o Propósito que Nos Guia, O Desafio que Nos Define

                    🦅 Capítulo⚔️ 2 🦅

O impacto foi brutal, arrancando-lhe o ar de forma violenta. Imóvel, ele ficou ali, seu corpo esmagado contra o chão gelado, enquanto uma onda de dor e desespero o consumia, apertando-lhe o peito com um peso insuportável. Seu olhar turvo, afogado em agonia, se perdeu no vazio, enquanto sua mente se afundava em um oceano sufocante de melancolia. Mas, por trás da fraqueza, algo despertava—um desejo sombrio e imenso. Ele não queria apenas que a dor cessasse. Queria que aqueles que o destruíram desaparecessem. Para sempre.

⋅•⋅⊰⋅✦⋅⊱⋅•⋅

Apesar do cansaço e da mente saturada de pistas desconexas, ele manteve a postura rígida, as mãos firmemente plantadas sobre a mesa, enquanto examinava os documentos espalhados à sua frente. O peso das palavras que ouvira ainda ecoava em sua mente, uma pressão constante entre suas costelas, apertando o peito. Ele não queria essa missão. Ou, melhor dizendo, não queria ser manipulado para aceitá-la. Mas a lógica da situação não deixava espaço para objeções.

Os assassinatos continuavam. O nome dele ainda estava manchado. Cada passo dado até ali apenas arranhava a superfície de uma verdade mais profunda, mais perigosa. E agora, diante dele, havia uma oportunidade—ou uma armadilha.

O olhar de Apollo deslizou lentamente dos documentos empilhados sobre a mesa até a figura à sua frente. Seus olhos se estreitaram, carregados de cautela.

— Parece que você está tentando controlar minha vida. — Sua voz soou baixa, mas afiada.

Do outro lado da mesa, o Major manteve-se impassível. Seu olhar firme não vacilou ao encarar Apollo, e sua postura reta transparecia a autoridade que carregava. Com um pequeno gesto, deslizou os documentos na direção do Capitão, os dedos batendo suavemente na borda do papel.

— Suas preocupações são compreensíveis — começou ele, o tom de voz controlado, sem qualquer traço de hesitação. — No entanto, essa missão não se trata de controle, mas de verdade. Se há alguém capaz de desenterrar o responsável por esses assassinatos, esse alguém é você.

Apollo cerrou os punhos sobre a mesa, os nós dos dedos se destacando sob a pele. Sua mandíbula se retesou, evidenciando a luta interna entre a relutância e o dever.

— Hazana morreu porque chegou perto demais — disse ele, cada palavra carregada de uma frustração contida. — Eu também estou envolvido nisso. E sinceramente? Trazer mais pessoas para essa investigação só aumenta a contagem de corpos.

O Major inclinou-se levemente para frente, apoiando os antebraços sobre a mesa, um gesto sutil, mas suficiente para impor sua presença. Seus olhos permaneceram fixos nos de Apollo, atentos a cada mínima reação.

— Justamente por isso estamos operando em absoluto sigilo — retrucou com firmeza. — Todos os envolvidos terão novas identidades, estarão sob proteção do governo. Nenhuma informação sairá deste círculo. Para isso, precisamos dos melhores. E você faz parte dessa equipe.

Apollo desviou o olhar por um instante, os lábios se comprimindo em uma linha rígida. Sua respiração se aprofundou, como se tentasse dissipar o peso daquela decisão antes mesmo de tomá-la.

Ele sabia que seu avô tinha influência sobre essa escolha, mas, acima de tudo, sabia que essa poderia ser sua única chance de provar sua inocência.

Finalmente, soltou um longo suspiro e pegou os documentos, seus olhos correndo pelas palavras impressas, mesmo que sua mente já tivesse feito a escolha.

— Certo — murmurou, com a voz carregada de resignação. — Mas, se isso der errado, o sangue dessas pessoas estará em nossas mãos.

O Major apenas assentiu, um brilho sutil de aprovação em seu olhar. O jogo estava em movimento.

A operação exigia uma fachada impecável, e a equipe de nove agentes foi designada para se infiltrar como uma família comum na pequena vila, situada no coração da cidade, longe da base militar. O Major Magnus, agora assumindo a identidade do "Sr. Rubens", era um viúvo de aparência frágil e saúde debilitada, vivendo de forma humilde com seus nove filhos. Cada um dos membros da família desempenharia um papel crucial para manter a verossimilhança do disfarce.

Os filhos do "Sr. Rubens" eram mecânicos, simples trabalhadores de uma pequena oficina localizada nos arredores da vila. As roupas usadas por eles eram modestas e sujas de graxa, um reflexo de seu cotidiano. Os cabelos desarrumados e as mãos marcadas pela sujeira e pelas ferramentas, passavam a imagem de uma família comum, sem grandes aspirações, apenas focada no trabalho árduo. Eles eram treinados para agir como se fossem filhos de um pai doente, e as interações entre eles seriam cuidadosamente elaboradas para evitar qualquer deslize.

Cada um dos filhos teria uma personalidade única, mas todos compartilhariam a essência da simplicidade e do esforço constante. O mais velho, um rapaz forte e calado, faria o papel de quem cuida da oficina e toma as rédeas da família. O mais novo, inexperiente, seria o mais vulnerável, sempre buscando aprender o ofício. A esposa falecida de "Sr. Rubens" nunca seria mencionada diretamente, mas sua ausência seria visível, com o velho mecânico sempre se referindo à ela de maneira melancólica, talvez com um olhar perdido, como alguém que ainda sente a falta da companheira.

A vila, pacata e cheia de rostos amigáveis, serviria de fachada perfeita. Os moradores já estavam acostumados com o movimento diário de trabalhadores suados e vestidos de maneira simples, de modo que a presença da "família Rubens" seria apenas mais uma entre várias outras. O segredo do disfarce estava na normalidade, em manter as aparências e evitar qualquer suspeita.

A autenticidade de cada detalhe era essencial. O comportamento, a forma de vestir, os hábitos cotidianos – tudo deveria refletir a vida de uma família simples, sem levantar suspeitas, mas sempre alertas, observando as movimentações ao redor enquanto se adaptavam à sua nova vida disfarçada.

A operação começou com a negociação para alugar a casa, uma peça chave em um plano meticulosamente arquitetado. Em um dia específico, um caminhão descarregou móveis antigos comprados em mercados de segunda mão, um detalhe crucial para a credibilidade do disfarce. Os vizinhos, alheios ao verdadeiro propósito de tudo aquilo, aguardavam a chegada dos novos moradores.

Na manhã seguinte, o Major estava impecavelmente posicionado na entrada da residência, observando atentamente a chegada dos agentes. Sabia que os olhares curiosos dos vizinhos estariam sobre ele, e isso fazia parte da estratégia que estabeleceu.

Um a um, os agentes chegaram ao local.

A primeira impressão causou murmúrios entre as moradoras locais. Mesmo com roupas simples, os jovens agentes mantinham uma postura disciplinada, e suas formas atléticas não passavam despercebidas. As vozes e olhares discretos rapidamente percorreu a vizinhança.

Por fim, Apollo, com passos lentos, desembarcou do táxi e se dirigiu até a casa. Seu porte, menos imponente que o dos outros, era marcado por uma presença serena e imperturbável, transmitindo uma sensação de controle absoluto, que contrastava com a rigidez dos outros agentes, mas era igualmente eficaz para o propósito da missão.

— Precisávamos parecer tão desprovidos de recursos? — questionou, analisando o estado precário da residência.

O Major, mantendo o olhar fixo, esboçou um sorriso de canto, como se tivesse esperado aquela pergunta.

A operação finalmente estava em curso. — Entre, Apollo. Alguns dos seus irmãos já estão no andar de cima, escolhendo seus espaços. E não se preocupe, meu filho! — disse ele, com um tom zombeteiro, pousando firmemente a mão sobre o ombro de Apollo. — Não há fantasmas por aqui.

A ironia foi clara, mas Apollo, com um suspiro abafado, ignorou-a antes de atravessar a entrada da casa.

O ambiente era claustrofóbico. Cômodos apertados, desordenados, onde a falta de cuidado tornava cada detalhe mais repulsivo. A decoração, sem qualquer tentativa de harmonia, exalava uma sensação de abandono, enquanto o cheiro de mofo invadia o ar e se grudava nas paredes gastas, como um fantasma persistente.

No instante em que entrou no quarto onde passaria as noites, encontrou três jovens já instalados. Assim que notaram sua presença, se apressaram para saudá-lo, mas Apollo foi rápido em cortar a cerimônia:

— Respeitem seus superiores, mas lembrem-se: nesta situação, somos irmãos. Estamos infiltrados, e a fachada que sustentamos é a de uma família. Demonstrar subordinação assim pode levantar suspeitas e comprometer a missão. Evitem isso na frente de outras pessoas.

A reprimenda os pegou de surpresa. O entusiasmo se desfez em olhares contidos, e o silêncio que se seguiu carregava um peso desconfortável. Para aqueles detetives mais jovens, Apollo não parecia apenas rígido, mas arrogante. O tipo de líder difícil de se bajular.

Ele, no entanto, não se preocupou em suavizar suas palavras ou justificar sua atitude. Nunca o fazia. Não por prepotência, mas porque já aprendera que nem sempre haveria tempo para explicações.

Ignorando os olhares atravessados, Apollo se dirigiu ao fundo do quarto e escolheu um dos beliches superiores. Os outros já haviam se dispersado quando ele começou limpar o lugar. Arejou o espaço, eliminando o cheiro pútrido de mofo que impregnava cada canto. A conformidade do ar era insuportável, e ele não aceitaria passar as noites sufocado pelo peso da degradação ao seu redor.

O que o aguardava naquela missão ainda era um mistério. Mas, se já começava assim, Apollo tinha certeza: não seria fácil

O ambiente finalmente parecia limpo, mas ele não. O cheiro de suor impregnava sua pele, grudando como um lembrete do cansaço e do peso daquela missão. Caminhou até o banheiro minúsculo no canto do quarto, um espaço apertado, sufocante, que mais lembrava um depósito improvisado do que um lugar para se lavar.

Sem alternativas, despiu-se e entrou debaixo do chuveiro. A água que caía sobre ele não trouxe alívio. Ao contrário, parecia aumentar o peso que ele já carregava. Limpar-se da sujeira do dia era inútil—porque a sujeira que ele realmente precisava purificar nunca sairia, nem com água quente, nem com o tempo. Assim como a missão à sua frente, seu fardo era pesado e inevitável.

O cheiro de graxa impregnava o ambiente, misturando-se ao leve aroma metálico das ferramentas espalhadas sobre a mesa de centro, no andar de baixo. lembrando a todos que aquele lugar não era apenas um disfarce—era sua nova realidade.

No centro da sala, o major mantinha sua postura, os olhos percorrendo cada um dos agentes reunidos diante dele. Seu tom era controlado, mas carregado da autoridade que vinha de anos de comando em operações secretas.

— A partir de agora, somos mecânicos. Nossa missão é infiltrar, observar e coletar informações sem levantar suspeitas.

O grupo manteve-se em silêncio, atento. Alguns ajustavam seus uniformes improvisados, ainda se acostumando à ideia de desempenhar um papel tão distante do que estavam habituados. Então, um dos agentes, jovem e nitidamente desconfortável, ergueu a voz:

— Senhor, com todo respeito… nós não sabemos nada sobre motores. Eu, por exemplo, mal sei diferenciar uma chave de fenda de uma inglesa. Como vamos consertar algo que nem entendemos?

O major permitiu-se um pequeno sorriso. A preocupação era legítima, mas ele já tinha a resposta preparada.

— Vocês não precisarão consertar nada de fato. Dois mecânicos experientes estarão entre nós para realizar os reparos reais. Nosso papel é simples: manter as aparências. Se alguém perguntar, mexemos em fios, limpamos peças, anotamos números. Se precisarem de ajuda, observem e imitem. O importante é sermos convincentes.

Os agentes trocaram olhares. O alívio era evidente. O disfarce era funcional e permitia que focassem na verdadeira missão sem comprometer sua segurança.

O major deu um passo à frente, adotando um tom mais estratégico:

— Dividiremos a missão em três frentes principais.

Ele ergueu um dedo, enfatizando a primeira:

— A equipe da oficina. Eles ficarão no dia a dia do trabalho, integrando-se ao ambiente e coletando informações diretamente dos clientes e funcionários locais. Qualquer detalhe pode ser útil—quem vem, quem sai, o que perguntam, o que evitam dizer.

Ergueu um segundo dedo:

— A equipe de pesquisa e análise de dados. Essa equipe ficará encarregada de cruzar informações obtidas no campo com nossos arquivos internos. Queremos identificar padrões, possíveis ligações suspeitas e pistas que nos levem ao alvo.

Por fim, ergueu um terceiro dedo:

— Monitoramento do perímetro. Essa equipe será responsável pela vigilância externa, garantindo que ninguém esteja nos observando enquanto observamos os outros. Qualquer movimentação estranha deve ser reportada imediatamente.

O ambiente ficou silencioso por alguns instantes. O peso da missão se fazia sentir sobre os ombros de cada um.

Então, uma nova pergunta surgiu da equipe:

— Senhor, onde realizaremos as pesquisas? A casa não tem estrutura para suportar uma base de operações.

O major assentiu levemente. Ele já havia considerado isso.

— Utilizaremos a própria oficina. Há um espaço nos fundos que pode ser convertido sem levantar suspeitas. Computadores, arquivos e equipamentos de comunicação serão discretamente armazenados ali. Qualquer peça de motor pode esconder um transmissor, qualquer caixa pode ocultar documentos. Ninguém desconfiará.

A resposta foi suficiente. Os agentes assentiram, compreendendo a importância de cada detalhe.

— Amanhã começa o jogo real. A partir do momento em que pisarmos nesta oficina como mecânicos, não haverá margem para erros. Se alguém suspeitar, toda a operação desmorona. Se tivermos sucesso, poderemos desmantelar essa rede criminosa de dentro para fora.

Os agentes se dispersaram, subindo para o segundo andar da casa improvisada como quartel-general. O local era simples, funcional. Três pequenos quartos divididos de forma estratégica: um reservado ao major, outro para as detetives da equipe, garantindo privacidade e segurança, e o último, compartilhado pelo restante do grupo.

A noite caiu silenciosa sobre a base. No dia seguinte, cada um deles acordaria como um novo personagem, um mecânico qualquer em meio a uma rede de segredos.

A missão estava apenas começando, mas a tensão já se fazia sentir. Cada movimento precisaria ser calculado. Qualquer deslize poderia custar caro.

E, naquele lugar sufocante, entre motores e madeira podre, uma verdade silenciosa pairava sobre todos eles: nem toda sujeira poderia ser lavada.

Os mais jovens foram entrando, espalhando-se pelos espaços vazios como se já lhes pertencessem, tomando posse automática do que encontravam. O ambiente, antes silencioso, agora vibrava com vozes desencontradas, risadas dispersas e conversas sem rumo.

O vapor do banho ainda nublava o reflexo do espelho. quando ele saiu do banheiro. O calor repentino da água não foi suficiente para afastar o frio que sentia no peito. Assim que pisou no dormitório, os olhares recaíram sobre ele. Não foram diretos nem desafiadores, mas existiam—pesando sobre seus ombros como um lembrete de que ele era diferente. Fingiu não perceber, caminhando até a cama, Envolto apenas na toalha.

Para alguém como ele, que não suportava o atropelo de vozes em uníssono, aquilo era um tormento. Mas não havia espaço para reclamações. Aquele não era um abrigo particular — era um território compartilhado, e ele teria que lidar com isso.

Sem pressa aparente, mas com uma urgência, Apollo se aproximou de sua bolsa, revirando-a em busca de uma peça íntima. Ele sabia o que estavam olhando. Sabia que, assim como sempre, ele era um alvo. O mesmo olhar carregado de julgamento e desejo que ele tentava ignorar, mas que sempre se refletia no espelho — lembrando-o do peso da diferença que carregava.

Têm essa condição hormonal desde o nascimento, ela marcava cada centímetro de seu corpo. Seus músculos não se desenvolviam como os de outros homens; em vez disso, a gordura se acomodava em formas delicadas, quase femininas. Durante anos, dedicou-se a um plano rigoroso de exercícios e dietas, tentando se encaixar no padrão que lhe era negado. Mas, por mais que se esforçasse, sua silhueta permanecia estreita, com uma cintura esguia demais para um homem. E essa realidade pesava sobre ele como uma maldição.

Mais do que a estética, o que realmente o exauria era o peso de ser alvo de olhares que não desejava. Viver sob a sombra de homens cujos gostos eram distorcidos, que enxergavam nele algo a ser devorado, era um fardo constante. As roupas largas eram sua tentativa falha de se esconder, mas nem sempre funcionavam. E quando notou os olhos dos garotos sobre ele, algo em seu íntimo se incendiou.

Apollo ergueu a cabeça devagar, seu olhar varrendo o ambiente. Não precisava falar nada—o silêncio denso fazia o trabalho por ele. Um dos agentes mexeu nos próprios dedos, outro fingiu estar entretido com um documento qualquer. O último demorou um pouco mais para desviar, como se esperasse que Apollo piscasse primeiro. Mas ele não piscou. Nunca piscava primeiro. Um a um, sustentou os olhares até que, constrangidos, desviassem para outra direção. Um pequeno triunfo silencioso. Ele Aproveitou o momento para vestir-se rapidamente, tentando apagar da pele a sensação incômoda de ser observado.

Quando finalmente terminou, desfez sua bolsa com meticulosidade, dobrando cada peça de roupa e organizando-as no pequeno roupeiro encostado à parede. O barulho ao redor começava a pesar demais, e ele sabia que não suportaria aquilo por muito mais tempo. Decidiu sair dali e ir ao encontro de seu avô.

Estava prestes a tocar a maçaneta quando, de repente, a porta se escancarou.

A imagem que surgiu diante dele foi um choque.

Por um instante, tudo ao redor pareceu silenciar. Seu olhar subiu lentamente, percorrendo cada detalhe da figura masculina que preenchia a entrada com uma presença avassaladora. Havia algo de imponente naquela postura, na forma como a sombra do recém-chegado se projetava sobre ele, esmagadora. Então, seus olhos se encontraram.

E naquele breve, mas intenso instante, um duelo silencioso se travou entre os dois.

O capitão não podia acreditar. Depois de menos de um ano, o destino o colocava novamente frente a frente com aquele que tanto odiava. Ainda que tivesse desejado vingança, não imaginava que o reencontro aconteceria tão cedo. E, ironicamente, não poderia ser em circunstâncias mais provocativas.

Xavier Yagner. O homem que, por sua própria solicitação, fora suspenso indefinidamente de seus deveres, agora retornava — e justamente como membro designado para a mesma missão que ele. Oportunidade perfeita para ajustar as contas. Mas havia um problema: o capitão não estava preparado. Não mentalmente. Não ainda. A presença daquele homem não lhe parecia uma vantagem, e sim um desafio. Conseguiria ele manter o profissionalismo e, ao mesmo tempo, arquitetar a queda do arrogante que um dia ousou julgá-lo sem provas? O mesmo que, por pura ignorância, o caçou, sequestrou e o lançou ao cárcere sem hesitação?

Foi Xavier quem quebrou o silêncio primeiro, com um sorriso repleto de escárnio.

— Ora, ora, capitão. Quem diria? Achei que essa missão fosse para quem tem coordenação, mas parece que andaram abaixando os padrões.

A provocação atingiu seu alvo com precisão. A menção à sua incompetência soou como um golpe, mas ele não se permitiria recuar. Os olhos do capitão se estreitaram:

— E, no entanto, aqui está você.

A tensão entre eles se tornou palpável. O ar pareceu se tornar mais denso, carregado por uma eletricidade invisível, como se o próprio ambiente absorvesse a hostilidade latente. Quem assistia àquela troca de palavras sentia o peso de algo além de um simples desentendimento. Não era apenas rivalidade. Era ódio.

Então, o major chegou. Sua presença impôs ordem como um trovão cortando uma tempestade.

— Já esperava essa recepção — sua voz firme carregava o peso da patente. — Os dois, comigo. Agora.

Sem alternativa, eles o seguiram até o andar inferior. O silêncio entre eles era tão pesado quanto a tensão que os envolvia.

Ao chegarem, o major voltou-se para os dois e, sem rodeios, impôs sua decisão:

— Tenho plena ciência da rivalidade entre vocês dois, e sei que não posso mudá-la. No entanto, o que exijo — e não há espaço para discussão — é respeito e profissionalismo. Capitão Xavier, apesar de sua recente promoção, sua experiência é menor que a do Capitão Apollo, e isso deve ser refletido em sua postura. Ambos precisam entender que, independentemente do tamanho de seus egos, devem colocá-los de lado. A missão e a segurança de seus homens vêm em primeiro lugar, e eu não aceitarei nada menos do que uma cooperação irrepreensível entre vocês.

O olhar severo do major foi mais eloquente do que qualquer palavra. A ordem estava clara. Sem escolha, ambos estenderam as mãos um ao outro, apertando-as com firmeza, sem desviarem o olhar, como dois guerreiros prestes a duelar.

Mas o que se passava em suas mentes ia muito além daquela simples demonstração de respeito. O que o major esperava ser um gesto de conciliação era, na verdade, um pacto silencioso de guerra.

Ali, naquela sala, sob o olhar atento de um superior, eles selaram um acordo não verbal.

A batalha entre eles não terminou ali. O silêncio que se seguiu foi tenso, quase palpável. Xavier manteve a postura rígida, cada músculo de seu corpo preparado para resistir, enquanto Apollo sustentava o olhar com a mesma intensidade feroz de sempre.

O major, alheio à guerra subterrânea que se desenrolava entre os dois, prosseguiu com seu discurso formal, falando sobre disciplina, lealdade e o dever de cooperar. Mas aquelas palavras pareciam distantes, irrelevantes.

Xavier sabia que não poderia confiar em Apollo. E, pelo olhar afiado que mantinham, estava claro que o sentimento era mútuo. O aperto de mão que trocaram há pouco não simbolizava reconciliação—sim, um desafio.

E nenhum dos dois estava disposto a perder.

Continua...

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