Honra e Diciplina

                     🦅 Capítulo⚔️ 5 🦅

O escritório do Major refletia perfeitamente sua autoridade e disciplina. O aroma forte de café se misturava ao perfume sutil do ambiente, criando um espaço que exalava rigor e controle. Cada objeto sobre a mesa estava meticulosamente alinhado, e a organização impecável reforçava a postura inflexível do oficial. Sentado em sua cadeira de couro, o Major observava Apollo e Xavier com um olhar penetrante, avaliando-os com a paciência de um homem acostumado a ser obedecido.

Apollo mantinha-se firme, mas o desconforto era perceptível nos pequenos detalhes – o maxilar cerrado, a respiração contida. As cicatrizes em seu rosto eram testemunhas silenciosas da batalha recente, e o resquício de sangue seco na lateral de sua têmpora apenas reforçava o peso da situação. Ele sabia que havia ultrapassado limites, mas não era do tipo que se arrependia facilmente. Se havia hesitação em sua mente, não deixava transparecer.

O Major inclinou-se levemente para a frente, entrelaçando os dedos sobre a mesa antes de falar, sua voz ressoando com firmeza e autoridade.

— Então, Apollo — iniciou, o tom carregado de expectativa. — Relatórios indicam que houve um desentendimento na missão. No entanto, parece que você foi além do aceitável. Dizem que seu comportamento não apenas comprometeu a harmonia da equipe, mas também beirou o desrespeito. Gostaria de explicar?

O silêncio que se seguiu foi quase tão cortante quanto o olhar do Major. Apollo sustentou o contato visual sem desviar, sem recuar. Sabia que aquele homem não se deixaria enganar por evasivas ou justificativas vazias.

— Sim. — Sua voz soou firme e controlada, sem qualquer hesitação. Seu tom não carregava emoção, apenas a certeza  de quem conhece a verdade e não teme pronunciá-la. — Eu disse que ninguém se importava com a morte de Hazana.

A sala permaneceu em silêncio por um instante. O Major não esboçou nenhuma reação imediata, mas a intensidade em seus olhos deixava claro que a conversa estava longe de terminar.

Xavier sentiu um arrepio percorrer sua espinha assim que o nome de Hazana foi mencionado. Era uma ferida aberta, e a forma indiferente com que Apollo falava dela apenas aprofundava sua dor. Ele baixou os olhos, tentando conter a raiva crescente que ameaçava transbordar. Cada palavra de Apollo era como um golpe direto, alimentando um ressentimento que ele tentava, sem sucesso, suprimir.

O Major permaneceu impassível, mas sua voz carregava um peso inquestionável quando rompeu o silêncio.

— Não é porque você considera os outros membros da equipe irrelevantes, Apollo — disse ele,— que tem o direito de desrespeitá-los dessa maneira. Isso é inaceitável. Hazana pode ter tido suas falhas, mas fazia parte desta equipe. E, acima de tudo, era irmã de Xavier.

O silêncio que se seguiu era denso, quase sufocante. Apollo manteve-se imóvel, como se as palavras do Major não tivessem qualquer efeito sobre ele. Seus olhos, endurecidos pela batalha recente, não carregavam arrependimento. Ele reconhecia que havia ido longe demais, mas algo em Xavier o incomodava profundamente — algo que ele não conseguia nomear, mas que o fazia agir de maneira irracional.

Xavier, por sua vez, não era alguém que demonstrava fragilidade, mas a perda de Hazana o consumia de um jeito que nem mesmo ele conseguia mais ignorar. Respirou fundo, tentando manter a compostura diante da crescente tensão na sala.

Então, Apollo finalmente falou.

— Eu exagerei. — Sua voz era controlada, sem emoção. Ele virou-se para Xavier e acrescentou: — Peço desculpas.

Suas  palavras não carregavam o peso da sinceridade. Não havia hesitação, não havia culpa em sua expressão. O pedido de desculpas soava mecânico, como se fosse uma formalidade vazia.

Xavier sentiu um nó se formar em seu estômago. Não era apenas a dor pela perda da irmã, mas a frustração de ver Apollo tratar tudo com tamanha indiferença. A raiva queimava em seu peito, porque naquele instante, ele percebeu… Apollo não se arrependia.

O olhar de Apollo deslizou por Xavier sem realmente focá-lo, como se sua presença fosse insignificante. No entanto, um incômodo latente começou a crescer dentro dele, uma frustração silenciosa que fervilhava sob a superfície. Por que você continua me atormentando? O pensamento surgiu em sua mente.  Você é tão... infantil.

Ele não conseguia entender. Se ambos se odiavam tanto, qual era o motivo da insistência de Xavier? Por que ele atravessava seus limites com tanta naturalidade, como se tê-los nunca tivesse importado? Era exasperante a forma como ele sempre voltava, como se houvesse algo dentro dele que o impulsionava a provocar, a perturbar, a bagunçar sua mente com aquela presença inescapável.

Apollo sentiu o próprio corpo enrijecer, os pensamentos girando em um turbilhão de irritação e confusão. Ele não queria admitir, mas algo em Xavier mexia com ele de um jeito que o deixava inquieto.

O Major observou os dois em silêncio, estudando-os com cuidado. Ele sabia que aquele confronto não era apenas sobre a missão. Era algo muito mais profundo, uma tensão entre os dois que havia começado muito antes daquele dia. E embora ele não soubesse exatamente o que havia gerado essa animosidade, ele sabia que algo teria que mudar. E seria ele quem tomaria as rédeas dessa situação, antes que ambos se destruíssem ainda mais.

— Agora — o Major declarou, a voz firme. —, vocês dois ainda têm muito a aprender. Especialmente sobre como lidar com a dor e o respeito mútuo. Trabalho em equipe não é só lutar lado a lado. É saber quando baixar a guarda e reconhecer as fraquezas uns dos outros.

As palavras pairaram no ar, carregadas de um peso maior do que qualquer confronto físico. O silêncio se prolongou, mas não era um silêncio vazio. Era a quietude incômoda que antecede a compreensão — ou a revolta.

Então, o Major se levantou abruptamente. Sua presença, já imponente, pareceu crescer até dominar a sala. Seus olhos, antes apenas analíticos, agora eram um turbilhão de frustração mal contida. Quando ele se aproximou de Apollo, cada passo ecoou como um golpe surdo, um aviso do que viria a seguir.

— Apollo. — O nome soou ríspido, carregado de gravidade. — Você me decepcionou.

Não havia necessidade de gritos; a voz firme do Major era o suficiente para atravessar qualquer resistência.

— Era o seu primeiro dia, e já causou essa confusão? Uma briga que destruiu a área de pesquisa inteira? Isso não é apenas irresponsabilidade, é uma total falta de controle. Eu esperava mais de você. Mais disciplina. Mais autocontrole.

Cada palavra atingiu Apollo como um soco no estômago. Ele sabia que estava errado. Sabia que perder o controle tinha sido um erro. Mas ouvir aquilo do Major, alguém que ele respeitava — alguém em quem, por um breve momento, tentara acreditar — doía de um jeito diferente. Como se algo dentro dele estivesse sendo arrancado à força.

— Eu pensei que você fosse mais forte. — O Major continuou, o tom se tornando cada vez mais rígido. — Mas você agiu como um adolescente impulsivo, incapaz de pensar nas consequências. Você é um dos melhores em treinamento, Apollo. Eu vi potencial em você. Mas será que estava errado?

Apollo sempre se orgulhou de seu controle, de sua disciplina. Sempre acreditou que nada poderia quebrá-lo. Mas ali estava ele, sendo reduzido a nada além de um garoto inconsequente aos olhos do Major.

A frustração fervilhou em seu peito, mas ele a conteve. Não deu a resposta afiada que queria dar. Não revidou. Mordeu a língua, engoliu o orgulho. Era isso que o Major queria, não era? Que ele se curvasse, que aceitasse a decepção como um fardo a ser carregado. Ele queria falar. Mas a voz ficou presa.

Xavier observava em silêncio. Era raro ver Apollo ser confrontado daquela maneira. E, para sua surpresa, ele sentiu algo contraditório. Uma satisfação amarga, sim — Apollo finalmente sendo questionado por suas ações. Mas também uma raiva inesperada, uma irritação que não sabia se vinha da frustração com Apollo ou da dor cravada em seu próprio peito por Hazana.

O Major cruzou os braços, os olhos ainda fixos em Apollo.

— Você não soube lidar com a situação. Foi infantil da sua parte.

A última palavra foi um golpe final, atravessando qualquer resquício de orgulho que Apollo ainda tentava segurar. Ele sentiu o peito apertar, uma vergonha latejante se acumulando dentro dele. Odiava aquela sensação. Odiava sentir-se exposto. Odiava a vulnerabilidade que escorria por cada uma daquelas palavras.

Ele sempre acreditou que sua autossuficiência era uma fortaleza intransponível. Mas, naquele momento, parecia apenas um muro de papel, rasgado sob o peso esmagador das expectativas desfeitas.

Em sua mente, ele repetia um mantra: Eu não sou fraco, eu não sou fraco... Mas as palavras do Major se infiltravam em sua mente, fazendo-o questionar sua própria capacidade de manter a compostura. Ele sabia que falhou, Não queria ser visto assim — infantil, desequilibrado.

O Major voltou-se para Xavier:

— Eu também pensei que você fosse diferente, Xavier — disse, cada palavra meticulosamente calculada para atingir seu alvo. — Agora, você tem uma escolha: ou se controla e aprende com isso, ou se afasta da nossa equipe. Não há espaço aqui para egos inflados ou impulsividade. Você não está mais em um campo de Treinamento. Se continuar assim, vai nos arrastar para a ruína.

Xavier permaneceu imóvel, seu maxilar tenso. Ele sentia o peso das palavras do Major se acumulando dentro dele, inflamando algo que já queimava há tempos. Engoliu em seco, forçando-se a manter o controle, mas a amargura ainda pulsava em suas veias. Seu olhar se perdeu em um ponto distante, qualquer coisa que pudesse ancorá-lo antes que algo o fizesse perder o controle. Essa não era a primeira vez que sua postura em relação a Apollo era questionada.

Foi então que percebeu.

Ao seu lado, Apollo não reagia, como de costume. Não havia indiferença, sarcasmo ou desafio. Seus olhos estavam fixos em algum ponto indefinda.

Mas ele sabia que a dor de Apollo existia, mas não conseguia aceitar que fosse maior ou mais legítima que a sua. Ele também carregava feridas, e naquele momento, tudo que conseguia sentir era a injustiça de parecer que sempre era o julgado, o repreendido, enquanto Apollo permanecia intocável aos olhos dos outros.

O Major lançou um último olhar sobre ambos.

— Agora, me mostrem que são mais do que essa confusão. Não me decepcionem novamente.

Apollo continuou em silêncio. Ele não protestou, não se defendeu. Mas por dentro, cada palavra do Major se repetia perfurando o mais  fundo do seu cociente. Ele estava acostumado a carregar acusações, mas desta vez, a culpa não era só dele. E essa verdade, não tornava o peso em seu peito menos sufocante.

Ele respirou fundo, tentando controlar o fluxo de pensamentos que se atropelavam em sua mente. A sensação de injustiça ardia em seu peito, um misto de frustração e indignação. Sabia que havia perdido o controle, que reagira de forma exagerada, mas o que ninguém parecia enxergar era o que o levou até aquele ponto. Não foi apenas um deslize impulsivo; foi uma resposta à provocação constante, à trama sutil que Xavier tecia ao seu redor.

A briga na área de pesquisa não começou do nada. Apollo se lembrava claramente do momento em que ouviu os sussurros, as risadas abafadas e as meias-verdades se espalhando como veneno. Alguém havia dito que ele não merecia estar ali, que sua posição na equipe era apenas um capricho do Major. E, claro, Xavier aproveitou a oportunidade para alimentá-las, jogando lenha na fogueira com um sorriso disfarçado de preocupação.

— Ele é instável — ouviu alguém murmurar, as palavras cortando o ar como lâminas afiadas. — Nunca superou o que aconteceu na última missão. Não sei se podemos confiar nele.

Apollo permaneceu imóvel, mas sentiu o impacto daquelas palavras como um golpe certeiro. Ele já sabia de onde vinham.

Xavier.

Não diretamente, é claro. Xavier era inteligente demais para isso. Ele nunca sujava as próprias mãos. Em vez disso, lançava palavras como iscas, manipulando situações com uma precisão cruel. Ele sabia exatamente onde tocar, quais dúvidas plantar, e então apenas esperava, paciente, para assistir a desconfiança crescer ao redor de Apollo como ervas daninhas.

E, mais uma vez, Apollo caiu na armadilha.

Seu maxilar ficou tenso, a raiva fervendo sob sua pele. O silêncio ao seu redor parecia pesar toneladas, esmagando-o lentamente.

"Por que você continua me provocando?"

O pensamento veio com a força de um grito reprimido, um eco dentro de sua mente.

"Se me odeia tanto, por que simplesmente não me deixa em paz?"

Mas Xavier nunca o deixava. Nunca permitia que ele respirasse sem sentir sua sombra por perto. Sempre presente, sempre testando, sempre o empurrando para o limite.

A rivalidade entre eles não era de agora. Desde que chegaram à equipe, pareciam destinados a colidir. Apollo sempre foi o tipo reservado, focado na missão, mas algo em Xavier trazia à tona o pior de si. Talvez fosse a arrogância mascarada de gentileza ou o jeito como ele manipulava os outros sem que percebessem. Xavier era o tipo de pessoa que conseguia colocar uma faca nas costas de alguém e, ainda assim, sair como a vítima.

"Isso não é um campo de batalha, e eu não deveria cair nessas armadilhas," Apollo refletiu. Mas a cada provocação, a cada olhar dissimulado de Xavier, ele sentia o controle escorrer pelos dedos.

Naquele momento, no escritório do Major, Apollo não sentia apenas a humilhação das acusações injustas. Ele sentia a impotência de estar preso em um jogo onde as regras eram sempre distorcidas a seu desfavor. Sua própria reação exagerada foi o que deu a Xavier a vantagem. Ele havia perdido não porque era fraco, mas porque se permitiu ser manipulado.

"Eu deveria ter lidado melhor com isso," ele admitiu para si mesmo. Não apenas porque o Major esperava mais, mas porque ele esperava mais de si mesmo. Ser comparado a um adolescente foi doloroso, mas não pela acusação em si — foi porque, no fundo, ele sabia que agira exatamente como Xavier queria. Ele havia cedido, reagido, mostrado sua fraqueza.

Mas apartir de agora, Ele não deixaria Xavier vencer novamente. Não permitiria que suas emoções fossem usadas contra ele. Se havia uma lição a ser aprendida ali, era que ele precisava ser mais esperto, mais frio. Se Xavier queria um jogo, ele jogaria — mas às suas próprias regras.

Enquanto o Major organizava alguns papéis em sua mesa, encerrando a conversa, Apollo lançou um olhar discreto para Xavier. Ele ainda estava ali, com aquela expressão meio arrependida, meio satisfeita. Apollo reconhecia aquele olhar. Era o olhar de quem sabia que havia conseguido exatamente o que queria.

"Continue jogando, Xavier," ele pensou. "Mas da próxima vez, eu não serei o único a sangrar."

Apollo permitiu-se mergulhar em suas lembranças. Era quase irônico como as raízes daquele ódio entre ele e Xavier eram antigas. Não era apenas uma questão de agora, mas algo que vinha crescendo desde o primeiro encontro, anos atrás, quando Xavier ainda era só um garoto impertinente, recém-chegado ao exército.

Apollo tinha 20 anos quando foi designado para ser o mentor de Xavier. Assim como ele, Xavier havia sido considerado um prodígio — algo raro o suficiente para justificar sua entrada precoce na unidade. Quando o apresentaram a Apollo, Xavier não parecia impressionado. Pelo contrário, havia um brilho desafiador em seus olhos, como se desde o primeiro instante ele visse no "veterano" um obstáculo a ser superado.

"Veterano," era assim que Xavier o chamava. E embora o termo fosse, à primeira vista, um sinal de respeito, a entonação de Xavier sempre carregava uma ponta de ironia. Para os outros, Apollo era o "Diabo de Gelo", um apelido que vinha tanto de sua frieza em combate quanto de sua postura disciplinada. Ele havia conquistado o posto de capitão em tempo recorde, algo que muitos viam com inveja, mas que ele alcançara com muito esforço e autocontrole.

Mas Xavier... Xavier parecia alheio a isso. Ou pior, parecia se divertir com o fato de Apollo ser tão respeitado, quase como se fosse um desafio pessoal derrubar o "Diabo de Gelo" de seu pedestal.

A primeira vez que treinaram juntos, Xavier fez questão de mostrar sua força física. Ele era mais robusto, sua musculatura trabalhada indicava que passava horas se dedicando ao treinamento físico. E ele usava isso para provocar Apollo, lançando olhares presunçosos e comentários nada sutis.

"Vamos, veterano. Mostre o que o Diabo de Gelo pode fazer," Xavier dizia, enquanto se alongava antes do combate corpo a corpo. Havia uma leveza em sua voz, mas seus olhos eram afiados. Não era apenas uma brincadeira, era um teste. E Apollo sabia disso.

Apollo tentou, como sempre, ignorar as provocações. Respirou fundo, obrigando-se a manter o foco na luta, a tratar aquilo como um simples treino. Entrou no combate com a disciplina que anos de experiência haviam lhe ensinado, movendo-se com precisão, buscando neutralizar Xavier com técnica, não força bruta. Mas Xavier nunca jogava limpo.

Dessa vez, não foi diferente.

Ele não queria apenas vencê-lo. Queria desestabilizá-lo, arrancá-lo de sua bolha de controle e expô-lo de alguma forma. Seus golpes vinham carregados de intenção, não apenas físicos, mas psicológicos. Xavier conhecia Apollo bem demais para não saber onde atingir. Um comentário solto aqui, um olhar provocador ali, sempre testando, sempre empurrando.

Apollo sentia a raiva crescendo sob sua pele, queimando como uma chama incômoda que ele tentava sufocar. Mas Xavier sabia como alimentá-la.

Quando finalmente conseguiu imobilizá-lo, prendendo-o com firmeza contra o tatame, Apollo pensou que, por um instante, teria um respiro. Mas então Xavier sorriu — aquele sorriso debochado, calculado, que sempre vinha carregado de ironia.

— Até que não foi ruim, veterano.

A provocação foi como uma faísca em pólvora seca.

Apollo sentiu o sangue ferver, os músculos retesarem. Ele sabia que deveria soltar Xavier, que deveria seguir o protocolo e encerrar o treino ali. Mas suas mãos ainda estavam fechadas com força contra ele, e, por um segundo, a linha tênue entre controle e impulsividade pareceu prestes a se romper.

O apelido "Diabo de Gelo" ecoava nos corredores do alojamento. Alguns o usavam com respeito, outros com inveja. Mas vindo de Xavier, aquilo soava como uma afronta. Apollo sabia que muitos no exército não gostavam de sua ascensão rápida. Ele sempre foi jovem demais, sério demais, disciplinado demais. Sua frieza era tanto uma arma quanto uma barreira. Mas Xavier parecia disposto a quebrar essa barreira, não pela amizade, mas pela simples diversão de ver Apollo reagir.

Apollo nunca entendeu completamente o motivo por trás das provocações. Talvez fosse inveja, talvez fosse apenas o jeito infantil de Xavier lidar com a autoridade. Mas o que mais o incomodava era como Xavier parecia gostar daquela dinâmica. Mesmo quando os treinos terminavam, mesmo quando as missões se concluíam, Xavier sempre encontrava uma forma de cruzar seu caminho, sempre com uma nova provocação na ponta da língua.

— Você não se cansa? — A voz de Apollo cortou o silêncio do refeitório vazio, onde Xavier o havia seguido mais uma vez.

O jovem soldado, impassível, tomou seu lugar à mesa, girando uma maçã na mão.

— Cansar do quê, veterano? — Seu tom carregava um traço de provocação, mas também de curiosidade. — De tentar fazer você reagir? Eu acho fascinante. É como tentar mover uma estátua.

Então era esse o jogo. Desde o início, Xavier testava seus limites, desafiando a lenda do "Diabo de Gelo", buscando uma fraqueza na muralha inabalável de Apollo. E, de alguma forma, estava conseguindo. Cada provocação, cada embate desnecessário, deixava fissuras quase imperceptíveis na sua fachada gelada.

Mas o passado era apenas um reflexo do presente. E se Xavier continuava tentando desestabilizá-lo, era porque ele ainda acreditava que Apollo poderia ser quebrado. O que Xavier não sabia — ou talvez soubesse bem demais — era que o gelo não se quebrava facilmente. Ele podia rachar, podia estalar sob pressão, mas também se reconstituía, tornando-se ainda mais forte.

A lembrança daquela primeira briga real entre eles permanecia vívida na mente de Apollo. Não fora apenas um confronto físico, mas o ápice de uma tensão que se acumulava há meses. Xavier sempre fora uma pedra no seu caminho, mas naquela noite, tudo mudou.

Durante o treinamento, cercado pelos outros recrutas, Xavier lançou o comentário com uma leveza calculada, como se fosse uma observação trivial:

— Sua mira pode ser precisa, veterano, mas isso não faz de você um bom capitão. Até uma garota teria mais força que você.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Alguns recrutas trocaram olhares incertos, hesitando entre rir ou aguardar a resposta. A provocação não era apenas um desafio — era uma tentativa deliberada de desmoralizá-lo diante da equipe.

Apollo manteve a postura impecável, a expressão inalterada, mas seus olhos cinzentos se fixaram em Xavier com um gelo cortante.

— Se você acredita que força bruta define um capitão, então não passa de uma criança imatura — respondeu, a voz baixa e afiada como uma lâmina.

O golpe atingiu em cheio. Xavier odiava ser tratado como inferior. O maxilar dele se contraiu por um instante antes que um sorriso forçado assumisse seu lugar. Ele sabia que não poderia reagir ali, diante de todos. A disciplina era a base da unidade, e um deslize público poderia custar caro.

Mas a batalha ainda não havia terminado.

Naquela noite, como de costume, Apollo saiu para treinar sozinho após o toque de recolher. O silêncio do quartel facilitava a concentração, permitindo-lhe refinar sua precisão e manter a mente afiada. Mas ele sentia a presença de Xavier. O outro o seguia como uma sombra insistente.

Apollo ignorou. Presumia que Xavier, como tantas outras vezes, acabaria desistindo. Mas não naquela noite.

Ao chegar a um dos armazéns abandonados do complexo, onde a iluminação era precária e o ar carregava um silêncio denso, Xavier finalmente avançou.

— E então, veterano? Você me chamou de criança... Que tal resolvermos isso agora? — Sua voz cortou o escuro, carregada de desafio.

Apollo não teve tempo de responder. Xavier atacou.

O combate foi sem regras ou limites. Apenas golpes secos  dos corpos chocando-se contra o concreto. Xavier era mais forte, mais rápido. O treinamento físico incessante lhe dava uma vantagem no corpo a corpo.

Com um movimento preciso, Xavier conseguiu derrubar Apollo. O impacto foi implacável, Arrancando o ar de seus pulmões, Xavier estava sobre ele, prendendo-lhe os pulsos, usando o peso do próprio corpo para dissipar qualquer resistência inútil.

— Veja só... O temido Diabo de Gelo está no chão — murmurou, o rosto perigosamente próximo, o hálito quente roçando sua pele.

O olhar dele não refletia apenas triunfo — havia algo mais ali, uma satisfação silenciosa em vê-lo subjugado.

Então veio o golpe final.

— Sem sua arma, você não é nada. É fraco.

A palavra ecoou como um tiro. "Fraco." Um insulto pequeno, mas com o peso de uma sentença.

Apollo nunca aceitou ser visto dessa forma. Ele construiu sua reputação com disciplina e precisão, provando seu valor em cada missão. E agora, estava ali, contido, forçado a encarar o olhar intenso de Xavier como se sua própria força lhe tivesse sido arrancada.

Mas se Xavier pensava que aquilo era o fim, estava enganado.

Apollo o encarou, a voz saiu em um sussurro carregado de desafio:

— Se você acha que isso prova alguma coisa… então você é mais ingênuo do que eu imaginava.

A raiva estava lampejando em seus olhos. Mas então, Xavier de repente, soltou-o. Levantando-se sem pressa, limpando o sangue da sobrancelha com a manga da camisa.

— Da próxima vez, veterano, traga uma arma. Quem sabe assim você tenha alguma chance.

E com isso, virou-se e desapareceu na escuridão.

Apollo permaneceu no chão por alguns segundos, cada fibra do seu corpo ardendo com a lembrança do embate. Mas quando finalmente se ergueu, não era a dor que dominava sua mente.

Era uma promessa.

Ele jamais daria a Xavier essa vantagem novamente. Da próxima vez, quem estaria no chão seria ele.

Continua....

Mais populares

Comments

♡ la vida en la muerte ♤

♡ la vida en la muerte ♤

Estou adorando ler essa história, você escreve muito bem 😃

2025-03-15

3

Ver todos

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!