O passado diante de Nós

                           🦅 Capítulo 10 🦅

Apollo tentou mudar de posição, buscando desesperadamente escapar do desconforto que corroía seus nervos. Com um movimento tenso, conseguiu se virar para ficar de frente para Xavier. Mas o alívio foi passageiro-se é que existiu-pois agora seu rosto estava colado ao peito do outro capitão. O calor do contato queimava sua pele como brasa acesa, tornando o momento insuportável. Para alguém que evitava toques, aquilo era um verdadeiro pesadelo.

Xavier, sempre atento, percebeu a situação e, sem esforço aparente, tomou o controle. Movendo-se com destreza, trocou as posições, pressionando Apollo contra o fundo estreito do aço. O peso do seu corpo agora repousava sobre o dele, acabando com qualquer chance de fuga.

Ele invadiu o espaço de Apollo. O mundo ao redor pareceu desacelerar quando a respiração do capitão roçou contra sua pele, de forma quase íntima. Um arrepio subiu pela nuca de Apollo, os músculos tensos, presos entre a vontade de reagir e a súbita consciência do Desastre que poderia ser.

Xavier, por outro lado, parecia se deleitar com a situação. Seu tom veio baixo, quase um sussurro rouco, deslizando como um toque pela pele sensível de Apollo:

— Assim é melhor… não acha?

Apollo se perguntava se Xavier nunca se cansava desse tipo de brincadeira. Que jogo sujo ele estava jogando?

Ele  sempre sabia exatamente como invadir seu espaço, como testar sua paciência até o limite.

Apollo Engoliu em seco, os sentidos aguçados demais, captando cada detalhe da proximidade sufocante. o timbre grave  ainda parecia vibrar em seu ouvido. Seu próprio corpo estava tenso, mas não apenas de irritação. O pior era a consciência disso.

Ele encarou  Xavier, os olhos acesos por um desafio iminente. Se era um jogo, ele não pretendia perder.

— Em vez de jogar, por que não me diz de uma vez o que quer? — Sua voz soou firme, controlada, mas com a ameaça contida em forma de um rosnado.

Xavier sorriu de canto, perigoso, como se soubesse exatamente o efeito que causava. O olhar deslizou pelo rosto de Apollo com bastante ousadia.

— Mas assim não teria graça, teria? — sussurrou, e a forma como as palavras roçaram no ar entre eles fez algo apertar no peito de Apollo, uma tensão quente que ele se recusava a aceitar.

Apollo tentou ignorá-lo, mas o desconforto era evidente. Seu corpo, antes firme e controlado, reagia sutilmente ao contato inesperado. Xavier, notando a hesitação, aproveitou-se da situação, e sem qualquer aviso, deslizou uma perna entre as dele, tornando o espaço entre ambos praticamente inexistente.

O capitão abriu a boca para protestar, mas o gesto foi interrompido. A mão de Xavier apertou  contra seus lábios, firme e determinada, silenciando qualquer tentativa de resistência.

— Shh... — murmurou, os olhos faiscando em um misto provocação.

O cubículo, já pequeno, parecia ainda menor. Aquela proximidade era insuportável, cada segundo esticando-se como um fio prestes a se romper.

Num rompante, apollo o empurrou com força. O outro perdeu o equilíbrio e resvalou na porta do armário, caindo de costas no chão com um baque surdo.

- Auch... - murmurou Xavier, piscando surpreso.

Quando ergueu a cabeça, Xavier se deparou com Apollo à sua frente, ofegante. Mas não era apenas cansaço—havia um ódio cru em seu olhar, misturado a algo que Xavier não conseguiu decifrar. Pela primeira vez, via Apollo reagir de forma tão direta.

Sem olhar para trás, Apollo saiu do armário e caminhou a passos duros até a porta.

Felizmente para eles, os policiais já haviam desaparecido, deixando para trás apenas o silêncio e a sensação desconfortável que pairava no ar.

O capitão Apollo retornou para base em silêncio, seus passos ecoando no piso. O bilhete, amassado e sujo de sangue, estava seguro entre seus dedos. Ninguém ousou dizer nada quando ele colocou o papel sobre a mesa principal. Os rostos ao redor expressavam surpresa e uma certa inquietação. Ele quebrara as regras. Mas ninguém tinha coragem de questioná-lo.

— Decifrem isso — ordenou

A equipe trocou olhares rápidos antes de obedecer. Uma especialista se inclinou sobre o bilhete, seus dedos deslizando pelo papel, tentando decifrar os rabiscos quase ilegíveis. Outro membro aproximou um scanner para detectar possíveis marcas ocultas. O silêncio era denso, cortado apenas pelo som dos aparelhos sendo ligados.

Em um canto da sala, Xavier observava tudo com os braços cruzados, a mandíbula cerrada. Seus olhos brilhavam em irritação conforme fitava Apollo. O capitão ignorava seu olhar, concentrando-se no bilhete e na verdade que ele poderia revelar.

— Minhas costas estão doendo — murmurou Xavier, a voz baixa, mas carregada de acusação.

Apollo desviou o olhar do papel e finalmente o encarou. Não disse nada. Não precisava. Seu ato já dizia tudo.

O scanner apitou, chamando a atenção de todos.

— Temos algo — anunciou a especialista.

Apollo se aproximou, estreitando seus olhos sobre o resultado. A mensagem oculta começava a surgir. E, com ela, talvez a chave para desmascarar uma conspiração muito maior do que imaginavam.

— Na verdade, Não é nada além de uma nota de compra... — a voz soou quase como um golpe, seca, sem emoção. — Aqui consta o horário e o local. Bate exatamente com as coordenadas do GPS. Uma loja de couro.

O silêncio caiu pesado sobre a equipe. Como se uma parede tivesse se erguido diante deles, barrando qualquer avanço. A descoberta, que por um instante pareceu uma peça crucial no quebra-cabeça, agora não passava de mais um beco sem saída. Voltaram à estaca zero. O peso da frustração se abateu sobre todos, sufocante.

O céu começou a tingir-se de tons escuros, anunciando a chegada da noite. Apollo respirou fundo, reprimindo a própria exaustão antes de encarar os rostos desanimados à sua frente.

A detetive analisou os dados e confirmou: as coordenadas do GPS de Hazana coincidiam com o local no comprovante. Mas algo não fazia sentido. O horário registrado não batia com o da morte.

Aquilo não era uma simples coincidência. Alguém colocou o bilhete ali de propósito.

Se era uma pista, só havia uma maneira de descobrir a verdade. Ele precisava ir até o local.

— Chega por hoje. — Sua voz cortou o silêncio, firme, mas não desprovida de compreensão. — Eu pessoalmente irei até essa loja. Alguma coisa deve estar lá... alguma peça pode estar escondida.

Ninguém discutiu. Apenas assentiram, dispersando-se em meio ao corredor, carregando consigo o amargo sabor da incerteza.

O capitão permaneceu sentado à mesa, os olhos fixos na nota fiscal da última compra de Hazana. As dúvidas se acumulavam em sua mente, embaralhando-se entre números e hipóteses. Ele respirou fundo, esfregando a têmpora, tentando organizar os pensamentos.

Já se passaram dois meses desde a mudança para aquela vizinhança, e ainda assim, nenhuma nova pista sobre o assassino surgiu. O caso permanecia estagnado, como se um véu invisível ocultasse a verdade bem diante de seus olhos. Os agentes começavam a se perguntar se estavam deixando algo escapar. Como era possível que, após tanto tempo, não tivessem avançado nem um passo sequer?

Apollo soltou um suspiro pesado, carregado de frustração. Havia algo errado, ele sentia isso no fundo de sua alma. Uma peça faltava no quebra-cabeça — mas qual? O que estavam deixando passar?

Enquanto isso, em um quarto de Motel:

— Estou ficando louca — desabafou a mulher ao lado de Xavier. — Muito trabalho e pouco resultado.

Ele soltou um suspiro discreto antes de erguer o olhar, fixando-a com uma intensidade silenciosa. Havia sombras sutis sobre seu rosto, tornando sua expressão ainda mais indecifrável.

— Não posso te culpar — disse Xavier, a voz carregada por um tom contido, quase resignado. — Todos estamos assim.

Houve um breve silêncio, preenchido apenas pelo sutil crepitar de uma lâmpada instável no teto. Então, inclinou-se ligeiramente para frente, como se a proximidade pudesse tornar sua pergunta mais urgente.

— Mas e então? Alguma novidade?

Ela não respondeu imediatamente. Em vez disso, deixou a toalha escorregar lentamente por seu corpo, deixando-se exposta sem hesitação. O gesto era tão natural quanto a confiança em seu olhar.

— Vai ter uma festa para a vizinhança, na praça central — disse ela, observando-o com um sorriso sugestivo. — Um pouco de música e álcool fariam bem para a alma. Preciso me distrair. Quer ser minha companhia?

O capitão não hesitou. O sorriso que curvou seus lábios era uma resposta clara.

—  Eu adoraria.

⋅•⋅⊰⋅✦⋅⊱⋅•⋅

O sol ainda não havia despontado no horizonte, mas Apollo já estava na cozinha. O cheiro de massa fresca e especiarias preenchia o ambiente enquanto suas mãos ágeis trabalhavam. Cozinhar sempre foi sua válvula de escape, uma forma de silenciar a mente inquieta.

Ele preparava empadas. Primeiro, misturou a massa, deixando-a descansar enquanto cuidava do recheio. Feito de Lombo e pimenta, bem cozidos, picados com precisão. Assim que a textura atingiu o resultado desejado, começou a moldar as empadas com uma destreza quase mecânica, preenchendo-as com o recheio suculento antes de selá-las cuidadosamente.

Minutos depois, o aroma irresistível começou a se espalhar pela casa através do vento, despertando até os mais sonolentos. Passos ecoaram pelo corredor, e logo uma figura surgiu na porta da cozinha, os olhos arregalados de surpresa.

—  Eu não sabia que você podia preparar salgados.

Marco riu, descontraído.

Apollo não tinha feito todo aquele preparo por ninguém. Ele simplesmente precisava aliviar o peso nos ombros, algo que aprendera com a senhora Selene. Mas só então percebeu o exagero-uma quantidade absurda de empadas. Ainda assim, já que os agentes estavam ali, nada seria desperdiçado.

Depois que a cozinha foi limpa e organizada, Apollo saiu para correr. Deixando os agentes que começaram a chegar.

—  Eu nem sabia que ele podia cozinhar - comentou um dos agentes, surpreso.

— Ele fez isso tão bem que eu poderia comer elas todos os dias - Marco respondeu, deliciando-se.

Foi quando Xavier apareceu. E Antes que pudesse reagir, uma das agentes o puxou pelo braço e, sem cerimônia, enfiou-lhe uma empada na boca.

— As melhores empadas que você vai provar —  garantiu.

Xavier mastigou devagar, analisando o sabor.

—  São incríveis... e parecem leves. Há pouca gordura. Você que fez?

A jovem sorriu de canto a canto, mal escondendo o divertimento nos olhos.

— Apollo fez.

Xavier engasgou no mesmo instante, cuspindo o que restava.

— E se ele a envenenou ?!

— Não seja ridículo — retrucou Marco, rindo. —  Ele não faria isso. Aliás... se alguém aqui tem cara de quem faria, esse alguém é você.

A conversa seguiu, despreocupada.

O clima estava perfeito. O vento soprava na medida certa, o tempo parecia suspenso, até que-como um choque elétrico-Apollo parou abruptamente.

Seus olhos se encontraram, e uma onda de desespero assolou seu peito. O mundo silenciou.

Os passos de Apollo hesitaram. Seus olhos se fixaram em um homem do outro lado da rua, segurando uma criança agitada nos braços.

O ar ao seu redor se dissipou . O tempo desacelerou, e cada batida de seu coração ressoou como um tambor surdo. Ele não podia estar ali. Não aqui. Não agora.

A respiração de Apollo falhou. O suor frio escorreu por sua nuca, a boca secou. Seu peito apertava como se um punho o esmagasse. O homem se virou para acalmar o garoto que esperneava e, por um segundo, seus olhares se cruzaram.

Aquela face. Aquele maldito rosto.

O pânico se enraizou em suas entranhas, mas o homem... não o reconheceu. Seu olhar deslizou por Apollo como se ele fosse um estranho qualquer.

Mas Apollo lembrava. Cada cicatriz que não ficara visível, cada grito sufocado, cada noite em que dormira encolhido, esperando o pior. Aquele homem carregava consigo os fantasmas do passado. Um monstro que sua mãe, um dia, deixara entrar na própria casa.

E agora, outra criança vivia sob o mesmo teto que ele.

Apollo sentiu o chão se dissolver sob seus pés. Uma vertigem tomou conta de seu corpo, e por um instante, ele teve certeza de que desabaria. O que deveria fazer? Enfrentá-lo? Afastar o garoto dele? Gritar? Correr?

Mas ele não fez nada. Ficou ali, congelado, aprisionado em um passado que nunca realmente o libertou.

Foi só quando uma voz familiar o chamou ao longe que ele conseguiu respirar novamente.

— Senhor, o que faz tão longe de casa?

A senhora Selene o observava com preocupação. Apollo tentou responder, mas as palavras pareciam presas na garganta.

—  Minha casa fica por aqui. Se não se importar... aceitaria uma xícara de chá?

Sem forças para recusar, ele apenas assentiu. Ainda sentia o gosto amargo desespero na boca.

E algo lhe dizia que aquele encontro era apenas o começo.

— o que Aconteceu? Perguntou.

—  Não precisa se preocupar — respondeu ele, mas suas palavras não convenceram.

A senhora Selene observou seu estado com olhos atentos.

— Aceita alguns biscoitos?

— Eu... não, obrigado.

—  Não se preocupe, são feitos com ingredientes naturais. Graças às suas dicas, aprendi a reduzir as calorias dos alimentos. Não percebeu que perdi peso?

Apollo sorriu de leve,com formalidade. mas sua atenção foi desviada ao observar o ambiente ao redor. A casa da senhora, exalava aconchego, com móveis antigos bem preservados e um aroma sutil de chá de ervas misturado ao cheiro adocicado dos biscoitos recém-assados. Quadros e fotografias adornavam as paredes, formando uma linha do tempo silenciosa da vida daquela mulher.

Foi então que algo lhe chamou a atenção. Entre os retratos, um deles se destacava: um jovem sorridente, de olhos vivos e feições estranhamente familiares.

- Esse é seu filho? Parece tão jovem...

O silêncio que se seguiu pesou no ar, denso como uma névoa. O leve tremor dos dedos da senhora Selene ao tocar a moldura denunciava a emoção contida. Seus olhos, antes cheios de vivacidade, se enevoaram com lembranças.

— Sim... —  sua voz saiu num sussurro carregado de saudade. — Ele faleceu nessa época. Se estivesse vivo hoje... teria a sua idade.

A luz suave da manhã atravessava a cortina rendada, projetando sombras delicadas sobre o rosto dela. Naquele instante, Apollo sentiu o peso de uma ausência que nunca havia conhecido, mas que, de alguma forma, parecia próxima.

A dor em sua voz era um corte profundo no ar. Apollo percebeu o brilho úmido em seus olhos, a forma como ela se aproximava do pequeno altar dedicado ao filho. A perda ainda vivia dentro dela, como uma ferida que nunca cicatrizaria.

Naquele instante, duas dores se encontraram em um silêncio que dizia mais do que qualquer palavra.

⋅•⋅⊰⋅✦⋅⊱⋅•⋅

Aquela noite carregava um silêncio inquietante, como se o próprio tempo hesitasse em avançar, avisando sobre o perigo à espreita. Ainda assim, o garoto se preparava para sair.

— Amanhã você tem provas. Não acha que deveria ficar em casa para descansar? —  a mãe perguntou, a voz suave, mas carregada de uma preocupação que nem ela mesma sabia explicar.

Ele sorriu, tentando dissipar aquela sombra de inquietação.

—  Não se preocupe, mãe. Ainda são sete horas. Voltarei antes das dez, prometo.

Ela suspirou, incapaz de ignorar o aperto no peito. Algo dentro dela gritava, uma advertência muda, um pressentimento sombrio. Mas, no fim, cedeu.

E essa foi a última vez que viu o filho como ele sempre fora.

As horas se arrastaram, devoradas pela escuridão. Dez da noite veio e passou. Meia-noite. Duas da manhã. Ele não voltou. O coração da mãe batia pesado, um tambor de medo. Talvez tivesse dormido na casa de um amigo, talvez o telefone tocasse a qualquer momento com a voz dele explicando tudo...

O telefone tocou.

Mas não era o seu filho.

A voz do outro lado era fria, profissional. A ligação vinha do hospital.

O mundo dela desabou.

Quando chegou, o cheiro de desinfetante e sangue pairava no ar, tornando o pesadelo ainda mais real. E então, o viu.

O corpo antes cheio de vida agora jazia sobre a maca, coberto por hematomas e cicatrizes invisíveis que nenhum tempo poderia apagar. Os olhos, que um dia brilhavam de sonhos, estavam vazios, perdidos num abismo que ninguém jamais deveria conhecer.

E então, a verdade veio como uma lâmina atravessando sua alma: o amigo, aquele em quem confiava, o filho do prefeito, havia drogado e destruído a honra de seu menino por horas.

O horror tomou conta. A dor foi insuportável. Mas o mais cruel de tudo... era que nada poderia ser feito.

Nos dias seguintes, o filho se tornou uma sombra do que já foi. Antes, sua risada preenchia a casa. Agora, o silêncio sufocava cada cômodo. Ele se fechou, mergulhando na escuridão de sua própria mente.

Até aquela noite.

Quando percebeu que ele não saíra do quarto nem para jantar, a mãe sentiu o coração apertar. Chamou por ele, mas o silêncio foi sua única resposta.

Ao abrir a porta, encontrou seu corpo adormecido de maneira desleixada sobre a cama. Seus dedos, já sem vida e pálidos como mármore frio, crispavam-se ao redor de uma folha de papel amassada.

Uma carta. O contraste entre a rigidez da morte e a fragilidade do papel tornava a cena ainda mais perturbadora. As bordas do papel estavam desgastadas, como se tivessem sido manuseadas inúmeras vezes antes de serem presas naquele aperto final e involuntário. O que aquelas palavras guardavam? Um segredo, um aviso ou talvez o motivo pelo qual a vida havia lhe escapado?

Ela não teve coragem de lê-la. Não queria encarar as últimas palavras que ele deixara para trás.

⋅•⋅⊰⋅✦⋅⊱⋅•⋅

Diante do pequeno altar em sua casa, ela segurava a carta com dedos trêmulos. O papel, amassado de tanto ser apertado, era a última conexão com o filho que partira. Seus olhos marejados percorriam as bordas do envelope, mas a coragem lhe faltava para romper o lacre e encarar as palavras que ele deixara para trás.

— As últimas palavras dele estão aqui... — murmurou, um sorriso triste se formando em seus lábios trêmulos. — Mas ainda não consigo ler. Você acha isso estranho?

Sua voz soou frágil, quase um sussurro engolido pelo peso da ausência.

Apollo observou-a por um instante, então estendeu a mão e pegou a carta com delicadeza. Ao deslizar os olhos pelas primeiras linhas, sentiu toda a emoção do garoto. Através da carta ele tentara, com palavras cuidadosas, aliviar a dor da mãe. Mas a dor estava ali, crua e implacável.

Engolindo em seco, ele respirou fundo e, com uma voz suave, começou a ler.

" Minha mãe, minha luz...

Quando seus olhos pousarem nessas palavras, eu já terei partido. Sei que nada que eu diga agora poderá amenizar a dor que vai tomar seu peito, mas preciso que me escute uma última vez.

Perdoe-me por estar indo antes de você. Perdoe-me por deixar esse vazio no lugar onde meu riso costumava ecoar. Eu nunca quis te machucar, nunca quis ser motivo das suas lágrimas. Se eu pudesse, ficaria para sempre ao seu lado, segurando sua mão como quando eu era pequeno, me protegendo do mundo no calor do seu abraço. Mas o destino foi cruel, e minha hora chegou antes do que deveria.

Sei que você vai se perguntar mil vezes onde errou, o que poderia ter feito para me impedir de partir. Mas, mãe, eu te imploro: não carregue essa culpa. Você foi tudo para mim. Meu refúgio, minha fortaleza, minha razão para seguir em frente tantas vezes. Se dependesse do seu amor, eu seria imortal. Mas há coisas que nem o mais puro dos amores pode mudar.

Eu queria que tivéssemos mais tempo. Mais risadas, mais abraços apertados, mais dias simples ao seu lado. Mas agora, tudo o que posso deixar são lembranças - e o meu amor, que é infinito. Ele está em cada estrela no céu, no vento que toca seu rosto, no silêncio da noite quando tudo parecer pesado demais. Feche os olhos e me sinta aí dentro, no seu coração. Porque eu nunca vou sair dali.

Não deixe essa dor te consumir, mãe. Viva por mim. Sorria por mim. Seja feliz por nós dois. Se algum dia a saudade apertar a ponto de sufocar, olhe para o céu e fale comigo. Eu sempre estarei ouvindo.

Eu te amo além da vida. Além do tempo. Para sempre.

Seu filho. "

A mãe desmoronou, seu corpo sacudido por soluços que pareciam rasgar sua alma. As lágrimas escorriam por seu rosto, e Apollo a segurou com firmeza, tentando oferecer um consolo que, no fundo, sabia ser inútil. Seu toque era forte, mas sua presença não bastava para conter a dor avassaladora que a consumia.

Enquanto a abraçava, um pensamento cruel e implacável cortou sua mente: se, naquele dia, tivesse saltado da ponte em vez de salvar aquele garoto, talvez seu destino fosse outro. Talvez não estivesse ali, carregando uma dor que o destino impôs, sentindo o peso de uma tragédia que não era sua. Mas a vida nunca lhe deu escolhas fáceis. Nunca lhe ofereceu um caminho sem espinhos.

Fechou os olhos por um instante, forçando-se a respirar fundo. Não havia espaço para fraqueza. Endireitou os ombros, enterrando seus próprios tormentos sob a máscara de controle que aprendeu a usar.

Apollo estava exausto. Depois de um dia tenso, tudo que queria era paz. Entrou em casa — ou melhor, na casa usada como disfarce onde todos os agentes estavam reunidos como uma "família feliz" — e já se preparava mentalmente para ignorar qualquer tentativa de socialização.

Mas o que ele viu ao passar pela porta da cozinha, quase fez com que ele desse meia-volta.

Marco estava no meio do cômodo, usando um avental rosa com babados, segurando uma travessa com algo que parecia ser lasanha — ou pelo menos a intenção de uma. Seu rosto estava sujo de farinha, molho e... confete?

— Olha quem chegou! — Marco abriu um sorriso triunfante, como se sua performance culinária fosse motivo de orgulho. — Prepare-se para provar a melhor lasanha improvisada da história das missões secretas!

Apollo arqueou uma sobrancelha, olhando a cena como quem encara um desastre prestes a explodir. E, de fato, explodiu.

Ao tentar colocar a travessa sobre a mesa, Marco esbarrou no pano decorativo, escorregou no próprio chinelo e... Foi Lasanha voando, panela quicando no chão e molho por toda parte — inclusive na testa de Apollo, que sequer teve tempo de desviar.

Silêncio.

Marco ainda estava no chão, olhando para cima com cara de susto e um pedaço de massa pendurada no cabelo.

— Surpresa? — ele arriscou, com um sorriso culpado.

Apollo piscou lentamente, depois soltou um suspiro carregado.

— Você não pode simplesmente existir em silêncio por cinco minutos?

Marco apenas Sorriu.

Ele estava cansado de mais pra continuar sendo um espectador de marco, então apenas se retirou, deixando para trás aquele agente atrapalhado.

continua...

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Comments

♡ la vida en la muerte ♤

♡ la vida en la muerte ♤

Ele quer te pagar, vc vai dar de bom grado?

2025-03-18

2

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