🦅 Capítulo⚔️ 3 🦅
"Quantos dias haviam se arrastado desde a última refeição decente? Seu estômago protestava em agonia, cada movimento um esforço exaustivo. A mente oscilava entre a lucidez e um torpor inquietante. A escuridão do cômodo parecia se fechar ao seu redor, comprimindo-o contra a madeira fria. A poeira impregnava seus pulmões a cada respiração trêmula.
Haveria alguém, em algum lugar, disposto a arrancá-lo desse tormento?
Encolhido, os joelhos pressionados contra o peito magro, ele se apertava contra o canto de uma cômoda antiga. O silêncio era cruel, cortante. Apenas sua respiração ofegante preenchia o vazio da noite."
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A cidade despertava sob um céu nublado, indiferente ao sofrimento que se desenrolava em seus cantos ocultos, o frio do início do inverno cortava a pele dos transeuntes apressados. Enquanto os moradores seguiam sua rotina; Entre risos abafados e olhares furtivos, um grupo de moças desviava do caminho habitual, atraídas por uma novidade: os novos vizinhos.
O homem já estava de pé desde as cinco da manhã, terminando seu treino com uma disciplina implacável. O suor escorria pela pele quente, contrastando com o ar gelado. Percebendo as jovens, ergueu os lábios em um sorriso breve—educado, mas sem calor. Um sorriso simples, mas que, para elas, teve o efeito de um raio em noite de tempestade. Não era apenas um sorriso; era uma sutileza de encanto inesperado, mesmo que fosse apenas um gesto automático, sem intenção real.
Apollo terminou sua série de saltos e seguiu para a cozinha, o suor esfriando sobre sua pele. No instante em que alcançou a bancada, um estalo seco rompeu a tranquilidade do ambiente. O impacto inclinou-o para frente. A dor queimou sua pele, mas ele se ergueu num sobressalto, os olhos faiscando ao encontrar a figura que ousara atacá-lo.
O ar entre eles estava pesado, carregado de tensão. Apollo manteve a expressão fria, mas seus olhos cinzentos brilhavam com uma raiva contida.
— Que diabos foi isso? — Sua voz saiu baixa, mas afiada como uma lâmina.
Xavier cruzou os braços, o canto dos lábios se curvando em um meio sorriso provocador.
— Apenas uma teoria… — disse com desdém. — Você treina tanto… Mas será que esse corpo todo é natural?
A insinuação bateu como um soco em sua cara .
Os dedos de Apollo se fecharam com força, as unhas quase perfurando a própria pele. Sem hesitar, ele deu um passo à frente e agarrou Xavier pelo colarinho, puxando-o com firmeza.
— Mais uma palavra, e eu faço você engolir cada uma delas.
Por um instante, Xavier ficou tenso, mas logo recuperou a postura arrogante. E com um movimento brusco, afastou Apollo.
— Você deveria se afastar, Apollo. Qualquer um que ousar me tocar enfrentará as consequências.
A ameaça ficou no ar, cortante. Apollo o encarou, sem demonstrar nada além de frieza. Então, um pensamento cruzou sua mente, e ele ergueu levemente a sobrancelha.
— Interessante… — murmurou. — Um homem que odeia ser tocado, mas que se dá ao luxo de encostar nos outros.
Xavier riu.
— O que está insinuando? Que não gosta de mãos masculinas sobre seu corpo? — Seus olhos brilhavam com a provocação. — Não se faça de inocente. Eu sei que você gosta disso.
As palavras eram afiadas, mas Apollo não se abalou. Conhecia bem o jogo de Xavier. Sua arrogância escondia algo mais profundo, e perceber isso quase o divertia.
— Por essa lógica ridícula, você acha que tem o direito de me tocar? — rebateu Apollo. — Se não quer ser tocado, talvez devesse começar por não assediar os outros.
Xavier estreitou os olhos, um sorriso seco no rosto.
— A diferença entre nós, Capitão, é que você gosta disso. Eu, não.
As palavras saíram carregadas de arrogância. Mas Apollo não piscou. Ele não se deixava levar por provocações baratas. Se Xavier achava que poderia derrubá-lo com palavras, estava muito enganado.
Apollo lançou um olhar gélido a Xavier. O garoto à sua frente era a personificação da imbecilidade infantil, afundado em sua própria ignorância. Era típico dele.
Apollo respirou fundo, obrigando-se a ignorar Xavier. Seus dedos apertaram o pão com mais força do que o necessário, cada movimento uma âncora contra o ímpeto de explodir. Ele precisava sair dali antes que sua paciência se dissolvesse de vez, antes que cruzasse a linha tênue entre a razão e o instinto.
Passos ecoaram na cozinha, anunciando a chegada dos outros rapazes para o café. O peso do confronto ainda pairava no ambiente, e bastou um olhar para os capitães tensos para que soubessem: haviam perdido um espetáculo.
— O que foi que eu perdi? — perguntou um deles, erguendo uma sobrancelha curiosa.
Apollo nem se deu ao trabalho de olhar para ele, muito menos responder. Foi Xavier quem quebrou o silêncio, com um sorriso malicioso quase sempre presente em seus lábios.
— Apollo se sente atraído por meninos.
As palavras de Xavier romperam o silêncio como um tiro. Alguns arregalaram os olhos em choque, outros apenas se entreolharam, como se tivessem acabado de confirmar uma suspeita antiga. Durante anos trabalhando ao lado do capitão, muitos já haviam notado sua total indiferença pelas mulheres.
Apollo nem piscou. Não tinha tempo, nem disposição, para entreter provocações baratas. Sua paciência, já desgastada, se rompeu num instante.
— Não vou perder tempo com isso. — Apollo cortou a conversa e saiu com passos firmes. Precisava se concentrar em algo produtivo. Precisava trabalhar.
Mais tarde naquele dia, A Oficina estava impregnada com o cheiro de óleo e graxa, misturando-se à brisa suave que entrava pelo portão Aberto.
Apollo ajustou os óculos no rosto, consultando rapidamente a ficha de serviço antes de erguer os olhos para a cliente à sua frente. Sua voz saiu calma,E profissional.
— Assim que o conserto estiver pronto, entrarei em contato para avisá-la.
A mulher à sua frente inclinou a cabeça levemente, os olhos brilhando com um toque de diversão. Com um sorriso enviesado nos lábios, sugerindo um jogo que apenas ela parecia estar ciente.
— "Senhora"? Precisa de tanta formalidade? Meu nome é Karen. E o seu, senhor...?
Apollo manteve a compostura, mas esboçou um sorriso discreto. O brilho da leve provocação em seu olhar não passou despercebido por ele.
— Acabou de pedir menos formalidade, não foi? Então sem "senhor". Meu nome é Dimitri.
A troca de olhares durou um segundo a mais do que o necessário, carregada de um significado indefinido. Que apenas a Dona Karen sentia. Do lado de fora, o som distante de pneus no asfalto e o farfalhar das folhas ao vento pareciam intensificar a atmosfera, como se o tempo houvesse desacelerado por um breve instante.
Karen sorriu, intrigada. Havia naquele homem a sua frente que lhe despertava admiração. Mas antes que pudesse dizer mais uma palavra, o inesperado aconteceu.
Xavier se aproximou em silêncio e, antes que Apollo percebesse, mãos firmes o agarraram, puxando-o de encontro a um corpo sólido e quente, um contraste brusco contra o ar gelado da manhã.
— Mas o que...? Apollo se debateu, mas Xavier apertou ainda mais o abraço, com um sorriso zombeteiro.
A mulher à sua frente arregalou os olhos, um rubor se espalhando por seu rosto.
— Vocês... são um casal?" — a voz dela falhou no final, como se não soubesse se deveria perguntar.
Apollo conteve o fôlego, preso entre a provocação e a necessidade de manter o controle. Em vez de responder, apenas fulminou Xavier com um olhar de advertência.
O contraste era claro: embora mais velho, Apollo parecia menor ao lado de Xavier.
Ou talvez... fosse Xavier quem havia crescido em grande escala.
Aquele homem só podia estar ali para testar sua paciência. Por mais que tentasse manter a compostura, Apollo não pôde ignorar a proximidade inquietante entre seus corpos.
Karen,no entanto, sentiu o sangue ferver em suas veias, o olhar se estreitando em pura confusão.
Apollo conteve um suspiro exasperado. Agora teria que lidar com mal-entendidos. Mas, em vez de se irritar, apenas sorriu.
— Ele é meu irmão — respondeu, a voz carregada de ironia.
— Meu Deus... eu interpretei tudo errado.
Xavier, como esperado, se aproveitou da situação. Seu aperto ao redor do quadril de Apollo se intensificou, eliminando qualquer distância entre eles. Como se não bastasse, inclinou a cabeça, encostando-a na curva do pescoço de Apollo, antes de lançar um sorriso descarado para Yasmin.
Apollo tentou controlar um estremecimento involuntário. Seu corpo reagiu instintivamente, antes mesmo que sua mente pudesse intervir, e Xavier, sempre atento, não deixou de notar.
O capitão mais velho detestava aquilo. Odiava ter seu espaço invadido daquela forma — sem permissão, sem aviso.
Só quando a mulher se afastou, Apollo girou nos calcanhares, pronto para repreendê-lo. Porém, antes que pudesse pronunciar uma palavra, foi ele quem se surpreendeu.
A expressão de Xavier mudou de forma abrupta. O sarcasmo deu lugar a um desdém evidente.
Apollo sentiu seus ombros se endurecerem com a mudança súbita no olhar de Xavier, mas forçou-se a se afastar. Havia coisas mais urgentes a fazer.
Mais tarde, um caminhão estacionou diante da oficina. A entrega foi discreta: os equipamentos necessários para concluir o gabinete do major estavam embalados com cuidado, disfarçados como simples peças de automóvel.
Os agentes agiram rapidamente, retirando a carga com cautela, cada movimento calculado e silencioso.
Apollo segurou as caixas com firmeza, mas, ao se aproximar da porta, uma sensação o fez parar. Vozes sussurrantes escapavam do cômodo à frente. Intrigado, inclinou-se ligeiramente para escutar melhor.
— Sempre soube que o Capitão gostava de desafios, afirmou ele, seus olhos fixos na pessoa a sua frente.
O silêncio que se seguiu parecia pesar no ar. Apollo, no entanto, apenas ergueu uma sobrancelha, ouvindo o que eles tinham de tão importante para conversar, enquanto deixavam o serviço de lado.
Ele não podia deixar de pensar que idiotas realmente falavam demais.
— Apesar de toda a aura intimidadora do Capitão Apollo, não consigo imaginá-lo sendo o primeiro a dar o passo, sabe?
Sua voz era carregada de gestos exagerados, quase teatrais. O soldado ao seu lado, com a mão no queixo, respondeu de forma mais ponderada:
— Mas Eu também não consigo imaginá-lo sendo subjugado, ou, pior, subjugando alguém. Há algo desconcertante nisso.
O silêncio foi breve, como se tentassem moldar Apollo em um molde que simplesmente não existia.
A paciência do Capitão se esgotou. Sem mais palavras, ele empurrou a porta, sua presença invadindo o ambiente como um trovão prestes a se desatar. Os cochichos cessaram quando a porta foi empurrada, os olhares se voltando imediatamente para o Capitão.
— Já terminaram seus afazeres? A voz de Apollo soou fria.
A vergonha se espalhou entre eles. Os olhares vacilaram, os corpos se curvaram.
Eles trocavam olhares desconfortáveis entre si. mas Xavier, sempre desafiador, se inclinou casualmente contra a mesa, com um sorriso de canto. Antes de se levantar.
Em um movimento rápido, Xavier saltou sobre Apollo, puxando-o com força e prensando-o contra a parede. Suas mãos, firmes e implacáveis, imobilizaram os braços do Capitão, enquanto as caixas caíam ao chão com um estrondo abafado. Mas o som foi ignorado, o foco estava no confronto.
O que realmente importava, no entanto, era o espetáculo que se desenrolava diante deles.
— Sabe, eu estive pensando... Xavier inclinou a cabeça, os olhos brilhando com malícia. — Acho que você nunca conseguiria foder ninguém. Na verdade... Ele sorriu de lado. — Aposto que acabaria sendo a garota da relação.
O silêncio se abateu sobre a sala, denso e opressor, como se o ar tivesse se tornado mais espesso.
As garotas assistiam, seus rostos queimando de vergonha, os corações batendo acelerados. Uma energia elétrica e proibida pairava no ar, como se algo inusitado estivesse se desenrolando diante de seus olhos.
E no fundo, um pensamento se formava na mente delas.
Se alguém fosse capaz de subjugar Apollo, esse alguém era Xavier. O único louco o suficiente para enfrentá-lo de igual para igual. O único capaz de sustentar o olhar gélido e impenetrável do Capitão sem desviar.
E naquele instante, todas prenderam a respiração, esperando o desenrolar do inevitável.
Apollo estava no limite. Sua paciência, já desgastada, se fragmentava sob o peso das provocações de Xavier. A indignação subiu-lhe como um fogo, e, num impulso feroz, ele empurrou o capitão com toda a força que possuía."
— Qual é o seu problema?— A voz de Apollo cortou o ar. — Por mais desprezíveis que sejam suas atitudes, eu ainda esperava algum profissionalismo. Estamos aqui para trabalhar ou para perder tempo com piadas desnecessárias?
Xavier, no entanto, não se abalou. Um sorriso torto dançou em sua boca enquanto ele trocava um olhar cúmplice com um de seus colegas de quarto, que confirmou com um aceno discreto.
— Desnecessária? — Xavier zombou.— Dormimos no mesmo quarto, Capitão. Se você está lá também, seria bom saber, para evitar... complicações.
A provocação veio carregada de desdém, mas não o suficiente para intimidar Apollo. Seu olhar se manteve firme quando respondeu:
— Você realmente acredita que é bom o suficiente para conquistar um espaço no meu coração?
A pergunta não esperava por resposta. Era um desafio mudo, uma forma de medir o outro. Mas Xavier não precisou dizer nada. Seu desprezo era evidente.
Então, Apollo tomou uma decisão impensável, algo que ninguém teria a coragem e capacidade de fazer.
— Ridículo... — Ele falou com a frieza de quem já viu o suficiente. Cada palavra caiu como um golpe, carregada de desprezo. — De todos aqui, você deveria ser o mais determinado a descobrir a verdade por trás da morte da sua irmã. Mas, honestamente? Não vai fazer diferença alguma nesta missão. Porque o que sei é que Hazana, em sua arrogância, achou que poderia fazer tudo sozinha. Ignorou a própria segurança e desconsiderou a equipe. Queria a glória, os créditos, e foi isso que a levou à morte. E, pelo visto, você segue o mesmo caminho. As mesmas escolhas equivocadas. Os mesmos erros. Como todos os outros.
O impacto de suas palavras foi como uma explosão silenciosa. O ar na sala parecia se comprimir, ficando cada vez menor.
E então, com uma velocidade incrível, veio o soco.
Xavier avançou sem hesitar. Seu punho encontrou o rosto de Apollo com uma força brutal, fazendo-o ser lançado ao chão. O mundo girou ao seu redor. Os olhares do agentes estavam arregalados, chocados pela audácia do mais jovem capitão.
Apollo respirou fundo, o gosto metálico do sangue invadindo sua boca. Sua mão tremeu ao tocar os lábios, vendo os dedos tingidos de vermelho.
Xavier avançou, os olhos faiscando de raiva. Sua presença se impôs como um muro diante de Apollo.
— Você é um idiota corajoso, capitão. Agora, levante-se. Vamos acabar com isso.
Sem esperar uma reação, Xavier agarrou Apollo com o mínimo de força, erguendo-o do chão como se fosse um boneco de pano. Seus olhos se encontraram por um instante um olhar de desafio, de fúria contida prestes a explodir. Então, sem hesitação, Xavier desferiu outro soco feroz contra o rosto de Apollo, arremessando-o violentamente contra a parede oposta.
Apollo viu estrelas. O golpe o jogou para trás, e ele mal teve tempo de erguer os braços antes de sentir a dor vibrar pelo corpo. Ele não queria brigar. Não queria que as coisas chegassem a esse ponto. Mas também não ficaria parado enquanto um brutamonte arrogante tentava esmagá-lo à força.
Ele Sabia que sua força não era páreo para Xavier, por isso usou o que tinha de melhor. Com um movimento rápido e preciso, aplicou uma técnica de jiu-jitsu, desequilibrando e derrubando-o com maestria.
O ambiente estava carregado de tensão. uma das garotas, percebeu que aquilo estava prestes a se tornar algo muito pior.
Apollo tentou assumir o controle, mas em uma fração de segundo, a posição se inverteu. Xavier era rápido, implacável. Apollo se viu encurralado, sem espaço para respirar, obrigado a erguer os braços para absorver os impactos incessantes que castigavam seu rosto. Com um pouco de esforço, finalmente conseguiu bloquear os golpes dos punhos do adversário
O cômodo estava um caos: papéis espalhados pelo chão, cadeiras viradas, a luz da luminária piscando incessantemente, lançando sombras grotescas nas paredes manchadas. O cheiro de café frio e suor pairava no ar, misturado ao faro amargo da tragédia que todos pareciam querer ignorar. Mas ali, no centro da sala, dois corpos se moviam como feras em combate, ignorando tudo ao redor.
A porta da sala se abriu com um baque surdo, como um trovão, e Marco entrou em pânico ao ver Xavier e Apollo em pleno combate. O ambiente estava em caos. O som dos golpes e dos gritos ecoavam, cortando a respiração de quem se atrevia a assistir. Marco engoliu em seco. Ele não tinha tempo para hesitar.
— Parem! — Ele gritou, tentando se infiltrar entre os dois. mas Xavier e Apollo estavam completamente imersos um no outro, como se o mundo ao redor não existisse mais.
Xavier deu um soco empurrando Marco com um desprezo absoluto, sem sequer olhar para ele. O impacto o jogou para o lado, e antes que pudesse reagir, sentiu o gosto metálico do sangue misturado com o sal da sua dor. Uma dor lancinante percorreu seu corpo, mas o instinto o fez se levantar rapidamente.
— Vou chamar o Major! — Ele gritou, com urgência, sua mente fixada apenas na missão de interromper aquela luta insana.
Mas, em sua pressa, seus pés se enroscaram de maneira desajeitada, e antes que pudesse reagir, colidiu com Thaddeus. O impacto os lançou ao chão, com Marco sobre Thaddeus. Seus braços flutuaram desesperadamente antes de se colidirem, Thaddeus estava justamente ali, observando a cena. Por falta de atenção não conseguiu evitar o acidente.
O choque foi instantâneo. Marco sentiu o calor do corpo de Thaddeus contra o seu, e, naquele momento de total surpresa, seus lábios se encontraram em um beijo breve, mas carregado de uma tensão inesperada, como se o mundo ao redor tivesse desaparecido.
Marco afastou-se rapidamente, um calor subindo à sua face, sentindo sua cabeça girar em confusão. Ele olhou para Thaddeus, surpreso, mas não teve tempo de refletir sobre o que acabara de acontecer.
— Desculpa... — Ele murmurou, e, sem dar mais explicações, se levantou rapidamente, limpando a boca com a mão, como se aquilo nunca tivesse acontecido. Ele tinha uma missão a cumprir.
Thaddeus ficou parado, atônito, o rosto tingido de surpresa e algo mais, mas Marco já havia se afastado, correndo pelo corredor, sem olhar para trás, em busca do Major.
No meio do caos, o som de passos rápidos ecoava pelo corredor. Marco mal podia respirar, sua mente turva com o que acabara de acontecer. O beijo com Thaddeus… o impacto da luta entre Apollo e Xavier… tudo estava se misturando em sua mente. Ele precisava sair daquele turbilhão, precisava agir, mesmo que o gosto do inesperado ainda estivesse em sua boca.
Mas sua confusão era o de menos naquele momento. Pois o capitão Apollo arfava, os músculos retesados, tremendo a cada movimento, os dedos apertando a camisa amarrotada de Xavier com uma força desesperada. Ele finalmente havia conseguido inverter a luta, prendendo o outro contra o chão frio e áspero. Seu rosto estava próximo demais, a respiração quente de raiva e cansaço entrecortada por palavras rígidas.
— Você está agindo como uma criança! — Apollo vociferou. — Hazana desapareceu, e vocês tratam isso como se fosse uma piada? Sinto como se fosse o único empenhado neste caso. Você não entende a gravidade disso, Xavier? Essa missão não significa nada para você?
Ele não respondeu. Seus olhos escuros e afiados, não se desviarão de Apollo. O silêncio entre eles se manteve por um breve momento. Logo Xavier sentiu o peso do corpo do outro sobre si, o calor e a fúria que emanavam dele.
Ele se moveu, os músculos tensos, como se cada movimento fosse uma extensão de sua raiva. Seu joelho havia encontrado uma brecha, um instante de hesitação em Apollo, e foi o suficiente. Com um impulso, Ele girou o corpo, derrubando o capitão e se colocando sobre ele em um instante.
Agora era Apollo quem sentia o chão frio contra as costas, enquanto Xavier o segurava pelos pulsos, prendendo-o com um peso que não era apenas físico, mas carregado de ira e algo mais profundo, algo que queimava como brasa.
— Você me acha um idiota, Apollo? — A voz de Xavier saiu baixa, mas a frustração queimava cada palavra. — Você acha que eu não percebo? Que eu não sinto? Enquanto todos fingem, eu sou o único que sabe o que aconteceu.
Apolo engoliu em seco. Xavier estava tão perto que ele podia ver as gotas de suor deslizando pela têmpora dele, sentir o calor de sua respiração, um cheiro de menta misturado à raiva, impregnando por toda a sua pele. A mão dele apertava seu pulso com uma força firme, inegável. E, por um instante, entre todo aquele ódio e desespero, Apollo viu outra coisa nos olhos de Xavier. Um brilho oculto que le parecia familiar.
O caos da sala ao redor desapareceu, os murmúrios dos outros detetives se tornaram ruídos distantes. Ali, naquele instante preso entre o ódio e algo mais profundo, tudo o que restava era a respiração entrecortada de dois homens que se recusavam a desviar o olhar.
Por um breve instante, parecia que ele teria vantagem. Mas Xavier não era alguém que se deixava dominar facilmente. Com uma única mão, prendeu ambos os pulsos de Apollo acima de sua cabeça.
O ambiente estava em silêncio, todos os presentes assistiam àquela demonstração avassaladora de poder com expressões incrédulas. Mas uma em especial não desviava os olhos - a garota que acompanhava a disputa desde o início. Ela sentia o calor daquela luta, a energia bruta que emanava de cada golpe, cada respiração acelerada. Parecia errado, mas não pôde evitar. Um desejo ardente a atravessou, um pensamento proibido e irresistível: ver Apollo completamente rendido por Xavier.
Apollo arqueava as costas em uma tentativa instintiva de se erguer, de afastar o agressor que o mantinha preso. Seu corpo tremia sob o peso esmagador do capitão mais jovem, cuja estrutura imponente cobria-o quase por completo. A perna dobrada de Apollo encaixava-se perfeitamente contra a cintura de Xavier, reduzindo ainda mais o espaço entre eles. Apenas um fio de ar separava seus rostos.
A cena era quase absurda. A proximidade sufocante fez com que uma estranha vontade surgisse em quem os observava-como se bastasse um leve empurrão para que seus lábios se encontrassem. Mas a mulher conteve-se. Ainda assim, não pôde evitar a dúvida: será que eles percebiam a fricção dos corpos, o calor inevitável daquele embate físico?
Apollo sentia seu orgulho desmoronar a cada segundo, como se a terra sob seus pés estivesse se abrindo. Cada golpe, cada humilhação, afundava ainda mais sua confiança.
— É quase entediante lutar com alguém que sequer consegue se defender.
A voz baixa, carregada de ironia, ecoou contra seu ouvido. Um arrepio desagradável percorreu a espinha de Apollo, trazendo memórias indesejadas-lembranças de sua infância marcada por humilhações, da puberdade repleta de fracassos e olhares de desprezo. Seu peito queimava, não apenas pelo esforço da luta, mas pelo peso de cada derrota que se acumulava em sua vida.
Sempre soube que sua força era sua ruína. Esse era o reconhecimento de sua falha, um símbolo da impotência que o assombrava desde a infância.
Mas então, em um impulso desesperado, Apollo mordeu o pescoço de Xavier com fúria, a dor de sua infância reverberando em cada dente cravado. O grunhido de dor do capitão foi a primeira vitória que Apollo teve naquela luta.
Foi nesse Instante que Xavier percebeu algo intrigante: Apollo, que parecia imbatível, estava vulnerável. O simples ato de desarmá-lo mostrou uma fraqueza inesperada, algo que Xavier nunca imaginara.
A ideia trouxe um brilho perigoso ao olhar de Xavier, que reagia de forma incomum. Havia algo em sua expressão que fez Apollo se erguer e recuar. Ele precisava sair dali.
Ao deixar o recinto, Apollo passou por Major Magnus, que o observava com um olhar penetrante, como se tentando decifrar a verdade por trás dos olhos do capitão.
E quando finalmente se aproximou da bagunça do ambiente, perguntou com sua voz carregada de curiosidade:
— E dessa vez... o que foi que você fez?
Continua...
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Atualizado até capítulo 26
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