Quando o orgulho é maior que a Altura

                🦅 Capítulo⚔️ 4 🦅

Xavier manteve o rosto impassível, mas sentia a tensão se acumulava em seus ombros, uma sensação quase palpável enquanto encarava o Major Magnus. O homem o fitava com aquele olhar de raio-x, analisando cada movimento como se cada mínima reação sua fosse um enigma a ser desvendado.

- Estou apenas fazendo meu trabalho, senhor - respondeu, sua voz inexpressiva, quase mecânica, como se dissesse aquelas palavras por instinto, sem deixar espaço para mais indagações.

Magnus ergueu uma sobrancelha, seu corpo se tencionando ao cruzar os braços. O movimento, quase imperceptível, denotava uma mistura de desdém e curiosidade.

- Seu trabalho? - repetiu, a ironia transbordando. - Pelo estado deste lugar, diria que detonou uma granada e saiu de fininho.

Xavier levou um instante para responder, os olhos percorrendo o caos ao seu redor. O escritório estava completamente desordenado: papéis espalhados, móveis deslocados e uma trilha de sangue manchando o chão. Uma cena feia, mas que ele já conhecia bem demais

- Se eu tivesse jogado uma granada, senhor, a bagunça seria digna de um noticiário de guerra.

A resposta de Xavier foi seca, mas carregada da ousadia que sempre fazia Magnus apertar os lábios, tentando conter a frustração. Magnus avançou um passo, com sua presença ameaçadora. mas Xavier não se moveu, seu olhar desafiador fixo no do major.

- Acha que pode continuar agindo assim sem consequências, Capitão? - A voz de Magnus baixou um tom, carregada de firmeza e preocupação. - Já tem inimigos demais. Você precisa se cuidar. - O tom dele era o de alguém que, apesar da severidade, só queria protegê-lo.

Xavier manteve o olhar firme, sentindo a eletricidade no ar, como se cada palavra trocada fosse uma faísca prestes a desencadear uma explosão.

- Sei muito bem quem são meus inimigos, senhor. E tenho certeza de que eles também sabem exatamente quem eu sou. O que me deixa mais tranquilo.

O silêncio caiu pesado entre eles. Magnus estudou o capitão como se procurasse rachaduras, mas o Capitão não cedeu.

- Não me decepcione, Xavier - o major disse finalmente, a voz grave como uma sentença irremediável,Deu um passo para trás, os olhos carregando uma sombra de descontentamento. - Não pode continuar agindo como uma criança. Limpe este lugar. Agora. - Sua ordem cortou o ar deixando um peso sufocante no ambiente.

Com um último olhar carregado de reprovação, Magnus virou-se e saiu, deixando o capitão sozinho com o caos que ele mesmo havia criado, como uma tempestade que só agora começava a se dissipar.

Do lado de fora, a brisa fria trazia o aroma úmido da terra e das folhas que dançavam ao vento. O céu, tingido de um azul profundo e salpicado pela luz do sol, refletia a solidão que envolvia Apollo como uma sombra constante.

Encostado contra o muro da varanda, braços cruzados, ele fitava o horizonte com um olhar distante, mas Marco sabia que sua mente estava em qualquer lugar, menos ali. Não havia descanso naquela expressão vazia, apenas um silêncio pesado, como se algo o mantivesse aprisionado.

Marco observava a cena de longe, sentindo um aperto estranho no peito. Não era a primeira vez que via Apollo assim. Sempre sozinho. Sempre inalcançável. Ele já ouvira os cochichos dos outros detetives, as piadas carregadas de veneno, os julgamentos impiedosos sobre o homem que nunca se importava em se defender. "Ele é frio", diziam. "Arrogante. Sem coração."

Mas Marco via algo diferente. Talvez fosse coisa da sua cabeça, mas para ele, Apollo não parecia só frio. Ele parecia... quebrado.

Ele hesitou antes de se aproximar. Desde o primeiro dia, aprendera que demonstrar respeito por Apollo era motivo de repreensão. Os veteranos deixaram isso bem claro. Mas Marco nunca foi do tipo que recuava só porque diziam que era inútil tentar.

Respirando fundo, ele caminhou até a varanda, os passos ecoando levemente no assoalho.

Marco recostou-se casualmente à grade metálica, o olhar vagando pela paisagem antes de se voltar para a figura imóvel ao seu lado.

— Olha, eu entendo, você gosta desse teatrinho de ‘lobo solitário e inatingível’ — começou, cruzando os braços com um suspiro dramático. — Mas, sinceramente? Já tá ficando meio batido.

Nenhuma resposta. Nenhuma reação. Nem um mínimo desvio de olhar.

Apollo permanecia parado, braços relaxados ao lado do corpo, a postura rígida como se fizesse parte da estrutura da casa. Seu rosto era esculpido em indiferença absoluta, os olhos fixos em um ponto qualquer além da varanda, alheio à presença insistente ao seu lado.

Marco bufou, impaciente.

— Eu sei o que andam falando de você. — Lançou-lhe um olhar de canto, a voz carregada com um tom de provocação. — E, pra ser bem honesto? São um bando de completos imbecis.

Houve um movimento. Quase imperceptível, mas Marco percebeu: um sutil desvio dos olhos de Apollo, rápido o bastante para ser negado, mas presente o suficiente para ser notado.

— Você está atrapalhando a quietude do lugar. — A voz de Apollo saiu baixa, arrastada, sem emoção.

Marco arqueou uma sobrancelha. Não era exatamente uma resposta calorosa, mas, vindo de Apollo, já era quase uma confissão de que estava ouvindo.

— Sei lá… achei que alguém devia dizer.

Apollo suspirou, desviando o olhar como se aquela conversa já tivesse ultrapassado sua cota de paciência para interações humanas.

Marco, no entanto, nunca foi do tipo que sabia a hora de recuar.

— Você sabe que não precisa ser rígido o tempo todo, né?

Dessa vez, Apollo virou-se para encará-lo de frente.

Seu olhar era afiado e carregado com uma ameaça silenciosa, como se cada segundo que Marco permanecesse ali fosse um teste de resistência.

— Você deveria voltar. Se quer conversar, procure seus amigos. Essa pessoa não sou eu.

Marco piscou. A resposta cortante atingiu seu ego, mas, ao invés de se intimidar, ele soltou um riso breve, balançando a cabeça.

— Uau. Direta e fatal. Vou anotar essa pra afastar pessoas inconvenientes.

O que era engraçado, considerando que, naquele momento, ele era a pessoa inconveniente.

Apollo, previsivelmente, não reagiu. Apenas se afastou, atravessando a varanda com passos firmes, desaparecendo pela porta sem sequer um olhar de despedida.

Marco permaneceu parado por alguns segundos, encarando a madeira escura da porta fechada com um misto de frustração e resignação.

Ele soltou um longo suspiro.

— Eu só queria ajudar… — murmurou, deixando o peso daquela interação fracassada se instalar sobre seus ombros.

Então, ergueu um dedo no ar, como se falasse diretamente para um público invisível:

— Alguém me lembra por que mesmo eu tento ser legal?!

O tom exageradamente dramático fez eco na varanda vazia, misturando-se ao som distante dos grilos. Se houvesse plateia, esperava pelo menos uma risada solidária.

Mas ele já sabia a resposta. Sempre soube.

E, gostando ou não… ele voltaria a tentar.

Marco se dobrou sobre a grade da varanda, os braços apoiados nela, enquanto seus olhos vagavam pelo horizonte. O vento suave balançava suas roupas, mas sua mente estava em um turbilhão. Ele suspirou profundamente, tentando organizar os pensamentos que se misturavam como um quebra-cabeça. Algo sobre Apollo ainda o atormentava.

Apesar de todo o controle que o capitão demonstrava, seus olhos, aqueles olhos cinza que agora parecia esconder uma tempestade, diziam mais do que sua expressão fria jamais poderia revelar. Marco sabia, sentia, que havia algo quebrado dentro de Apollo.

Ele era bom em perceber isso. Afinal, crescera em uma família rodeada por discussões sobre sentimentos, gestos, e tudo o que os seres humanos tentavam esconder de si mesmos. Era como se sua própria vida fosse um exercício contínuo de entender o que os outros não conseguiam dizer com palavras.

Mas, ironicamente, quando se tratava de seus próprios sentimentos, Marco se perdia. Ele sentia como se fosse o único que não conseguia decifrar o que realmente sentia, e isso o incomodava. Com Apollo e outras pessoas era diferente. O que ele via era mais complexo do que ele sabia lidar. Era um equilíbrio delicado entre admirar e entender.

Então, enquanto se perdia nesses pensamentos, sua visão se fixou em alguém que chegava de longe. Thaddeus estava se aproximando, e de repente, sua mente o levou de volta para o beijo que havia acontecido. Acidentalmente, claro. Marco engoliu em seco. O pânico tomou conta de suas reações, ele sentiu como se tivesse engolido um pedaço inteiro de pedra.

— Como aquilo tinha acontecido? Ele, o detetive observador, havia beijado aquele gorila, tudo por culpa de uma confusão de movimentos. — Foi um acidente! Eu só estava tentando chamar o Major! Como ele apareceu na minha frente daquele jeito? — O pensamento parecia irreal, como se ele estivesse em um pesadelo. Marco passou a mão pela testa, tentando afastar o desconforto crescente.

Quando Thaddeus o olhou, o impacto foi imediato. Seus olhos brilhavam, como se estivessem rindo do acontecido. Marco, com a respiração trancada na garganta, se perguntou se thaddeus se lembrava. Mas então, o homem perguntou, com aquele tom de provocação que sempre usava:

- Por que está me encarando assim, Marco? Parece que viu um fantasma.

Ele deu um suspiro profundo, pensando que estava fora de perigo. — Ele não se lembra! — Um peso se aliviou do seu peito, e Marco relaxou. Mas sua confiança durou pouco, porque Thaddeus, com um sorriso de quem tinha algo na manga, falou com a voz grave e cheia de sarcasmo:

— Para de me olhar assim! Minha boca não é tão radioativa a ponto de precisar de descontaminação depois do que aconteceu. Se fosse, eu já teria derretido sua cara!

As palavras de Thaddeus atingiram Marco como uma flecha, e o alívio foi imediatamente substituído por um nervosismo imenso. Ele se lembra.

- Você é um idiota, Thaddeus! Marco gritou, irritado. - Aquela coisa foi um acidente! Eu estava tentando chamar o Major e você se meteu no meu caminho. Não foi minha culpa!

Thaddeus não se intimidou. Ele cruzou os braços e sorriu, dando de ombros, como se estivesse mais se divertindo do que levando qualquer coisa a sério. —  Claro, Marco, a culpa é minha, né? Eu só apareci ali para você me dar um beijo. Acho que vou precisar de um aviso da próxima vez para não me meter no seu caminho.- se virando para sair.

Marco resmungou, com a cara vermelha de raiva. Isso não vai ficar assim. Ele se sentia tão pequeno diante de Thaddeus, mas também tão impotente diante da situação, que simplesmente não conseguiu controlar seus impulsos.

Com uma expressão determinada, Marco se levantou e correu atrás dele. Ele não ia deixar aquilo barato.—  Eu vou pegar ele.

Thaddeus olhou por cima do ombro e gritou, em tom brincalhão: - Cuidado, anão! Não faz ideia de com quem está mexendo!

—  Anão... Marco parou imediatamente. Aquela palavra, dita com tanto deboche, fez seu sangue ferver.- Eu sou pequeno, mas não sou um idiota. Pensou. O ódio por ser chamado assim, por ser diminuído, o consumiu. Ele acelerou os passos, determinado a alcançar Thaddeus, mas isso só fez a pessoa a sua frente correr ainda mais rápido, rindo da situação.

A vizinhança assistia à cena com divertimento. Aos olhos deles, Marco e Thaddeus pareciam irmãos brigando, correndo pelo jardim como se estivessem em uma disputa de infância. Mas, para Marco, aquilo não era nada infantil. Era uma questão de orgulho. Ele não ia deixar-lo sair vitorioso.

Thaddeus, no entanto, era mais rápido. Mas, por alguma razão, ele parecia se cansar muito rapidamente. Marco, com uma explosão de energia, o alcançou finalmente, e, com um movimento rápido, se atirou sobre Thaddeus, derrubando-o no chão.

Marco ficou por cima dele, respirando pesadamente, Mas Em um movimento ágil, Thaddeus agora estava encima dele, com um sorriso vitorioso. Marco se debateu, tentando recuperar o controle da situação,E thaddeus o observava com uma expressão divertida e desdenhosa.

- Você é muito pequeno para tentar me intimidar, Marco, Thaddeus disse, enquanto se levantava. - Mas achei fofo, de qualquer forma.

Marco se arrastou no chão, irritado. - Isso não é justo! Eu vou te mostrar! Ele começou a se levantar, xingando de várias maneiras possíveis, o corpo ainda pesado de frustração.

- Vai lá, Marco. Eu fico aqui, esperando. Se quiser tentar aquilo "de novo," Thaddeus provocou, antes de caminhar para longe, deixando Marco ali, com o sangue fervendo e o ego ferido.

Ele estava sentindo-se ridículo, uma coisa estava clara: ele não tinha nem ideia do que estava acontecendo, mas estava pronto para continuar a briga. Afinal, Thaddeus não ia se sair tão bem da próxima vez.

Mas essa não era a hora de pensar sobre isso, Marco estava agora sentado na sala de operações, seus olhos ainda fixos nas telas de monitoramento, quando o som do celular cortou a tensão. A tela do aparelho exibia um número desconhecido. Ele hesitou por um instante, mas atendeu. A voz do outro lado era distorcida, abafada, quase ininteligível.

- Eu tenho algo importante para você... É sobre a missão. Encontre-me em três horas, no ponto habitual.-A voz era fria, calculista. Algo estava errado. Marco sentiu uma pontada de desconfiança e olhou ao redor, mas os outros agentes estavam focados em suas tarefas, como sempre.

- Quem é você? - Marco perguntou, tentando ouvir mais atentamente, mas a voz se distorceu ainda mais.

- Não há tempo para perguntas. Vai ser melhor assim. Confie em mim.

A linha caiu abruptamente, deixando Marco em um estado de alerta. Ele não conseguiu evitar o frio que percorreu sua espinha. Algo não estava certo. A voz não era familiar. Não era como as que ele normalmente ouvia nos encontros com informantes ou nas negociações com aliados.

Ele se levantou, com um peso crescente no peito, e foi direto até os outros agentes. A expressão de todos era séria. Catarina,e Thaddeus o olhavam com a atenção de quem sabia que algo estava prestes a acontecer.

- O que foi, Marco? - perguntou thaddeus, quebrando o silêncio.

- Acabei de receber uma ligação. Era um informante, mas a voz... a voz estava estranha. Não consegui reconhecê-la. Ele disse para encontrá-lo em três horas. Acho que algo não está certo.

Thaddeus franziu a testa, pensativo, enquanto Catarina apenas balançava a cabeça, nervosa.

- Precisamos investigar isso. - Catarina disse, a determinação em sua voz era evidente.

- Exatamente. Vamos planejar o encontro. - completou outro agente - Marco, você vai estar com uma escuta. Vamos monitorar tudo de perto, não a o que temer.

A tensão aumentava. Marco sentia o peso da responsabilidade. Ele sabia que algo estava errado, mas não conseguia identificar exatamente o que. Ele estava prestes a caminhar para algo desconhecido, algo que poderia mudar tudo.

Três horas depois, ele chegava no local indicado. Uma rua isolada, iluminada por um único poste, e a luz da lua. Ele respirava fundo, tentando afastar a ansiedade que começava a se infiltrar. A cada passo que dava, o som de seus sapatos no asfalto parecia ecoar, quebrando o silêncio imenso ao seu redor.

Ele parou diante de uma entrada estreita, onde uma figura se aproximava lentamente das sombras. O homem estava de costas, usando um capô que cobria a maior parte de seu rosto. Marco sentiu o peso da situação. A escuta, que estava escondida sob sua jaqueta, transmitia todo o som para a equipe que estava escondidos em uma Van de cosméticos, poucos metros atrás.

O homem não disse uma palavra, apenas estendeu a mão e entregou-lhe um pedaço de papel amassado. Marco, desconfiado, observou por um momento a figura, que continuava em silêncio. O homem se virou lentamente, dando as costas a Marco. Então ele olhou para o papel, mas antes de abri-lo, algo em sua mente começou a disparar alarmes.

Ele teve uma estranha sensação de déjà vu, como se já tivesse visto aquele homem antes, mas não conseguia identificar onde. O pensamento o incomodava enquanto ele desdobrava o papel. Apenas códigos estavam escritos nele, uma sequência de números e letras. Nenhuma explicação, nenhum nome, apenas aqueles símbolos enigmáticos que pareciam tão familiares quanto incompreensíveis.

Com um suspiro pesado, Marco dobrou o papel e o guardou no bolso. O homem, sem dizer uma palavra sequer, desaparecua na escuridão da rua. Marco ficou ali, parado por um instante, tentando reunir seus pensamentos. Algo estava errado, mas ele não sabia o que. A sensação de que estava lidando com algo maior do que imaginava crescia a cada segundo.

Ao se virar, esbarrou acidentalmente em uma figura. Olhou para cima, surpreso. Era um homem. Marco, sentiu uma sensação estranha de familiaridade. O homem fez um gesto com a cabeça, como se o reconhecesse, mas não disse uma palavra. Ele sentiu um arrepio percorrer sua espinha, mas ignorou os pensamentos que surgiam e se afastou rapidamente.

No caminho de volta até a van, o peso da situação aumentava a cada passo. Ao entrar, ele foi recebido pelo olhar atento dos outros agentes, que aguardavam ansiosamente.

Marco olhou para o papel guardado no bolso, ainda sentindo a estranha inquietação no fundo de sua mente.

- Ele não falou nada. Só me entregou isso. - Marco respondeu, com a voz um tanto vacilante. Ele retirou o pedaço de papel e o colocou sobre a mesa. Todos se inclinaram, tentando decifrar o que estava escrito.

- Códigos? - Thaddeus perguntou, franzindo a testa.

- Sim... Eu sou especialista nisso. Vou resolver. - Marco disse, tentando soar confiante, mas a sensação de que estava lidando com algo muito mais profundo e perigoso não saía de sua mente.

Os outros agentes o olharam, confiando nele para solucionar o mistério. Mas no fundo, Marco sabia que este era apenas o começo de algo muito maior.

Ao chegar, ele se inclinou sobre o papel, seus dedos tremendo levemente enquanto percorriam os códigos. O som dos cliques das teclas preenchia o silêncio ao seu redor, cada símbolo começando a se encaixar em sua mente como peças de um quebra-cabeça mortal. Em poucos segundos, uma mensagem se revelou, simples, direta, mas que fez seu estômago revirar.

" Você está em perigo."

As palavras se repetiam em sua mente, como um eco ameaçador. Um presságio de algo muito mais sombrio, prestes a se desdobrar diante dele.

- Mas o que isso tem a ver com a missão? A dúvida se instalou, pesada e insuportável. - Será que o assassino já sabe que estamos investigando? - Mas o papel não especificava nada. Parecia que a informação era destinada apenas para ele.

Uma sensação estranha o envolveu, como se algo estivesse à espreita, observando, esperando o momento certo para agir. Exausto e com a mente repleta de pensamentos turvos, Marco sentiu que precisava fazer uma pausa. Algo lhe dizia que aquela sensação incômoda de que algo ruim estava prestes a acontecer não iria embora tão facilmente, mas talvez, apenas talvez, uma doce sobremesa pudesse aliviar o peso que se acumulava em seu peito.

Ele sabia que a suavidade e a textura delicada do doce poderiam oferecer um breve refúgio, uma fuga temporária da tempestade que se formava em sua mente. Marco adorava doces, e, naquele momento, a promessa de sabor doce e aconchegante parecia ser a única coisa capaz de acalmar a inquietação que o consumia. Ele se lembrava da sobremesa que tinha guardado com carinho, um pequeno consolo esperando por ele. Mas...

A cozinha encontrava-se imersa num silêncio, interrompido apenas pelo som ocasional das gotas que caíam sobre os talheres na pia e pelo murmúrio constante do refrigerador. No ar, o doce aroma da sobremesa persistia, como se zombasse da gravidade do iminente confronto.

Marco, de braços cruzados e com um olhar irritado, fitava Thaddeus com a convicção de um juiz prestes a proferir seu veredito. Sua voz, firme e impregnada de desconfiança, cortou o silêncio:

- Você comeu a minha sobremesa sem minha permissão!?

Reclinando-se com a indiferença de quem está acostumado ao absurdo, Thaddeus ergueu uma sobrancelha em resposta, o sorriso irônico surgindo timidamente no canto de sua boca.

- Eu? - respondeu, com um tom baixo e carregado de desdém. - Jamais tocaria em nada seu. Não pretendo me contaminar com a sua idiotice.

No instante seguinte, o sangue de Marco ferveu. Ele estreitou os olhos e cerrou os punhos com tanta força que parecia que poderia esmagar até o mais leve sussurro de provocação.

- Está me chamando de o quê, exatamente? - retrucou, a voz carregada de ameaça.

Aproveitando sua vantagem de estatura, Thaddeus endireitou-se e deu um passo à frente. Sob a luz fria da cozinha, os contornos de seu rosto ganharam traços quase esculpidos, enquanto ele inclinava a cabeça, encarando Marco com um olhar repleto de pura insolência.

- Você entendeu.

Num piscar de olhos, antes que Marco pudesse formular outra palavra, um golpe seco ressoou - o cascudo de Thaddeus atingiu sua cabeça com precisão. Esse foi o estopim.

A raiva de Marco explodiu como um trovão em plena tempestade. Sem pensar duas vezes, ele se lançou com a agilidade de um felino acuado e desferiu um chute certeiro entre as pernas de Thaddeus.

O impacto foi doloroso: o ar escapou dos pulmões de Thaddeus em um arquejo abafado, seus olhos se arregalaram em choque e, por um breve instante, o mundo pareceu girar antes que seu corpo cedesse à dor. Ele caiu de joelhos, depois se arrastou até a bancada, lutando para recompor o fôlego enquanto a dor se espalhava como ondas implacáveis.

- Seu... desgraçado...! - Thaddeus conseguiu cuspir, a voz embargada pelo sofrimento.

Enquanto isso, Marco ajeitou sua jaqueta, respirou fundo como se tivesse acabado de eliminar uma ameaça de proporções épicas e, com um brilho triunfante nos olhos, declarou:

- Da próxima vez, pense duas vezes antes de fazer piada com a minha altura.

Sem dar outra olhada, ele girou nos calcanhares e saiu, deixando para trás um eco de silêncio e o som baixo dos praguejos de Thaddeus, que tentava desesperadamente recuperar sua dignidade no chão frio de cerâmica.

Minutos depois, Catarina adentrou o cômodo e congelou na porta, surpresa ao deparar-se com o caos. Seu semblante logo se transformou numa risada divertida e maliciosa.

- Eu avisei que não devia brincar com o Marco - disse ela, cruzando os braços com um brilho travesso nos olhos. - Você realmente mereceu isso.

Thaddeus lançou um olhar fulminante na direção dela, mas qualquer tentativa de resposta foi rapidamente abafada por outro gemido de dor. Catarina, imperturbável, pegou uma colher da gaveta, serviu-se de um pedaço da tão disputada sobremesa e saiu, ainda rindo como se nada pudesse ofuscar a comédia da situação.

Após se afastar da cozinha onde deixara Thaddeus, Marco seguiu pelo corredor com passos lentos, quase arrastando os pés, como se o peso da dúvida superasse a urgência de seus movimentos. Seus pensamentos estavam dispersos, imersos na mensagem enigmática que acabara de receber.

Cada palavra reverberava em sua mente, entrelaçando-se com memórias de um passado distante. De repente, como um clarão inesperado, a imagem do homem misterioso que aparecera logo após a leitura do bilhete irrompeu em sua consciência.

O olhar frio e penetrante do desconhecido, os traços marcados e a postura firme evocavam uma estranha familiaridade, como se ele já tivesse cruzado o caminho de Marco em algum outro momento.

- Por que sinto que já vi essa pessoa? - murmurou Marco para si mesmo, enquanto a dúvida ardia intensamente em sua mente. A sensação era desconcertante, similar a uma memória prestes a emergir das sombras, mas que permanecia oculta. Havia algo naquele homem, talvez em seus olhos, que tentava despertar uma lembrança esquecida.

Apesar de seus esforços para dissipar a inquietude, quanto mais Marco tentava, mais vívida se tornava a imagem, tecendo uma complexa rede de mistério que o envolvia cada vez mais.

Continua...

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