. 🦅 Capítulo 15 🦅
A música eletrônica ressoava pelas paredes, um pulsar abafado que se misturava às luzes do salão, tingindo o ambiente com tons roxos e dourados. O ar estava impregnado de perfume caro e eletricidade contida, como se algo invisível rondasse os presentes, com um prenúncio de tempestade.
Apollo e Xavier atravessaram a entrada com passos medidos, cada movimento ensaiado para transmitir confiança. Os ombros estavam relaxados, mas os olhos – atentos e afiados – varriam o salão em busca do menor sinal de perigo. A festa, exclusiva para casais homossexuais, parecia um refúgio seguro, mas a presença reforçada de seguranças traía essa ilusão. Por que tanta vigilância para um simples evento? Algo ali estava errado.
Mal haviam cruzado o salão quando um homem surgiu em seu caminho. Alto, vestido em um terno impecável que parecia moldado à sua postura rígida, ele os encarou com um olhar calculista. Seus olhos, frios como aço temperado, deslizavam por Apollo e Xavier, avaliando-os com um interesse que não era meramente casual.
— Vocês são novos aqui? — Sua voz era baixa, carregada de desconfiança. Ele fez uma pausa breve antes de acrescentar, com um sutil tom inquisitivo: — Não parecem um casal habituado a esse ambiente.
A pergunta, camuflada em aparente curiosidade, era uma faca de dois gumes, Um teste.
Apollo sentiu o peso do olhar do homem sobre ele, como se estivesse sendo dissecado. Seu instinto gritou um alerta. Aquele não era um mero anfitrião desconfiado – era um predador farejando uma ameaça.
Seus músculos tenso por um instante, mas sua expressão permaneceu inabalável. Um sorriso surgiu em seus lábios, ensaiado na medida certa. Ele precisava jogar o jogo, ou tudo desmoronaria antes mesmo de começarem.
Sem hesitar, Apollo tomou a dianteira. Seu olhar era decidido, mas seus lábios, ao se pressionarem brevemente contra os de Xavier, tremiam em um toque fugaz. Rápido demais. O gesto foi calculado, mas carregava uma tensão subterrânea, um misto de nervosismo e determinação.
— É a nossa primeira vez aqui. — Sua voz soou leve, quase casual, enquanto entrelaçava seu braço no de Xavier, como se fossem apenas mais um casal desfrutando da noite.
O homem à sua frente arqueou uma sobrancelha, cético. Um sorriso curvou seus lábios, carregado de desdém.
— Isso é tudo? — Sua voz era um fio de ironia. — Bem, já que são novos aqui, não se importam de se sentar ali e beber comigo, não é mesmo?
A tensão entre Apollo e Xavier era discreta, e não havia escolha. Recusar chamaria atenção demais. Com um aceno hesitante, aceitaram.
Apollo levou o copo aos lábios, mas apenas umedeceu a boca, fingindo beber. Seus sentidos estavam aguçados, cada músculo preparado para reagir ao menor sinal de perigo. Xavier, no entanto, confiou demais. Bebeu sem hesitação. Um gole. Depois outro. E outro. O líquido desceu quente por sua garganta, espalhando um calor traiçoeiro por seu corpo. O efeito foi sutil no início, mas logo suas pálpebras pesaram, e o mundo ao redor tornou-se ligeiramente distorcido.
Do outro lado da mesa, o homem sorriu. Observava com paciência predatória, satisfeito ao ver o efeito da bebida se intensificar. Ele sabia que bastava um deslize para ter controle sobre a situação. E agora, ao menos um deles estava vulnerável o suficiente para ser manipulado.
O anfitrião sorriu friamente e os convidou para sentar-se à mesa com ele. Era claramente um teste. Apollo aceitou com cautela, fingindo beber o líquido oferecido, apenas tocando-o levemente com os lábios. Xavier, por outro lado, bebeu inocentemente, sem suspeitar que o calor que sentiu se espalhar por seu corpo era fruto de uma substância traiçoeira.
Minutos depois, Xavier se levantou cambaleante para ir ao banheiro. Apollo notou imediatamente a mudança, mas antes que pudesse agir, o anfitrião já havia seguido o caminho de Xavier. O capitão sentiu um frio gelado atravessar seu peito. Algo estava terrivelmente errado.
O silêncio se estendeu. Uma sensação se instalou em Apollo como um peso frio. Mas quando o homem retornou sozinho, sua expressão carregando uma falsa despreocupação, sabia que o jogo estava prestes a mudar.
— Eu vi seu namorado subindo… entrou em um dos quartos do andar de cima.
—O anfitrião sorriu de lado, os olhos Faiscando com uma curiosidade calculada.
— Ele vai ficar bem… sozinho? — A pergunta veio arrastada, como se já soubesse a resposta — ou estivesse prestes a descobrir.
A desconfiança se instalou instantaneamente em Apollo. Aquelas palavras tinham um peso oculto, um jogo sujo por trás do tom despreocupado. Seu corpo se enrijeceu antes mesmo que ele percebesse, e, num movimento instintivo,
Subiu rapidamente as escadas, cada passo ecoando como um aviso. Ao chegar diante da porta mencionada, respirou fundo e girou a maçaneta. Assim que entrou e avansou alguns passos, o som seco da porta se fechando atrás de si o fez girar nos calcanhares, o peito comprimido pela tensão crescente.
E então, ele o viu.
Sua camisa molhada de suor, o olhar turvo e perdido, lutando contra algo que dominava seu corpo e mente.
Xavier lutou internamente, seu corpo em chamas pela droga. Um gemido rouco escapou dos lábios de Xavier, e naquele instante Apollo soube que não havia volta Mas, no fundo, uma parte dele sabia—era um teste. Uma armadilha velada naquele convite disfarçado de casualidade.
Xavier cambaleava. Os dedos tremiam ao se apertarem contra a própria pele, como se tentassem conter algo dentro dele—algo que lutava para se libertar.
— Xavier… — Apollo murmurou, dando um passo hesitante à frente.
— Fica longe! — Xavier rosnou, erguendo a mão em um gesto defensivo. Seu peito subia e descia violentamente, o olhar flamejando com uma mistura perigosa de frustração e algo mais profundo… algo que não deveria estar ali. — Não me toca! Eu não… Eu não tolero… Não quero que… Chegue perto!
Apollo sentiu um nó se formar no estômago. Algo estava muito errado.
Do lado de fora, a voz calma e cortante do homem ressoou como um veredito:
— Volto em cinco horas. Se até lá vocês não tiverem se entregado um ao outro, vou considerar que mentiram para entrar aqui… e acreditem, vocês não vão gostar do que eu faço com mentirosos.
O silêncio que seguiu foi sufocante.
Xavier cerrou os punhos, os músculos retesados em um esforço desesperado para manter o controle. Seu rosto estava crispado, os olhos ardiam com uma fúria misturada a algo primitivo. O peito arfava, os lábios entreabertos, como se a própria respiração fosse uma batalha. A substância estava corroendo sua resistência, dilacerando seus instintos.
— Você tem noção do que fez? — Apollo rosnou, mantendo a voz baixa, mas firme, o maxilar tenso. Seus dedos se fecharam com força ao redor do próprio pulso. — Bebeu sem pensar. Aceitou tudo o que te deram como se ainda fosse um maldito recruta. Agora estamos nessa por sua causa.
— Eu não sabia que tinham colocado alguma coisa! — Xavier respondeu, rouco, tentando manter a compostura, mas sem conseguir esconder a culpa. — Não foi de propósito... eu só... não percebi.
Ele arfou, pressionando a testa contra a parede, os ombros tremendo.
Apollo fechou os olhos por um instante. Ele precisava pensar. Mas acima de tudo, precisava manter Xavier consciente, lúcido—porque se ele perdesse o controle, não haveria volta. E se saíssem dali com aquela droga ainda no sistema… Xavier poderia machucar a si mesmo.
Ou pior.
machucar alguém.
No quarto abafado da boate, o silêncio era quase insuportável. O ar carregado pelo cheiro de álcool e suor tornava a atmosfera sufocante, enquanto as cortinas pesadas bloqueavam qualquer vestígio da lua lá fora. Apenas uma lâmpada fraca tremeluzia no canto do cômodo, lançando sombras inquietantes sobre as paredes e criando a ilusão de um refúgio prestes a ruir.
Apollo e Xavier estavam ali, imóveis, cada um lidando com sua própria tempestade interna. A incerteza pairava entre eles, mas uma coisa era clara: a missão precisava continuar, custasse o que custasse.
Xavier, com os punhos cerrados ao ponto dos nós dos dedos esbranquiçarem, encarava Apollo com uma expressão que misturava dor, raiva e algo mais profundo, algo que ele se recusava a pensar. Seu peito arfava, e a tensão em seu corpo era visível. Ele sentia o próprio desejo crescer, incômodo, incontrolável, aumentando a frustração que já o consumia.
— Tudo bem… eu consigo suportar isso. Só preciso de tempo. — Sua voz soou tensa, quase um sussurro rouco, enquanto suas unhas cravavam na palma da mão, rompendo a pele em um esforço desesperado para manter o controle.
Apollo, por outro lado, mantinha-se imóvel, a postura firme ocultando o desgaste que sentia. Não era o cansaço físico que o dominava, mas algo mais profundo, um desgaste silencioso que ele jamais admitiria. Seus olhos cinzentos se fixaram em Xavier, avaliando-o com precisão, tentando decifrar a turbulência que se escondia por trás daquela fúria contida.
— Eu não pedi por isso! — A explosão de Xavier preencheu o quarto, sua voz áspera de frustração. O olhar faiscante encontrou o de Apollo, que permaneceu impassível, mesmo sentindo que o efeito da droga começoara a entorpecer a mente de Xavier.
O capitão drogado, sabia que estava perdendo o controle, mas não podia ceder. Não agora.
Apollo respirou fundo, o peito subindo e descendo lentamente. Com um gesto medido, avançou um passo, sentindo a tensão elétrica no ar. Xavier podia odiá-lo, desprezá-lo, desejar vê-lo cair… mas naquele momento, ele estava vulnerável. E Apollo sabia disso.
— Xavier…
A sua respiração tornava-se errática, cada lufada de ar um desafio contra o fogo líquido que pulsava em suas veias. O efeito da droga se espalhava como lava incandescente, tornando cada sensação intensa demais, cada batida do coração um golpe surdo contra suas costelas. Seu corpo tremia sob o calor abrasador que subia pela pele, um calor que não vinha apenas do ambiente — mas da substância maldita que o consumia por dentro.
O quarto luxuoso era um cárcere dourado. As cortinas de veludo vermelho absorviam a luz tênue, deixando sombras sinuosas dançarem pelas paredes decoradas com molduras douradas. O ar estava impregnado pelo perfume doce e enjoativo, uma lembrança traiçoeira das substâncias dissolvidas no vinho servido naquela festa. Lá fora, a música ainda vibrava, abafada pelo isolamento das paredes espessas. Mas ali dentro, havia apenas os dois. E o desejo forçado que se entranhava na carne de Xavier, uma febre impiedosa e artificial.
Ele grunhiu, a mandíbula cerrada enquanto suas mãos iam ao colarinho da camisa, puxando o tecido numa tentativa desesperada de dissipar o calor sufocante. Seucoração batia em um ritmo descompassado, os músculos rígidos de tensão e agonia. O tormento estava estampado em seus olhos, oscilando entre a resistência e a rendição ao efeito cruel da droga.
Apollo hesitou. Por um instante, apenas observou. O peso da escolha pressionava seus ombros como um prédio prestes a cair. Se não fizesse nada, Xavier perderia o controle. E se isso acontecesse, toda a farsa que haviam construído desmoronaria. O anfitrião descobriria que eles não eram um casal de verdade. E isso... isso seria o fim.
Engolindo seco, Apollo avançou. Cada passo era um dilema, um conflito interno que se refletia na tensão de seu maxilar, no brilho inquieto de seus olhos. Sua própria respiração se tornou instável. O coração martelava em sua caixa torácica, acelerado, feroz.
Ele estava prestes a atravessar uma linha da qual talvez nunca pudesse retornar.
Seu corpo enrijeceu antes de ceder. Seus ombros caíram, sua expressão endurecendo, mas não em raiva—e sim em resignação.
Em silêncio, aproximou-se e o ajudou a se sentar, o toque discreto, mas inegável. A tensão ainda pairava no ar, espessa como fumaça após um incêndio, mas havia algo mais agora—algo que nenhum dos dois ousaria mencionar.
A presença de Apollo, a maneira como ele se colocou entre Xavier e os destroços da sua raiva, era quase insuportável. Xavier queria destruir tudo. Queria que todos sentissem o mesmo sofrimento que um dia ele sentiu, quando aquele garoto perdeu tudo para um monstro que nunca deveria ter existido.
Então, com os dentes trincados e um olhar carregado de algo que nem ele entendia sussurrou, envenenado pelo rancor que teimava em sobreviver:
— Você é nojento… Fique longe. Eu já disse.
Os dois permaneciam ali, a tensão entre eles se materializando pouco a pouco. Apollo tentava o acalmar, oferecendo-lhe apoio sem esperar nada em troca, Xavier olhou para ele com um misto de incredulidade e desconfiança, mas algo havia mudado. Seus olhos, antes frios e duros, agora estavam mais abertos, mais humanos. Demonstrava preocupação com toda aquela situação. Xavier sentiu em seu corpo, faísca de algo maior começando a surgir.
— Xavier... — chamou, mas o capitão já não ouvia. Sua pele ardia sob o toque, febril e úmido, os olhos semicerrados como se lutasse contra um inimigo que não existia, contra um tormento que apenas ele podia enxergar. Seus punhos ainda estavam cerrados, como se resistisse até mesmo ao próprio corpo.
Apollo não hesitou nem por um segundo. Seus dedos trêmulos, carregados de urgência contida, começaram a desfazer os botões da própria camisa, um a um, como se cada botão rompesse a distância que ainda restava entre eles.
O tecido escorregou por seus ombros com um sussurro abafado, caindo sobre a cama como um convite silencioso. O ar frio do quarto acariciou sua pele exposta, provocando arrepios que corriam como eletricidade por sua espinha, mas era o olhar de Xavier — intenso, incandescente que o deixava tenso.
Com a respiração acelerada, Apollo subiu na cama, aproximando-se como quem cruza uma linha que não permite volta. Seus joelhos se encaixaram de cada lado do quadril do capitão, sentindo a força contida sob seu corpo. Cada movimento era medido, mas carregado de tensão. Suas mãos deslizaram com firmeza até o rosto de Xavier, tocando a pele quente marcada por gotas de suor que denunciavam o turbilhão interno que ele tentava conter.
— Isso precisa ser feito... — murmurou, com a voz rouca, — ou você não vai suportar.
Xavier mal conseguiu responder. Sua respiração estava falha, descompassada, os lábios entreabertos tentando conter um gemido que se escapou em um sussurro arrastado. Seus olhos encontraram os de Apollo por um segundo, um instante eterno.
Apollo desceu lentamente as mãos pelo peito do capitão, desfazendo os botões da camisa com cuidado, como se estivesse desvendando um segredo guardado a ferro e fogo. Sob seus dedos, os músculos de Xavier se contraíam — tensos, sensíveis, em alerta. Cada fibra de seu corpo parecia vibrar entre o desejo e o autocontrole, como cordas esticadas ao limite, prestes a se romper.
O calor que emanava dos dois transformava o quarto num campo magnético, onde o ar era denso demais para respirar e os corpos não podiam se evitar. O toque se tornou mais do que físico. Era uma súplica, uma promessa, uma colisão inevitável.
Não havia escolha. Não havia outro caminho. Seus destinos haviam sido tecidos com fios do destino, entrelaçados em uma trama impossível de desfazer. Naquela noite, naquele instante, tudo parecia premeditado, como se escrito por um autor cruel, que os forçava a se perder um no outro.
A luz fraca tremulava, lançando sombras vacilantes sobre seus corpos, destacando cada gota de suor, cada tremor reprimido. O ar estava pesado, carregado com algo indefinível, e no silêncio entre eles, apenas as respirações descompassadas e os corações acelerados preenchiam o espaço.
A noite os pertencia. E não havia mais volta.
Os dedos trêmulos de Apollo deslizou a pele de Xavier, sentindo cada mínimo estremecimento sob seu toque. O calor entre eles era sufocante, um fogo invisível que consumia qualquer resquício de lógica. Sua respiração estava pesada, entrecortada, enquanto os lábios entreabertos de Xavier deixavam escapar um suspiro contido—um som quase imperceptível, mas carregado de algo que Apollo não conseguia entender.
Fechou os olhos por um instante, como se precisasse de um último resquício de controle antes de mergulhar no desconhecido. Retirou as roupas de Xavier com facilidade, a falta de resistência do capitão tornava tudo ainda mais fácil, mais perigoso. Quando se moveu, sentiu um arrepio gelado percorrer sua espinha, contrastando com o calor abrasador que se espalhava por sua pele.
Mas então veio a realidade—Xavier era grande. Grande demais. E Apollo não estava preparado. O medo e a antecipação se misturaram em seu peito, em um nó sufocante que o fazia questionar se deveria continuar. Seu corpo tremia, e ao menor movimento, sentiu uma pressão firme e avassaladora em sua região mais íntima e sensível. O choque foi imediato, um estilhaço de dor se espalhando por cada nervo de seu corpo.
— Hmm… — A voz escapou de seus lábios antes que pudesse conter.
Xavier permaneceu imóvel, os olhos sombrios e intensos cravados nele, como uma tempestade prestes a desabar. Sua mandíbula estava cerrada, como se lutasse contra algo que não deveria sentir, algo que ameaçava devorá-lo por completo. Havia conflito em seu olhar, um desejo feroz entrelaçado à relutância, um perigo latente que pairava entre eles.
— Você devia parar. — A voz de Xavier saiu rouca, densa, quase um aviso. — Se continuar... Eu não vou...
Ele não conseguiu terminar a frase. As palavras morreram em seus lábios, sufocadas por um peso que o fazia tremer por dentro. Fechou os olhos por um instante, como se neles houvesse algo proibido, selvagem demais para ser liberto. O ar estava carregado de algo mais denso que oxigênio — desejo não dito, saudade contida, loucura presente.
Apollo hesitou por um breve momento. Sua respiração falhava, ofegante, como se cada sopro fosse uma súplica muda. Ele não pediu permissão. Não precisava. Seu corpo falava por ele — impulsivo, vulnerável. Ele Avançou no escuro daquela tensão, como quem caminha no fio da navalha, e se encaixou no colo de Xavier, como se ambos tivessem sido moldados um para o outro.
O calor entre eles explodiu.
Apollo puxou Xavier para perto, para dentro, para um lugar onde não existia mais passado, nem culpa, nem guerra. Apenas pele contra pele. As mãos de Xavier seguraram sua cintura com uma força que tremia — como se quisesse pará-lo, como se implorasse para que se afastasse. Os corpos colidiram em silêncio, e Xavier acabou sentindo cada contorno, cada batida do coração, cada tremor involuntário de Apollo.
O toque era fogo e redenção.
O quadril de Apollo buscava mais, empurrava, arqueava, roçava, como se seu corpo soubesse exatamente o que queria antes mesmo de sua mente entender. Os dois respiravam no mesmo ritmo, entrecortado, arrastado, suado. E naquele momento — entre o atrito, os olhos cerrados e os lábios entreabertos — não havia culpa.
Mas mesmo com o corpo colado, com o calor entre eles em ebulição, ainda havia uma guerra. Interna. Sufocante. Apollo tentava se conter, como quem segura uma explosão com as próprias mãos. Seus olhos brilhavam com algo que beirava o desespero — não pelo toque, mas pelo significado dele. Ele sabia o que fazia, e era isso que o apavorava. O que sentia não podia ser desejo. E isso o dilacerava.
— Eu não devia… — murmurou, quase para si mesmo, com a voz embargada e os lábios perigosamente perto dos de Xavier.
Xavier, por sua vez, segurava firme em sua cintura, mas não para puxá-lo — para impedi-lo de ir além. Seus dedos tremiam. Ele sentia o corpo reagindo, o desejo queimando sem controle, mas sua mente gritava. “Isso é errado. Ele tá ferido. Tá confuso. E eu também.”
Um riso curto, sem humor, reverberou no peito de Xavier.
— Vocês são sempre iguais... — sua voz era um murmúrio baixo, um fio de desprezo e algo que ele mesmo não queria dizer. — Sempre correndo atrás de quem resiste a vocês... Se não parar, eu não serei gentil.
Mas Apollo não ouvia. Ou talvez ouvisse, e apenas não ligasse. Sua testa encostou na de Xavier, os olhos fechados, Ele tremia, mas não recuava.
Ele fechou os olhos com força. Cada palavra cortava. Ele queria gritar, se afastar, fazer qualquer coisa que encerrasse aquela tortura. Mas tudo o que conseguiu foi soltar um suspiro quebrado, porque o que sentia… estava ali. Na pele. Na respiração entrelaçada. No caos causado pela substância líquida perigosa.
Então ele apertou mais a sua cintura. Não para puxar. Nem para soltar. Apenas para segurar. Para não cair.
— Por favor… — sussurrou, com uma dor que nem sabia de onde vinha. — Não faz isso comigo...
E, ainda assim, nenhum dos dois se movia. Porque, naquele segundo suspenso no tempo, desejar… era inevitável.
Então o fio tênue do controle se rompeu.
Num único movimento, Xavier o virou, dominando-o contra o colchão. A força do gesto arrancou um arquejo de Apollo, e por um instante tudo que existiu foi o calor febril dos corpos colidindo, o atrito ofegante, os nervos acesos pelo contato inesperado.
Os dois fecharam os olhos quando perceberam a proximidade.
Apollo estremeceu sob Xavier, sua respiração era curta. Seus dedos agarraram os lençóis como se tentassem encontrar estabilidade, mas não havia escapatória daquele momento, daquela sensação avassaladora.
Xavier abriu os olhos devagar.
E ali estava: o olhar faminto, predador, brilhando como brasas no escuro. Ele se inclinou, sua respiração quente roçando contra a pele arrepiada de Apollo, a proximidade tornando impossível ignorar o que vinha a seguir.
— Eu avisei... — sussurrou contra sua clavícula, sua voz carregada não apenas pela droga pulsando em seu sangue, mas por algo muito mais perigoso. Algo entre desejo e vingança.
Apollo entreabriu os lábios, um resquício de resposta preso na garganta, mas o ar lhe faltou no instante em que Xavier se moveu. Foi abrupto, impensável—uma força que não deveria estar ali, um ímpeto feroz que o atingiu como um vendaval.
O mundo ao seu redor se despedaçou num turbilhão de calor e dor. Seu corpo arqueava contra o colchão, os músculos tensos em uma batalha perdida contra o impacto esmagador. Os dedos se cravaram nos lençóis, buscando um refúgio impossível, enquanto ondas de uma sensação crua se espalhavam sob sua pele como brasas incandescentes.
Seus olhos, arregalados em um misto de choque e incredulidade, logo se fecharam com força. Os cílios úmidos de suor tremulavam, e seu rosto se tornou uma tela pintada de resistência, de angústia, de um arrependimento cortante. O peso sobre ele era sufocante, impiedoso, arrancando-lhe gemidos dolorosos entrecortados que se dissolviam no ar.
Xavier se movia sem hesitação. Havia algo selvagem nele—uma necessidade implacável que queimava como veneno correndo em suas veias. Seus olhos, cravados nos de Apollo, continham algo além da simples obsessão. Havia escuridão ali. Algo primitivo. Algo que fazia o medo pulsar nos ossos como um tambor de guerra.
Apollo se retesou, o coração martelando em desespero. Suas mãos deslizaram pelos ombros rígidos de Xavier, buscando um ponto de apoio, qualquer coisa que lhe permitisse resistir, escapar, interromper o furacão que o engolia. Mas não havia volta. Não havia saída. Apenas a dor, o calor sufocante e o gosto amargo da impotência queimando sua garganta.
Um rosnado escapou dos lábios de Xavier, rouco, carregado de uma intenção cruel.
— Agora você vai pagar... e se arrepender de ter começado isso.
E foi naquele instante, enquanto seu corpo tremia sob o peso da força inumana de Xavier, que Apollo soube. Não havia mais nada que pudesse fazer. O destino já havia sido selado.
Continua...
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Atualizado até capítulo 26
Comments
♡ la vida en la muerte ♤
Autora!!! Parou justo agora!?
2025-03-23
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