🦅 Capítulo 13 🦅
A cozinha, outrora um refúgio acolhedor de aromas e calor, agora era o palco de um desastre iminente. A luz amarelada da luminária pendia sobre a ilha central, iluminando a desordem espalhada pelo balcão: tigelas empilhadas de qualquer jeito, colheres sujas grudadas de creme açucarado e pequenas poças douradas de caramelo endurecendo sobre a superfície fria de mármore. O ar, antes impregnado com o doce perfume da baunilha e da manteiga, agora carregava a pungência amarga do açúcar queimado, tornando o ambiente sufocante.
Marco permanecia estático diante do forno aberto, os olhos refletindo o brilho alaranjado das chamas internas. Seus lábios se separaram em incredulidade, mas nenhuma palavra saiu. O crème brûlée—o crème brûlée perfeito, fruto de um processo meticuloso de precisão e paciência—estava arruinado. A superfície, que deveria ter uma crosta fina e cristalina, agora era um mar de rachaduras escuras, queimado além do ponto de salvação.
Aos poucos, ele girou a cabeça, seu olhar afiado encontrando o de Thaddeus.
— O que você fez?
Thaddeus, ainda recostado casualmente contra a bancada, ergueu as mãos em um gesto de inocência ensaiada. Seus olhos azulados carregavam um brilho divertido, embora a tensão no maxilar denunciasse um mínimo resquício de arrependimento.
— Só… ajustei um pouquinho a temperatura.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Marco piscou lentamente, como se estivesse tentando processar a audácia daquelas palavras.
— Ajustou um pouquinho… — Ele repetiu, a voz tão baixa que beirava um sussurro perigoso. — Você SABE que um crème brûlée depende de uma temperatura exata. Você SABE que mexer nisso é o mesmo que assinar uma sentença de morte.
Thaddeus deu de ombros, tentando manter a compostura, mas um canto de sua boca tremulou, quase sorrindo.
— Tecnicamente, não morreu ninguém.
Foi a gota d’água.
Marco se moveu com uma precisão alarmante, agarrando um punhado da mistura cremosa que restara em uma das tigelas e, sem hesitar, esmagando-a contra o rosto de Thaddeus. O impacto foi imediato. O creme denso se espalhou pela pele bronzeada, deslizando lentamente até pingar no chão com um som úmido e quase cômico.
Por um momento, o choque reinou.
Thaddeus piscou, sentindo o peso da humilhação pegajosa escorrendo por sua bochecha. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo gotejar da sobremesa e pelo chiado contínuo do forno ainda ligado.
Então, Marco sorriu. Um sorriso satisfeito, presunçoso, de pura vingança.
— Pronto. Agora tá equilibrado.
Thaddeus fechou os olhos por um breve segundo, respirando fundo. E então, sem aviso, sua mão mergulhou no saco de farinha ao lado, lançando uma nuvem branca diretamente contra Marco.
O pó se espalhou no ar como fumaça de explosão, cobrindo os cabelos escuros e os ombros de Marco em um véu fantasmagórico. Ele tossiu, piscando rapidamente, o choque estampado em cada linha de seu rosto.
— Você. Não. Fez isso.
Thaddeus, agora rindo abertamente, ergueu uma sobrancelha.
— Você começou.
O caos se instaurou. Em segundos, colheres de açúcar voavam como projéteis, pedaços de massa eram atirados como munição improvisada, e a cozinha se transformava em um campo de batalha de confeitaria. Risadas mesclavam-se a exclamações indignadas, e o que antes era um conflito de egos se dissolvia em um desastre gloriosamente infantil.
A cozinha era um campo de batalha. O piso de madeira agora estava coberto de respingos dourados de caramelo endurecido, manchas de creme espalhadas pelo chão e pegadas de farinha marcadas como evidências do caos. Marco e Thaddeus estavam completamente cobertos de ingredientes, parecendo mais dois sobreviventes de uma explosão culinária do que cozinheiros.
Foi nesse cenário que Xavier entrou.
— Que diabos está acontecendo aqui? — Sua voz ecoou pela cozinha, carregada de confusão e um leve tom de exasperação.
Foi o suficiente para que Marco e Thaddeus congelassem no meio do embate. Thaddeus ainda segurava um punhado de açúcar, Marco segurava uma espátula lambuzada de creme e os dois pareciam crianças pegas em flagrante no meio de uma travessura.
O silêncio pairou no ar por um breve momento.
E então, num reflexo rápido, Marco arremessou um punhado de massa na direção de Thaddeus… mas errou.
O projétil culinário acertou Xavier diretamente no peito.
Xavier olhou para baixo, observando a gosma grudada em seu uniforme. Então, lentamente, ergueu a cabeça para encarar os dois culpados, sua expressão inexpressiva… até que um sorriso perigoso apareceu no canto de seus lábios.
— Vocês vão se arrepender.
Antes que Marco pudesse protestar, Xavier mergulhou a mão em um saco de farinha e jogou o conteúdo inteiro contra os dois, criando uma nuvem branca que cobriu a cozinha como uma tempestade.
A risada de Thaddeus ecoou pelo ambiente, Marco gritou em protesto, e logo a guerra havia se expandido. Xavier, agora parte do desastre, pegava tudo o que via pela frente: uma colherada de creme, um punhado de açúcar, até mesmo um pouco de chantilly que encontrou esquecido no balcão.
Foi nesse momento que Apollo entrou.
A porta se abriu suavemente, e ele cruzou o limiar sem pressa, vestindo uma camiseta escura e os cabelos negros ainda um pouco úmidos do banho recente. Com um copo na mão, dirigiu-se diretamente ao filtro de água, ignorando completamente o pandemônio ao redor.
Somente quando tomou o primeiro gole ergueu o olhar.
Xavier, Marco e Thaddeus congelaram no mesmo instante, como se o próprio tempo tivesse parado. Os três estavam cobertos de ingredientes da cabeça aos pés, a cozinha era um completo desastre, e o cheiro doce de baunilha misturava-se com o ar poeirento da farinha ainda suspensa.
Apollo piscou lentamente.
O silêncio se prolongou.
Então, Xavier, sempre imprevisível, ergueu uma colher cheia de chantilly e mirou diretamente nele.
— Não faz isso. — A voz de Apollo veio baixa, cortante, carregada de advertência.
Mas Xavier, teimoso como sempre, deixou um sorriso travesso escapar.
— Ah, vamos lá, Apollo… só um pouquinho.
Os olhos de Apollo brilharam friamente sob a luz da cozinha. Ele pousou o copo de água na pia com precisão calculada e cruzou os braços.
— Se você fizer isso, Xavier…
Foi o suficiente para Xavier hesitar. Por mais brincalhão que fosse, sabia reconhecer certos limite, por mais que sempre demonstrasse o contrário. E naquele momento, Apollo exalava pura seriedade, como se já estivesse planejando uma vingança silenciosa e meticulosa. E ele já havia prometido ao Major, que não entraria em confusão.
Marco e Thaddeus se entreolharam, segurando o riso.
Finalmente, Xavier abaixou a colher e ergueu as mãos em rendição.
— Certo, certo. Sem guerra contra o capitão.
Apollo permaneceu parado por um instante, observando-os com uma expressão neutra, antes de pegar seu copo novamente e sair da cozinha sem dizer mais nada.
A porta se fechou atrás dele.
Marco foi o primeiro a quebrar o silêncio:
— Ele teria nos matado.
Thaddeus concordou rapidamente.
— Sem dúvida.
Xavier riu, limpando um pouco do creme do rosto.
— Talvez na próxima vez ele entre na brincadeira.
Marco e Thaddeus apenas o olharam como se ele tivesse perdido o juízo.
— Ou talvez na próxima vez a gente tente cozinhar de verdade — sugeriu Marco, tirando um pouco de farinha do cabelo.
Thaddeus bufou, pegando um pano para limpar parte da bagunça, que estava sobre a mesa.
— Vamos só garantir que Apollo não esteja por perto.
Quando, finalmente, ambos pararam, cobertos de ingredientes como se tivessem passado por uma tempestade culinária, Marco soltou uma risada, limpando um resquício de creme do canto da boca.
— Você vai me ajudar a limpar isso.
Thaddeus sorriu, os olhos brilhando de diversão.
— Claro. Mas primeiro, que tal tentarmos de novo? Sem sabotagem, prometo.
Marco cruzou os braços, fingindo ponderar.
— Hm… Tá bom. Mas se errar de novo…
Ele apontou um dedo ameaçador para Thaddeus, cuja expressão era a própria imagem da inocência falsa.
— Se eu errar de novo, eu lavo a louça por uma semana.
Marco estreitou os olhos, avaliando. Então, com um aceno curto, aceitou a oferta.
A cozinha estava um caos absoluto, mas entre a bagunça, o cheiro de baunilha e a promessa de uma revanche culinária, algo havia mudado. O ar antes carregado de tensão agora era leve, repleto de algo novo e indefinível.
E, de alguma forma, no meio daquela guerra de confeitaria, um laço inesperado começava a se fortalecer
....
O cheiro de graxa e ferrugem pairava no ar, misturando-se ao aroma doce vindo da sacola de caramelos que Thaddeus segurava. Ele trabalhava no turno da tarde na oficina, onde o som dos martelos e das engrenagens era tão familiar quanto sua própria respiração. Entre um serviço e outro, trocava palavras com uma das vizinhas, uma senhora falante que sempre aparecia com alguma guloseima.
— Eu juro, esses doces são os melhores que você vai provar — disse ela, com um sorriso matreiro.
Thaddeus riu, prestes a rebater, quando percebeu Marco parado a alguns metros dali, olhar fixo em um ponto indefinido do lado de fora. Havia algo estranho em sua expressão.
— Ei, cara, tá tudo bem? — Thaddeus se afastou da conversa e se aproximou dele.
Marco piscou algumas vezes antes de responder, como se tivesse sido arrancado de um pensamento distante.
— Não sei... — Ele passou a mão pelos cabelos, parecendo hesitante. — Por um segundo, tive a sensação de que alguém estava nos observando.
Thaddeus franziu a testa e lançou um olhar rápido ao redor. Nada além das ruas silenciosas e o brilho alaranjado do entardecer.
— Não vejo nada — comentou, tentando soar despreocupado, mas mantendo a atenção ao redor.
Marco forçou um sorriso e balançou a cabeça.
— Deve ser coisa da minha cabeça. O cansaço tá me pegando.
Thaddeus assentiu, mas uma inquietação se instalou em seu peito. Talvez fosse apenas paranoia, mas...
Do outro lado da rua, entre as sombras que se alongavam com o fim do dia, algo se moveu.
Silencioso. Rápido.
E sumiu antes que qualquer um dos dois pudesse notar.
A tarde se arrastava preguiçosa na ampla varanda da casa de Eleanor. O sol dourava as folhas das árvores ao redor, projetando sombras suaves sobre o chão. A brisa morna balançava levemente as cortinas esvoaçantes, criando um cenário de tranquilidade aparente. Mas, para Elara, nada ali parecia realmente calmo.
Ela estava sentada com as pernas cruzadas, segurando uma xícara de chá que já havia esfriado, sem coragem de dar um gole. À sua frente, sua mãe a observava com um olhar meticuloso, e ao lado, seu irmão mais velho, Dante, inclinava-se para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, claramente impaciente.
— Eu simplesmente não entendo — Elara murmurou, desviando o olhar. — Ele nos evita como se fôssemos estranhos.
Dante suspirou e passou a mão pelos cabelos, sua expressão endurecendo.
— Porque, para ele, somos.
Elara sentiu um aperto no peito.
— Mas nós somos família.
— Família? — Danre riu sem humor. — Elara, depois de tudo o que aconteceu, depois do que nossa família permitiu que ele passasse… você realmente acha que essa palavra tem algum significado para Ele?
Ela mordeu o lábio, incapaz de responder. Sabia que Apollo havia enfrentado coisas terríveis, mas ainda assim, não conseguia aceitar o fato de que ele simplesmente os rejeitava.
Eleanor, que até então ouvia em silêncio, finalmente interveio, sua voz suave e cheia de doçura.
— Querida… talvez ele apenas esteja esperando um motivo para olhar para trás.
Elara ergueu os olhos para a mãe.
— O que quer dizer?
Eleanor sorriu, um gesto que parecia ao mesmo tempo afetuoso e calculista.
— Dante está certo sobre uma coisa: Apollo se afastou. Mas ele não é inatingível. Ele apenas não encontrou ainda um laço forte o suficiente para trazê-lo de volta.
— Você quer que eu seja esse laço? — Elara perguntou hesitante.
— Você deve ser esse laço — mãe corrigiu, pousando sua mão fria sobre a da filha. — Se ele não vê mais Dante, se ele me vê como uma figura distante… talvez você seja a única ponte possível.
Elara sentiu um nó apertar sua garganta. Queria seu irmão de volta, queria que as coisas fossem diferentes. Mas ao mesmo tempo, algo na forma como sua mãe dizia aquilo a incomodava.
Dante assentiu, sem perceber a hesitação dela.
— Ele já não me escuta mais, irmã. Eu tenho outras coisas para lidar, e Apollo não quer me ouvir. Mas talvez você… talvez ele não te veja como uma ameaça.
Elara fechou os olhos por um momento.
— E se ele não quiser me ouvir também?
A mulher sorriu de leve, inclinando a cabeça.
— Então faça-o querer. Seja paciente, seja gentil… faça-o ver que você sempre esteve lá.
Elara baixou o olhar. Havia algo estranho na forma como sua mãe dizia aquilo. Como se não fosse apenas um conselho. Como se fosse… um plano.
E, no fundo, uma pergunta incômoda começou a ecoar dentro dela:
Aproximar-me de Apollo para trazê-lo de volta… Seria isso possível?
A noite caiu lentamente sobre a propriedade dos Laurent, tingindo o céu com tons de azul e violeta.Elara ainda estava sentada na varanda, as sombras das árvores projetando padrões abstratos sobre o piso. A brisa fresca da noite acariciava sua pele, mas ela não sentia conforto algum. Seu café esfriara há muito tempo, mas ela sequer se dera conta.
As palavras da mãe e de seu irmão Dante, ecoavam em sua mente como um sussurro persistente.
"Seja paciente, seja gentil… faça-o ver que você sempre esteve lá."
"Talvez você seja a única ponte possível."
Mas como? Como se aproximar de alguém que há anos se tornara um estranho? Como fazer Apollo olhar para ela novamente, enxergá-la não como parte da família que ele rejeitara, mas como alguém que importava?
Ela fechou os olhos, mergulhando em suas memórias.
E então, ela se lembrou.
Os fragmentos do passado vieram como um vendaval.
Apollo… ajoelhado no chão, segurando seu tornozelo torcido depois de uma queda boba. Os olhos cinzentos dele carregavam uma preocupação feroz, a mandíbula travada como se segurasse o próprio medo.
Apollo… furtivamente trazendo doces escondidos para ela e Dante, apenas para vê-los sorrir depois de mais uma bronca da mãe.
Apollo… defendendo-os, tomando a culpa, protegendo-os de repreensões, das expectativas sufocantes, dos olhares duros de Eleanor.
Ele sempre esteve lá. Sempre se colocou entre eles e o mundo.
E então, ele sumiu.
Mas por quê?
Elara sentiu o peito apertar. A resposta era óbvia.
Porque um dia, quando ele precisou, ninguém esteve lá por ele.
Ela abriu os olhos lentamente. Seu coração martelava contra as costelas, e sua respiração se tornou superficial.
"Ele precisa de um laço forte o suficiente para trazê-lo de volta."
E agora, ela sabia qual era esse laço.
Apollo ama crianças.
Sempre amou.
Era o instinto dele. Proteger. Cuidar. Ser o escudo.
E se…
O pensamento a atingiu como um raio, frio e cortante. Seu estômago se revirou, e por um momento, Elara quis rejeitar a ideia. Mas, conforme o silêncio da noite a envolvia, a lógica impiedosa de sua conclusão foi se enraizando.
Se houvesse uma criança, Apollo não ficaria de costas. Ele não ignoraria.
E se essa criança fosse dela?
Ela mordeu o lábio, sentindo as unhas cravarem na palma da mão.
Elara nunca quis ser mãe. Nunca planejou isso para sua vida. Mas e se… e se fosse necessário?
Ela podia fingir. Fingir que estava com medo da reação da mãe. Fingir que queria manter a criança longe dos holofotes, longe da mídia que perseguia os Laurent como uma matilha faminta. Afinal, não seria difícil convencer Apollo disso.
"Você precisa ser paciente. Precisa ser gentil."
As palavras da mãe agora soavam como um presságio.
Ela se levantou lentamente da cadeira, sentindo o peso da decisão se solidificar dentro dela.
Ela teria um filho.
Não por amor.
Não por desejo.
Mas para criar um elo inquebrável com Apollo.
O olhar de Elara, era hipnotizante, de um azul profundo como safiras lapidadas sob a luz do luar. Os longos cabelos dourados desciam em ondas meticulosamente alinhadas, presos apenas o suficiente para exaltar a delicadeza de seu rosto fino e Exclusivo. O nariz pontiagudo dava-lhe um ar de nobreza, enquanto os lábios bem desenhados ostentavam um batom suave, calculadamente escolhido para complementar sua pele impecável.
Cada detalhe era um manifesto de elegância. O vestido, de um azul cintilante que refletia a tonalidade dos olhos, abraçava suas curvas com maestria, moldando seu corpo com uma precisão que só tecidos luxuosos podiam oferecer. A costura impecável e o caimento perfeito não eram meros acasos, mas sim uma escolha minuciosa – uma declaração silenciosa de poder. Os acessórios, sutis e sofisticados, reluziam com a harmonia de uma obra-prima, adornando-a sem jamais ofuscar sua presença marcante.
Ela era a imagem da perfeição.
Assim, o plano foi traçado e, dias depois, colocado em prática no cenário perfeito: uma festa exclusiva, onde apenas os mais influentes transitavam. Sob as luzes cintilantes e entre taças de cristal tilintando, ela aguardava. Impecável. Intocável. Fatal.
A música suave preenchia o salão como um murmúrio elegante, misturando-se ao tilintar discreto das taças de cristal e às risadas contidas que pairavam no ar. As luzes, estrategicamente posicionadas, lançavam um brilho dourado sobre os rostos bem-apessoados dos convidados, refletindo-se nos lustres cintilantes e nas superfícies polidas das mesas de mármore.
O aroma refinado de conhaque envelhecido e perfumes exclusivos criava uma atmosfera envolvente, com bastante sofisticação e exclusividade. Cada detalhe do ambiente exalava luxo, desde as poltronas de veludo cuidadosamente dispostas até a presença sutil, mas atenta, dos garçons em trajes impecáveis. Somente aqueles que pertenciam à elite transitavam por ali, como se o próprio ar fosse reservado para poucos.
Elara observava tudo com um olhar calculista, os dedos deslizando preguiçosamente pelo vidro da bebida. Seus lábios curvaram-se levemente quando percebeu que alguns homens a olhavam de relance, mas nenhum parecia… adequado. Ela não buscava apenas um parceiro de uma noite qualquer. Procurava o certo.
Ela sempre foi hábil em perceber as nuances que poderiam servir ao seu propósito. A percepção apurada da beleza, do magnetismo físico e da genética perfeita era uma ferramenta essencial para seus jogos. Sabia que a aparência era apenas o ponto de partida, algo superficial, mas crucial. O próximo passo sempre seria prender Apollo. e ela sabia exatamente como fazer isso.
Então...
Ela sentiu um olhar.
Não era como os outros, que surgiam fugazmente e desapareciam com a mesma rapidez. Esse olhar era diferente. Ele era, intenso e analisador, como se estivesse investigando cada camada de sua alma. O contato era afiado, uma avaliação profunda, e Elara, instintivamente, levantou os olhos, curiosa.
Ali estava ele.
Um homem de terno escuro, a postura impecável, mas sem a rigidez calculada daqueles que tentam disfarçar suas inseguranças. Ele emanava uma confiança silenciosa, como se tivesse plena consciência de seu espaço no mundo e soubesse exatamente o que fazia ali. Embora a luz baixa da boate escondesse parcialmente os traços de seu rosto, havia algo de intrigante e perigoso sobre ele. Algo que sugeria que ele não era apenas mais um rosto bonito na multidão.
E, para sua surpresa, havia algo mais. Algo que Elara não conseguia definir imediatamente. O homem parecia reconhecê-la.
Quando seus olhares se cruzaram, ele não desviou. Em vez disso, um leve sorriso curvou seus lábios, como se estivesse entretido, surpreso, mas não desapontado por encontrá-la naquele ambiente. Ele parecia saber o que estava fazendo — e, pior ainda, sabia exatamente o que ela queria.
Elara, nunca uma mulher a escapar de um desafio, respondeu com um sorriso enigmático, testando os limites daquela interação.
Sem hesitar, ele se aproximou. Sua presença, silenciosa e imponente, parecia encher o espaço entre eles. Ele se posicionou ao seu lado no bar, sem palavras vazias ou gestos forçados. A conexão entre os dois era imediata, palpável, como um fio elétrico vibrando no ar.
— Não esperava encontrá-la em um lugar como esse, — ele disse, sua voz grave e controlada, mas carregada de uma intenção difícil de decifrar.
Elara piscou lentamente, como se estivesse apenas tocando a superfície do que realmente estava acontecendo.
—E onde esperava me encontrar?, —perguntou, com uma leve ironia, buscando entender o que o fazia tão confiante.
O canto da boca dele se curvou em um sorriso.
— Talvez em capas de revistas. Em telas de cinema. Ou em um lugar onde você não precisasse fingir que bebia para atrair um homem.
Seu coração deu um pequeno salto. Ele sabia. Mas em vez de se sentir vulnerável ou exposta, aquilo apenas aumentou seu interesse. Ele estava mais atento do que ela imaginara, mais envolvido do que qualquer homem antes.
— E ainda assim, aqui estou, — ela sussurrou, aproximando-se ligeiramente, como se quisesse deixá-lo pensar que estava ao alcance de sua manipulação, mas na verdade já estava se deixando envolver.
— Sim, aqui está, — ele respondeu, seus olhos atravessando seu rosto de maneira quase científica, estudando cada centímetro, como se tentasse decifrar suas intenções mais profundas.
Havia algo em seu olhar que Elara não conseguia definir. Não era o olhar de um admirador comum, nem de um fã em êxtase diante de um ícone. Era um olhar de avaliação. De alguém que sabia que ela não era só uma mulher bonita. Ela era um enigma, e ele estava tentando resolver esse enigma.
Por um breve instante, Elara hesitou. Algo dentro dela a alertava, mas ela logo ignorou a sensação. Havia algo mais, algo que a desafiava a ir além.
Ela mordeu o lábio inferior, um pequeno gesto para disfarçar a crescente tensão, enquanto a bebida começava a afetar sua mente de maneira suave, como uma névoa envolvente.
— Quer sair daqui?
Ele a observou por um momento mais longo do que o esperado, seu olhar examinando-a, como se ponderasse o significado por trás de suas palavras.
— Você tem certeza?, — perguntou, a voz agora carregada de uma expectativa que Elara não sabia bem como responder.
Ela sorriu, tocando o colarinho do terno dele, seus dedos deslizando de maneira deliberada. — Nunca tive tanta certeza de algo.
O carro dele era um modelo de luxo, discretamente elegante, mas imponente, como o próprio homem. Elara não entendia muito sobre marcas, mas reconhecia que ele não estava ali para impressionar com ostentação; tudo nele era de uma sofisticação silenciosa. O relógio de pulso, o corte preciso do terno, cada detalhe parecia projetado para mostrar controle, mas sem excesso.
Ela percebeu, mas não comentou. Porque naquele momento, nada disso importava.
Dentro do carro, a intensidade dos toques dele contrastava com a suavidade com que ele a guiava. Suas mãos eram firmes, seguras, e cada movimento parecia bem calculado, mas sem pressa. Ele não era como os outros homens que cederiam facilmente às suas artimanhas. Ele estava ali porque queria, e Elara sentia que sua própria presença agora fazia parte de um jogo mais complexo. Um jogo que ela ainda não dominava completamente.
Quando tudo terminou, Elara ajeitou o vestido com calma, ainda sentindo o peso do olhar dele sobre ela. Não era um olhar vazio, mas algo mais profundo, como se ele tivesse lido cada parte dela, compreendido o que ela queria e o que ela realmente buscava.
— Vai querer meu número?, — ele perguntou, a voz rouca, ainda carregada de desejo e, quem sabe, uma pitada de curiosidade.
Ela sorriu, inclinando-se ligeiramente em sua direção.
— Não.
Por um momento, os olhos dele brilharam com uma reação que Elara não conseguiu identificar. Interesse? Desafio? Ou algo mais difícil de compreender?
Ele não insistiu. Apenas a observou enquanto ela saía do carro e desaparecia na noite. Mas enquanto caminhava sozinha pela calçada silenciosa, uma sensação estranha percorreu sua espinha.
Elara havia escolhido um homem qualquer para seu plano. Mas agora, à medida que a noite se estendia, ela não podia deixar de se perguntar se o jogo estava realmente sob seu controle.
Continua...
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Atualizado até capítulo 26
Comments
♡ la vida en la muerte ♤
Uhmmn situação com gostinho de morte. Será que ela já era?
2025-03-23
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