O Peso do silêncio

                         🦅  Capítulo 11 🦅

Seus pequenos olhos, inundados de lágrimas, tremiam ao tentar compreender o caos ao seu redor. O medo apertava seu peito como garras. Por quê? Por que ele? Por que precisava suportar tanta dor?

- "Hic..." E-eu... eu só quero... "Hic..." M-MÃE! - sua voz vacilava entre o desespero e a exaustão. - Por favor... por favor, me deixe em paz... eu juro que não vou contar nada... "Hic..." Só me deixe ver  a mamãe...

Seu corpo trêmulo se encolhia, a respiração entrecortada por soluços sufocados. Cada segundo era uma eternidade. O silêncio ao redor parecia zombar de seu sofrimento, como se a própria escuridão se alimentasse de sua agonia.

⋅•⋅⊰⋅✦⋅⊱⋅•⋅

Ele não consegue dormir. A insônia não vem apenas das pistas desconexas deixadas por Hazana, mas da inquietação que se instalou em seu peito desde que soube da existência do ex-marido de sua mãe. O homem estava por perto-junto a um garotinho. Mas onde? E quem era aquela criança?

A ideia de que o menino pudesse estar enfrentando algo parecido com o que ele mesmo viveu na infância faz sua mente viajar para memórias que ele preferiria esquecer. As sombras do passado voltam a envolvê-lo, trazendo consigo a mesma sensação sufocante de impotência. O peso de uma história que nunca deixou de assombrá-lo se mistura ao medo de que o ciclo esteja se repetindo...

⋅•⋅⊰⋅✦⋅⊱⋅•⋅

A casa antiga onde morava carregava o peso dos anos em cada detalhe. As paredes, de estrutura simples, estavam manchadas pelo tempo, com marcas escuras espalhadas como cicatrizes de um passado esquecido. O cheiro forte de mofo impregnava o ar, infiltrando-se nos móveis envelhecidos e nas cortinas encardidas.

O vento assobiava através das frestas das janelas mal vedadas, fazendo as tábuas rangirem sob seu toque gélido. Pequenas rachaduras serpenteavam ao redor das esquadrias, permitindo que a umidade se alojasse e contribuísse para o cheiro persistente de madeira apodrecida, que parecia emanar de todos os cantos da casa.

O estofado puído do sofá mal escondia a espuma e o cheiro de chá de jasmim se misturava ao da poeira impregnada nos cantos, um aroma que não trazia conforto algum para Apollo.

Sua mãe sorria, os olhos brilhando enquanto segurava os papéis com os resultados dos irmãos. Sua voz doce e animada preenchia o ambiente apertado.

— Meus meninos, estou tão orgulhosa! Conseguiram ficar entre os  dez melhores! Isso merece uma comemoração!

Os irmãos de Apollo trocaram olhares animados, inflando-se com o elogio. O carinho dela era uma lareira acesa no inverno, mas que nunca o aquecia.

Ele avançou, segurando seus próprios papéis com mãos firmes. A frieza do contato do papel em seus dedos contrastava com o calor que queria explodir dentro de seu peito. Ainda assim, sua voz saiu controlada, sem expectativa.

— Aqui estão os meus.

A mulher pegou os papéis sem pressa. Seus olhos deslizaram rapidamente pelos números, sua expressão permanecendo inalterada.

— Parabéns, Apollo.

A palavra soou vazia. Automática. Como se não passasse de uma formalidade insignificante. Logo, ela voltou sua atenção aos irmãos, sorrindo com um brilho renovado no olhar.

— Mas vocês dois, isso sim é incrível! Estou tão feliz por vocês!

Apollo sentiu algo familiar apertar seu peito. Uma dor muda, mastigada e engolida tantas vezes que já não surpreendia. Ele sempre esteve no topo. Sempre foi além. Mas para ela, aquilo nunca importou.

O silêncio foi rompido por um riso baixo e arrastado.

— E então? Em que posição você ficou?

A voz do padrasto cortou o ar como uma faca cega, arranhando a pele de Apollo antes mesmo de tocá-lo. O homem estava recostado na velha poltrona de couro rachado, um sorriso sinuoso no rosto. O olhar deslizou sobre Apollo, lento, pesado, indecente.

Apollo não respondeu. Manteve os olhos fixos nos próprios papéis, lutando para ignorar o arrepio de desconforto subindo por sua coluna.

Mas o homem não gostava de ser ignorado.

Ele se levantou sem pressa, caminhando com passos lentos pelo assoalho rangente. Com um movimento brusco, arrancou os papéis das mãos de Apollo. Seus olhos percorreram os números e sua boca se abriu em uma expressão teatral de surpresa.

— Entre os três melhores?! Isso é incrível! — Sua voz era exagerada, quase debochada. O entusiasmo que faltava na mãe, o padrasto despejava sobre ele de forma desconfortável, quase perversa.

Apollo arrancou os papéis de volta, ríspido, o toque do homem queimando em seus dedos.

— Notas não significam nada.

Disse, mas havia algo mais profundo ali. Algo que ele sufocava cada vez que o olhava.

— Discordo. — O irmão interveio. — O esforço vale a pena.

A mãe sorriu e passou a mão pelos cabelos do filho, afagando-o com carinho.

— Exatamente, meu querido. Dedicação sempre traz recompensas.

Apollo ficou imóvel. A visão dela tocando o irmão com tanto afeto era quase cômica. Se não doesse tanto.

Ele não disse mais nada. Apenas se virou e saiu.

O corredor estreito parecia se fechar ao seu redor, ali, sozinho, ele se sentiu menor do que nunca.

Ela nunca o olhava.

Não no sentido literal, pois seus olhos passavam por ele, de relance, como se checassem se ainda estava ali, se ainda respirava. Mas nunca o viam de verdade. Nunca se demoravam nele como faziam com os outros. Nunca traziam aquele brilho cálido que aquecia seus irmãos, aquela centelha de orgulho que os envolvia como um cobertor nos dias frios.

Para ela, Apollo era apenas uma sombra, um vulto perdido nos cantos da casa. Existia, mas sem importância. Uma nota de rodapé em uma história que ela nunca quis ler.

E ele sabia disso.

Sempre soube.

Mesmo quando chegava com os melhores resultados da turma, mesmo quando seu nome era anunciado como o melhor do colégio. Os professores sorriam, alguns pais murmuravam elogios a respeito dele. Mas sua mãe?

— É bom que continue assim — era tudo que dizia, sem sequer desviar o olhar do bordado em suas mãos ou da conversa que tinha com os irmãos.

Nada além disso. Nenhum gesto de orgulho, nenhum abraço, nenhuma comemoração.

Ele via os irmãos sendo exaltados por conquistas menores. Um décimo lugar na turma e lá estava ela, sorrindo, os olhos brilhando com um orgulho tão grande que parecia irradiar da pele. Um aceno, um afago nos cabelos, um jantar especial em celebração.

Para eles, tudo.

Para ele, o silêncio.

O silêncio sempre foi sua resposta.

E alguém percebeu isso.

O homem que dividia a cama com sua mãe notou.

Ele viu que Apollo não tinha olhos atentos sobre ele, que ninguém perguntava como ele estava, que ninguém notava sua ausência quando ele se recolhia cedo demais para o quarto.

Foi assim que se aproveitou dele.

No começo, eram apenas pequenos gestos. Um olhar que demorava tempo demais para se desviar. Uma mão que repousava em seu ombro, um toque que se estendia por um instante a mais do que deveria. Palavras baixas, ditas em tons suaves demais, num jogo perigoso que Apollo ainda não entendia.

Mas ele aprendeu.

Aprendeu da pior maneira, quando percebeu que aquele veneno se infiltrava aos poucos, deslizando por entre os espaços que sua mãe nunca preencheu.

E após anos, percebeu que não precisava suportar.

Foi então que começou a fugir.

Criou estratégias, aprendeu a se esquivar, a evitar ficar sozinho no mesmo cômodo. Passou a calcular seus movimentos, a prever quando o padrasto tentaria se aproximar. Se tornou silencioso, atento, sempre um passo à frente.

E por dois anos, conseguiu manter a distância.

Dois anos sem os toques que faziam sua pele se arrepiar de medo.

Dois anos sem os sussurros que o faziam querer arrancar os próprios ouvidos.

Dois anos sendo sua única salvação.

Mas ele sabia.

Sabia que a guerra ainda não havia terminado.

O padrasto ainda sorria daquele jeito. Ainda o olhava como um caçador paciente, aguardando o momento certo para atacar.

E sua mãe…

Ela continuava ali, a poucos metros de distância, mas tão inalcançável quanto uma estrela morta.

E o pior de tudo?

Ela nunca percebeu.

Ninguém via Apollo. Não de verdade.

Para os professores, ele era um aluno exemplar. O garoto que sempre entregava os trabalhos impecáveis, que nunca questionava as regras, que se destacava em cada teste como se aquilo fosse tão natural quanto respirar.

Para os pais de outros alunos, ele era o jovem brilhante, disciplinado, o tipo que qualquer família se orgulharia de ter.

“Claramente bem-educado”, diziam, trocando olhares de aprovação.

“Seus pais devem estar tão felizes.”

E Apollo se apegava a isso.

Porque, se ao menos aquelas pessoas o enxergavam assim, então talvez ele ainda existisse.

Mas bastou um mal-entendido para tudo desmoronar.

Os olhares que antes eram cheios de admiração tornaram-se frios, calculistas, como se enxergassem algo que nunca haviam percebido antes. Os sussurros se multiplicaram, rastejando pelos corredores da escola como serpentes. As palavras que antes o elogiavam agora carregavam veneno.

— Nunca imaginei que ele seria capaz de algo assim...

— Sempre tão quieto... é esse tipo de gente que nunca desconfiamos.

— O diretor deve saber o que está fazendo. Afinal, não iriam acusá-lo sem motivo, certo?

Ele via, os mesmos professores que antes o elogiavam, agora desviando o olhar quando ele passava. Os mesmos pais que antes sorriam para ele nas reuniões escolares agora cochichavam entre si, como se tivessem descoberto um segredo terrível sobre sua existência.

O pior de tudo foi ver os colegas de classe hesitarem antes de falar com ele. Alguns se afastaram sem sequer tentar esconder o desconforto. Outros olhavam para ele como se não soubessem mais quem ele era.

E então, havia aqueles que sempre o invejaram.

Esses foram os primeiros a se aproveitar da situação.

— Não adianta fingir ser perfeito agora, Apollo. Todo mundo sabe quem você realmente é.

— A máscara caiu, não é mesmo?

E ele percebeu, com uma clareza dolorosa, que não importava quantos méritos ele tivesse acumulado, quantos prêmios tivesse conquistado, quantas provas tivesse vencido. Tudo o que bastava era uma única acusação para que tudo fosse apagado.

Porque, no fim, ninguém se importava com a verdade.

Se importavam apenas com a história mais fácil de acreditar.

Apollo queria gritar. Queria se defender. Queria que alguém, ao menos uma única pessoa, olhasse para ele e perguntasse: Você está bem?

Mas ninguém perguntou.

Porque, no fundo, ele nunca foi nada além de uma ilusão conveniente para eles. Algo para admirar de longe, mas nunca para realmente conhecer.

E agora, ele era um problema.

Um problema que ninguém queria resolver...

O gosto de sangue ainda ardia na boca de Apollo. Sua respiração era um fio instável, rasgando sua garganta como vidro moído. Cada batida do coração soava como um tambor distante, abafado pela dor que pulsava em sua cabeça.

O chão frio sob seu corpo era um lembrete cruel do que acabara de acontecer. Sua pele estava marcada pelos dedos impiedosos que haviam se fechado ao redor de seu pescoço, os músculos enrijecidos pela violência. Seus olhos piscavam pesadamente, tentando se manter abertos, tentando se agarrar à consciência que ameaçava se dissipar a qualquer momento.

Mas nada disso importava.

Não para eles.

Leonard estava lá, de pé, ainda ofegante, os olhos brilhando com um ódio que não havia sido aplacado. O diretor, indiferente, ajeitava os papéis sobre a mesa como se aquele momento brutal tivesse sido apenas um incômodo passageiro.

E então veio a pior parte.

A garota.

Ela surgiu hesitante à porta, pequena diante do caos que havia causado. Seus olhos estavam arregalados, úmidos, carregados de culpa. A voz dela saiu trêmula, quase um sussurro.

— Eu... me enganei.

Silêncio.

Um silêncio pesado, cortante, que reverberou pela sala como uma onda de choque.

Apollo piscou. Sua mente, ainda atordoada, levou segundos a mais para processar aquelas palavras.

Ela se enganou?

Enganou-se ao descrevê-lo?

Enganou-se ao acusá-lo?

Enganou-se ao transformar sua vida em um pesadelo absoluto?

O ar pareceu sumir do ambiente, mas ninguém reagiu. Nenhum suspiro de alívio, nenhum pedido de desculpas. Nenhuma expressão de arrependimento.

Leonard apenas afastou as mãos, como se aquilo nunca tivesse acontecido. O diretor não demonstrou qualquer emoção.

E Apollo?

Ele sentiu algo dentro de si rachar.

Porque, no fim, não importava.

Se era verdade ou mentira. Se ele era culpado ou inocente. Se estava ali, caído no chão, com os pulmões ardendo e a garganta marcada.

Nada disso fazia diferença.

Percebeu isso quando Leonard não se desculpou. Quando o diretor apenas acenou para que ele saísse, dispensando-o como se fosse uma folha amassada de um relatório descartável.

E foi nesse instante que a confiança que Apollo ainda nutria pelo mundo desmoronou de vez.

Ele se levantou devagar, os movimentos rígidos, sentindo cada fibra do seu corpo gritar em protesto. Mas seus olhos... seus olhos estavam vazios.

Aquela era a última vez que ele esperaria algum sentimento das pessoas.

A última vez que acreditaria que alguém o enxergaria.

Apollo saiu da sala em silêncio, sem olhar para trás.

E, com ele, levou tudo o que restava de sua fé na humanidade.

Por causa daquele momento, algo dentro dele se partiu-ou talvez apenas revelou as rachaduras que sempre estiveram ali. A sensação era familiar, como o eco de sua própria casa, onde seus sentimentos jamais foram levados em consideração. Ele poderia gritar, implorar, desaparecer... e ainda assim, nada mudaria.

Mas o pior? O pior nem era aquilo. O pior vinha antes, vinha sempre. E ele sabia que ainda estava por vir.

A casa estava silenciosa. Mas não era o silêncio acolhedor de um lar em descanso—era um silêncio denso, carregado de julgamento.

Apollo sentiu antes mesmo de cruzar a porta.

E então, lá estava ela.

Sua mãe.

Parada no meio da sala, a expressão dura, os olhos cravados nele.

Ela nunca o esperava. Nunca se preocupava em saber se ele estava bem, se havia tido um dia difícil, se precisava de algo. Mas agora, pela primeira vez, ela estava ali.

Não para abraçá-lo.

Não para acolhê-lo.

Mas para julgar.

O olhar dela queimava. E antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, a mão dela se ergueu.

O tapa veio rápido, seco, feroz.

A cabeça de Apollo pendeu levemente para o lado com o impacto, a ardência se espalhando pelo rosto.

Mas ele não se moveu.

Não piscou.

Não reagiu.

Por dentro, nada. Nenhuma surpresa, nenhuma dor. Apenas um vazio imenso, uma indiferença gelada que o consumia por dentro.

O olhar dele se ergueu, morto, inexpressivo.

Seus irmãos, sentados no sofá, pareciam petrificados. Eles nunca a viram levantar a mão contra ninguém.

Ele ajustou a postura. Encarou-a sem desviar.

E então, veio a sentença.

— Você  se tornou um lixo de ser humano! Estou Decepcionada!

As palavras se cravaram no fundo de sua mente.

Apollo piscou devagar. Sentiu um riso seco ameaçar escapar, mas o conteve.

Descepionada?

Como se um dia ela esperasse algo dele.

Ela nunca o olhava. Nunca perguntava como ele estava. Nunca se importava.

Mas agora, agora que havia algo para condená-lo, agora que podia apontar o dedo e despejar sua frustração, agora ela o via.

— Que tipo de problema você arrumou desta vez?

Sua voz estava carregada de desprezo.

Apollo observou cada detalhe do rosto dela, procurando—talvez contra toda lógica—qualquer traço de hesitação.

Mas não havia nada. Apenas julgamento.

O sorriso veio, pequeno, torto.

— No fim, é isso que você queria, não é? Que eu fosse um lunático.

O segundo tapa veio mais forte.

O terceiro, ainda pior.

O gosto metálico do sangue se espalhou por sua boca, mas ele sequer levou a mão ao rosto para se proteger.

A mãe ergueu a mão novamente, mas dessa vez, foi interrompida.

O padrasto segurou seu braço, sua expressão um espetáculo barato de preocupação.

— Deve haver algum mal-entendido...

Apollo soltou uma risada baixa.

Sem humor.

— Se preocupe com os seus próprios problemas.

Os irmãos, até então calados, se manifestaram.

— É por isso que ninguém confia em você.

A acusação veio, sem hesitação.

— Mesmo quando tentamos te ajudar, você age assim.

Ele riu. Baixo. Sem emoção.

— Você é doente, Apollo. Afirmou a irmã.

Palavras lançadas sem peso para quem as dizia. Mas para quem as recebia...

Outra rachadura se formou dentro dele.

— Por que você fez isso? sabe como o diretor recebeu a nossa mãe?

tudo se partiu, e ele sabia que não conseguiria consertar.

— Apenas... apenas seja como sempre.

Apollo inspirou fundo, absorvendo cada palavra.

Por fim, endireitou-se mais uma vez e respondeu, com a voz arrastada, desprovida de qualquer emoção:

— O garoto exemplar?

O silêncio que se seguiu foi absoluto.

O mesmo silêncio de sempre.

Ele não esperou resposta. Apenas virou as costas e subiu as escadas.

Passo após passo, os ecos preenchiam o corredor vazio.

Assim que entrou no quarto, trancou a porta.

Encostou-se contra a madeira, fechando os olhos por um instante.

E então, sem resistência, sem expressão, sem emoção…

Se jogou na cama.

O teto acima dele parecia distante.

Sua respiração saiu trêmula, mas ele não se permitiu soluçar.

As últimas lágrimas escorreram pelo canto de seus olhos, silenciosas.

Mas ele não as enxugou.

Não fazia mais sentido.

Afinal, aquele era o fim.

As últimas gotas de algo que um dia ele chamou de esperança.

Doze anos.

E ele já não acreditava mais em ninguém.

A chuva caía fina naquela noite, pintando a cidade com tons cinzentos sob a luz trêmula dos postes. Apollo caminhava sem pressa, os passos arrastados, como se cada um deles o conduzisse para longe de tudo. Para longe da dor, da solidão.

A ponte se erguia diante dele, solitária, imponente. O som da água corrente abaixo era um chamado silencioso. Um fim.

Ele subiu na mureta, os dedos frios se fechando ao redor da grade enferrujada. O coração batia devagar, quase entorpecido. Ele queria que aquele momento fosse pacífico, mas nem mesmo isso lhe era concedido.

O som de um choro engasgado cortou o silêncio da noite.

Seu olhar desviou para a rua abaixo. A escuridão escondia a cena, mas ele viu as sombras se movendo, ouviu o barulho abafado de uma luta contida.

Um garoto.

Pequeno demais.

Assustado demais.

Um homem o segurava firme, tentando arrastá-lo para dentro de uma van. Outro sujeito abria a porta, pronto para empurrá-lo lá para dentro.

Antes que pudesse pensar, seus pés já tocavam o chão.

Ele correu.

O vento chicoteava seu rosto, a água encharcando suas roupas, mas nada disso importava.

Não podia deixar isso acontecer.

Não podia ignorar.

Seu ombro chocou-se contra o homem que segurava a criança, fazendo-o cambalear.

— Corre! — ordenou ao garoto, sem nem pensar.

Mas ele não teve tempo de ver se o menino obedeceu.

Uma dor cortante explodiu na lateral do seu rosto quando o segundo homem o atingiu.

Apollo caiu sobre os joelhos, atordoado, o líquido quente se espalhando em sua boca.

— Filho da puta! — um dos sequestradores rosnou.

Mãos ásperas o agarraram pelos braços, puxando-o para cima. Ele se debateu, tentou chutá-los, arranhar, fazer qualquer coisa. Mas um golpe certeiro na nuca fez tudo girar.

A última coisa que viu antes de ser jogado dentro da van foi o pequeno garoto sendo jogado junto com ele.

E então, a porta se fechou com um estrondo.

A van arrancou.

O cheiro de ferrugem, gasolina e umidade invadiu suas narinas.

A dor martelava sua cabeça, e o estômago revirava.

Seus pulsos foram amarrados.

Vozes ríspidas soavam ao seu redor, mas estavam longe demais, distantes como ecos em um túnel.

Ele piscou, tentando clarear a visão turva.

Foi só então que percebeu.

Seu destino havia sido selado.

Naquela noite, ele deveria ter morrido.

Mas, em vez disso…

Foi levado para um novo inferno

⋅•⋅⊰⋅✦⋅⊱⋅•⋅

Continua...

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Comments

♡ la vida en la muerte ♤

♡ la vida en la muerte ♤

Caramba! Meu fôlego sumiu nesse capítulo, coitado do Apollo, só sofre!

2025-03-19

1

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