com um olhar carregado de perguntas.
— Como Hazana poderia ter aquela marca? — Apollo perguntou de repente, tentando afastar os pensamentos sufocantes. Ele precisava se focar no presente. — Isso não faz sentido para o caso… a menos que…
A frase morreu em sua garganta quando um pensamento cruzou sua mente como um raio.
Se olharam ao mesmo tempo, os olhos arregalados refletindo o mesmo choque.
— Era uma rede. — Disseram juntos, as vozes se sobrepondo.
Um calafrio percorreu a espinha de Apollo. As peças finalmente começavam a se encaixar, mas a verdade era mais sombria do que imaginavam.
Eles se apressaram para os papéis espalhados sobre a mesa, examinando cada detalhe, cada informação. As evidências eram claras: a rede de tráfico infantil sequestrava crianças e as levava para prostíbulos. Mas havia algo ainda mais perturbador.
— vinte anos… — Xavier murmurou, deslizando um dos papéis para mais perto.
Apollo leu os arquivos, Todos os Assassinatos, tinha foco em jovens de cerca de vinte Anos.
— Elas eram sacrificadas... Ou melhor, apagadas.
Os dois se encararam, boquiabertos. O horror daquela descoberta os deixou tão absorvidos que sequer notaram a proximidade entre seus corpos. Apollo apoiou as mãos sobre a mesa, inclinando-se para ler melhor os documentos. Xavier fez o mesmo, sem perceber que estavam perto demais.
O som sutil de papéis deslizando foi o prenúncio do desastre.
Num piscar de olhos, a mão de Apollo — que até então tentava manter alguma dignidade sobre a mesa abarrotada — escorregou bruscamente nas folhas soltas, traindo qualquer tentativa de equilíbrio.
O mundo desacelerou. O tempo, cruel e debochado, decidiu assistir em câmera lenta.
O corpo de Apollo tombou como se a gravidade estivesse de brincadeira. Seus olhos encontraram os de Xavier no último instante, segundos antes de seus lábios colidirem — sem aviso, sem permissão, sem misericórdia.
Um toque inesperado, silencioso, carregado de tensão. O gosto leve de respiração contida. O calor estranho de algo que não deveria ter acontecido. E ainda assim, lá estavam eles.
Xavier arregalou os olhos. Um choque visível. Já Apollo… permaneceu inexpressivo. Frio. Rígido como mármore.
Ele recuou com calma, como se nada tivesse acontecido. Mas então, o destino — sempre cínico — tratou de complicar as coisas. Seu pé enroscou no tapete, e antes que pudesse corrigir a postura, caiu outra vez. Dessa vez, sobre Xavier.
O impacto os jogou ao chão com um baque seco e abafado.
Xavier grunhiu, tentando entender o que estava acontecendo, enquanto uma de suas mãos, num reflexo maldito, foi parar exatamente onde não devia — pousada firme na bunda de Apollo.
Ficaram imóveis.
O silêncio tomou o escritório. Não havia mais mistério a ser investigado ali — apenas o desconforto pairando no ar como um gás invisível.
Xavier engoliu em seco.
Apollo simplesmente se afastou. Sem alarde. Se levantou com elegância controlada, como se aquilo fosse apenas mais um item inconveniente no itinerário do dia.
Ele se ajeitou, passando a mão nas roupas amassadas, o rosto tão neutro quanto sempre. Nenhuma expressão de choque, vergonha ou raiva. Apenas aquele silêncio impenetrável.
— Isso foi... um acidente — Xavier disse, com a voz seca, sem saber onde enfiar a cara.
— Sim. — A resposta de Apollo veio baixa, direta. Sem inflexão. Como se estivesse confirmando um dado qualquer num relatório.
Xavier tentou rir, nervoso.
— Que… situação absurda.
Apollo apenas lançou um olhar de canto. Não havia sorriso. Nem reprovação. Apenas um aviso sutil nos olhos — o tipo de olhar que diz: “Não fale mais nada.”
E assim, ficou entendido.
O acidente seria enterrado. O toque ignorado. O beijo esquecido.
Mas, para os dois, aquela memória silenciosa continuaria ali — incômoda, latejante, e muito mais presente do que gostariam de admitir.
O escritório estava um caos. Papéis espalhados pelo chão, a mesa revirada, cadeiras fora do lugar. Mas o verdadeiro tumulto estava dentro de Apollo e Xavier.
Aquela situação jamais deveria ter acontecido.
Eles resolveram fingir que nada ocorreu, ignorar o calor que ainda pairava no ar, como se aquele beijo e o toque constrangedor fossem apenas delírios momentâneos. Nenhum dos dois se permitiu olhar nos olhos do outro por mais do que alguns segundos.
— Vamos organizar isso antes que alguém veja. — Apollo murmurou, pegando os papéis do chão com um pouco mais de força do que o necessário.
— Ótima ideia. — Xavier respondeu de forma seca, tentando agir normalmente, mas a tensão no ambiente tornava impossível.
Eles se concentraram na bagunça, cada um imerso em seus próprios pensamentos. A respiração de ambos ainda estava um pouco acelerada, e a cada vez que se moviam perto demais, seus corpos enrijeciam como se fossem polos opostos de um ímã tentando se repelir.
Foi quando a porta do escritório se abriu repentinamente.
O Major entrou com passos firmes, os olhos analisando a cena diante dele. Seu olhar alternou entre os dois, notando algo… diferente.
Eles não estavam brigando?
Aquela não era a primeira vez que os encontrava discutindo ou trocando farpas afiadas. Mas agora? O ar estava carregado com uma energia estranha.
Os olhos de Xavier e Apollo dispararam na direção do Major ao mesmo tempo, como se fossem duas crianças pegas no flagra.
— O que houve aqui? — O Major arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.
— Nada. — Responderam juntos, talvez rápido demais.
O Major franziu o cenho, desconfiado, mas decidiu não insistir. No fim das contas, o clima menos hostil entre eles já era um avanço.
Continua....
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Atualizado até capítulo 26
Comments
Juliana 🍓
gostou? 😂 Eu li novamente e percebi que preciso fazer alguns ajustes. mas que bom.
2025-03-23
1
♡ la vida en la muerte ♤
Caramba! Que capítulos!!!
2025-03-23
1